sábado, 18 de fevereiro de 2017

O BOCAGE SERTANEJO



Moysés Lopes Sesyom
Comerciante, nascido em Caicó, mas feito poeta em Assu.
*28/07/1883 + 09/03/1932.


MOYSÉS SESYOM

O Bocage rio-grandense

ACTA DIURNA
Luiz da Câmara Cascudo
(Publicado no jornal 'A República'
Natal - RN, 11 de abril de 1942)
Extraído de “O livro das velhas figuras – Vol. 4”

Perdoem-me as nove Musas em particular e Mnemosine no geral, dar ao poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage as glórias únicas da poesia fescenina. Não há fama mais injusta e renome menos merecido. Bocage é um altíssimo poeta sem a produção sotádica do "quinto livro". Mas, na acepção tradicional dizer-se "versos de Bocage" é anunciar rimas que arrepiam os nervos pudicos.
Moysés Lopes Sesyom, Moysés Sesyom, falecido no Assú a 6 de Março de 1932, é um poeta sem as honras do prelo. Possui, superior a esse título, sua produção inteiramente impressa na memória coletiva de uma região.
Raro será o rapaz, ou cidadão sisudo nas horas confidenciais de reminiscências literárias ignorando uma ou alguma das "décimas" irresistíveis do poeta querido, de vida atribulada, de existência dura, de morte cruel.
Vezes, horas e horas, ouvi recitar versos de Sesyom, recordando sua boemia, vivendo o anedotário rico de episódios chistosos.
Mas, a parte característica na verve de Sesyom, a mais alta percentagem de versos, as respostas imprevistas e saborosas, exigem um ambiente mais restrito, uma atmosfera íntima que o horizonte amplíssimo dos jornais.
Moysés Lopes, Sesyom é Moysés  às avessas, nasceu no Caicó, em 1884. Em 1907 fixou-se no Assú. E viveu por ali, pequeno bodegueiro, empregado no comércio e por fim, soldado do Batalhão Policial.
Só nos últimos anos descobriu que era improvisador, e o aplauso unânime de um auditório compreensivo, sagrou-o.
Há quem passe a vida escrevendo versos e morra sem ser poeta. Sesyom sem saber, era poeta verdadeiro, espontâneo, inesgotável, imaginoso, original. Sua versalhada, satírica em proporção decisiva, não receia confronto com Laurindo Rabelo, o irrequieto Poeta-Lagartixa. Apenas Laurindo Rabelo era um médico, tendo livros e amigos ilustres. Sesyom era quase analfabeto, desprotegido e paupérrimo.
Nem por isso desmerecerá para o futuro. Suas "décimas" esfuziantes deviam ser reunidas em volume. Um volume fora dos mercados livrescos, mandado editar por um grupo de bibliofilos. Usa-se muito essas edições limitadas, hors commerce, defendendo do esquecimento um esforço humano digno de maior duração no tempo.
Sei muito bem que os versos de Sesyom estão mais seguros na retentiva popular do que nas páginas de um folheto. Mas essa impressão garantiria a pureza da produção humilde, impossibilitando as deturpações vindouras, instaladas no texto como letra integral.
Se o "Quinto Livro" de Bocage, e vinte volumes de alta pornografia sapientíssima estão editados luxuosamente, custando caro, escondidos no "inferno" das bibliotecas eruditas, ciosas desses tomos de tiragens numeradas, por  que não estender à Moysés Sesyom o direito lógico de figurar ao lado, e muito justamente, dos seus colegas imponentes que nada fizeram de melhor e de mais alegre?
A poética sensual e o hílare são atributos da Civilização. Os povos primitivos ou em estado de desenvolvimento inicial, não tem versos como os de Sesyom. Esses, além do mais, dariam testemunho de um engenho curioso e vibrante, diluído, apagado, improfícuo, no anulado ciclo fechado das vidas pequeninas e melancólicas.
Aqui está um mote que lhe deram, glosado imediatamente, taqualmente nos Outeiros aristocráticos do século XVIII:

Bebo, fumo, jogo e danço.
Sou perdido por mulher!

