terça-feira, 25 de julho de 2017

PARÁBOLAS MIRABOLANTES - III


Lucas Evangelista, foto de Raymundo Cândido (Ribeira do Poti)

TERCEIRO DEBATE DE FREI MANÉ MAGO COM OS COXINHAS E SEU ENCONTRO COM O POETA K. LUNGUINHA DA CALAMBANHA

(Escrito e cantado por Frei João Lucas Evangelista)


Ser Coxinha é muito bom
Ser um PATO é muito mais;
Quem nos fez pagar o PATO
Não pode viver em paz...

Faz vergonha até contar
O que foi que aconteceu
Coxinha fez a burrada
Quem paga o PATO sou eu
Age como um fariseu
Cheio de hipocrisia
Bem que vovó já dizia:
- CALA A BOCA, ZEBEDEU!



Ver, ouvir e calar, nos diz o velho provérbio oriental, mas há coisas que não podem ser esquecidas, mas registradas, para proveito e exemplo das gerações vindouras. 
Aconteceu que Frei Mané Mago de Jurema, havendo deixado a povoação de Cafarna I rumo a Cafarna II, passou pela taberna de seu amigo Natanael e não vendo ninguém no balcão para atendê-lo reclamou:
- Homem de pôr café... Mulheres de pôr café! Ponham café na minha xícara, por favor.
Natanael aproximou-se e saudou Frei Mané Mago, que andava na companhia de Frei Cancão de Fogo do Amor Divino e de Frei Pedro Malazartes de Bozanno. Quando já se preparavam para seguir jornada, eis que chega uma turba de escribas, coxinhas e fariseus para importuná-lo com uma saraivada de perguntas bestas. Todos se dizendo paladinos da ética e da moral e legítimos defensores do combate à corrupção.


Montagem a partir de charge de Vitor T.

Ora, todos sabem que, na prática, não é bem assim que as coisas funcionam. Mesmo nos fazendo pagar o pato por um alto preço e desiludidos com o seu mestre D. Abominável das Neves, continuam teimosos e renitentes, procurando o cisco no olho dos outros e esquecendo completamente da trave que estorva a sua própria retina. Espalhar boatos de toda sorte tem sido a sua mais “sublime” missão, embora se auto proclamem os mais zelosos defensores da ética.

Um deles adiantou-se, fitou o Frei Mané Mago dos pés a cabeça e lhe disse, de modo capcioso e insolente:

- Mestre, o que o Senhor tem a nos dizer sobre a Ferrari de Ouro do Lulinha?

Percebendo o tom irônico e malicioso daquela pergunta, Frei Mané Mago, fingindo não ouvi-lo, continuou a tomar a sua xícara de café, ao mesmo tempo em que pedia um cálice da  branquinha para retemperar as forças e acender as lamparinas do juízo.
O fariseu não se conteve e repetiu a pergunta:

- E então, mestre? Será mesmo do Lulinha a tal Ferrari de Ouro?


O mestre o repreendeu deste modo... Ao terminar de ingerir a sua xícara de café e o pedaço de pão que lhe fora oferecido, tomou o cálice em suas mãos e repetiu as palavras do sábio filósofo mexicano Frederico Bardón de la Regueira, mais conhecido como Kiko:

­- Oh, cálice... Cale-se, cale-se! Você me deixa loooouuucooooo! Em vez de preocupar-vos com a Ferrari de Ouro do Lulinha, preocupai-vos com as FERRADURAS que ornamentam os vossos cascos. Preocupai-vos com o ferro dos grilhões que vos oprimem! Em verdade vos digo: Além de ser dono da FRIBOI, Lulinha é também dono da tal Ferrari de Ouro, da corsa dos chifres de bronze (de que nos fala a mitologia grega), da Galinha dos Ovos de Ouro da fábula de Esopo, do Minotauro, do Pégaso, do Dragão de São Jorge e do trenó do Papai Noel... 


E, por fim, concluiu deste modo:
- Que diferença fará para ti, pobre criatura, saber a quem pertence a tal Ferrari de Ouro ou a carruagem de fogo que arrebatou o profeta Elias para os céus, às margens do Rio Jordão? Achas tu, que como Eliseu, és digno de receberes o manto sagrado do Profeta?




