terça-feira, 17 de janeiro de 2017

PERFIS SERTANEJOS


ESCRITOR BRUNO PAULINO LANÇA "SERTÃO: POETAS E PROSADORES"

Traçar perfis jornalísticos com sabor literário foi uma das atividades prediletas do escritor maranhense Humberto de Campos em seus 20 anos de profícua atividade literária. O filho ilustre de Miritiba-MA chegou a reunir boa parte de sua produção jornalística, espalhada em diversos periódicos (jornais e revistas), em livros que obtiveram enorme sucesso à época de seu lançamento. Existe mesmo uma série com esse título singelo “Perfis – por Humberto de Campos”.  Esses perfis jornalísticos, tão em voga desde o Século XIX, visam registrar o cotidiano, o ambiente, a história de vida de pessoas famosas ou anônimas, buscando revelar ao público fatos inéditos ou pitorescos da vida da personalidade retratada. Conclui-se, portanto, que esse estilo de reportagem, que apresenta em sua linguagem traços da literatura, caracteriza o chamado jornalismo literário.
O título deste prefácio – “Perfis Sertanejos” -, remete a um livro raro do folclorista José Carvalho de Brito, cearense do Crato, membro da Padaria Espiritual e primeiro autor a ocupar-se da pessoa e da obra do célebre Patativa do Assaré em livro publicado no Pará, no distante ano de 1930. Por esse tempo o bardo cearense ainda se chamava Antônio Gonçalves e tinha apenas 21 anos de idade. Aliás, reza a tradição que foi José Carvalho quem crismou o poeta Antônio com o codinome Patativa. Agora vamos saber, no parágrafo seguinte, o que esse enorme “arrodeio” tem a ver com o novo livro de Bruno Paulino.
O jovem escritor Bruno Paulino, já consagrado no mundo da crônica após o lançamento de “Lá nas Marinheiras” e “A menina da Chuva”, resolveu aventurar-se também pela poesia, com assumida preferência pelo gênero Cordel. Sempre propenso a novos voos, estreia em novo gênero literário. Reúne agora, no presente volume, uma série de perfis jornalísticos publicados no jornal “Sertão”, informativo produzido lá mesmo no seu amado Sertão Central, mais precisamente em Quixeramobim-CE. O material aqui enfeixado apresenta o melhor de sua produção veiculada naquele informativo no período de 2014 a 2016.
Antigamente, menino sertanejo armava alçapão para pegar passarinhos. E depois de pegá-los, havia o deslumbramento da criança e a adaptação do pássaro cativo que, se abeirando da letra de Humberto Teixeira e Gonzagão, acabava cantando “melhor”. Esses textos de Bruno Paulino surgem depois de uma conversa um tanto informal com a personalidade que deseja retratar. Como um fotógrafo talentoso e detalhista, ele busca flagrar na prosa de seus interlocutores momentos lúdicos e aparentemente banais que acabam produzindo uma ótima impressão nos leitores, a partir de sua abordagem apaixonada e perspicaz. Com seu talento nato de prosador, vai urdindo os fios da conversa como quem tece uma rede de varandas, emprestando a cada peça um colorido novo e diferente. E tem uma vantagem... Ele nem precisa furar os “zói” dos Passarim. Aqui, todo mundo canta melhor!
A jornalista portuguesa Cremilda de Araújo Medina, professora de Comunicação da USP, em seu livro Entrevista: o diálogo possível (Editora Ática - São Paulo, 2008) estabelece que “ao contrário da espetacularização, a entrevista com finalidade de traçar um perfil humano não provoca gratuitamente, apenas para acentuar o grotesco, para “condenar” a pessoa (que estaria pré-condenada) ou para glamourizá-la sensacionalisticamente. Esta é uma entrevista aberta que mergulha no outro para compreender seus conceitos, valores, comportamentos, histórico de vida”.
Passemos agora ao critério utilizado por Bruno Paulino na escolha de seus biografados. Quase todos os personagens aqui retratados têm alguma ligação com o Sertão Central, em especial com Quixeramobim, sua cidade natal. Sob essa ótica é que desfilam por suas páginas nomes como Luiz Gonzaga (visitando a terrinha e cortando o cabelo numa barbearia da cidade natal de Fausto Nilo), Audifax Rios (falando de Antônio Conselheiro), Gordurinha (e suas canções dedicadas ao sertão cearense), Geraldo Amâncio, Diogo Fontenele, Cláudio Portella (trazendo o Cego Aderaldo a tira-colo), João Pedro do Juazeiro, Saraiva Júnior, Luiz Costa, Jards Nobre, João Eudes Costa, Klévisson Viana e o autor dessas linhas.
Ouso afirmar que esse livro do professor Bruno Paulino terá grande repercussão e utilidade no ambiente escolar, recebendo, desde já, o selo “altamente recomendável” deste escriba que vos fala e relata. Boa leitura.

