terça-feira, 6 de dezembro de 2016

APRENDA FAZENDO...

O Rabicho da Geralda é um dos textos mais antigos do romanceiro popular nordestino e foi construído em quadras. O ladrão besta e sabido utiliza o esquema da "embolada" e O romance da princesa do Reino do Mar Sem Fim foi escrito em sextilhas.

PEQUENA AULA DE CORDEL E CANTORIA
(PARA PRINCIPIANTES)

Tenho percorrido esse Brasil de ponta a ponta ministrando palestras, oficinas e apresentando recitais de cordel. Por onde passo muitas pessoas demonstram interesse em aprender um pouco sobre essa arte. Fiz uma síntese de tudo, em poucas pinceladas, para principiantes. Os versos aqui apresentados são de autoria do poeta Valentim Cordeiro Brabo.

A quadra é o princípio de tudo. A gênesis da poesia. Geralmente são quatro versos de sete sílabas, rimando o primeiro com o terceiro e segundo com o quarto, vejamos...

QUADRA:

Você que bateu panelas
Dando patada e esturro
Veja as terríveis sequelas
E reconheça que é BURRO!



Acrescentando mais dois versos, no estilo que chamam XAXAXA (Ou seja, apenas os versos pares rimam entre si) teremos uma sextilha.

SEXTILHA:

Não pego em lâmina de faca
Nem mato cobra de murro...
Você que bateu panelas,
Dando patada e esturro,
Resolva a sua cagada,
Para deixar de ser BURRO!

Para se construir a setilha, em redondilha maior (verso de sete sílabas), rima-se assim: ABCBDDB (ou seja, o primeiro e terceiro verso não rimam, o segundo rima com o quarto e com o sétimo, enquanto o quinto e o sexto rimam entre si).

SETILHA:

SÉRGIO MACHADO não é
O autor de DOM CASMURRO:
Você que bateu panelas,
Dando patada e esturro,
Perdeu a sua caçada...
Resolva a sua cagada,
Para deixar de ser BURRO!

Um mote em dez pés (ou dez linhas) apresenta a seguinte estrutura.

MOTE:
“PEIDANDO NA RABICHOLA
ANTES DA CILHA APERTAR"


GLOSAS:

Esta cilha, na verdade,
Aperta o bucho do pobre...
Todo dia se descobre
Vigarista em quantidade!
Muitos roubam em liberdade...
Besta é quem vai protestar;
Não sabem em quem atirar,
São cavalinhos de OLA,
PEIDANDO NA RABICHOLA
ANTES DA CILHA APERTAR"



Variação sobre o mesmo MOTE:

Tenho coragem de sobra
Pra defender meus direitos
Que agora estão sujeitos
Nas garras da PEC COBRA!
Não sou massa de manobra
Pois sei raciocinar;
Se a grande MÍDIA apoiar
Não entra em minha cachola!
Não peido na rabichola
ANTES DA CILHA APERTAR.

(Versos de Valentim Cordeiro Brabo)




domingo, 27 de novembro de 2016

HISTÓRIAS DE PAPAGAIO - PARTE III



ICÓ, A TERRA DO LOURO

Em março de 1991, a comunidade de Vila Campos, município de Canindé, foi cenário de um especial da Rede Globo de Televisão, exibido com o título de “Os homens querem paz” em abril do mesmo ano. Quem comandava a equipe de filmagens era a produtora Maria Alice, cearense do Icó. O Zerivaldo Secundino, um gozador de peso e medida, ao saber que a moça era natural do Icó foi logo soltando uma das suas:

Ai vai? É da “Terra do Louro”?!

A mulher fechou a cara e parece não haver gostado nem pouco da brincadeira. Eu que sempre fui curioso por esse tipo de assunto fui logo me aproximando do Zerivaldo e perguntando a origem desse epíteto dado ao município cearense. Ele me contou a história de um louro que foi salvo de uma enchente no Icó e ao saber onde se encontrava, protestou que queria continuar a descer de rio abaixo.