Frei Mané Mago, de modo sereno e impassível, já empunhava o seu cajado para prosseguir viagem, quando chegou à taberna o famoso menestrel K. Lunguinha, da Vila da Calambanha, cantarolando esta canção que nos lembra os bons tempos do finado Noel Rosa, seu ilustre antepassado:

Quando eu morrer
Não quero choro e nem vela
Quero um PATINHO AMARELO
Gravado com o nome “OTÁRIO”
Os “enemigos”
Os que falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram
Uma pessoa tão bruta assim...

Quando eu morrer
Não quero choro e nem vela
Quero um PATINHO AMARELO
Gravado com o nome “OTÁRIO”
Se existe alma
Se há outra encarnação
Eu queria que os PATINHOS
Reencarnassem num “Gangão”.


* * *




sexta-feira, 21 de julho de 2017

NO PAÍS DAS RATAZANAS




Da cacimba de Chico Pedrosa...

O poeta Chico Pedrosa deu três gatos de presente a um bodegueiro que vivia perseguido por uma súcia de ratos tão ávidos e infames, que só perdiam em safadeza e cupidez para aqueles do Congresso Federal. Passados uns cinco ou seis dias, Pedrosa foi à bodega do amigo e perguntou: - TIMÓTEO, CADÊ OS GATOS???

Resposta do Bodegueiro:

(TIMÓTEO, CADÊ OS GATOS?)
Botei na mercearia
Comeram a mercadoria
E nem ligaram pros ratos
Cagaram dentro duns pratos
De loiça, que mamãe fez,
Morderam o pé de um freguês
Que só comprava a dinheiro
Dei três conto a um maloqueiro

Pra dar sumiço nos três.

Os de Brasília fizeram pior... Cagaram na boca dos patos que batiam panelas.  Como dizia o saudoso Chico Anysio: - Vai comendo, Raimundão!



Em 1985 o "finado" LOBÃO já perguntava: "Quem é que vai pagar por isso???" (na música REVANCHE) Estranho que ele continue do lado dos PATOS. Coitado, fumou bosta de jumento pensando que era maconha...

Naquela era passada
Do Rock Tupiniquim
O LOBÃO cantava assim
Fingindo ser da pesada
“Eu não quero pagar nada”
Numa REVANCHE medonha
Hoje em dia, que vergonha,
É pato rouco, eu lamento
Fumou bosta de jumento
Pensando que era maconha.



Mané Mago de Jurema

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O AMIGO DA ONÇA


O Amigo da Onça é um personagem de cartoons e histórias em quadrinhos criado por Péricles de Andrade Maranhão (14 de agosto de 1924 - 31 de dezembro de 1961) e publicado em um cartoon pela primeira vez na revista O Cruzeiro em 23 de outubro de 1943.

Satírico, irônico e crítico, o Amigo da Onça aparece em diversas ocasiões desmascarando seus interlocutores ou colocando-os nas mais embaraçosas situações.


Em 1989, foi publicado na revista Semanário com roteiros de Jal e arte de Octavio Cariello.

(Fonte: Wikipedia - A Enciclopédia Livre)

terça-feira, 18 de julho de 2017

NO TEMPO DA LAMPARINA




MOTE E GLOSA NO SERTÃO

O saudoso CORONÉ LUDUGERO, personagem vivido no rádio, no disco e na TV pelo saudoso humorista pernambucano Luiz Jacinto, com textos formidáveis de Luiz Queiroga e a participação de Dona Felomena (Mercedes del Prado) e Otrope (Irandir Costa), continua sendo uma das gratas recordações que tenho de minha infância. Eu ouvia os causos e as cantigas do Ludugero nas ondas amigas da Rádio Difusora Cristal de Quixeramobim ou pela Rádio Tupinambá de Sobral. De vez em quanto Ludugero se metia a CANTADOR DE VIOLA. Quem dava os motes, geralmente, era a sua esposa, dona Felomena. Um desses motes ficou retido em minha lembrança: NO BEM DA MULHER AMADA / ESTÁ O BEM DA CRIAÇÃO.


