segunda-feira, 20 de junho de 2016

ARTES E OFÍCIOS DO SERTÃO


Vista panorâmica da comunidade Saco da Serra (Canindé-CE)

RELEMBRANDO O ANTÔNIO ÂNGELO 
(ANTÕE ANJO)
ARTESÃO E FERREIRO HABILIDOSO

Sandálias de couro, tipo quinaipe, produzidas por artesão nordestino


Serra do Peitão (Foto de Erasmo Sousa)

O ENCANTO DAS SERRAS
E uma curtição à moda antiga

Arievaldo Vianna


Por detrás daquela serra
Passa boi, passa boiada,
Também passa moreninha
Do cabelo cacheado.
(cantiga popular)

Dizem que as serras atraem as chuvas. Desde pequenino eu fiz essa constatação pois as chuvas que banhavam as terras de meu avô vinham sempre das bandas da Serra do Peitão (situada ao nascente) ou dos lados da Serra da Cacimba Nova (situada ao sul). As montanhas também são associadas à caças abundantes, clima mais ameno e nascedouro de fontes, rios e riachos. De modo que as serras me fascinavam e eu tinha uma enorme curiosidade para saber o que havia do outro lado daquelas cordilheiras. Que lugares existiriam depois do lado oculto? Quem os habitava, de que se ocupavam? Às vezes apareciam moradores do Saco da Serra, do Fundão, do Pitanguá e eu perguntava:

— Aonde fica isso?
Vovô apontava e dizia:
— Pros lados da Serra... Do outro lado da serra.

Aquilo aumentava ainda mais a minha curiosidade. No Saco da Serra morava um habilidoso ferreiro, mestre dos sete ofícios, que também curtia sola e trabalhava com ossos e chifres. Era o mestre Antônio Ângelo, grande amigo do meu avô, figura cujo andar se assemelhava ao Sassá Mutema, personagem vivido pelo ator Lima Duarte numa novela global dos anos 80. Visto de longe, o velho parecia um cangaceiro, com um chapéu de couro quebrado na testa e dois bornais de couro a tira-colo, cruzados no peito, sobre a roupa de mescla azul. Gostava de tomar uma bicada e à medida que cachaça surtia efeito, ficava mais falador, dizia chistes e arrematava com seu riso largo a encher toda a bodega. Mas não era inconveniente. Sabia se portar com dignidade, dentro dos limites do respeito e da camaradagem. “Antõe Anjo”, como todos o chamavam, fabricava foices, machados, chibancas, picaretas, dobradiças, armadores, mas sua especialidade eram as facas, para as quais fazia também o cabo e a bainha. Um artesanato de finíssimo acabamento, tudo produto de sua engenhosidade.

Quando vinha fazer compras na bodega do meu avô adquiria sempre uma ou duas latas de soda cáustica para curtir os couros e fabricar a sola de que precisava para confecção de bolsas, chinelos, bornais, patuás e bainhas. Ignoro com quem aprendera tais ofícios. Era um artesão dos mais finos, criativo e bastante curioso, vivendo num ambiente isolado e distante, onde as companhias deviam ser macacos, saguis, passarinhos, raposas e a Prazer. Já ia me esquecendo de informar que a sua companheira se chamava Maria dos Prazeres, mas todos a chamavam simplesmente de “Prazer”.
No meu imaginário de criança, a palavra CURTIR sempre esteve associada a esse curioso personagem. E, por conseguinte, lembro-me incontinenti das latas de soda cáustica da marca “Dragão” que ele comprava para fazer a curtição das peles. Tanto que me causou bastante estranheza quando ouvi um locutor da rádio Difusora Cristal de Quixeramobim dizer o seguinte:
— Caros ouvintes, agora vamos curtir o novo sucesso de Roberto Carlos!
Só me vinha à mente o sujeito mergulhando o LP do Rei, com capa e tudo, num tanque cheio de couros embebidos numa ‘golda’ de tanino e soda cáustica.