* * *

Icó é conhecida como a Terra do Louro. Essa denominação parece ter origem na antiga rivalidade entre Aracati e Icó. Nos primórdios da colonização do Ceará as duas vilas eram os polos mais importantes da Província do Siará Grande, como “Vilas de Brancos” nos Séculos XVIII e XIX.
Dentre as versões sobre a famosa história do louro, a que busca raízes históricas é que à época do Brasil Colônia, os periquitos, chamados de Louros eram uma verdadeira praga, devorando todas as plantações e lavouras. Foi então baixado um Alvará Régio ou alguma Portaria da Capitania do Ceará, autorizando a dizimação das aves (papagaios, periquitos e afins). As cabeças dos louros deveriam ser apresentadas, em atilho, ocasionalmente à autoridade para pagamento. Conta-se que o Icó bateu o record. Daí ter sido chamada "Terra do Louro". Lembro-me de ter lido algo a respeito numa obra de João Brígido ou nas Memórias do professor Manuel Ximenes Aragão, publicadas na Revista do Instituto Histórico do Ceará.
A outra versão mais conhecida e a mais antiga, narra que por ocasião de uma enchente, daquelas que deixam o Rio Salgado caudaloso, descia um papagaio falante e aos gritos “Salve-me, Acudam-me”. Ao chegar à ribeira dos icós, foi resgatado pelos icoenses aflitos com o destino do papagaio. O bichinho, então resgatado das águas perguntou:
Que terra é esta, meu povo?
É o Icó, meu Louro! Responderam os seus salvadores.
O Louro balançou a cabeça em visível desalento e foi logo dizendo:
Puxa vida! Era só o que me faltava! Me joguem de volta na enchente, que nessa terra eu não fico nem amarrado!

Segundo um texto publicado no blog Icó na Rede (http://iconarede.blogspot.com.br/), antigamente essa pilhéria enfurecia o povo do Icó, era motivo de contendas, brigas e olhe lá, até bala... Essa última versão é mais conhecida e hoje se conta por ai, Brasil afora, quando se fala do Icó. Mas longe das rixas antigas o icoense também ri dela e tornou o papagaio seu maior símbolo.



O CARREIRO E O PAPAGAIO
                                      
  Monteiro Lobato



 Vinha um carreiro à frente dos bois, cantarolando pela estrada sem fim. Estrada de lama.
Em certo ponto o carro atolou.
O pobre homem aguilhoa os bois, dá pancadas, grita; nada consegue e põe-se a lamentar a sorte.
Desgraçado que sou! Que fazer agora, sozinho neste deserto? Se ao menos São Benedito tivesse dó de mim e me ajudasse…
Um papagaio escondido entre as folhas condoeu-se dele e, imitando a voz do santo, começou a falar:
  Os céus te ouviram, amigo, e Benedito em pessoa aqui está para o ajutório que pedes.
O carreiro, num assombro, exclama:
Obrigado meu santo! Mas onde estás que não te vejo? 
 Ao teu lado. Não me vês porque sou invisível. Mas, vamos, faze o que mando. Toma da enxada e cava aqui. Isso. Agora a mesma coisa do outro lado. Isso. Agora vais cortar uns ramos e estivar o sulco aberto. Isso. Agora vais aguilhoar os bois.
O carreiro fez tudo como o papagaio mandou e com grande alegria viu desatolar-se o carro.
Obrigado, meu santo! Exclamou ele de mãos postas. Nunca me hei de esquecer do grande socorro prestado, pois sem ele eu ficaria aqui toda a vida.
O papagaio achou muita graça na ingenuidade do homem e papagueou, como despedida, um velho rifão popular: “Ajuda-te, que o céu te ajudará .”


terça-feira, 22 de novembro de 2016

HISTÓRIAS DE PAPAGAIO - PARTE II



Nossa postagem "Histórias de Papagaio" (http://maladeromances.blogspot.com.br/2016/11/historias-de-papagaio.html) foi um sucesso! Mais de 500 visualizações. Atendendo a frequentes pedidos de nossos leitores, publico mais duas histórias da série. A primeira delas escrita pelo irreverente José Augusto Moita, que adora narrar as peripécias do nosso PAULIM. O outro episódio vem dos cafundós da Bahia e me foi repassado pelo amigo José Walter Pires. Vamos aos causos...