Arievaldo Vianna

Escritor, membro da AQUILETRAS

SERVIÇO:
Lançamento do livro "SERTÃO: POETAS E PROSADORES"
Autor: Bruno Paulino
Quando: 26 de janeiro de 2017
Aonde: Casa de Antônio Conselheiro, a partir das 19h.

Escritor Bruno Paulino, de Quixeramobim-CE

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Anedotas da Mala da Cobra

Cantoria - xilogravura de José Costa Leite

O HUMOR NA CANTORIA – LUIZ ANTÔNIO

Por: Arievaldo Viana

Luiz Antonio foi um dos cantadores mais espirituosos que conheci. Chamava-se, na verdade, Luiz Gonzaga da Silva e nasceu aos 28 de novembro de 1939, em Vista Serrana-PB. Faleceu em 2009, em Mossoró-RN onde residia. Ali presidiu por algum tempo a Casa do Cantador do Oeste Potiguar. Sempre que eu ia àquela cidade costumava encontrá-lo na recepção da Rádio Rural, aguardando o início do programa do poeta Crispiniano Neto. Já idoso, nunca havia publicado um folheto de cordel. Eu estava reunindo, na época, adaptações em versos para uma antologia composta de contos populares recolhidos pelo eminente folclorista Luís da Câmara Cascudo. Essa tarefa culminou com a publicação da caixa 12 contos de Cascudo em folhetos de cordel, pela Editora Queima-Bucha, de Gustavo Luz. Coube a Luiz Antonio adaptar o curioso conto “Couro de piolho”, que na sua versão transformou-se em O rapaz que encheu um saco de mentiras.  Versejador desembaraçado, fez uma adaptação brilhante do referido conto por mim indicado, terminando por compor um dos melhores folhetos da coleção. Depois deste ainda escreveu Um pouco da história de Jesuíno Brilhante e O sal nosso de cada dia.
Cantando certa feita com  o poeta Onésimo Maia, a cantoria começou a fraquejar e as ofertas na bandeja foram se tornando cada vez mais escassas. Desolado com a situação, Onésimo terminou uma estrofe dessa maneira: “Vamos parar o baião / que está ficando ruim.” O irreverente Luiz Antônio respondeu em cima da bucha:

Eu sei que cantamos ruim...
Eu reconheço a derrota,
A culpa é do seu baião
Tão doido e fora de rota
Que dá pra tirar de tempo
Até motor de Toyota.

De outra feita cantava com o saudoso Luiz Campos (autor do famoso poema Carta a Papai Noel) quando entrou uma mulher embriagada e espalhafatosa, prostituída ainda na adolescência, perturbando o ambiente. Luiz Antônio não se conteve e desferiu a seguinte estrofe:

O diabo desta menina
Nunca quis ter vida boa,
Nunca foi moça na vida
Nem casou, pra ser patroa...
De menina sem-vergonha
Passou pra mulher à toa.

