domingo, 31 de julho de 2016

BRINCADEIRAS DE ANTIGAMENTE


Hoje, 31 de julho, último dia das férias escolares, pus-me a pensar no que eram as férias no meu tempo de menino e o que representam para os meninos de hoje em dia. Nesse mergulho profundo num mar de lembranças, encontrei alguns folguedos que inventava para matar o tempo e divertir-me com os meus companheiros de infância...

UM MUNDO DE NOVIDADES
(FÉRIAS ESCOLARES)

Com o casamento das tias Maria do Socorro e Augediva, minhas férias escolares se revezavam entre o Alferes e o Iguaçu, comunidades rurais do município de Canindé. Nesse tempo, o cantor cearense Messias Holanda havia emplacado um sucesso que tocava dezenas de vezes por dia em todas as emissoras de rádio do Ceará. Nesse tempo as chamadas músicas de duplo sentido ainda eram bem inocentes:

“Vamos lá pra ver, o pagode vai ser bom,
Todo mundo no (NU), casamento da Maria...”

Na minha mente fantasiosa de criança, a música havia sido composta, especialmente para o casamento da minha tia, onde os convidados dançariam todos sem roupas. Quando passei a morar em Maracanaú demorava meses para retornar de férias ao Ouro Preto, por minha avó Alzira não queria me liberar para ir passar uns dias na casa das minhas tias. Mas elas se armavam de toda sorte de argumentos, inclusive um bastante curioso:
— Mamãe, eu vou levar esse menino. Ele está dando muito trabalho. É muito danado, muito impossível, vai passar uns quinze dias lá em casa para lhe dar descanso.
Ora, ora, meus leitores. Que conversa mais furada... Quem é que deseja a companhia de um menino “danado” e “arteiro”? Vovó retrucava:
— Ora mais essa, ah, bom basta! Deixem o bichinho, ele não me dá trabalho nenhum.
Sei que no final das contas acabavam entrando num acordo e nas férias de fim de ano, que duravam, às vezes, mais de dois meses seguidos, eu me revezava entre o Ouro Preto, a Cacimbinha, o Iguaçu e o Alferes, pequena comunidade agregada à Vila Campos. É que seu antigo proprietário, José Eustaquilino de Araújo, possuía essa patente da extinta Guarda Nacional e o lugar aonde residia passou a ser designado desse modo. Certa feita minha tia Maria, que eu chamava Didi, estava escrevendo uma carta para a irmã Augediva, da qual eu seria o portador, quando o Abdísio, seu marido, passou a vista pelo papel onde se lia em letras garrafais: Vila Campos, tanto de tanto de mil novecentos e tanto... Ele não se conteve e protestou, sungando as calças, como de costume:
— Campos não! Alferes. Pode rasgar essa daí e fazer outra. Campos é da Lagoa para lá!
E não sossegou enquanto ela não mudou o cabeçalho da missiva ferrando a patente do seu ancestral na introdução do bilhete.




BUMBA-MEU-BOI: CARETAS E PAPANGUS

“Essa casa está bem feita
Por dentro, por fora não,
Por dentro cravos e rosas
E por fora manjericão.”
(Saudação do Reisado)