Vida longa não alcanço
Na orgia ou no prazer
Mas, enquanto eu não morrer
Bebo, fumo, jogo e danço.
Brinco, farreio não canso,
Me censure quem quiser
Enquanto eu vida tiver
Cumprindo minha sina venho,
E além dos vícios que tenho
Sou perdido por mulher!

* * *


Folheto de Hamurabi Batista, sobre o tema PEIDO


O PEIDO QUE A DOIDA DEU...


Encontrei num velho ‘pliego’ espanhol, do século XVII, um poema de natureza escatológica intitulado “Uma vieja se pedió” (Uma velha se peidou), prova evidente de que muitos dos temas explorados pelos poetas populares nordestinos no cordel, na cantoria e na glosa, tiveram suas matrizes na velha Península Ibérica e receberam , com certeza, influência dos mouros que a ocuparam por oito séculos. Vejamos:

  “Una vieja se pedió
  en las Islas Filipinas
  del estampido que dio
  se llevó once mil esquinas.
  Seis batallones hirió
  muchos de ellos hay sin cura
  todo el mundo se aturdió,
  encima una sepultura
  (Una vieja se pedió”…)

Arremedo de tradução, por Arievaldo Vianna:

Uma velha se peidou
Lá nas Ilhas Filipinas
Quando o estampido troou
Levou onze mil esquinas.

Seis batalhões se feriram
Muitos deles sem ter cura,
E todos se aturdiram
Em cima da sepultura.


Exemplo de um "pliego" de cordel espanhol.


Moysés Sesyom também navegou por esse tema. O livro de Nei Leandro de Castro, 'As pelejas de Ojuara', fala de um velho coronel potiguar que se gabava de ser invencível em campeonatos de PEIDOS. Ninguém o podia derrotar. Porém, uma velha doida, depois de comer uma panela de angu, quebrou-lhe a invencibilidade. O episódio foi retratado deste modo por Sesyom:


MOTE:

O peido que a doida deu
Quase não cabe no cu.

GLOSA

Eu conto o que sucedeu
Na sombra da Gameleira
Foi um tiro de ronqueira
O peido que a doida deu.
Toda terra estremeceu,
Abalou todo o Açu,
Ela mexendo um angu,
Tira a perna para um lado
Dá um peido tão danado

Quase não cabe no cu.


Gravuras que ilustram a "Literatura de Cordel" espanhola

O poeta potiguar Moysés Sesyon (Sesyon é Moysés ao contrário) tão festejado pelo poeta Glauco Mattoso, virou até personagem do filme O homem que desafiou o diabo, baseado no livro As pelejas de Ojuara, de Ney Leandro de Castro. Nesta obra cinematográfica, Moysés Sesióm foi interpretado pelo veterano ator Rui Rezende (o Professor Astromar, de Roque Santeiro) onde declama uma de suas glosas mais conhecidas:

Mote:
Bebo, fumo, jogo e danço
Sou perdido por mulher

Glosa:
Vida longa não alcanço
Na orgia ou no prazer,
Mas, enquanto eu não morrer
- Bebo, fumo, jogo e danço!
Brinco, farreio, não canso,
Me censure quem quiser...
Enquanto eu vida tiver
Cumprindo essa sina venho,
Além dos vícios que tenho,
Sou perdido por mulher!...

 (A.V.)



O ator Rui Rezende, que interpreta Moysés Sesyom no cinema, 
ao lado de Marcos Palmeira.


Mais um poema de SESYON

MOTE : UM INFELIZ COMO EU

I

A morte mata o sultão,
arcebispo  cardeal,
presidente, marechal,
ministro, conde e barão;
em tempos matou Roldão,
como na história deu;
o próprio Jesus morreu;
mata tudo ó morte ingrata,
só não sei porquê não mata
um infeliz como eu.

II

Ela mata todo mundo,
branco, preto, rico e pobre,
mata o potentado, o nobre,
mata o triste e o vagabundo;
matou Dom Pedro Segundo,
matou quem o sucedeu;
capitalista e plebeu,
mata tudo, não tem jeito,
mas não mata, por despeito,
um infeliz como eu.

