quinta-feira, 6 de julho de 2017

PASSARIM DO ASSARÉ


XILOGRAVURA: Arievaldo Vianna (Direitos Reservados)


15 ANOS DA PARTIDA DE PATATIVA

Quinze anos após a morte, vitimado por pneumonia, Patativa do Assaré continua sendo referência e presença constante entre os artistas cearenses. Em entrevista ao O POVO, o pesquisador Tadeu Feitosa reflete sobre o legado do poeta popular. Para ele, Patativa permanece em evidência porque é “fruição artística, porque a cada leitura se revelam mais e mais semioses”.
O POVO - Por que Patativa consegue ainda ser tão presente? Tadeu Feitosa - Eu que nunca gostei de classificar nem o Patativa e nem a sua obra, nunca deixei de ter em mente que ele era – mesmo em vida – insubstituível. As caretices científicas e metodológicas que me impediam de chamá-lo de gênio no corpo de uma tese de doutoramento nunca me impediram de dizer isso nas minhas conversas e palestras sobre ele. Ele é presente porque sua obra é atual, tem a dureza de uma realidade dita sem rodeios – ainda que a sua arte também tenha lhe permitido edenizar o sertão que ele também cantou tão duro, tão árido, tão real. Os ritos de calendário sobre Patativa só se repetem na contagem sequenciada dos anos que o distanciam fisicamente de nós. Esses ritos são incapazes de delinear fronteiras para sua obra. Muito menos fronteiras temporais que a distanciem do valor poético e estético de sua obra. Ele permanece porque sua voz ainda ecoa como tradutora do seu e do nosso tempo; porque sua poesia ainda reverbera sobre os fenômenos que ele analisou e ela, poesia, pode ser vista e sentida do sertão ao mar; porque sua obra é uma plêiade de tratados: sociológico, antropológico, histórico, geográfico, ecológico, cultural, literário, poético. Patativa permanece porque é fruição artística, porque a cada leitura se revelam mais e mais semioses. Seu canto ecoa buscando novos a atualizados refrães e eles são vistos nas infinitas práticas leitoras que se faz da sua obra nas mais diversas linguagens: na literatura, no teatro, no cinema, nos cordéis, nas cantorias...
O POVO - O que difere ele de contemporâneos da literatura?
Tadeu - Patativa se difere porque ele transita nas linguagens populares e eruditas com desenvoltura. Não é uma habilidade da língua e da fala apenas, mas uma desenvoltura perceptiva, cognoscente de um mundo em eterno processo de tradução. E ele o traduziu muito bem. Ele se diferencia dos outros por transitar entre as frestas das fronteiras simbólicas. Inconformado com as convenções simbólicas – mesmo as necessárias – ele buscava as intersecções, as intersemioses, o frescor do olhar por entre as brechas dessas convenções. A poesia de Patativa era e é fronteiriça: ele transita no limbo dos significados e dos sentidos e estes não são datados, ainda que situados num tempo histórico, que foi o que ele viveu. Como sua obra é de memória, sua verve poética transita pelo imemorial. Ele se difere dos demais porque continua sendo melhor do que os outros.
O POVO - Você consegue enxergar na nova geração algo semelhante ao que ele produziu?
Tadeu - Não consigo ver nada e nem ninguém que tenha essa condição de ter uma obra como a dele. Claro que um dia aparecerá, mas ainda não vejo. O que há são inclinações e apelos midiáticos com o intuito de tentar reproduzir o que ele fez; marcas indisfarçáveis de ocupações de espaços na indústria cultural com propostas poéticas parecidas com a de Patativa, mas todos gerando produtos com conteúdos quase sempre efêmeros. O que me parece inegável é que sua obra é lida e discutida com frequência: das escolas às tevês; do cinema ao cordel digital. Nessas tentativas vão se abrindo possibilidades, mas o ninho poético está vazio. Graças aos deuses de dentro ou de fora desse ninho ainda se ouve fortemente aquele canto imorredouro.

Ilustração: ARIEVALDO VIANNA

Caricatura: Arievaldo Vianna



FONTE: O POVO
Ver postagem completa: http://www.opovo.com.br/jornal/vidaearte/2017/07/pesquisador-tadeu-feitosa-reflete-sobre-legado-de-patativa.html