PAULIM E O PAPAGAIO QUE
MANTINHA O DIÁLOGO

Eu não sei se já falei prá vocês, mas é que quando Paulim fez a Primeira Comunhão como prova a bela fotografia abaixo pediu a seu avô, homem rude e sério do alto Jaguaribe, de presente um papagaio.

Seu Paulão, homem experiente e sabedor do perigo que uma criança inocente corre nas mãos de um papagaio mal educado, tentou mostrar ao seu netinho que um papagaio não era um bom presente para um infante recém-entregue à Eucaristia Cristã. Mas foi convencido por Paulim que não haveria perigo algum em sua amizade com uma ave falante, posto que até lhe ajudaria nas orações diárias, já que seu principal intento era ensiná-lo todas as orações aprendidas no Catecismo.
Já pensou, Vovô, o Alfredim nome com o qual estava pensando em batizar a desejada ave rezando comigo, ajoelhadinho, as orações matinais?

Meu netinho Paulim, papagaio é bicho safado, diz muita coisa que não presta. Retrucava o velho, tentando demover da mente do candidato a anjo, presente tão insólito.
Para encurtar a conversa o velho mandou que Paulim fosse na casa de pássaros e se inteirasse sobre a aquisição do Alfredim. Soubesse sobre preço, licença no órgão competente, vacinas, e, principalmente, se já falava, que seria o mais importante. Pois, dependendo do vocabulário do dito cujo, entraria ou não na residência dos Costa.
O moço da casa de pássaros começou a mostrar a Paulim os papagaios que estavam rigorosamente expostos em ordem de destreza vernacular e preço. Nesta ordem, o que estava colocado no início da loja, custando apenas R$ 50,00, não falava porra nenhuma. Já o de quinhentos reais, dizia algumas tolices, tipo Ilari lari iêê Oh Oh Oh!. O de mil era um papagaio com cara de professor de português, falava tudo. Mas tinha um muito especial, que só sairia da loja com quem desembolsasse a exorbitante quantia de dez mil reais.
Mas moço, por que esse papagaio é tão caro.? Perguntou o inocentezinho Paulim.
Meu jovem, esse papagaio é muito especial, ele sabe conversar, mantém o diálogo. Quer ver? Fique conversando com ele aí enquanto eu atendo outro cliente que vai comprar alpiste pras rolinhas.
Paulim ficou maravilhado ao conversar com um pássaro tão esperto. Falaram sobre as aulas do Paulim, os coleguinhas, as brincadeiras com os garotos de sua rua, as férias na fazenda do Vovô Paulão, uma conversa animada e educada. Mas, prezadas leitoras e leitores, o instinto papagaísta sempre bate mais forte, e lá pras tantas da conversa o papagaio perguntou ao Paulim se ele já tinha queimado o carretel nas brincadeiras de esconde-esconde com os coleguinhas. Minhas amigas e amigos, aquilo traumatizou tanto nosso infante recém-entregue às Ordem Religiosas, que saiu correndo, aos prantos, em direção à sua casa, trancando-se no quarto sem querer conversa com ninguém.
Vovô Paulão, homem passado na casca do alho, viu logo que aquele chororô do netinho tinha alguma coisa com a negociação que fora fazer na casa de pássaros. Começou a conversar devagarinho com a vítima até descobrir a indecência praticada pelo infame louro. E prometeu que aquilo não iria ficar por menos, àquele imoral seria ensinado bons modos. Armou-se de trinta e oito e foi tomar satisfações com o fela da gaita conversador.
Chegando na loja o proprietário começou a ladainha de sempre: 
— Esse custa cinquenta, mas não fala nada. Este, de quinhentos...
...Não, não, não. Eu quero saber é do que vale dez mil, o que mantém o diálogo. Interrompeu o vendedor, Vovô Paulão.
Depois de ter sido deixado só, no fundo da loja, com o dialogador, começa um amistoso papo entre os dois. O papagaio perguntou sobre a fazenda, se tinha chovido bem, como estava o gado, o nome do vaqueiro, se o açude tinha tomado água, pêpêpê pápápá, e tome conversa. Até que o velho lembrou-se do motivo real de sua ida à loja.
Rapaz, você é muito conversadorzim, né? Comigo fica conversando coisa séria, mas com crianças fica com indecência. Cê num vai me perguntar sobre o carretel, não?
O papagaio apontou para o que estava na frente da loja e disse:
Cidadão, essa conversa de carretel de véi é com o de cinquenta que tá lá na frente. Sou nem proctologista, pra querer saber de fiofó de véi!