III

Não reserva o cientista,
mata sem dó o profeta,
tirana, mata o poeta,
mata o maior estadista;
mata também o artista,
o cego, o mudo, o sandeu,
mata o crente e o ateu,
diplomata e titular,
mas poupa, não quer matar
um infeliz como eu.

IV

Ela mata no Senado,
como matou Rui Barbosa,
entra no Congresso airosa
aí mata um deputado;
matou Pinheiro Machado,
dele não se condoeu,
ela jamais atendeu,
mata gente, mata bicho,
mas não mata, por capricho,
um infeliz como eu.


FONTE: http://assunapontadalingua.blogspot.com.br/2014_03_09_archive.html

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

CONTOS E CRÔNICAS QUE LI NA INFÂNCIA


A Velha Contrabandista

Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia ela passava pela fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta. O pessoal da Alfândega - tudo malandro velho - começou a desconfiar da velhinha.
Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da Alfândega mandou ela parar. A velhinha parou e então o fiscal perguntou assim pra ela:
- Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia, com esse saco aí atrás. Que diabo a senhora leva nesse saco?
A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e mais outros, que ela adquirira no odontólogo, e respondeu:
- É areia!
Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco. A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco e dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em frente. Ela montou na lambreta e foi embora, com o saco de areia atrás.
Mas o fiscal desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com areia e no outro com muamba, dentro daquele maldito saco. No dia seguinte, quando ela passou na lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou parar outra vez. Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo. Durante um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia.
Diz que foi aí que o fiscal se chateou:
- Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com 40 anos de serviço. Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.
- Mas no saco só tem areia! - insistiu a velhinha. E já ia tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:
- Eu prometo à senhora que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai me dizer: qual é o contrabando que a senhora está passando por aqui todos os dias?
- O senhor promete que não "espáia"? - quis saber a velhinha.
- Juro - respondeu o fiscal.
- É lambreta.
Stanislaw Ponte Preta



Sérgio Marcus Rangel Porto foi um cronista, escritor, radialista e compositor brasileiro. Era mais conhecido por seu pseudônimo Stanislaw Ponte Preta. Nasceu no Rio de Janeiro, aos 11 de janeiro de 1923 e faleceu no dia 30 de setembro de 1968,  também no Rio de Janeiro, capital. Obras: Febeapá - O Festival de Besteira que Assola o País, O samba do crioulo doido, Rosamundo e os outros, Dois amigos e um chato, Tia Zulmira e eu.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A MAÇÃ



O "FRUTO PROIBIDO" 
DE HUMBERTO DE CAMPOS

Em 2011 foi lançado o livro A Maçã - Objeto de Desejo, da designer Aline Haluch. Trata-se de uma pesquisa de mestrado sobre a revista ilustrada editada por Humberto de Campos entre 1922 e 1928 – sob a ótica do design, fazendo uma análise gráfica e discutindo vários desdobramentos resultantes da pesquisa, como as mudanças de comportamento no início do século 20 e as representações da mulher. A revista tem um projeto gráfico arrojado e era uma publicação “galante” – destinada ao público masculino.
Segundo a autora, Humberto de Campos, já consagrado e membro da ABL, foi muito criticado pelos colegas mais conservadores por suas anedotas picantes publicadas na revista sob o pseudônimo de Conselheiro X.X.
A princípio, Humberto negava ser o Conselheiro e até publicava a foto de um velho de 71 anos de idade (o dobro da sua) como sendo do Conselheiro X.X. Depois essas anedotas foram reunidas em livros, gerando uma série de mais de 10 volumes, dentre os quais destacam-se: Grãos de Mostarda, Seara de Booz, Brasil Anedótico, A funda de Davi, Bacia de Pilatos, dentre outros. O Conselheiro chegou a ser chamado por Luís da Câmara Cascudo de “Boccacio decrépito, acendendo coivaras de volúpia no espírito sôfrego das mulheres”. Por artes dos pecados, depois da sua morte apareceu o IRMÃO X, suposto espírito de HC psicografado por Chico Xavier, que ainda hoje dá o que falar.
Recebi ontem o meu exemplar de A MAÇÃ – edição luxuosa, em papel couchê, capa dura e miolo colorido, editada pelo SENAC. Estou me deliciando com a leitura e, principalmente, com as capas da publicação, bem ousadas para os anos 20 do século passado. Em entrevista ao O GLOBO, a autora afirma o seguinte:
— O Humberto de Campos falava da mulher, das melindrosas, das prostitutas, de maneira positiva. Não tinha uma visão pejorativa dessas moças. Era algo engraçado, ridicularizava os homens, que muitas vezes se tornavam escravos delas. Não é o clichê do homem que ridicularizava a mulher. Campos invertia os papéis sociais e contava histórias, por exemplo, de mulheres jovens casadas com homens mais velhos, sendo que elas tinham amantes — diz Aline.

