terça-feira, 5 de julho de 2016

Para refletir...


PIOR QUE O BICUDO É A PREGUIÇA

“Corre menina, vai depressa e chame Roque
Diga ele que me traga algodão pro corrimboque.
Traga pouquinho, vai poupando o meu paiol
Só quero que traga um tanto de botar no matricó
Deixa reserva de Zefa fazer pavio
Que também quero outro tanto, pro fuso para fazer fio
Pra Mané fazer cordão pra botar no currupio.”

(CORRUPIO – Genival Lacerda)

No malfadado ano de 1983 aparecia pela primeira vez no Ceará o Bicudo-do-Algodoeiro (anthonomus grandis), um besouro de coloração cinzenta e mandíbulas afiadas que acabou com uma das maiores riquezas do povo Nordestino: o ALGODÃO. A praga se infiltra na maçã e come a pluma antes mesmo de abrir.

Depois de tentar várias alternativas de combate ao inseto, o sertanejo foi aos poucos abandonando a cultura do algodão, que hoje está praticamente extinta em nosso Estado. Ainda alcancei um tempo em que os nossos agricultores viviam praticamente de uma agricultura de subsistência plantando milho, feijão, batata e jerimum. Quem movimentava a economia rural era a safra do algodão. As fazendas produtoras recebiam levas de trabalhadores, os caminhões rodavam abarrotados de sacas do nosso ouro branco. O matuto pagava a bodega, vestia e calçava a filharada e ainda sobrava uns trocados para a farra. No final das contas, todo mundo saia ganhando: o agricultor, o trabalhador empregado na colheita, o dono do caminhão que transportava a safra, o trabalhador urbano que se empregava nas usinas de beneficiamento e o bodegueiro sertanejo que limpava o cabelo recebendo os fiados de sua caderneta.
Visitando o sertão neste último fim de semana, encontrei, às margens da estrada, esse lindo pé de algodoeiro que o BICUDO não descobriu. A plumagem é perfeita e não há o menor indício do inseto. Lembro de ter visto pés de algodão mocó com quase trinta anos na Ladeira Grande, em Maranguape, impregnados de capulhos. Não sei se ainda existem, mas continuavam produzindo em abundância, ante a indiferença dos sertanejos que sequer se dão ao trabalho de colher a pluma para fazer um pavio de lamparina ou um cordão de corrupio.


Vendo o estado cem por cento saudável daquela plantinha solitária, abandonada no meio do mato, eu fiquei imaginando se esse bicho ainda está por aqui. Ainda tem bicudo aqui pelo Ceará? Vivendo de quê? Foi então que me bateu essa ideia... E se o nosso sertanejo voltasse a plantar algodão, com fé, esperança e amor, como diz o velho bendito? Eu acho que muito pior que o BICUDO é a PREGUIÇA generalizada que tomou conta do sertão. O povo hoje só quer saber de tomar cerveja e escutar BUCO-BUCO. Todo poste que a gente avista tem uma faixa anunciando uma banda de forruim. É por isso que eu me lembrei de um velho ditado do meu avô Mané Lima: - Meu filho, creia em Deus que é Santo Velho! A preguiça é a chave da pobreza e mente vazia é a oficina do Diabo.

À guisa de conclusão,  tal e qual Luiz Gonzaga e Zedantas, eu lanço o meu brado de indignação, sem esquecer de acrescentar uma singela pitada de esperança, conclamando o nosso povo a reagir. Não vamos entregar o couro às varas da indolência e da ociosidade... Está na hora de gritar:

 Sertanejo do 'Norte', vamos plantar algodão!!!

Arievaldo Vianna

Jeca Tatu, personagem que simboliza a preguiça do roceiro 
(criação imortal de Monteiro Lobato)

CORRUPIO - com a banda DONA ZEFA
https://www.youtube.com/watch?v=UnyARZDdH3w