* * *

Portador de uma propalada feiúra, mas humorista incorrigível brincava com a própria falta de atributos físicos que lhe negara a natureza. Certa feita viajava de ônibus e uma velhinha começou a rodeá-lo, querendo puxar assunto. Depois de olhar fixamente na sua cara, saiu-se com esta:
Estou lhe achando parecido com uma pessoa?!...
O poeta respondeu, em cima da bucha:
Eu sou uma pessoa, dona!

* * *

Essa outra quem contou-me foi Crispiniano Neto, ex-Secretário de Cultura do Rio Grande do Norte e inspirado poeta:  Quando o Café Kimimo ainda era do empresário paraibano conhecido como Pitéu, eram comuns os bingos em Mossoró. Quando o governo os proibiu, Pitéu que tinha feito muitos deles, não se deu por vencido. Bolou uma excelente ideia de marketing. Fez um bingo onde ninguém comprava a cartela. Quem chegasse com dez embalagens de Café Kimimo vazias, ganhava a cartela e ia concorrer a inúmeros prêmios. No dia marcado, lá ia o poeta tentar a sorte. Quem sabe, um carrinho para viajar e fazer cantorias. O bingo era de manhã. Terminou e o poeta não chegou nem perto de armar, quanto mais de bater. Voltava a pé, pois os coletivos, diante da imensa demanda de um final de bingo, não tinham uma vaga nem pelo amor de Deus. Já perto de casa, após andar vários quilômetros a pé, suor empapando a camisa, cansado e morto de fome, eis que uma vizinha lhe aborda aos berros:

"Seu" Luiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiz, foi pro bingo de Pitéééééu????????
Fui. Respondeu o poeta num fio de voz que denotava o seu imenso cansaço e desgosto.
E tirou alguma cooooooisa?
Tirei...
O quêêêêêêêê, "Seu" Luiz?
Tirei o dia pra ser besta!
 Sempre houve um certo preconceito contra o cantador de viola, sobretudo a partir da década de 1960, quando surgiram os primeiros ecos da jovem guarda e a moçada daqui do Nordeste passou a imitar desbragadamente as modas ditadas pela mídia do Sudeste. Lembro de minhas tias, agarradas com revistas de fotonovelas, suspirando por Wanderley Cardoso, Roberto Carlos e Jerry Adriani e copiando os modelos dos vestidos das atrizes da época. Luiz Gonzaga e cantoria nem pensar! Cordel era coisa de velho, sinônimo de atraso.
Foi nessa época que, em nome da modernidade, resolveram dar um fim na mala de folhetos de cordel de minha avó. Primeiramente a dita maleta foi “desterrada” para a casa velha, espécie de armazém de quinquilharias. Deparei com a mesma totalmente empoeirada, em cima do caixão da farinha e comecei a trazer os folhetos de volta para as gavetas dos móveis da sala de jantar. Nesse leva-e-traz acabaram sumindo de vez, sobretudo quando passei a estudar na cidade.
Geraldo Amâncio contou-me certa vez que quando era um iniciante na arte da cantoria, teve de passar à cavalo por Várzea Alegre ou Icó, juntamente com outro companheiro. Logo na entrada da cidade duas mulheres se acotovelaram numa janela e deram o sinal para as vizinhas:
Olha, mulher! Lá vem dois cantadores!
Aí o mundo desabou... Dezenas de cabeças surgiram nas janelas e começaram a rir, a fofocar e até mesmo vaiar a desafortunada dupla de poetas. Geraldo disse, que para desconto de pecados, a mula em que andava montado se acuou. Aí foi que a galhofa comeu de esmola.
Cena parecida aconteceu com o grande cantador Antônio Marinho (foto ao lado). Ao passar numa calçada, com a viola a tira-colo, duas mulheres o interpelaram e disseram:
O senhor é cantador?
Ante a resposta afirmativa, o poeta foi se afastando. Porém com os ouvidos atentos, aguardando possíveis comentários. Dito e feito, a mais velha e mais feia das duas foi logo dizendo:
Porque será que todo cantador é feio?
Antonio Marinho rodou nos calcanhares, dirigiu-se à velhota e, entregando-lhe a viola disparou:
Pegue a viola, dona, cante!!!
Situação similar aconteceu certa feita com o poeta Luiz Antônio. Ao deixar o modesto bairro em que residia, com viola às costas, meia dúzia de meninos, que brincavam despreocupadamente pela rua, de cipós em punho, começaram a imitar o som da viola em tom de deboche:
Tum, Tum, Tum, Tum, Tum, Tum...  Nhém, nhém, nhém, nhém, nhém, nhém...
Luiz Antônio, sem afobar-se, fitou a molecada e disparou:
Por quê vocês não vão dar os CUS?
Assim, mesmo no plural. Nem precisa dizer que os meninos meteram a viola no saco e pararam imediatamente de importuná-lo.