 Segundo Aline Haluch, A Maçã revolucionou as artes gráficas brasileiras

Essa capa, ousadíssima para a época (1922)
causou escândalo até na Academia de Letras


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

BAÚ DA MEMÓRIA


Lunário Perpétuo, de Jerônymo Cortez

UM CHÁ DE BINGA DE CACHORRO


Lendo o Lunário Perpétuo, Geral e Particular para Todos os Reinos e Províncias, composto por Jerônymo Cortez, Valenciano, edição impressa em Lisboa em meados do Século passado cheguei ao capítulo intitulado “Memória de remédios universais para as enfermidades ordinárias” a partir de anotações de Carlos Estevão e João Lihaut, médicos da cidade de Paris. Ali encontrei as fórmulas mais disparatadas e escatológicas que já vi. Os ingredientes das meizinhas são lesmas trituradas com açúcar, fumo de sapatos velhos queimados, fezes de animais, perna de grilo, asa de barata, fuligem de chaminé, unhas de jumento, ossos e cabelos humanos, tudo isso para ser ingerido como chá ou aplicado como emplastros. No segundo caso, usa-se farinha e clara de ovo para dar consistência ao preparado. Vocês calculem quantos pacientes morreram ou tiveram suas moléstias agravadas por tais “remédios”. 
O Lunário Perpétuo foi um livro muito popular no Nordeste de outrora. Lendo tais fórmulas, lembrei-me então de um remédio que quiseram me dar quando era menino: o chá de binga de cachorro. Segundo o meu amigo Santiago, cartunista famoso de Porto Alegre-RS, por lá essa beberagem tem o nome de “Jasmim de Cachorro”, porém o ingrediente é o mesmo: fezes caninas ressecadas pelo sol.


Isso foi pelos idos de 1975 ou 76. Estávamos no período da safra do algodão e vovô havia ensacado toda a sua produção. E também a colheita que comprara dos vizinhos ou recebera como pagamento de antigas contas na mercearia. Eu já sabia ler e contar e ajudava na contabilidade da bodega, fazendo anotações na caderneta dos fiados, somando contas, apesar de não ser muito bom em matemática. Mas com esforço e a ajuda de uma tabuada acabei desasnando com os números.
Nesse tempo eu era bem pequeno e brincava na companhia de uma prima sobre as sacas de algodão empilhadas no alpendre. Algumas chegavam a tocar o madeiramento do teto da moradia. Aquilo era uma aventura e tanto. Eu me pendurava nos caibros e ficava balançando no espaço, com risco de me estatelar no chão e quebrar um braço ou uma perna. Mas, felizmente, isso não ocorreu. O que aconteceu de fato foi uma surra caprichada que levei de meu avô, mas por motivo bem diferente.