José Augusto Moita


***


MAIS UMA HISTÓRIA DE PAPAGAIO
“ME ACODE, ZEZINHO”


Ouvi esta história em minha terra natal, Ituaçu, mas omitindo as referências nominais, vou recontá-la como registro de mais uma das peripécias de papagaios, que povoaram e enriqueceram o nosso anedotário popular, muitas das quais já reunidas pelo poeta, cronista e pesquisador cearense Arievaldo Viana.

Aí pelos idos dos anos cinquenta, uma ilustre Senhora viera do Rio de Janeiro para Salvador e, em seguida, para um lugarejo, na encosta da Serra do Sincorá, chamado Triunfo, em visita aos parentes e, naturalmente, matar as saudades de todos.

Após uma longa viagem, em um dos trens da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro, entretanto, bucólica, desembarcou na estaçãozinha, em Sincorá, daí, sendo levada até à casa dos seus familiares, onde fora recebida com grande festa, reunindo parentes, aderentes, compadres, parteiras, serviçais e curiosos, aos costumes do sertão.

Um verdadeiro acontecimento naquele lugarejo, que só uma vez por outra recebia visitas dos parentes mais distantes. Outras notícias e correspondências só chegavam pelos trens ou pelo Correio, em malas trazidas a lombos de burros, e entregues no pequeno Posto, de onde eram distribuídas, pelo Agente, aos destinatários. No mais tudo era feito por positivos, pessoas de confiança para esses encargos.
O casarão estava repleto. Abraços, risos, mesa farta, presentes, espanto diante dos membros desconhecidos da família e o bate papo em cada canto da casa. Quantas novidades! Uma contagiante alegria.
Tudo aquilo era observado por um papagaio que, do seu poleiro, não parava de tagarelar, cantar, chamar pelo nome as pessoas da casa, gargalhar à imitação do que ouvia, sem parar de rodopiar, dar cambalhotas e a responder perguntas dos circunstantes, sem se fazer de rogado com toda aquela barulheira. Aliás, virou uma atração, à parte.
A visitante ficou encantada com o que via e ouvia. Uma admiração imensa pelo Louro, como se fosse um membro da família. Nos dias seguintes, a mesma coisa. Nem bem raiava o dia, ele já papagaiava, gritando pelos meninos, cantarolando, dando o pé para quem pedia, enfim, recebendo carinhos de todos. Ela não cansava de elogiar e, o que foi pior, expressou o seu desejo de levar aquele papagaio para o Rio de Janeiro. Pronto. Foi o bastante para a tristeza tomar conta da casa.
— Minha irmã, não importa quanto vai custar; quero levar esse papagaio para mim; diga quanto é; vai ser um sucesso, quando chegar lá no Rio.
Sem saber como desvencilhar-se daquele assédio, a dona do papagaio de estimação, com o coração apertado, respondeu:
— Não custa nada, não!  Você pode levar de presente!
A visitante pulou de alegria. Mas, de repente, parecia que alguém tinha morrido ali. O papagaio era a paixão de todos. Não poderia ser levado.
Dia do retorno. A decisão foi mantida muito a contragosto. Acomodaram o papagaio em um pequena gaiola, e ele emudeceu, inteiramente. Durante a viagem de trem, até Salvador, nem uma palavra. Permanecia encolhido, em silêncio, apesar dos insistentes estímulos. Ele se acostumaria! – pensava a nova dona.
Chegando em Salvador, outro ritual. Como leva-lo para o Rio, no Avião. Certamente, não seria permitido. Substituíram a gaiola por uma caixa, arrumaram como se fosse um presente, abriram uns buraquinhos de lado, tudo com o fito do disfarce no momento do embarque.  Isso aconteceu. Ufa! Que alívio! Não foi percebido. Embarque tranquilo. Ela com a caixa no colo. De vez em quando uma sacudidela. Um sussurro com o papagaio. Nada. Ela o olhava pelos buraquinhos da caixa, disfarçadamente. Ele estava vivo, só um pouco triste. Isso era natural. Enquanto a viagem foi por cima do mar, sem oscilações tudo bem.  A aeronave, ainda pequena, trepidava com as turbulências, mais nada demais. Mas ela sentia que o papagaio se inquietava na caixa. As turbulências aumentaram. De repente um vácuo e, em seguida, ouviu-se, vindo da caixa:
— Uiiiiiiii!
Mais outro,
— Uiiiiiiiiiiiiii!
Outro mais longo e sofrido:
— Uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
As pessoas começaram a entreolhar-se, curiosas com aqueles gemidos. Procurando contê-los, a Senhora sacudia a caixa, mudava de posição, pedia silêncio ao papagaio. De repente outro vácuo, com mais intensidade. A aeronave deu uma forte despencada. Aterrissagem. E de dentro da caixa, uma gritaria:
— Me acode, Zezinho! ... Me acode, Zezinho! ... Me acode, Zezinho! ...
Zezinho era um dos meninos da casa. Após o pouso, ela explicou aos demais passageiros o que estava acontecendo e abriu a caixa, mostrando o papagaio, arrepiado e tremendo que só vara verde, encolhido em um dos cantos. Desembarque feliz.