(In Mala da cobra – Almanaque Matuto, livro inédito de Arievaldo Viana)

sábado, 14 de janeiro de 2017

TRÊS SONETOS - JACÓ E RAQUEL




Encontro de Jacó com Rachel, 1518-19, Rafael
(pintor  italiano do Renascimento, 1483-1520),
afresco, no Palácio do Vaticano – Itália.


Jacó e Raquel (Soneto 29)
Luís Vaz de Camões

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora,
Para tão longo amor, tão curta a vida.

(Soneto XXIX. Luís de Camões, 1524-1580)




A PROPÓSITO DE UM
SONETO DE CAMÕES

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, sujeito esperto.
Servindo ao arameu, quis tê-la perto,
E na faina tão dura se esvaía.

O tal Labão assim se comprazia,
Em ser chamado lobo do deserto,
E Jacó, já pensando estar liberto,
Foi atrás de Raquel, mas trouxe Lia.

Vendo o pobre pastor que o dito sogro
Lhe negou a mulher que tanto amava,
Pois pensava tão só no desencalhe,

Recomeça a servir, pesar do logro,
E no leito com Lia, outra esperava,
E o amor se tornou mero detalhe.

Marco Haurélio
Imagem: Jacó e Raquel (William Dyce)



O sonho de Jacó - Rafael Sânzio

A PROPÓSITO DO SONETO
DO POETA MARCO HAURÉLIO

De Esaú tomou a primogenitura
Pondo peles de cabrito sobre as mãos
Nas disputas que travaram os dois irmãos
Foi Rebeca quem agiu de cara dura!

E Isaac, sacrifício de alma pura,
Segue o engodo, mergulha nesses vãos,
Os seus olhos que já não eram sãos
Não puseram mais água na fervura.

E o Jacó, andarilho dessa estrada,
Sonhador de promessas e de escada,
Procurava qual abelha num vergel

A colmeia que lhe fora prometida
Mas após sete anos nessa lida
Teve Lia, antes de ganhar Raquel.

Arievaldo Vianna


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

DIA DE SANTOS REIS

Reisado BOI CORAÇÃO, de Cipó dos Anjos (Quixadá-CE)

Reisado, Caretas, Papangus, Brincantes, Foliões de Santos Reis. Eis uma brincadeira secular que praticamente está desaparecendo da cultura cearense. 
Quando menino fui acordado algumas vezes por essa cantiga, na noite do dia 06 de janeiro, Dia de Santos Reis:

Ô de casa ô de fora
Manjerona é quem está aqui
É o cravo, é a rosa
É a flor do bugari. (bis)

Reisado (Caretas) - Ilustração: Arievaldo Vianna


GLOSAS, CANTIGAS E ‘RELAXOS’

DO REISADO CEARENSE


EM FIGURA DE RAPOSA
(Cantiga de Reisado)

Ô de casa ô de fora
Manjerona é quem está aqui
É o cravo, é a rosa
É a flor do bugari. (bis)

Nós estamos em vossa porta
Em figura de raposa
Em figura de raposa
Lhe pedindo alguma coisa.