Luar do Sertão / Sabonete-Madalena-CE

Mas a vida reproduz a arte. A minha esposa Juliana Silva, que também admira profundamente a poética popular nordestina, me apresentou um mote depois de ver uma foto de uma lamparina que fizemos no último domingo, em nosso recanto do Sabonete, município de Madalena-CE. Eis o mote da companheira: “NO FOGO DA LAMPARINA / ACENDI MINHAS LEMBRANÇAS”. Seguem as glosas:

Trilhei as velhas estradas
Do meu Sertão benfazejo
No clarão vi um lampejo
Igual aos contos de fadas
Nessas trilhas palmilhadas
Resgatei as esperanças
Encontrei outras crianças
Nessa chama cristalina
No fogo da lamparina
Acendi minhas lembranças.

Revi nas chamas brilhantes
As fumaças do passado
O meu desejo focado
Em livros interessantes
Li os cordéis mais vibrantes
Dos Pares vi as andanças
E também subi nas tranças
De uma bela menina
No fogo da lamparina
Acendi minhas lembranças.

Eu vi o Cancão de Fogo
Resgatando o mesmo tema
Mané Mago de Jurema
Também estava no jogo
Até mesmo ave com gogo
Retempera as temperanças
E renova as alianças
Do jeito que a Bíblia ensina
No fogo da lamparina
Reacendi as lembranças.

Mote de Juliana Araújo Silva
Fotos / Glosas: Arievaldo Vianna


Compadre Policarpo, apreciando a luz da lamparina.


Juliana Araújo Silva, autora do mote


CORONÉ LUDUGERO - MISTURA DE VIOLA
Link: https://www.youtube.com/watch?v=c5YrvOWlnCk






quinta-feira, 13 de julho de 2017

PARÁBOLAS MIRABOLANTES - Capítulo II


Romeiro da Cruz, estátua de São Francisco, Cancão-de-Fogo e Frei Mané Mago de Jurema

O ENCONTRO DE FREI MANÉ MAGO 
COM O ROMEIRO DA CRUZ

Dos manuscritos de Frei Cancão-de-Fogo
(Encontrados nas cavernas da Fonte das Coronhas)



Naquele tempo, quando Herodes Trump governava o Reino do Norte e a múmia do Faraó Michel Ramsés I tomara de assalto o Reino do Sul, aconteceram os fatos que passamos a narrar.

Isso se deu depois da aprovação da Reforma Escravocrata, da condenação de Lula ao calvário, da libertação de Rocha Luri-Luri, Branca de Neves e Geddelias Vieira. Justamente na semana em que a Múmia se safou na Câmara dos Deputados e sancionou a Reforma Trabalhista (leia-se destruição da CLT). Aconteceu que Frei Mané Mago de Jurema e seus discípulos peregrinavam pela Palestina, bairro vetusto de Canindé-CE, quando se arrancharam numa pousada para romeiros e começaram a comentar os últimos acontecimentos.

Alguns “inleitô” daquele bairro, atraídos pela sua fama de notável pregador, que já corria meio mundo e se estendia de Madalena a Caucaia, aproximaram-se dele e perguntaram:

- Senhor, em 2018 devemos reeleger esse Congresso justiceiro, que cassou a nossa presidente em nome da moral, da família, da decência, dos bons costumes e da Mãe do Calor de Figo?

Ao que Frei Mané Mago respondeu:

- Sim, deveis. Dai a César ao que é de César... Vocês que furam fila, que subornam guardas rodoviários, que fazem “gato” de energia, que batem na mulher, que falam mal do vizinho, que pedem benefícios a todo candidato que passa em vossa porta, não deveis de uma hora para outra mudar de opinião. Em 2018 reelejam a todos. Todos eles, sobretudo os que distribuem sorrisos, abraçam crianças catarrentas, entram nas cozinhas mais humildes e tomam café em xícaras estaqueadas.

Os devotos se entreolharam meio incrédulos, porém Frei Mané Mago retrucou, de modo mais enfático:

- Sim, meus amados, reelejam. Eles receberam muita grana do Faraó e podem comprar milheiros de tijolos, dentaduras, carradas de areia, pagar contas de água e luz atrasadas, ajeitar aquela cirurgia de catarata, arranjar um transporte para alguma mudança, e até mesmo lhes presentear com uma geladeira, um tablet, dois pneus para a moto ou um aparelho para os dentes... REELEJAM OS HOMI. Não é assim que vocês gostam???


Montagem muito divulgada no tempo das Olimpíadas e período da panelagem

Um dos discípulos, Frei Cancão de Fogo, ria a bandeiras despregadas, enquanto Frei Papacu de Maisena, um simplório, questionava:

- Mestre, o que houve com o gigante? Dormiu outra vez em berço esplêndido?