José Walter Pires

Novembro/2016

LEIA TAMBÉM: http://maladeromances.blogspot.com.br/2016/11/historias-de-papagaio.html

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

CONTOS DO POLICARPO

Sempre que vou ao sertão me delicio com as histórias do meu sogro, o Sr. Raimundo Policarpo, um narrador fascinante. Vejamos mais um de seus contos:



A VACA E A ONÇA
Arievaldo Vianna

Quando Jesus e São Pedro peregrinavam pelo mundo passaram certa feita pelos Sertões de Canindé e pediram “arrancho” da casa de uma pobre velhinha que vivia na companhia de três crianças, órfãs de sua única filha, que havia morrido de parto do mais novo. A velha lutava com grande dificuldade para criar os netos, cultivando um pequeno roçado e mantendo umas poucas criações de terreiro.
A velha acomodou os viajantes e lhes serviu um pouco da comida que lhe restava. De manhã, São Pedro impressionado com a pobreza da casa e penalizado com a situação das crianças pediu ao Mestre que a recompensasse.
O Divino Mestre perguntou à velha qual a coisa que ela mais desejava e a pobre respondeu:
Senhor, eu queria uma vaquinha leiteira, para alimentar essas crianças. Se sobrar algum leite, eu faço queijo, nata, manteiga e podemos passar muito bem.
Jesus pegou o seu cajado e tocou levemente na parede de taipa da casa. Abriu-se uma brecha repentinamente e dela saiu uma linda vaca holandesa, acompanhada de um bezerrinho. A velha ficou morta de satisfeita com o presente.
Quando Jesus e seu companheiro se afastaram a velha percebeu que o Mestre havia esquecido o seu bordão, mas não disse nada. Invés de gritar pelos viajantes, esperou que se afastassem e tocou com o cajado na parede, pedindo outra vaca. Por desconto de pecados, não apareceu outra vaca e sim uma enorme onça pintada que devorou a vaca e o bezerro da velhinha e sumiu misteriosamente em seguida, pela mesma brecha da parede.
A velha arrependida correu atrás dos viajantes para devolver o cajado e por sorte encontrou Jesus e São Pedro descansando sob um frondoso pé de oiticica. A velhinha arrependida contou o que sucedera e o Mestre, depois de censurar a sua cobiça, lhe presenteou com outra vaca, tão bonita quanto a primeira.


(De Os contos do Policarpo)

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O SILÊNCIO DA NATUREZA



Um mote sugerido pelo poeta MUNDIM DO VALE:


Se eu pedir à NATUREZA que se cale
Um segundo pra cantar o meu poema
Ela sabe que o sertão será meu tema
Como disse em cordel Mundim do Vale.
Na certeza fiel ninguém me abale
Quando ponho meu olhar na amplidão
Com as cores da cauda do pavão
Colorindo esse lindo itinerário

O POETA PINTA UM QUADRO IMAGINÁRIO
COM AS CORES E PAISAGENS DO SERTÃO.

(Arievaldo Vianna)

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O PAVÃO MISTERIOSO - RELEITURA

AVOA, IMAGINAÇÃO!