Esta casa está bem feita
Por dentro, por fora não
Por dentro, cravos e rosas
Por fora manjericão.

Esta casa está bem feita
Só lhe falta a comieira
E viva o dono da casa
Com a sua companheira.

Acordai que está dormindo
Deitadinho em sua rede
Tenha dó de quem está fora
Recostado na parede.

Ó senhor dono da casa
Abra a porta e acenda a luz
Vim buscar os Santos Reis
Vim em nome de Jesus.

O sol entra pela porta
E o luar pela janela
Estou a espera da resposta
Não saio daqui sem ela.

Já ouvi pratos e garrafas
Já vi copos retinir
Já vi dar a volta na chave
Para a porta se abrir.

Deus vos pague Santos Reis
Deus lhe dê muito pra dar
Menino Jesus da Lapa
Ele há de lhe ajudar.

Quando criança eu me encantava com os REIZADOS que assisti no Sertão Central, nos municípios de Quixeramobim, Canindé e Madalena. A figura da velha, com enorme bunda postiça, fazia a alegria da meninada. Mas o personagem que mais me chamava atenção era o “Amo” que dizia glosas e “relaxos” na cabeça do boi. O Quelemente, um vizinho nosso que gostava da brincadeira, sempre repetia os mesmos versos:

Pode crê, mandou lembrança
Se for verdade, Deus lhe pague
Não como frango pedrês
Não como galo pintado

A melhor coisa do mundo
É carinho de menina
Meu padrim o que é que tem
Pra dar a essa tejubina?!

As “tejubinas” a que o caboclo se referia eram as mocinhas que acompanhavam o séquito da BURRINHA, único personagem que permitia a presença feminina no Reizado de Caretas, que varia bastante, de uma região para outra.



Versos da Burrinha:

A burrinha do meu amo
come tudo que lhe dão
só não come carne velha
Sexta-feira da Paixão.

A burrinha do meu amo
tem um buraco no c*
foi um rato que roeu
pensando que era beiju!

O Reizado era animado ao som da sanfona... O saudoso Pedim do Edmundo tocava o baião “Vermêi” enquanto os caretas executavam uma complicada luta de cacetes em perfeita coreografia.


Sanfoneiro Pedro Araújo - Pedim do Edmundo


Os participantes do reisado não assumem a pecha de “papangus”. Eles dizem que papangus são os meninos da plateia. Os brincantes são os caretas.
A criançada empolgada com esse folguedo não falava noutra coisa. Quando criança, de férias no distrito de Iguaçu (Canindé-CE) associei-me a um grupo de meninos que entenderam de fazer um reisado mirim.
Tiramos vergônteas de mofumbo, para fazer a armação do boi, arranjamos um velho lençol de chita para cobri-lo e a cara do bicho foi pintada num grosso papelão. Faltava agora aprender as cantigas do boi. Foi quando alguém nos deu a ideia de visitar o velho José João (ou João José), que morava nos arredores. O bom ancião nos atendeu prontamente e repetiu dezenas de quadrinhas até que nós decoramos a maior parte e nos munimos de um estoque de glosas para a encenação do folguedo. Lembro-me perfeitamente dessas duas:

Eu me chamo Chico Torto
Revesso, quebra-machado,
Cavo cacimba no seco
Depressa dá no molhado.

Só não quero que me mandem
Na rua, comprar fiado,
Que fiado me dá pena
E pena me dá cuidado.”


A apresentação agradou. Apesar do amadorismo do grupo e dos inevitáveis improvisos, foi sucesso total. Retrato de um Sertão não tão distante, que foi tragado pelas mandíbulas afiadas da tal globalização.