A década de 1970 foi um tempo de grandes descobertas para a minha curiosidade infantil. Pela primeira vez eu vi a encenação de um bumba-meu-boi ou reisado, como se diz por ali. O grupo de “caretas” do Iguaçu (distrito de Canindé-CE) e os Bastiões, da Serrinha (Quixeramobim-CE) eram o que havia de melhor na região. Um boi bonito e vistoso, todo coberto de chita colorida, era o centro da trama. E tinha também a Ema, o Babau, a Burrinha e o Jaraguá, esse último feito da queixada de um jumento, que batia os dentes feito uma matraca. A velha dos papangus, que em alguns lugares tem o nome de Catirina, desejava comer a língua do pobre bovino e o marido acabava matando-o, para satisfazer-lhe o desejo. O negócio terminava numa confusão simulada, com direito a glosas, cantigas, “relaxos” e endechas, culminando na ressurreição do boi, que concluía o ato dançando o “Baião Vermêi” e dando chifradas nos meninos mais afoitos. A velha também nos perseguia, com uma enorme bunda postiça por baixo do vestido e um chiqueirador na mão, para amedrontar-nos com mais ênfase.
Antes disso, dera-se um fato curioso. Eu voltava da escola certo dia quando nosso primo José Rodrigues de Sousa, o Zé Miguel, me chamou muito animado e perguntou:
— Arievaldo, você já viu o Papai Noel?
— Vi não, Zé Miguel. Ano passado apareceu um brinquedo debaixo da minha rede e disseram ter sido o Papai Noel quem botou, mas eu desconfio que foi mesmo a vovó ou alguma de minhas tias.
— Que nada, rapaz! Papai Noel existe! Está aqui em casa passando uns dias. Quer ver?
A Marta, minha prima, andava comigo e também ficou curiosa para ver o “bom velhinho”. O Chico Bastião, devidamente combinado com o Zé Miguel, começou a cantar velhas cantigas natalinas invocando o Papai Noel, enquanto o Zé Miguel nos preparava uma surpresa. Entrou apressadamente para o quarto, vestiu uma velha roupa de estopa, botou uma máscara horrenda de papangu e apareceu no alpendre de supetão, trajando essa estranha indumentária e sapateando em nossa direção. Nem é preciso dizer o que se seguiu. Arrancamos em desabalada carreira, botando o coração pela boca, com medo daquela aparição. Entretanto deu-me na veneta voltar discretamente por dentro do mato e verificar a coisa de perto, para contar de certo. Ora, não deu outra. Presenciamos o Zé Miguel às gargalhadas, juntamente com seu cúmplice, despindo a máscara e a estranha indumentária. Criei coragem e voltei para desmascará-lo, dizendo que já sabia de tudo, desde o começo.
— E por que foi que correram?
— Corremos para ver o Papai Noel achando graça!
Eu tinha resposta para tudo, nessas situações. Mas, voltemos aos “caretas” do Iguaçu. Eles diziam que papangus eram os meninos da plateia. Os brincantes eram caretas. No dia seguinte, a criançada empolgada com esse folguedo não falava noutra coisa. Os meninos do Antônio Tobias e outros garotos da localidade entenderam de fazer um reisado mirim. Tiramos vergônteas de mofumbo, para fazer a armação do boi, arranjamos um velho lençol de chita para cobri-lo e a cara do bicho foi pintada num grosso papelão. Faltava agora aprender as cantigas do boi. Foi quando alguém nos deu a ideia de visitar o velho José João, que morava nos arredores. O bom ancião nos atendeu prontamente e repetiu dezenas de quadrinhas até que nós decoramos a maior parte e nos munimos de um estoque de glosas para a encenação do folguedo. Lembro-me perfeitamente dessas duas:

“Eu me chamo Chico Torto
Revesso, quebra-machado,
Cavo cacimba no seco
Depressa dá no molhado.

Só não quero que me mandem
Na rua, comprar fiado,
Que fiado me dá pena
E pena me dá cuidado.”

Outra que jamais saiu da minha lembrança é a cantiga do JARAGUÁ:

Lá vem, lá vem, lá se vem o Jaraguá
O bichinho é bonitinho, ele sabe vadiar.

Venha cá meu Jaraguá (meu Jaraguá)
Para o povo não mangar (meu Jaraguá)
Ai, meia volta Jaraguá (meu Jaraguá)
Quero ver você brincar (meu Jaraguá).

Impossível não lembrar também desses versos da BURRINHA:

A burrinha do meu amo
Come tudo que lhe dão
Só não come carne velha
Sexta-feira da paixão.

Essa quadra, sugestiva e licenciosa, era evitada nos terreiros de família e dita somente em locais onde a brincadeira não corria o risco de sofrer censura:

A burrinha do meu amo
Tem um buraco no cu
Foi um rato que roeu
Pensando que era beiju.

A apresentação do grupo mirim foi no terreiro do Toinho Tobias, cunhado de minha tia Augediva. Sucesso total. Depois fiz uma reprise fora de época com os primos do Ouro Preto, mesmo sujeitos a sermos crismados com a pecha infamante de “Papangu de Quaresma”. Isso sim, é que era infância. Muito melhor que andar apalermado no meio da rua, caçando esses tais de Pokemón, como fazem as crianças de hoje em dia.