Traduzido em cenas e canções, “O Romance do Pavão Mysterioso”
ganha agora versão infantil

Malino que nem menino, o poeta popular Arievaldo Viana inventara de atirar pedra em enxame. Meteu-se em briga de cachorro grande o cearense de Quixeramobim. É que, embora publicado há mais de 80 anos, o folheto “O Romance do Pavão Mysterioso” rende debates acalorados ainda hoje. De autoria do paraibano José Camelo de Melo Resende, o cordel acabou sendo impresso pela primeira vez levando a assinatura de um outro autor: o também paraibano João Melchíades Ferreira da Silva.
“O José Camelo inventou a história do Pavão para ser cantada. Criou uma melodia até, mas não chegou a imprimir. Aí, o João Melchíades teve acesso ao original e fez uma versão. Na época o José Camelo tinha umas complicações com a polícia e não pôde reclamar seus direitos, mas depois publicou seus originais e meteu o pau no João Melchíades. Resultado: essa confusão continua rendendo”, comenta Arievaldo Viana. Não bastasse o engodo já tradicional, o cearense pôs na veneta de incrementar a polêmica ainda mais ao apresentar à meninada o causo de amor do jovem Evangelista e a condessa Creusa.
Jô Oliveira e Arievaldo Vianna - parceria em mais de 10 livros

“O primeiro ‘O Romance do Pavão Mysterioso’ que conheci na vida foi o do João Melchíades. Devo esse crédito a ele. Sei que o original é do José Camelo, mas, na verdade, não sigo o estilo de nem um nem outro”, destaca o autor. De parelha com o ilustrador pernambucano Jô Oliveira, Arievaldo Viana apresenta a seus leitores miúdos uma narrativa nova. “A história continua atrativa. O José Camelo foi um visionário. O cordel tem um pé na ficção científica que o deixa atual. O Pavão é uma maleta que se aciona com um botão e vira um helicóptero. Então, as crianças embarcam na fantasia facilmente. O que mudei foi só a linguagem. Reduzi a quantidade de texto e inclui novos personagens”, pontua. Com isso, a trama inaugural ganhara mais agilidade e um formato mais didático. As letras de Arievaldo Viana têm a sala de aula como foco.

“Minha alfabetização foi feita com a coleção de cordéis da minha avó. Acredito na força formativa da literatura de cordel. Não há criança que resista à fantasia”, argumenta o poeta popular. Amigos pra mais de 10 anos, Arievaldo Viana e Jô Oliveira desenvolveram “O Romance do Pavão Misterioso” a quatro mãos. Também afeito aos pincéis e tintas, o cearense fora apresentado ao pernambucano pela trama de José Camelo de Melo Resende. “Logo de cara, ele me falou do projeto de fazer uma versão em quadrinhos do folheto. A idéia acabou se transformando numa série de selos para os Correios que foi até premiada no exterior”, lembra Arievaldo Viana. “Passamos anos sem nos encontrar. Em 2003, topei ao acaso com o Jô e ele me falou que tinha publicado uma adaptação em prosa do romance, mas que não tinha gostado do resultado. Então, me propôs que eu passasse aquele texto de volta ao formato do verso, à poesia”, explica o processo.
O desafio estava lançado. O que nasceu no universo da oralidade e encontrou abrigo nas páginas fez-se imagens para retornar uma vez mais ao plano da literatura. “Baseei a minha releitura mais pelos desenhos do Jô do que pelos versos que conheço desde menino. As ilustrações já carregavam nelas uma certa adaptação. O Jô, por exemplo, muda o nome do inventor do Pavão. Eu aceitei essa mudança, rompendo com o original do José Camelo. Também o Jô ressalta mais uma dimensão nordestina da trama”, pontua Arievaldo Viana.
De 1923, quando chegou ao papel pela primeira vez, ao século XXI, “O Romance do Pavão Mysterioso” continua sendo um belo incentivo ao engenho. “É uma história que prova que a invenção é capaz de tudo. Não há força, não há arma, não há poder que seja capaz de vencer uma boa idéia”, resume o poeta cearense, agora mais encantado que nunca com a narrativa. Arievaldo Viana acredita que aí esteja o motivo maior de explorar o folheto com estudantes das séries iniciais. “É um período no qual a formação pede esse tipo de estímulo. A questão é apenas de favorecer o acesso. Até hoje, nunca encontrei um menino que não se interessasse por literatura de cordel”, observa. Avoa, imaginação. Avoa.

