terça-feira, 28 de junho de 2016

Quem a paca cara compra...

Capa do cordel PELEJA DE CEGO ADERALDO 
COM ZÉ PRETINHO DO TUCUM

ADERALDO, O MAIOR CANTADOR DE TODOS OS TEMPOS

Por Alberto Porfírio


No dia 30 de junho de 1967, o dia amanheceu nas ruas de Fortaleza com os jornais trazendo a seguinte manchete:

“MORREU O CEGO ADERALDO, O MAIOR CANTADOR DE TODOS OS TEMPOS”

Essa homenagem que tanto enaltece aquele poeta, causou celeuma nas reuniões de cantadores de todo o Nordeste brasileiro.

Eram poucos os profissionais da viola que não se mostraram contrários ao que, naquele dia, publicaram os jornais do Ceará em relação ao famoso cego cantador desaparecido. Eles achavam que isso não estava certo. Que o Cego Aderaldo não era merecedor daquela homenagem, quando existiam um Severino Pinto e outros, como os irmãos Batista Patriota e muitos que, como o Aderaldo, já haviam desaparecido e eram, também, estrelas de primeira grandeza.

Eu, por minha parte, não sei se com isso o povo do Ceará fez ou não justiça para com o célebre menestrel cearense.

Também quando foi morto em Sergipe, em 1938, o famigerado bandoleiro Virgulino Ferreira, semelhante manchete inundou toda a imprensa brasileira. O título de maior cangaceiro de todos os tempos, não queria dizer que o Lampião fosse invulnerável. E que nunca se tenha amofinado e corrido para se defender dos ataques e tiroteios de policiais de vários estados que o perseguiam.
O Cego Aderaldo eu conheci. E muito de perto. Tenho a honra de dizer que o acompanhei nos anos de seu apogeu como cantador e poeta.

(...)

Em 1933, quando vinha da romaria que fazia anualmente a Canindé, em Itapiúna, na Pensão da Quixabeira, encontrou-se com Ignácio Leite, cantador potiguar que o esperava. O próprio Aderaldo depois nos relatou:

“Encontrei um peso!... Vi-me em dificuldades ante aquele adversário que me esperava prevenido. Mas - dizia ele – falo sem exagero. Contei com oitenta por cento das palmas (aplausos) e saí como vencedor, quando eu não era melhor cantador do que ele!... Por que isso?”

E continuava:

“Geralmente o bom repentista é somente isso. E, sem que tenha boa voz e saiba fazer a entonação no instrumento que toca, o cantador nunca poderá agradar convenientemente ao seu público ouvinte.”

O cego tinha razão em seu argumento. Conhecemos grandes repentistas que não sabem tocar. E que usam o instrumento apenas para lhe estimular a verve poética. E dá-se que, em meio a calorosos debates, humilham-se diante do seu opositor pedindo-lhe para que a afine a viola.

O Cego Aderaldo quando moço, tinha uma voz forte e agradável e ainda tocava, regularmente, todos os instrumentos mais comuns em sua época. Aliás, a mais de duas dúzias de filhos adotivos ele ensinou a tocar desde o violino, instrumento em que se iniciara, passando por todos os instrumentos de cordas, até o clarinete, instrumento de sopro.
O gramofone com o seu disco, assim como o cinema, embora mudo, ele apresentava aos matutos. Sem falar da Literatura de Cordel, que era também vendida por ele aos sertanejos cooperando no aprendizado da leitura. Assim era o Aderaldo, uma espécie de missionário, pelo que lhe são merecidas todas as homenagens.

(...)

Leonardo Mota, Jacó Passarinho e Cego Aderaldo



 É, por exemplo, do cantador João Firmino, também cego, o seguinte martelo que conseguimos colher em Brasília, junto a amigos e conterrâneos que assistiram ao enterro do Cego Aderaldo no Cemitério São João Batista (no dia 30 de junho de 1967):

“Foi a forte aroeira que ruiu
A contato do gume do machado.
Foi o ferro melhor já fabricado
Que o mercado do mundo jamais viu;
Foi  o trem, sem destino, que partiu,
E ao longo da estrada deu o prego;
Como Homero, também, ele era cego
A quem todo o seu povo admirava...
Para ser o próprio Homero só faltava
Ao invés de cearense ser um grego!”