Nas férias de julho, motivado pela leitura das revistas do Zorro, do Tex e de Jerônimo, O Herói do Sertão, resolvemos que era tempo de brincar de mocinho e bandido. Eu sempre queria ser o índio e fabricava as minhas armas da seguinte maneira. Por trás da casa da minha tia havia uns postes abandonados com uma antiga fiação de cobre que não tinha mais utilidade. Eu retirava pedaços desse arame e fabricava os arcos que disparavam setas de cipó, sem ponta, para não correr o risco de ferir alguém. Mesmo assim o brinquedo era perigoso e me aconselharam a botar bolões de cera de abelha na ponta das setas para não acontecer de furar o olho de um companheiro. A meninada em peso aderiu. Passamos mais de uma semana nessa brincadeira, até que alguns mais entusiasmados passaram a flechar as galinhas e os adultos começaram a implicar, destruindo ou escondendo o rústico armamento.

Arievaldo Vianna

(De "O livro das crônicas - Volume II de Memórias", ainda inédito)

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sexta-feira, 22 de julho de 2016

UM POETA ANARQUISTA


OS 134 ANOS DE NASCIMENTO DO POETA JOSÉ OITICICA E O HARPAGÃO MODERNO

A campanha abolicionista no Brasil fez brilhar o estro de poetas como Castro Alves e Tobias Barreto, dois nordestinos de espírito libertário que fizeram da sua arte um instrumento de luta contra a escravidão. Após o 13 de maio de 1888, quando a Princesa Isabel promulgou a lei que anistiava os cativos, alguns poetas hoje esquecidos voltaram os seus ataques contra o pior dos opressores, o CAPITALISMO, elegendo o burguês como o mais desprezível dos opressores de homens pobres e supostamente livres. Não é à toa, portanto, que os estatutos da famosa Padaria Espiritual, o movimento literário mais expressivo do Ceará, tenham demonstrado ódio e desprezo pela burguesia.
Um desses poetas libertários que se projetaram após a campanha abolicionista é José Oiticica, nascido na data de hoje (22 de julho de 1882), em Oliveira-MG. Esse poeta foi brilhantemente retratado por Humberto de Campos em seu livro “Carvalhos e Roseiras”, relançado em 2009 pela editora Café & Lápis, de São Luís-MA. Referindo-se ao homem branco vítima desse sistema opressor diz o ilustre escritor maranhense:

“O senhor deste pária já não é, entretanto, o rei, o Estado, a autoridade política; mas o burguês, o capitalista, o Harpagão moderno, o polvo de vinte tentáculos, o soberano incontrastável, em suma, cujo cetro é guardado em silêncio, mas seguramente, em grandes cofres de ferro.”

Ora, nos “bons tempos” de Humberto de Campos e José Oiticica, homens de letras ainda ocupavam cargos de destaque na política. Vide o caso de José de Alencar, que foi ministro de Sua Majestade o Imperador Pedro II, Joaquim Nabuco, Machado de Assis e até mesmo Olavo Bilac e Paula Ney, que ocuparam cargos influentes depois da proclamação da República. Tivemos também o escritor José Américo de Almeida, autor do romance A Bagaceira, como ministro do primeiro governo de Getúlio Vargas. Hoje os representantes da plutocracia não se contentam mais em mandar em surdina, nos bastidores da política e passam a ocupar todas as esferas de poder com uma ganância nunca vista. Os homens de letras, com raríssimas exceções fazem parte de uma escória tratada com inexcedível desprezo pelos que mandam na política atual.

Analisando o soneto A ANARQUIA, um dos poemas mais conhecidos de José Oiticica, diz Humberto de Campos:

“O ideal revolucionário do Sr. José Oiticica é dos mais audaciosos que efervescem no momento. Ele já não se contenta com as modalidades mais arrojadas do socialismo europeu: é anarquista resoluto, firme, extremado, e prega, resolutamente, a anarquia.”


No soneto A Anarquia o então jovem poeta Oiticica expressou suas opiniões sobre esta filosofia política e a perseguição a qual sofriam muitos de seus entusiastas:






Para a anarquia vai a humanidade
Que da anarquia a humanidade vem!
Vide como esse ideal do acordo invade
As classes todas pelo mundo além!