- Sim, meu ingênuo discípulo. Deitou-se numa rede “tijubana” recém adquirida em Jaguaruana e não quer nem saber se o coco é oco. Aliás, meu amado, de que adianta acordar o gigante? O gigante acordou, fez meia dúzia de burradas, bateu panelas, inventou uma dança meio abaitolada, sem o menor senso do ridículo e depois deitou-se novamente. Deitou-se nos braços de Morfeu e pegou num sono tão profundo, mas tão profundo, que quem o vê, julga que está morto!

Um romeiro milionário que desembarcara de uma prateada Hi-Lux, aproximou-se da estátua de São Francisco, para amarrar cinco dúzias de fitas no gradil. Ao chegar viu aquele ajuntamento, presenciou parte da conversa e disse com visível euforia:

- Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça! (Muito embora ele próprio tivesse apenas sede de poder) Felizmente temos um grande justiceiro no Brasil, um paladino impoluto que irá acabar de vez com a corrupção! Fora Lula, fora Dilma, fora PT. O braço da Justiça é mais pesado. Aliás, os três poderes unidos, são mais pesados que um tríplex! JUSTIÇA para os corruptos!

Um romeiro maltrapilho, recém-chegado dos cafundós do Piauí, envolto num surrado hábito franciscano e com um enorme chapéu sobre a cabeça, adiantou-se e pediu a palavra.

Todos os presentes fixaram os olhos naquele caminheiro de feições magras e tostadas de sol, e de repente fez-se silêncio. Então o Romeiro da Cruz benzeu-se e disse:

- Vós que falais de Justiça, que clamais por justiça, que bateis panela por justiça, que arengais nas redes sociais por justiça, sabeis o que é JUSTIÇA? Justiça, só a de Deus... Pelo que sei, aquele senador mineiro falou em matar um parente, recebeu várias malas de dinheiro e retornou livremente ao seu mandato, como se não tivesse acontecido. Há provas concretas, gravações. MAS ESTÁ SOLTO e no SENADO.

Frei Mané Mago de Jurema, comovido com a sabedoria daquele homem simples, um velho peregrino acostumado a palmilhar o chão sagrado do Nordeste, andarilho como ele, completou:

ROCHA LURI-LURI recebeu uma mala de dinheiro para o TEMER, correu com ela para cima e para baixo, e está SOLTO. Boi solto se lambe todo, reza um dito popular. A JUSTIÇA FOI FEITA? GEDDEL VIEIRA enriqueceu espantosamente às custas de roubalheira e está solto. São tantos os exemplos, que perderíamos tardes e noites a comentar.

O velho Romeiro da Cruz não se conteve e gritou:

- Que beleza de JUSTIÇA. Justiça só a Deus, meus amigos, o bom juiz que não erra.
E eu, que a tudo assistira e nada falara, concluí com meus botões... Como dizia o personagem de José Wilker: - É JUSTO, É MUITO JUSTO, É JUSTÍSSIMO!!!

Neste exato momento passou um carro de som, um paredão de buco-buco, anunciando uma festa para logo mais: - Alô, Alô Nação Paneleira! Tá dominado, tá tudo dominado!


Frei Mané Mago recolheu-se aos seus aposentos resmungando:

- As pessoas de bem estão tão acovardadas, tão submissas, que se eu fosse o Lula faria tal e qual o Belchior. Tomaria um chá de sumiço para nunca mais voltar.


Disse isso e bateu a porta do quarto. Fechou-se em copas.


Gigante adormecido, charge de Amarildo


quinta-feira, 6 de julho de 2017

PASSARIM DO ASSARÉ


XILOGRAVURA: Arievaldo Vianna (Direitos Reservados)