O cineasta Rosemberg Cariry fez documentário sobre a vida do Cego 
Aderaldo e entrevistou o mestre Ariano Suassuna.


O Cego Aderaldo foi um ‘assum preto’. O destino lhe furara os olhos para ouvi-lo cantar melhor e deleitar, por alguns tempos, os moradores desse Nordeste moído que se alimenta de cantos, sonhos e esperanças!

(...)


 In Alberto Porfírio -  “Poetas Populares e Cantadores do Ceará”, editora Horizonte, Brasília, 1978.



TRECHOS DA FAMOSA 

PELEJA DE CEGO ADERALDO 

COM ZÉ PRETINHO DO TUCUM, 

FOLHETO ATRIBUÍDO A FIRMINO TEIXEIRA DO AMARAL


Capa da peleja em quadrinhos



(...)


Afinemos o instrumento,
Entremos na discussão!
O meu guia disse a mim:
- O negro parece o Cão!
Tenha cuidado com ele,
Quando entrarem em questão!

Então eu disse: - Seu Zé,
Sei que o senhor tem ciência 
Me parece que é dotado
Da Divina Providência!
Vamos saudar este povo,
Com sua justa excelência!

PRETINHO:  Sai daí, cego amarelo,
Cor de couro de toucinho!
Um cego da tua marca
Chama-se abusa-vizinho 
Aonde eu botar os pés,
Cego não bota o focinho!

CEGO:  Já vi que seu Zé Pretinho
É um homem sem ação 
Como se maltrata o outro,
Sem haver alteração?!...
Eu pensava que o senhor
Tinha outra educação!

P -  Esse cego bruto, hoje,
Apanha que fica roxo!
Cara de pão de cruzado,
Testa de carneiro mocho 
Cego, tu és o bichinho,
Que comendo vira o cocho!

C -  Seu José, o seu cantar,
Merece ricos fulgores;
Merece ganhar na sala
Rosas e trovas de amores 
Mais tarde, as moças lhe dão
Bonitas palmas de flores!

P -  Cego, eu creio que tu és
Da raça do sapo-sunga!
Cego não adora a Deus 
O deus do cego é calunga!
Aonde os homens conversam,
O cego chega e resmunga!

C -  Zé Preto, não me aborreço
Com teu cantar tão ruim!
Um homem que canta sério
Não trabalha verso assim 
Tirando as faltas que tem,
Botando em cima de mim!

P  - Cala-te, cego ruim,
Cego aqui não faz figura!
Cego quando abre a boca,
É uma mentira pura 
O cego quanto mais mente,
Ainda mais sustenta e jura!

C  - Esse negro foi escravo,
Por isso é tão positivo!
Quer ser, na sala de branco,
Exagerado e altivo 
Negro da canela seca
Todo ele foi cativo!

P -  Eu te dou uma surra
De cipó de urtiga,
Te furo a barriga,
Mais tarde tu urra,
Hoje, o cego esturra,
Pedindo socorro 
Sai dizendo: Eu morro!
Meu Deus, que fadiga,
Por uma intriga
Eu de medo corro!

C  - Se eu der um tapa
Num negro de fama,
Ele come lama,
Dizendo que é papa!
Eu rompo-lhe o mapa,
Lhe rompo de espora;
O nego hoje chora,
Com febre e com íngua
Eu deixo-lhe a língua
Com um palmo de fora!

P  - No sertão, peguei
Cego malcriado 
Danei-lhe o machado,
Caiu, eu sangrei,
O couro eu tirei
Em regra de escala:
Espichei na sala,
Puxei para um beco,
E, depois dele seco,
Fiz mais de uma mala!

C  - Negro, és monturo,
Molambo rasgado,
Cachimbo apagado,
Recanto de muro,
Negro sem futuro,
Perna de tição,
Boca de porão,
Beiço de gamela
Venta de moela,
Moleque ladrão!