Três Irmãos - divisa de Canindé com Madalena

CURTIÇÃO À MODA ANTIGA

Depois que a rês é abatida, o couro é retirado cuidadosamente e espichado em varas até secar. O mesmo processo se repete com ovinos e caprinos e até mesmo com caças do mato, como o veado capoeiro, cujo couro é muito apreciado para o fabrico dos apetrechos do vaqueiro. Depois que o couro seca, retiram-se pelancas e restos de gordura com uma faquinha afiada. Após isso, mergulha-se num tanque com água, tanino e soda cáustica. Nesse processo milenar o artesão faz um curtimento artesanal, usando casca de angico, uma árvore nativa bastante encontrada na caatinga nordestina. A casca da planta é rica em tanino, componente responsável por tingir o couro e deixá-lo bem curtido. Para isso, a casca é quebrada ou triturada e misturada com a água. Durante esse processo, o artesão precisa proteger as mãos, para não sofrer cortes devido a acidez da mistura.

Artefatos de couro - foto TV Morena


Às vezes, o couro fica de molho no angico por uma semana. A soda cáustica ajuda a acelerar esse processo, provocando a queda dos pelos, mas o que dá a cor avermelhada e a maciez é o tanino retirado da casca do angico. Antônio Ângelo, comentando esse processo, dizia ser necessário mexer algumas vezes para o couro não ficar manchado. Depois de uma semana, a sola fica tingida de um tom bem avermelhado. Então, a peça seca na sombra, para não ressecar, e é sovada, etapa necessária para amaciá-la.
Diferentemente de outros meninos da minha idade, eu acompanhava essas conversas com grande interesse, fazendo perguntas um tanto esparçadas e bem suscintas, pois meu avô não gostava de criança se intrometendo na conversa dos adultos. Creio que vem, desde esse tempo, a minha vocação para repórter e escritor.

CRIME AMBIENTAL?

Como já era de se esperar, ambientalistas, professores universitários, defensores do eco-sistema e do bioma da caatinga já começaram a se manifestar e publicar teses contra a extração da casca do angico e outras árvores taníferas da nossa Região. Segundo dizem, “a utilização de cascas de árvores taníferas, prática comum em curtumes tradicionais, compromete a fisiologia da planta quando a casca é retirada de forma anelar, pois impede o fluxo da seiva na árvore, levando-a a morte. O manejo sustentado de plantas taníferas precisa ser realizado de forma que sejam adotadas algumas estratégias para conservação dos recursos pelas comunidades. Iniciativas como extração de tanino das folhas poderiam ser muito menos impactantes nessas populações, já que se observam, em algumas espécies, diferenças não significativas entre os teores de tanino nas cascas e nas folhas. Esses mesmo autores, no entanto, lembram que a coleta preferencial das cascas deve-se a disponibilidade das mesmas durante todo ano, na região semiárida, ao contrário das folhas.” [1]
Que eu saiba o velho Antônio Ângelo não andava depredando a flora nativa do Saco da Serra, Pau D’Arcal e Três Irmãos. Ele sabia retirar parte da casca, sem comprometer a sobrevivência da árvore, que tem capacidade de recomposição. Tanto é que ainda existem vários pés de angico naquela região. Analfabeto e liberto da influência desses doutores das universidades o velho curtidor sabia, por instinto herdado de seus ancestrais afros e indígenas, conviver harmonicamente com a natureza extraindo o que era necessário sem depredar o meio-ambiente.
No meu modo de entender, o desaparecimento desses labores sertanejos é tão preocupante quanto às possíveis agressões ambientais que eles podem desencadear. Acho que as universidades deveriam se preocupar, também, com o registro e a preservação destes ofícios milenares que estão desaparecendo, um a um, vítimas do acelerado processo de industrialização que atinge até mesmo os recantos mais distantes do nosso Sertão.

Cascas de Angico


[1] Fonte: http://www.diadecampo.com.br/zpublisher/materias/Materia.asp?id=31140&secao=Artigos%20Especiais (Data de acesso: 15 de junho de 2016).


Do "LIVRO DAS CRÔNICAS - VOLUME II DE MEMÓRIAS"