Magela Lima  Repórter  POESIA
Publicado em 6 de maio de 2008 - Caderno 3 - DN


"O Pavão Misterioso"
30 páginas - 2007 - Editora Imeph

Arievaldo Viana e Jô Oliveira

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

HISTÓRIAS DE PAPAGAIO




Mestre Moreira Campos assegura que os cães vêem coisas, mas eu, particularmente, prefiro os papagaios como bichos de estimação. Metido em sua casaca verde e amarela - "padrão nacioná" - um louro falador alegra a mais sorumbática residência. Não é à tôa que Walt Disney em visita ao Brasil na década de 40, criou o malandro verde Zé Carioca como autêntico representante da ginga tupiniquim. Sempre foi moda contar piada de papagaio aqui no Brasil e isso influenciou Disney em sua escolha. Uma segunda versão da história dá conta de que o cartunista cearense Luís Sá já havia realizado alguns desenhos animados cujo personagem principal era um papagaio, antes que o  americano por aqui aportasse. As fitas de Luiz Sá foram  apreendidas pelo departamento de propaganda da Ditadura Vargas, que preferia a política "chiclete com banana". Alegaram para tanto, que iriam retirar a prata dos filmes como "economia de guerra".
O poeta Geraldo Amâncio, em suas andanças pelo interior da Paraíba, encontrou na cidade de Sapé um velho contador de causos, sujeito cheio de parolas e pabulagem, que tinha o hábito de gabar desmesuradamente tudo que lhe pertencia. Falando de um jipe que possuíra, dizia o seguinte:
Poeta, o bicho era um 59, quatro portas, mas era tão novo, mas tão novo, que a pintura parecia um prato de ágata que um cachorro acabou de lamber!
Geraldo, disfarçando o ar de riso, avistou um papagaio sonolento encarapitado em cima de um poleiro e perguntou:
— E esse louro, ‘seu’ Zé, é falador?
— Quem? Este louro? É quem tira as novenas do mês de maio por aqui...

* * *



O PAPAGAIO DA TEREZA

Mas já que o assunto é papagaio, passo a falar agora do mais pitoresco que já conhecí. Ir ao CASTRO (Pequena povoação do Município de Madalena) e não conhecer o papagaio da Tereza, genitora do vereador Aroaldo Martins, é como ir à Roma e não ver o Papa. Desde que me entendo por gente no mundo, que ouço falar das peripécias do "louro" da Tereza. O bicho é mais velho do que a Serra da Borborema e fala mais do que pobre na chuva. Uma de suas qualidades é imitar o locutor esportivo Gomes Farias:
Tá chovendo nas coivaras... tome bola Cearááááá!"
De tão velho, o louro já nem voa mais. Foi por isso que uma ausência mais prolongada deixou a casa da Tereza em polvorosa.
Três dias após o sumiço do "louro" fujão, Tereza varria o terreiro ao amanhecer, quando lá se vem aquele bicho de paletó verde, subindo um alto morto de cansado. De maneira afetuosa mas repreensiva (como mãe, quando se dirige ao filho) Tereza indagou:
Por onde você andava, meu Louro?
Na baixa da égua. Sou solteiro e faço o que eu quero! - Respondeu  a ave desaforada.
  (De “O Baú da Gaiatice”)