Arievaldo Vianna (de O LIVRO DAS CRÔNICAS)
Todos os direitos reservados ao autor.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Do grande poeta ANTÔNIO MARINHO


Crédito da foto: blog CORDÉIS HERDADOS DO MEU AVÔ

O PAÍS É UMA ROSEIRA
Autor: Antônio Marinho

O País é uma roseira,
A pobreza é a raiz;
No trabalho é a primeira
Na sorte a mais infeliz...
A haste, a escadaria
Por onde a aristocracia
Sobe os degraus a vontade;
Deputados, senadores,
Desta roseira são flores
Sem responsabilidade

A raiz desta roseira
Está no estrume enterrada;
Ali passa a vida inteira
Do mundo não goza nada;
As rosas estão em cima,
Arejadas pelo clima,
Cada qual quer ser mais bela
Mais garbosa, mais feliz,
Esquecidas da raiz
Que vivem à custa dela

Espinhos por guarnição
Ainda a roseira tem;
Eis os soldados que são
Guardas dos grandes também;
Negam ao pobre o que é propício,
Sujeito ao sacrifício,
Cumpridor do seu dever
Mas, por não ter ideal,
Termina no lamaçal
Uma vida sem viver...

Em seu silêncio profundo,
O pobre é quem está de pé;
Passando a vida no mundo
Sem saber o mundo onde é.
Lá solitário, sozinho,
Foi a base do caminho
Por onde o grande passou,
Esquecido, em bom lugar,
Em cima, sem perguntar
Quem para ali o levou.

Os votos da populaça,
O candidato a rogar...
A rosa esmola, por graça,
Água para não murchar;
Porém depois de votados
São para cima levados,
Ali ficam como quem
Subiu passo a passo, a esmo,
Conduzidos por si mesmo
Não devem nada a ninguém.

Proprietários da sede
Os grandes quando não são,
Estão como a rosa que pede
Água pra vegetação;
Depois de bem irrigada,
De flores bem enfeitada,
Deu-lhe o inverno a ação;
Adorna num apogeu,
Esquece de quem lhe deu,
Água quando era verão.

Fonte: Sarno, Geraldo – Cadernos do Sertão, NAU, 2006 – página 163





BIOGRAFIA DO POETA

Poeta popular, repentista, Antônio Marinho do Nascimento nasceu a 05 de abril de 1887, no município de São José do Egito, sertão de Pernambuco, e morreu na mesma cidade, a 29 de setembro de 1940. Permaneceu praticamente toda a vida com residência fixa em sua terra natal, mas viajou o Nordeste inteiro fazendo cantorias.
A maioria dos seus versos não foram registrados, ficaram na memória do povo. Tinha como características principais as respostas cômicas a seus contedores e espantosa rapidez no improviso. No final da década de 1930, ao retornar de uma viagem, participa de uma cantoria com um antigo parceiro e este indaga como fora a andança.
Antônio Marinho responde: "Eu só fui a Espinharas/Porque a precisão obriga/Mas fui com muita saudade/Daquela nossa cantiga/Minha saudade era tanta..." Neste instante, Marinho foi obrigado a tossir, porque estava com bronquite. Tossiu e concluiu: "...Que a tosse não quer que eu diga." O poeta era conhecido como a "Águia do Sertão".


Fonte: PERNAMBUCO DE A a Z: http://www.pe-az.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=534:ant%C3%B4nio-marinho&catid=60&Itemid=139

Crédito da foto: http://cordeisherdadosdomeuavo.blogspot.com.br/

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

PATRIARCAS DO CORDEL

Raimundo Clementino, Chico dos Romances e Arievaldo Vianna

Franciso Pérez de Sousa:

CHICO DOS ROMANCES
E A "ENCANTARIA" DO CORDEL

Por Arievaldo Vianna

No princípio da década de 1980, ainda criança, eu trabalhava como camelô nas ruas de Canindé, no período da romaria a São Francisco das Chagas. De agosto a dezembro eu perambulava pelo Bar Canindé, Abrigo dos Romeiros, na rua Euclides Barroso (antiga Rua da Palha), Alto do Custódio, porém preferia mesmo a rua João Pinto Damasceno, que fica às margens do rio Canindé e dá acesso à Basílica do padroeiro no sentido norte-sul.