15 ANOS DA PARTIDA DE PATATIVA

Quinze anos após a morte, vitimado por pneumonia, Patativa do Assaré continua sendo referência e presença constante entre os artistas cearenses. Em entrevista ao O POVO, o pesquisador Tadeu Feitosa reflete sobre o legado do poeta popular. Para ele, Patativa permanece em evidência porque é “fruição artística, porque a cada leitura se revelam mais e mais semioses”.
O POVO - Por que Patativa consegue ainda ser tão presente? Tadeu Feitosa - Eu que nunca gostei de classificar nem o Patativa e nem a sua obra, nunca deixei de ter em mente que ele era – mesmo em vida – insubstituível. As caretices científicas e metodológicas que me impediam de chamá-lo de gênio no corpo de uma tese de doutoramento nunca me impediram de dizer isso nas minhas conversas e palestras sobre ele. Ele é presente porque sua obra é atual, tem a dureza de uma realidade dita sem rodeios – ainda que a sua arte também tenha lhe permitido edenizar o sertão que ele também cantou tão duro, tão árido, tão real. Os ritos de calendário sobre Patativa só se repetem na contagem sequenciada dos anos que o distanciam fisicamente de nós. Esses ritos são incapazes de delinear fronteiras para sua obra. Muito menos fronteiras temporais que a distanciem do valor poético e estético de sua obra. Ele permanece porque sua voz ainda ecoa como tradutora do seu e do nosso tempo; porque sua poesia ainda reverbera sobre os fenômenos que ele analisou e ela, poesia, pode ser vista e sentida do sertão ao mar; porque sua obra é uma plêiade de tratados: sociológico, antropológico, histórico, geográfico, ecológico, cultural, literário, poético. Patativa permanece porque é fruição artística, porque a cada leitura se revelam mais e mais semioses. Seu canto ecoa buscando novos a atualizados refrães e eles são vistos nas infinitas práticas leitoras que se faz da sua obra nas mais diversas linguagens: na literatura, no teatro, no cinema, nos cordéis, nas cantorias...
O POVO - O que difere ele de contemporâneos da literatura?
Tadeu - Patativa se difere porque ele transita nas linguagens populares e eruditas com desenvoltura. Não é uma habilidade da língua e da fala apenas, mas uma desenvoltura perceptiva, cognoscente de um mundo em eterno processo de tradução. E ele o traduziu muito bem. Ele se diferencia dos outros por transitar entre as frestas das fronteiras simbólicas. Inconformado com as convenções simbólicas – mesmo as necessárias – ele buscava as intersecções, as intersemioses, o frescor do olhar por entre as brechas dessas convenções. A poesia de Patativa era e é fronteiriça: ele transita no limbo dos significados e dos sentidos e estes não são datados, ainda que situados num tempo histórico, que foi o que ele viveu. Como sua obra é de memória, sua verve poética transita pelo imemorial. Ele se difere dos demais porque continua sendo melhor do que os outros.
O POVO - Você consegue enxergar na nova geração algo semelhante ao que ele produziu?
Tadeu - Não consigo ver nada e nem ninguém que tenha essa condição de ter uma obra como a dele. Claro que um dia aparecerá, mas ainda não vejo. O que há são inclinações e apelos midiáticos com o intuito de tentar reproduzir o que ele fez; marcas indisfarçáveis de ocupações de espaços na indústria cultural com propostas poéticas parecidas com a de Patativa, mas todos gerando produtos com conteúdos quase sempre efêmeros. O que me parece inegável é que sua obra é lida e discutida com frequência: das escolas às tevês; do cinema ao cordel digital. Nessas tentativas vão se abrindo possibilidades, mas o ninho poético está vazio. Graças aos deuses de dentro ou de fora desse ninho ainda se ouve fortemente aquele canto imorredouro.

Ilustração: ARIEVALDO VIANNA

Caricatura: Arievaldo Vianna



FONTE: O POVO
Ver postagem completa: http://www.opovo.com.br/jornal/vidaearte/2017/07/pesquisador-tadeu-feitosa-reflete-sobre-legado-de-patativa.html

quarta-feira, 5 de julho de 2017

MINI CONTO


Baleia do Sabonete, a cachorra do Major Policarpo Quaresma

DIÁLOGO DAS RABUGENS DO BRASIL

- BALEIA!
- Pronto, patrão!
- Vou cuspir no chão! Monte na bestinha melada e risque. Você vai ter que me trazer três préas de balseiro antes do cuspe secar...
- Nesse instante, patrão!
.............
- Patrão...
- O que foi, BALEIA?
- E o IBAMA?
- Arre égua, Baleia. Deita aí, vamos comer MIOJO.
- Ai, que NOJO!