O LOURO DO ZÉ ANTÔNIO


José Carvalho de Brito, o Cariri Braúna da Padaria Espiritual, em seu livro “O matuto cearense e o caboclo do Pará” narra deliciosas anedotas de papagaio, uma delas bem pitoresca, que apresentamos a seguir.
No interior do Ceará, o caboclo Zé Antônio vivia se mudando tal e qual um cigano. Passava tempos num lugar, abusava e partia em busca de novo rancho. Sua mobília composta de potes, tamboretes, panelas e outros cacarecos era arrumada em dois caçuás e posta no lombo de um cavalo magro. No topo da carga ele empoleirava o seu papagaio falador e saía tangendo o animal munido de um bom chiqueirador, daqueles ponta de linha. De vez em quando, o cavalo velho fracassava o choto e o Zé Antônio estalava a macaca por cima da carga, a fim de alertar o passo do seu Rocinante. O problema é que toda vez que a linha do chiqueirador estalava, pegava o pobre do louro que não aguentava mais a situação e resolveu descer da carga, em voo meio atrapalhado e continuou seguindo o comboio a pé, pela beira da estrada.
O sol estava a pino, o papagaio morto de cansado e o Zé Antônio penalizado resolveu colocá-lo novamente em cima da carga:
Venha cá, meu louro! Dá o pé!
Muito obrigado, ‘seu’ Zé Antônio! Muito obrigado, mas eu prefiro ir a pé mesmo! Respondeu a pobre ave.


OS PAPAGAIOS DO TONICO


Em 1921 Gustavo Barroso lançou um delicioso livro de contos pela Companhia Editora de Monteiro Lobato, do qual existe apenas essa única edição. Trata-se de “Casa de marimbondos”, volume raríssimo nos dias atuais, com 160 páginas onde prevalece o anedotário do sertão cearense.
Diz o renomado escritor cearense que nas ribeiras do Quixeramobim morava um tal Antônio Fernandes do Nascimento que atendia pela alcunha de Tonico, caçador, criador e vendedor de papagaios, conhecido em toda a região por suas histórias mirabolantes de papagaios faladores e cães treinados no ofício da caça.
Em conversa com um compadre de sua estima, saiu-se com esta:
Compadre da minha alma, eu andava de viagem pelo sertão, montado numa bestinha castanha, estradeira, que foi do finado Misael do Saco da Velha. Nosso Senhor não me deixe mentir!
Já o sol ia alto, quando passei por uma coroa fechada, onde havia, beirando a vereda, uma porção de paus-brancos secos. Em cima de um dos paus, num oco, remexia qualquer coisa que eu bem senti ao chegar perto.”
De fato era um casal de filhotes de papagaio, ainda implumes. Um macho e uma fêmea. Tonico pegou o macho com o maior cuidado, desceu com ele na palma da mão e o depositou perto da besta que pastava. Quando foi subir para buscar a fêmea ouviu uma vozinha de criança, fraca e fanhosa a lhe dizer:
Meu senhorzinho, tire essa bestinha daqui, senão ela me pisa!
Deixemos o próprio Tonico, através da pena magistral de Gustavo Barroso, concluir o seu relato:
Olhei espantado: era o papagainho que estava falando. E eu vi logo que ele ia ser muito falador.
Levei os dois para casa. A papagainha morreu logo, mas o machinho se criou e ganhou fama. Foi o papagaio mais falador que já houve no sertão. Sabia, em latim, a ladainha de Nossa Senhora e o responso de Santo Antônio, de cór. E nunca houve “chama” melhor.
Soltava-o, de manhã, na gameleira grande do terreiro. Quando passavam bandos de papagaios rumo do sertão, no inverno, buscando as praias no verão ele os chamava gritando. Os bandos vinham, esvoaçando em torno da árvore, pousavam. Então, me aproximava com a espingarda, fazia cuidadosamente a minha pontaria e zás! Traz! Papocava fogo. Dois ou três dos mais gordos comiam terra. Jantava-os com arroz.
Uma feita, ia passando um grande bando, pus o bichinho na gameleira, fui buscar a espingarda e esperei. Ele chamou. Os outros vieram meio desconfiados e pousaram muito pertinho do meu “chama”, de maneira que fiquei hesitando em atirar, com receio de feri-lo. Estava sem saber o que fazer, quando ele gritou lá de cima:
Atira, Tonico, que eles já estão falando em ir embora!
Não tive mais dúvidas. Mandei chumbo num casal de papagaios gordos, mais distanciados. Ambos caíram; mas (aí o compadre Tonico chorava), coitadinho do meu filhinho! Um caroço de chumbo “variado” pegou-lhe também. Caiu. Corri para ele, que agonizava no chão. Quando me abaixei para levantá-lo, botou a patinha no peito ensanguentado e, com os olhinhos rasos d’água, disse:

Mataste-me, Tonico, mas como sei que não foi por querer, perdoo-te...