Sempre fui admirador incondicional da Literatura de Cordel e numa dessas incursões pela João Pinto deparei com o poeta e folheteiro piauiense Francisco Pérez de Sousa, o Chico dos Romances, no saguão do Hotel Santo Antônio, arrumando a sua mala de romances para começar a sua atividade numa das praças da cidade. Acheguei-me do poeta e pedi para ver os títulos que ele trazia. Praticamente não havia nenhum clássico daqueles editados em Juazeiro do Norte ou Campina Grande. Eram folhetos de sua própria lavra e alguns de Lucas Evangelista, que ele conseguia mediante permuta. Gostei de dois títulos e os adquiri: “História de Sete Cidades ou a Deusa da Encantaria” e “O homem que era ateu e uma graça alcançada por São Francisco”. Comecei a ler imediatamente. Mas os versos, lidos em voz baixa, não tinham o mesmo encanto, o mesmo sabor de quando declamados pela voz de seu autor, que é um verdadeiro show-man. Chico dos Romances é um declamador de grandes recursos, que prende a atenção do público com gracejos, inflexões na voz e a magia dos seus olhos azuis e hipnóticos.

Passaram-se os anos. Muito tempo depois ouvi falar novamente de Chico dos Romances num livro do pesquisador Gilmar de Carvalho: “Poetas populares do Piauí’. Soube um pouco de sua biografia e fiquei contente ao constatar que ainda estava lúcido e em plena atividade. "Um personagem saído dos livros de Guimarães Rosa!" É assim que o descreve Gilmar de Carvalho em sua obra.

Ao ser convocado pela professora Rosilene Melo para uma pesquisa  patrocinada pelo IPHAN, cujo objetivo era fazer um levantamento dos poetas em atividade para reconhecimento do CORDEL, da CANTORIA e do ABOIO como patrimônio imaterial do povo brasileiro, fiz questão de ir até o Piauí e, na companhia do poeta Raimundo Clementino, fomos até Piripiri onde vive o poeta Francisco Pérez de Sousa, atuando nas feiras, declamando e compondo novos folhetos. 

Primeiro entrevistei os poetas radicados em Teresina - Joames, Pedro Costa, Edivaldo Guerreiro, Josefina Gomes, Marina Campelo, Ilza Bezerra, mestre José Barbosa, dr. Pedro Ribeiro, dentre outros. Depois fui ao programa de rádio do professor Wilson Seraine que me deu a preciosa dica: "- Rapaz, você precisa ir a Piripiri entrevistar o Chico dos Romances... Um velhinho engraçado dos zóio bem azuzim, que declama bem e conversa pelos cotovelos".

Foi uma das entrevistas mais rendosas e interessantes. É um dos depoimentos que pretendo peneirar,  aprofundar e transformar em livro num futuro próximo. Pérez me disse que começou a produzir seus folhetos ainda na adolescência e teve como primeiro editor o saudoso poeta Joaquim Batista de Sena (Tipografia Graças Fátima, situada na Rua Liberato Barroso, em Fortaleza) de quem foi discípulo e companheiro de muitas jornadas pelo Brasil afora. São mais de 60 anos dedicados exclusivamente à poesia, pois Chico além de poeta é editor e folheteiro. Bom, mas isso aqui é só um esboço, um texto de introdução às peripécias desse discípulo de Cancão de Fogo. Por enquanto, apresento a vocês tão somente um resumo biográfico de CHICO DOS ROMANCES, extraído de um site de Piracuruca, terra natal do poeta:

Francisco Peres de Souza (Piracuruca, 1 de abril de 1939) - Nascido no local Retiro, município de Piracuruca-PI, em 01 de abril de 1939, filho de Gerviz Rosa de Sousa e Paulo Pereira Neres, Chico do Romance aparenta uma jovialidade na sua narração diária de seus cordéis e na presteza com que atende seus clientes. Se for entrevista se prepare para passar a manhã toda... É que ele se sente orgulhoso aos extremos de sua obra literária.
Perdendo a mãe quando tinha apenas um ano de idade, o futuro cordelista foi morar em com a avó materna, a qual também faleceu cedo, quando Chico tinha apenas seis anos. Mais um golpe na vida do pequeno Francisco Perez. Mas sua predestinação lhe reservava um futuro gratificante.
 Sua biografia, que consta em seus “romances” diz:

Pequeno, ajudava seu pai na lavoura, mas logo veio morar em Piripiri, onde começou a cantar folhetos para os amigos, daí surgiu sua paixão pela literatura de cordel, onde descobriu que em si brotava a poesia, morando com sua tia Cecília em Piripiri e cantando nas casas de fazenda. Viajando para Fortaleza, depois com os melhores poetas da época, viajou pelo Piauí, Ceará, Maranhão, Goiás e Pará. Nas estradas de chão tudo isso dos 10 aos 30 anos.
Depois passou uns tempos em Fortaleza-Ceará, onde afirma ter penado muito, sem dinheiro e sem ter onde morar, fazendo bicos para sobreviver.
Redigindo seus textos fantásticos e sempre cativantes, Chico do Romance estreou como cordelista com 15 anos de idade, e hoje já contabiliza mais de 200 obras editadas. A princípio os cordéis eram impressos pelo tradicional método da xilogravura, ou seja, a matriz de impressão eram chapas de madeira esculpidas. É que as impressões tipográficas eram muito caras nos tempos idos.

A partir do início dos anos 1970, com a disseminação do sistema offset, que barateou os custos elevados do sistema tipográfico, Chico do Romance passou a imprimir seus trabalhos na gráfica de Gilberto Mendes (em Campo Maior) e posteriormente, na gráfica do ex-prefeito de Piripiri, Arimatéia Melo. Hoje seus trabalhos são impressos em impressoras de computador.
O cordelista casou-se aos 21 Anos de idade com Luzia Pessoa de Sousa, e criou família com nove filhos em Piripiri, onde reside, sempre tendo como trabalho principal a edição e venda de obras de cordel. Mora hoje no bairro piripiriense do recreio.
Com 75 anos completados em primeiro de abril de 2014 e em pleno vigor para escrever e ministrar palestras, Chico do Romance é sempre requisitado para fazer palestras e declamar suas poesias populares em colégios, academias, centros culturais, além de se fazer sempre solícito para entrevistas de jornais, Tvs, sites, etc.

UM EXEMPLO NOTÁVEL DA CULTURA POPULAR DE LITERATURA DE CORDEL DO PIAUÍ

Sua biografia acrescenta ainda, dentre tantas homenagens:

Participou de 17 a 21/08/2009 da I Mostra da cultura Popular, realizada na Casa da cultura em Teresina, recebendo a Comenda Fontes Ibiapina. Nos dias 26 e 27 de novembro de 2009, o poeta participou da II Conferência Estadual de Cultura do Piauí, em Teresina, no Clube Atlantic City. Por último, teve ao dia  24 de abril do ano de 2010 outorgado o título de Sócio Honorário da Casa do Padre Freitas, pela ACALPI (Academia de Ciências, Artes e Letras de Piripiri).
Destacam-se, nas suas centenas de obras: História das Sete Cidades e a Deusa da Encantada; Padre Domingos de Freitas e Silva-Fundador de Piripiri; Homenagem ao Piripiri do Século; Pequenos Dados Biográficos de Virgulino Ferreira da Silva - O Lampião; História do Catirina (Lenda de Sete Cidades); As Bravuras de José Pela princesa Franluzia etc.
Piripiri se orgulha de ter entre seus filhos adotivos um dos maiores nomes da literatura cordelista do Brasil.

Fonte: fonte;http://www.piracuruca.com/