Que importa que a fração dos ricos brade
Vendo que a antiga lei não se mantém?
Hão de ruir as muralhas da Cidade,
Que não há fortalezas contra o bem

Façam da ação dos subversivos crime,'
Persigam, matem, zombem... tudo em vão...
A ideia, perseguida, é mais sublime,

Pois nos rude ataques à opressão,
A cada herói que morra ou desanime
Dezenas de outros bravos surgirão.



SOBRE JOSÉ OITICICA:
Nascimento: 22 de julho de 1882 -Oliveira, Minas Gerais (Brasil)
Morte: 30 de junho de 1957 (74 anos) - Rio de Janeiro (Brasil)

Ocupação: Professor, Filólogo e Escritor

quarta-feira, 20 de julho de 2016

VAQUEIROS


Ilustração de Arievaldo Vianna (baseado em foto de Francisco Estrela)

segunda-feira, 18 de julho de 2016

VAQUEIROS DO SERTÃO CENTRAL GRAVAM PARTICIPAÇÃO EM NOVELA


Gravação de cenas para a novela VELHO CHICO, da Rede Globo de Televisão, com vaqueiros de Canindé e Caridade-CE. Fotos de Arievaldo Vianna, Everton Félix, Francisco Estrela e Jaime Vieira.

Agradecimento especial a todos os vaqueiros que participaram da gravação, à equipe da TV Globo, aos amigos que que contribuíram com a logística da gravação, aos fotógrafos que registraram essas imagens, aos músicos Chico Walter, Hildebrando e Francisco Sobral, à Banda de Música e à Prefeitura de Caridade, nas pessoas de Simone e Júnior Tavares, que deram todo apoio ao evento.

Foto 1: Arievaldo Vianna


Foto: Jaime Vieira


TEXTO DE AGRADECIMENTO ENVIADO PELA PREFEITURA DE CARIDADE

VAQUEIROS DE CARIDADE E CANINDÉ GRAVAM 
PARTICIPAÇÃO ESPECIAL NA NOVELA VELHO CHICO, 
DA REDE GLOBO DE TELEVISÃO

Foi um sucesso a gravação de cenas com vaqueiros dos sertões de Canindé e Caridade para a novela VELHO CHICO, da Rede Globo de Televisão. A Prefeitura de Caridade reiterou o seu apoio à cultura e às tradições populares colaborou com a logística da gravação. (Ressaltamos que todas as despesas, contudo, correram por conta da Emissora de TV). Nossa contribuição foi ajudar a arregimentar os vaqueiros e oferecer todas as condições para uma boa logística. As locações foram realizadas na Fazenda Ideal, na cabeça do santo e na estátua de São Francisco, em Canindé. Os trabalhos foram encerrados com uma belíssima procissão conduzindo a bandeira de Santo Antônio, padroeiro de Caridade.
Simone e Júnior Tavares agradecem a todas as pessoas envolvidas neste processo: em primeiro lugar a todos os vaqueiros que compareceram em seus trajes característicos abrilhantando a gravação. A de produção nas pessoas de Walter José, Leandro e Gustavo Fernandez (TV Globo), ao José Cordulino e Dona Dina, da Associação de Vaqueiros de Canindé, aos vaqueiros de outras associações,fotógrafos, jornalistas, músicos, profissionais das emissoras de Canindé e Caridade; enfim, à todos que se empenharam nesse trabalho. VIVA O SERTÃO! VIVA A CULTURA POPULAR!"

Crédito das imagens: Arievaldo Vianna | Everton Félix | Francisco Estrela | Antônio Carlos e Jaime Vieira.





As fotos acima são de Francisco Estrela.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

FESTA DE GADO NO SERTÃO

Missa do Vaqueiro em Caridade-CE

ABOIOS E VAQUEJADAS NA NOVELA VELHO CHICO

Ontem de manhã postei no facebook uma nota sobre a visita que a produção da novela VELHO CHICO, da Rede Globo de Televisão, fará aos municípios de Caridade e Canindé no próximo final de semana a fim de gravar algumas cenas com os nossos VAQUEIROS. Eu nunca pensei que um SIMPLES AVISO pudesse causar tanto interesse e tantos comentários. Tudo começou quando fui procurado por um amigo de velhas datas, o poeta baiano Marco Haurélio, escritor, folclorista, pesquisador e poeta da chamada Literatura de CORDEL para ajudar a divulgar esta notícia. Marco Haurélio reside atualmente em São Paulo e trabalha como consultor da novela VELHO CHICO.