Eu fazia a ponta dos meus lápis de cor com um canivete, que no momento estava ali, bem ao alcance da mão. A minha prima desafiou-me a cortar um dos sacos para ver as “tripas” do algodão. Na verdade era uma cilada, mas eu não me dei conta. Eu era muito inocente para entender as suas reais intenções. Relutei a princípio, mas ela continuava me instigando a fazer “malinação”.
— Eu sabia que você não tinha coragem. Vamos, taque o canivete, rasgue o bucho do saco de algodão!
Peguei corda. Dei a primeira estocada e um capucho branquinho começou a sair pelo furo. Criei gosto e dei a segunda facada. Nesse exato instante a minha prima saiu de fininho e foi enredar ao meu avô:
— Vovô, o Arievaldo está rasgando os sacos de algodão com um canivete!
— Que história é essa, menina?
— Venha ver! Está bem ali...
Só me lembro de ter visto o seu dedinho magro me apontando e a cara de raiva do meu avô. O velho se aproximou com um chicote na mão. Ou seria um chinelo? Não lembro direito qual o instrumento usado no castigo. Sei que além de um baita carão ainda levei umas boas lapadas. Fiquei muito ressentido. Era a primeira vez que ele me batia e quase não calo mais o par de queixos, num choro contínuo e magoado. Minha tia Augediva, como sempre, tomou as minhas dores e foi me consolar.
 Adormeci. No outro dia amanheci ardendo em febre e com manchas pelo corpo. Meu avô, muito arrependido, ficou tomado de remorsos e veio falar comigo, de maneira branda e afetuosa. Vendo o meu estado de saúde e querendo me agradar, despachou, incontinenti, um portador para São José da Macaóca, a fim de comprar um medicamento para febre, uma grade de Guaraná Champagne e uma lata de biscoito Cream Craker. Essa era a dieta daquele tempo. Um luxo! Embora que o doente não estivesse disposto a regalar-se com ela, porque a minha febre também veio seguida de vômito. Minha avó, ao examinar-me horas depois, constatou que eu estava com sarampo. Ou seja, a doença não fora motivada pela surra, o que deve ter aliviado bastante o remorso de meu avô.

Foram dias terríveis, em que passei o tempo deitado, com as feridas do sarampo incomodando e coçando sem parar, as janelas do quarto fechadas, as febres seguidas de vômito, o vozerio do povo da casa se referindo a mim com uma dose de pena e comiseração:
— Tadinho do bichinho. Além da surra, o diabo deste sarampo. O que será bom para curá-lo?
O tio Zequinha, que apareceu por lá certo dia, deu uma receita que, segundo ele, era infalível. Faria o doente ficar bom em 24 horas.
— E que remédio é esse, tio Zequinha? — Perguntou a titia.
— Um chá de ‘binga’ de cachorro! Você pega um cocô de cachorro já velho e embranquecido pelo sol, ferve na água e dá para ele beber. Vai ficar bom, com certeza!
Se eu não tivesse escutado a conversa, talvez tivesse bebido o tal chá enganado, porém menino tem um ouvido apurado. Sobretudo quando está doente. Quando a minha tia se aproximou fui logo dizendo:
— Tiazinha, pelo amor de Deus não me dê chá de bosta de cachorro! Eu prefiro continuar doente, a beber uma porcaria dessas!
— Mas meu filho, o tio Zequinha garantiu que você vai ficar bom!
— Quero o quê! Faça chá de binga de cachorro para aquele cabra velho, para mim não! Não tomo de jeito nenhum!
A partir de então passei a vigiar toda e qualquer bebida que me davam. Até o guaraná eu colocava contra a luz para ver se havia vestígio de cocô de cachorro. Quando minha tia fazia um chá eu me punha ao lado dela, à beira do fogão de lenha, observando atentamente os ingredientes que eram colocados. Ela veio com um pozinho branco triturado num vidro, cujo rótulo estava escrito “Flor de Sabugueiro”. Pedi o tal vidro para cheirar e ela começou a rir:
— Meu filho, deixe de ser desconfiado. Tá vendo que eu não vou lhe dar chá de cocô de cachorro? Isso é sabugueiro, tome que você vai ficar bom.
Tomei e serviu. Dias depois estava brincando lépido e fagueiro pelos terreiros, tomando o restinho do guaraná que havia sobrado. Nesse tempo não havia geladeira nas fazendas do sertão. Esfriava-se o guaraná no pé do pote ou dentro do tanque da cozinha. E até hoje ainda não pude saber se o tal pozinho branco era mesmo sabugueiro ou binga de cachorro.