P - Vejo a coisa ruim 
O cego está danado!
Cante moderado,
Que não quero assim,
Olhe para mim,
Que sou verdadeiro,
Sou bom companheiro,
Canto sem maldade
E quero a metade,
Cego, do dinheiro!

C - Nem que o negro seque
A engolideira,
Peça a noite linteira
Que eu não lhe abeque 
Mas esse moleque
Hoje dá pinote!
Boca de bispote,
Vento de boeiro,
Tu queres dinheiro?
Eu te dou chicote!

P - Cante mais moderno,
Perfeito e bonito,
Como tenho escrito
Cá no meu caderno!
Sou seu subalterno,
Embora estranho 
Creio que apanho
E não dou um caldo...
Lhe peço, Aderaldo,
Que reparta o ganho!

C - Negro é raiz
Que apodreceu,
Casco de judeu!
Moleque infeliz,
Vai pra teu país,
Se não eu te surro,
Te dou até de murro,
Te tiro o regalo 
Cara de cavalo,
Cabeça de burro!

P - Fale de outro jeito,
Com melhor agrado 
Seja delicado,
Cante mais perfeito!
Olhe, eu não aceito
Tanto desespero!
Cantemos maneiro,
Com verso capaz 
Façamos a paz
E parto o dinheiro!

C - Negro careteiro,
Eu te rasgo a giba,
Cara de guariba,
Pajé feiticeiro!
Queres o dinheiro,
Barriga de angu?
Barba de quandu,
Camisa de saia,
Te deixo na praia,
Escovando urubu!

P -  Eu vou mudar de toada,
Pra uma que mete medo 
Nunca encontrei cantador
Que desmanchasse esse enredo:
É um dedo, é um dado, é um dia,
É um dia, é um dado, é um dedo!

C  - Zé Preto, esse teu enredo
Te serve de zombaria!
Tu hoje cegas de raiva
E o diabo será teu guia 
É um dia, é um dado, é um dedo,
É um dedo, é um dado, é um dia!

P - Cego, respondeste bem, 
Como quem fosse estudado!
Eu também, da minha parte,
Canto versos aprumado 
É um dado, é um dia, é um dedo,
É um dedo, é um dia, é um dado!

C  - Vamos lá, seu Zé Pretinho,
Porque eu já perdi o medo:
Sou bravo como um leão,
Sou forte como um penedo 
É um dedo, é um dado, é um dia,
É um dia, é um dado, é um dedo!

P - Cego, agora puxa uma
Das tuas belas toadas,
Para ver se essas moças
Dão algumas gargalhadas 
Quase todo povo ri,
Só as moças estão caladas!

C - Amigo José Pretinho,
Eu nem sei o que será
De você depois da luta 
Você vencido já está!
Quem a paca cara compra
Paca cara pagará!

P -  Cego, eu estou apertado,
Que só um pinto no ovo!
Estás cantando aprumado
Satisfazendo esse povo 
Mas esse tema da paca,
Por favor, diga de novo!

C - Disse uma vez,  digo dez 
No cantar não tenho pompa!
Presentemente não acho
Quem o meu mapa aqui rompa 
Paca cara pagará,
Quem a paca cara compra!

P  - Cego o teu peito é de aço 
Foi bom ferreiro que fez,
Pensei que o Cego não tinha
No verso tal rapidez!
Cego, se não for maçada,
Repita a paca outra vez!

C  - Arre! Com tanta maçada,
Deste preto capivara!
Não há quem cuspa pra cima,
Que não lhe caia na cara 
Quem a paca cara compra,
Pagará a paca cara!

P  - Demore, Cego Aderaldo,
Cantarei a paca já 
Tema assim só um borrego
No bico de um carcará!
Quem a caca cara compra
Ca-ca... cara cacará!

Houve um trovão de risadas
Pelo verso do Pretinho.
Capitão Duda lhe disse:
- Arreda pra lá, negrinho!
Vai descansar teu juízo,
Que o Cego canta sozinho!

Ficou vaiado o Pretinho,
E eu lhe disse: - Meu ouça,
José, quem canta comigo
Pega devagar na louça!
Agora o amigo entregue,
O anel de cada moça!

(...)