Vaqueiro - quadro do pintor canindeense Fabiano Chaves

O AVISO dizia mais ou menos o seguinte:

“A produção da novela VELHO CHICO, da Rede Globo de Televisão, faz um convite aos diversos vaqueiros do Sertão Central. O objetivo é reunir cerca de 200 vaqueiros, trajados a rigor na vestimenta tradicional, para gravação de uma pega de boi na caatinga. Não se trata, obviamente, do esporte que hoje é conhecido como "vaquejada" e sim da atividade tradicional do vaqueiro, que vem desde os tempos do Brasil Colônia, o trato entre o vaqueiro e o gado em seu habitat natural. Os participantes deverão usar a indumentária tradicional, que é composta de gibão, chapéu de couro, perneiras e outros artefatos de couro.
Além das cenas com os vaqueiros a produção da novela quer ainda gravar um momento de descontração dos vaqueiros em um forró pé de serra. Os contatos com a produção foram intermediados pelo poeta Marco Haurélio. Apresentamos algumas alternativas de espaço para gravação, dentre as quais a Fazenda Serrote, em Caridade. A produção de Velho Chico deve chegar ao Ceará na próxima sexta-feira, 15/07. As filmagens devem ocorrer no sábado, 16/07.
Vaqueiros de Caridade, Canindé, Paramoti, Itatira, Madalena, Quixeramobim, Quixadá, Boa Viagem, Choró, Morada Nova e municípios adjacentes podem participar.
A novela VELHO CHICO vem promovendo o resgate da legítima cultura popular nordestina. A Prefeitura de Caridade apoiará a iniciativa e convida os vaqueiros da região para abrilhantar esse momento.”



Lançamento do livro O BEABÁ DO SERTÃO NA VOZ DE GONZAGÃO

O BEABÁ DO SERTÃO...

No meu caso específico estou apenas dando uma modesta contribuição no sentido de divulgar e incentivar os valores culturais do nosso sertão. Minha amizade com os vaqueiros de Canindé não é de ontem... Sempre admirei e tentei incentivar o trabalho de Dona Dina, mestra da Cultura, e também de Marçal, Pedro Uchoa, Cosme Paulino, Joãozinho Caruca e tantos outros que mantêm essa tradição viva em nossa região. Quando do lançamento de meu livro O BEABÁ DO SERTÃO NA VOZ DE GONZAGÃO, que fiz em parceria com Arlene Holanda, livro este adotado pelo Ministério da Educação através do PNBE/2012 (Programa Nacional da Biblioteca na Escola), publicado pela Editora ARMAZÉM DA CULTURA, fiz questão de convidar, como sempre tenho feito, nossos artistas populares. Naquela ocasião tive a felicidade de contar com a presença da banda CACIMBA DE ALUÁ, do amigo Dilson Pinheiro, dos repentistas Zé Maria de Fortaleza e Geraldo Amâncio e também um grupo de VAQUEIROS E ABOIADORES de Canindé.


Vaqueiros de Canindé no Centro Cultural DRAGÃO DO MAR


Mesa de lançamento do livro, no Dragão do Mar


A partir de um simples aviso postado no facebook fiquei surpreso com a imensa repercussão que o mesmo atingiu.  Já temos cerca de 700 compartilhamentos e centenas de curtidas! Aproveito para agradecer, de coração, a todos os amigos(as) que espontaneamente compartilharam e divulgaram a informação.  Creio que os vaqueiros autênticos da nossa região (ou seja, aqueles que possuem trajes tradicionais - gibão, perneira, guarda-peito, chinelo e chapéu de couro) foram avisados ou pelo menos ouviram o galo cantar.
Gostaria de esclarecer que eu não tenho nada a ver com o roteiro e muito menos com a escolha dos locais de filmagem, apenas estou transmitindo a informação a pedido de um amigo. A produção da novela chegará na quinta-feira e se encarregará do resto.

De resto, lanço mão do velho dito popular: “PORTADOR NÃO MERECE PANCADA”.

Missa do Vaqueiro, em Caridade-CE

segunda-feira, 11 de julho de 2016

LANÇAMENTO!