(Arievaldo Vianna – O Livro das Crônicas: II Volume de Memórias)


Chá de Sabugueiro

sábado, 11 de fevereiro de 2017

POEMA DE PATATIVA DO ASSARÉ


Aposentadoria do Mané Riachão
 Patativa do Assaré



Seu moço, fique ciente
de tudo que eu vou contar:
Sou um pobre penitente
nasci no dia do azar;
por capricho eu vim ao mundo
perto de um riacho fundo
no mais feio grutião.
E como ali fui nascido,
fiquei sendo conhecido
por Mané do Riachão.

Passei a vida penando
no mais cruel padecê,
como tratô trabaiando
pro felizardo comê.
a minha sorte é torcida,
pra melhorá minha vida
já rezei e fiz promessa,
mas isto tudo é tolice.
Uma cigana me disse
que eu nasci foi de travessa.

Sofrendo grande canseira
virei bola de bilhá.
Trabalhando na carreira
daqui pra ali e pra acolá,
fui um eterno criado
sempre fazendo mandado,
ajudando aos home rico.
Eu andei de grau em grau,
tal e qual o pica-pau
caçando broca em angico.

Sempre entrando pelo cano
e sem podê trabalhá,
com sessenta e sete ano
procurei me aposentá.
Fui batê lá no escritório,
porém de nada valeu.
Veja o que foi, cidadão,
que aquele tabelião
achou de falá pra eu.

Me disse aquele escrivão
franzindo o couro da testa:
- Seu Mané do Riachão,
estes seus papéis não presta.
Isto aqui não vale nada,
quem fez esta papelada
era um cara vagabundo.
Pra fazê seu aposento,
tem que trazê documento
lá do começo do mundo.

E me disse que só dava
pra fazê meu aposento
com coisa que eu só achava
no Antigo Testamento.
Eu que tava prezenteiro
mode recebê dinheiro,
me disse aquele escrivão
que precisava dos nome
e também dos sobrenome
de Eva e seu marido Adão.

E além da identidade
de Eva e seu marido Adão,
nome da universidade
onde estudou Salomão.
Com outroas coisa custosa,
bem custosa e cabulosa,
que neste mundo revela
a Escritura Sagrada:
quatro dente da queixada
que Sansão brigou com ela.

Com manobra e mais manobra
pra podê me aposentá,
levá o nome da cobra
que mandou Eva pecá.
E além de tanto fuxico,
o regristro e o currico
de Nabucodonosô,
dizê onde ele morreu,
onde foi que ele nasceu
e onde se batizô.

Veja moço, que novela,
veja que grande caipora
e a pió de todas ela
o sinhô vai vê agora.
Para que eu me aposentasse,
disse que também levasse
terra de cada cratera
dos vulcão do estrangeiro
e o nome do vaqueiro
que amansou a Besta Fera.

Escutei achando ruim
com a paciência fraca,
e ele oiando pra mim
com os óio de jararaca.
Disse: - A coisa aqui é braba
precisa que você saiba
que eu aqui sou o escrivão.
Ou essas coisa apresenta,
ou você não se aposenta,
Seu Mané do Riachão.

Veja, moço, o grande horrô,
sei que vou morrê depressa,
bem que a cigana falou
que eu nasci foi de travessa.
Cheio de necessidade,
vou vivê de caridade.
Uma esmola, cidadão!
Lhe peço no Santo nome,
não deixe morrê de fome,
o Mané do Riachão.




Antônio Gonçalves da Silva, dito Patativa do Assaré, nasceu a 5 de março de 1909 na Serra de Santana, pequena propriedade rural, no município de Assaré, no Sul do Ceará. Foi o segundo filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva. Foi casado com Dona Belinha, de cujo consórcio nasceram nove filhos. Publicou “Inspiração Nordestina”, em 1956, “Cantos de Patativa”, em 1966, “Cante lá que eu canto cá” e “Ispinho e Fulô”. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados Patativa do Assaré. Publicou ainda cerca de 20 folhetos de cordel , além de poemas publicados em revistas e jornais.