* * *



Já que os preás estão vetados pelo IBAMA resolvi apostar numas costeletas de carneiro, fatias de bacon e afins, o que motivou esse mote sugerido por Geová Costa: ESSA BALEIA QUE LATE / QUER DEVORAR MEU CHURRASCO.

Baleia, a jovem cadela, 
É um esmeril da França,
Alimenta a esperança
De comer uma costela...
Seja de porco ou daquela
Ovelha que desenrasco,
Pois engordou no carrasco,
Antes de ir pro abate,
ESSA BALEIA QUE LATE
QUER DEVORAR MEU CHURRASCO.

terça-feira, 4 de julho de 2017

NO REINO DA ENCANTARIA



O MARCO CIBERNÉTICO DO 

REINO DOS TRÊS MONÓLITOS

Autor:  Arievaldo Viana

Nos  sertões do Ceará
Há mais de cinco milênios
Havia um reino imponente
Obra de fadas e gênios
Com três castelos vistosos
Quais luminosos procênios.

Nesse tempo tão distante
O índio selvagem, inculto,
Que habitava essas terras
Um dia avistou um vulto
De uma grande espaçonave
Conduzindo um povo culto.

Vinha de outra galáxia
Aquela grande astronave
Pousou em nosso planeta
A fim de trazer a chave
De grandes conhecimentos
Mas padeceu um entrave.



Os índios ficaram atônitos
Com a súbita aparição
Pois julgavam que Tupã
Vinha no grande clarão
Na sua rude linguagem
Buscavam uma explicação.

Vinham naquela missão
Engenheiros, cientistas,
Sacerdotes, artesãos,
Astrólogos e alquimistas
Matemáticos e geólogos
Poetas e repentistas.

Olhando o povo atrasado
Que habitava o lugar
Com muito zelo e cuidado
Quiseram os ensinar
Mas aquela raça inculta
Nada pôde assimilar.

Exilados neste mundo
Sua tecnologia
Mostrou-se pouco eficaz
E recorreram à magia
Para encantar os três reinos
Que aqui fundaram um dia.

Cristalizaram os castelos
Com tudo que existia
Uma camada de rocha
Fruto de grande magia
A sua esplêndida aparência
Ocultava e revestia.

Três monólitos de pedra
De assombrosa semelhança
Ocultaram os três castelos
Dos quais só resta a lembrança
No verso dos trovadores
Do reino da Esperança.

O enorme conhecimento
Daquela raça suprema
Para as gerações futuras
Será um ditoso tema
Que pretendo revelar
Nos versos do meu poema.

Só numa era futura
Remota e muito distante
Os três reinos encantados
Com seu astral fulgurante
Virão a desencantar
De maneira triunfante.

Ao pé do primeiro reino
Mesmo no sopé do monte
Existe uma pedra estranha
Da cor de um rinoceronte
Da qual jorra sem cessar
Uma maviosa fonte.

É a fonte das Coronhas
De todos bem conhecida
A vegetação nativa
A deixa bem escondida
Mesmo nos anos de seca
Ela é a fonte da vida.

Outra fonte cristalina
Um pouco mais adiante
Rumoreja entre as pedras
E o cascalho brilhante
É o Olho D'água do Bode
Que desponta cintilante.

As aves cantam nos galhos
Trina a cigarra na mata
Os cristais resplandescentes
São filigranas de prata
E o olho d'água da fonte
Jorra em suave cascata.

No sopé da cordilheira
Que se ergue abruptamente
O sabiá laranjeira
Canta sublime e plangente
O sol dardeja os seus raios
Tocando a alma da gente.

Preás se escondem nas locas
Com medo dos predadores
Inhambus arrulham nas matas
Atraindo os caçadores
Abelhas zumbem na relva
Sugando o néctar das flores.

No pé destes três serrotes
Tudo é encanto e beleza
Seus habitantes convivem
Em paz com a natureza
E os monólitos ostentam
O seu porte de nobreza.

Tem todo encanto e beleza
Que se vê em Istambul
O vento sopra suave
Varrendo de norte a sul
Ali o céu foi pintado
Com o mais bonito azul.

No ano sessenta e sete
Do outro século passado
Nasci naquele recanto
E fui por Deus inspirado
A beber daquela fonte
Perto do reino encantado.

Ao completar oito anos
Meu pai, um agricultor,
(Também um iniciado
Na arte de trovador),
Levou-me pra conhecer
Aquele grande esplendor.

(...)