UNIVERSAL LANÇA CAIXA COM A OBRA DE JACKSON DO PANDEIRO

Por Mauro Ferreira (blognotasmusicais.com.br)

Sete anos após Luiz Gonzaga (1912 - 1989) ter mostrado em outubro de 1946 como se dançava e fazia o baião, em gravação da música que compôs com o parceiro Humberto Teixeira (1916 - 1979), o cantor, compositor e ritmista paraibano José Gomes Filho (Alagoa Grande - PB, 31 de agosto de 1919 / Brasília - DF, 10 de julho de 1982) convidou a comadre Sebastiana para dançar e xaxar. O convite - feito em 1953 com o lançamento da gravação do então inédito coco Sebastiana (Rosil Cavalcanti) - foi o marco zero da obra fonográfica do artista que, naquela época, já tinha sido rebatizado no rádio como Jackson do Pandeiro. O Jack que foi tão brasileiro, como bem sabe Lenine. Um dos pilares da música da nação nordestina, esse José de Alagoa Grande (PB) - que foi muito mais do que um Zé da Paraíba - tem a parte mais relevante da obra fonográfica eternizada na caixa Jackson do Pandeiro - O rei do ritmo, lançada pela gravadora Universal Music neste mês de junho de 2016. Projeto idealizado por Alice Soares e concretizado com a produção executiva de Rodrigo Faour, autor do texto biográfico publicado no libreto da caixa, O rei do ritmo dá o devido valor à discografia de Jackson. 

Sua majestade O REI DO RITMO

Nada menos do que 235 fonogramas do artista estão condensados - devidamente remasterizados por Ricardo Garcia neste ano de 2016 - nos nove CDs da caixa, sendo que seis CDs são duplos. Estes discos oferecem a melhor amostra possível da arte de Jackson do Pandeiro, entronizado como o rei do ritmo pela habilidade de brincar com os tempos musicais, pela destreza no toque do instrumento acoplado ao nome artístico e pela divisão singular com que repartia cocos, rojões, emboladas, baiões, frevos e sambas. A caixa agrupa fonogramas gravados por Jackson de 1953 - ano em que o artista foi lançado no mercado fonográfico com o disco de 78 rotações por minuto que, além de Sebastiana, apresentou Forró em Limoeiro (Edgar Ferreira, 1953) - até 1981, ano do derradeiro álbum, Isso é que é forró! (Polydor, 1981). A propósito, a caixa embala reedições em CD somente de dois álbuns originais. Além de Isso é que é forró!, há também a reedição de Aqui tô eu, Jackson (Philips, 1970), álbum gravado pelo artista em período em que começava a superar período de ostracismo vivido na segunda metade da década de 1960 (a fase de 1966 a 1969 está coberta pela complementar caixa lançada em 2014 pelo Selo Discobertas). Contudo, o fato de trazer somente dois álbuns originais jamais desmerece o valor da caixa da Universal Music.



sexta-feira, 8 de julho de 2016

PARA REFLETIR - PARTE 2


Caminhão carregado de algodão em Boa Viagem-CE
Década de 1960 - Acervo de Eliel Rafael


Escravos ensacando algodão nas Antilhas Francesas

OPINIÃO DE PEDRO NUNES FILHO

Depois que postamos aqui no blog MALA DE ROMANCES o artigo "Pior que o bicudo é a preguiça", um artigo que se reporta a decadência da cultura algodoeira no Nordeste, e parte do referido texto no facebook, o escritor Pedro Nunes Filho postou o seguinte comentário:

Arievaldo, na minha região, o Cariri paraibano, o regime de meação funcionava assim: O dono da propriedade tomava emprestado com garantia real o dinheiro que iria necessitar para o cultivo do algodão. Semanalmente adiantava ao morador-meeiro o suficiente para ele fazer a feira. Diariamente, o algodão era colhido, pesado e colocado no paiol que pertencia em comum ao proprietário e aos meeiros. No final do ano, o produto era ensacado e vendido. O meeiro recebia sua metade, ou seja 50%. O valor adiantado para as feiras era descontado e tudo dava muito certo. Isso significa que o meeiro tinha uma participação um pouquinho maior que 50%, levando-se em conta que o proprietário pagava juros ao banco do Brasil e não cobrava do meeiro. Esse era um negócio em que o morador tinha uma participação realmente substancial no empreendimento rural. Mais ainda, o milho, o feijão, o jerimum e a melancia que eram plantados dentro do algodão pertenciam em sua totalidade ao meeiro, que era aconselhado a não vender, ficando para consumo da família. O que é melhor, participar dos lucros ou ter carteira assinada com o salário mínimo? Ou não trabalhar em nada e participar dos programas sociais do governo?
Sim, esqueci de dizer que o proprietário entregava a terra pronta para o plantio. A partir daí, todo o trato era de responsabilidade do meeiro. No final da colheita, o morador botava o dinheiro no bolso, comprava roupas boas e calçados para toda a família e ainda lhe sobrava dinheiro que ele guardava para, no futuro, comprar uma terrinha. Os moradores trabalhadores e de confiança eram uma sementeira de futuros proprietários rurais produtores de algodão, o ouro-branco que era exportado para a Inglaterra, que incentivava o plantio do algodão onde quer que houvesse espaço disponível. Essa cultura caiu por terra, não só por conta de bicudo, mas também por causa de mudanças nas leis trabalhistas que alteraram essa relação econômica de produção. Na década de 20, o semiárido nordestino recebeu a visita de Arno Pearse, inglês de Manchester especialista em algodão. Ele escreveu um livro que tenho em minha biblioteca. Entre muitos outros aspectos postos em relevo, ele destaca a alta produtividade e a excelência das fibras do nosso algodão, uma das mais longas do mundo, tudo em razão do clima árido que temos.
O que anda errado na economia rural do semiárido nordestino? Se o clima é o mesmo, o que mudou? O homem? As tecnologias do concorrentes? E a Paraíba que fez modificação genética para produzir algodão colorido, por que essa tecnologia não avança e produz resultados? Por quê?  (PEDRO NUNES FILHO, escritor)

Mais informações sobre o ALGODÃO


Flor e casulo do algodoeiro


O algodão é conhecido do homem desde os tempos mais remotos. A domesticação do algodoeiro ocorreu há mais de 4.000 anos no sul da Arábia e as primeiras referências históricas ao algodão estão no Código de Manu, do século VII a.C., considerado a legislação mais antiga da Índia. Os Incas, no Peru, e outras civilizações antigas, já utilizavam o algodão em 4.500 a.C. Os escritos antigos, de antes da Era Cristã, apontavam que as Índias eram a principal região de cultura e que o Egito, o Sudão e toda a Ásia Menor já utilizavam o algodão como produto de primeira necessidade.
Trata-se de uma planta da família das Malváceas, espécie nativa  das áreas tropicais da África, Ásia e Américas. O algodão é a matéria fibrosa que envolve as sementes do algodoeiro e, embora macia, suas fibras apresentam boa resistência a esforços de tração, o que permitiu sua utilização na confecção de tecidos.
A palavra algodão deriva de Al-Kutum, na língua árabe, porque foram os árabes que, na qualidade de mercadores, difundiram a cultura do algodão pela Europa. Ela gerou os vocábulos cotton, em inglês, coton em francês e cotone, em italiano.
No Brasil, na época da chegada do colonizador europeu, os indígenas já cultivavam o algodão e usavam os fios na confecção de redes e cobertores. Uma pintura do século XVII, feita por um pintor holandês, retrata índios da tribo Kanindé usando plumas de algodão nas orelhas, como ornamento. Informa-nos Joelza Esther Domingues, mestre em história social pela PUC-SP, que esse artista holandês  chamava-se Albert Eckhout (1610-1666). Ele veio ao Brasil, em 1637, na comitiva de Maurício de Nassau. Tinha 27 anos e aqui viveu por quase sete anos. Era pintor, desenhista de tipos e costumes, paisagista e naturalista de excepcional domínio do traço e das cores.


Dança tapuia, quadro do holandês Albert Eckhout

Os nativos usavam também o caroço esmagado e cozido para fazer mingau e com o sumo das folhas curavam feridas. Os primeiros colonos chegados ao Brasil, logo passaram a cultivar e utilizar o algodão nativo. Os jesuítas do padre Anchieta introduziram e desenvolveram a cultura do algodão (confecção de suas roupas e vestir os índios).


Luiz Gonzaga e Zedantas, autores da música ALGODÃO

ALGODÃO – A música de Luiz Gonzaga e Zedantas: Esse baião foi gravado originalmente em 1953 pelo próprio Luiz Gonzaga, no lado B de um disco de 78 rotações RCA-Victor (Disco 801145), que trazia no lado A outro baião  "A letra I"-  da mesma parceria com Zé Dantas. Em 1959 a música foi regravada no LP "Luiz Gonzaga canta seus sucessos com Zé Dantas".

PARA SABER MAIS:

terça-feira, 5 de julho de 2016

Para refletir...


PIOR QUE O BICUDO É A PREGUIÇA

“Corre menina, vai depressa e chame Roque
Diga ele que me traga algodão pro corrimboque.
Traga pouquinho, vai poupando o meu paiol
Só quero que traga um tanto de botar no matricó
Deixa reserva de Zefa fazer pavio
Que também quero outro tanto, pro fuso para fazer fio
Pra Mané fazer cordão pra botar no currupio.”

(CORRUPIO – Genival Lacerda)

No malfadado ano de 1983 aparecia pela primeira vez no Ceará o Bicudo-do-Algodoeiro (anthonomus grandis), um besouro de coloração cinzenta e mandíbulas afiadas que acabou com uma das maiores riquezas do povo Nordestino: o ALGODÃO. A praga se infiltra na maçã e come a pluma antes mesmo de abrir.

Depois de tentar várias alternativas de combate ao inseto, o sertanejo foi aos poucos abandonando a cultura do algodão, que hoje está praticamente extinta em nosso Estado. Ainda alcancei um tempo em que os nossos agricultores viviam praticamente de uma agricultura de subsistência plantando milho, feijão, batata e jerimum. Quem movimentava a economia rural era a safra do algodão. As fazendas produtoras recebiam levas de trabalhadores, os caminhões rodavam abarrotados de sacas do nosso ouro branco. O matuto pagava a bodega, vestia e calçava a filharada e ainda sobrava uns trocados para a farra. No final das contas, todo mundo saia ganhando: o agricultor, o trabalhador empregado na colheita, o dono do caminhão que transportava a safra, o trabalhador urbano que se empregava nas usinas de beneficiamento e o bodegueiro sertanejo que limpava o cabelo recebendo os fiados de sua caderneta.
Visitando o sertão neste último fim de semana, encontrei, às margens da estrada, esse lindo pé de algodoeiro que o BICUDO não descobriu. A plumagem é perfeita e não há o menor indício do inseto. Lembro de ter visto pés de algodão mocó com quase trinta anos na Ladeira Grande, em Maranguape, impregnados de capulhos. Não sei se ainda existem, mas continuavam produzindo em abundância, ante a indiferença dos sertanejos que sequer se dão ao trabalho de colher a pluma para fazer um pavio de lamparina ou um cordão de corrupio.


Vendo o estado cem por cento saudável daquela plantinha solitária, abandonada no meio do mato, eu fiquei imaginando se esse bicho ainda está por aqui. Ainda tem bicudo aqui pelo Ceará? Vivendo de quê? Foi então que me bateu essa ideia... E se o nosso sertanejo voltasse a plantar algodão, com fé, esperança e amor, como diz o velho bendito? Eu acho que muito pior que o BICUDO é a PREGUIÇA generalizada que tomou conta do sertão. O povo hoje só quer saber de tomar cerveja e escutar BUCO-BUCO. Todo poste que a gente avista tem uma faixa anunciando uma banda de forruim. É por isso que eu me lembrei de um velho ditado do meu avô Mané Lima: - Meu filho, creia em Deus que é Santo Velho! A preguiça é a chave da pobreza e mente vazia é a oficina do Diabo.

À guisa de conclusão,  tal e qual Luiz Gonzaga e Zedantas, eu lanço o meu brado de indignação, sem esquecer de acrescentar uma singela pitada de esperança, conclamando o nosso povo a reagir. Não vamos entregar o couro às varas da indolência e da ociosidade... Está na hora de gritar:

 Sertanejo do 'Norte', vamos plantar algodão!!!

Arievaldo Vianna

Jeca Tatu, personagem que simboliza a preguiça do roceiro 
(criação imortal de Monteiro Lobato)

CORRUPIO - com a banda DONA ZEFA
https://www.youtube.com/watch?v=UnyARZDdH3w