segunda-feira, 11 de junho de 2018

CÓDIGOS VISUAIS



ANÁLISE DE UMA XILOGRAVURA
DE ARIEVALDO VIANNA


Entre as várias artes que Arievaldo Vianna executa com destreza está a da xilogravura, e dentre as poucas que conheço existe uma que parece ser o "xodó" do artista. Podemos isso pela aparição dessa gravura em alguns trabalhos do autor e principalmente no papel que ela desempenha no livro “No tempo da Lamparina”. Trata-se da interessante imagem de um cavalo alado sobrevoando três monólitos, sendo montado por um homem de porte ereto.

             No referido livro, como se não bastasse a imagem em destaque nas folhas que abrem cada capítulo, está espalhada por todo o volume, como por exemplo no início e no fim do cordel ali transcrito e intitulado “O Marco Cibernético do Reino dos Três Monólitos”. A figura, por si mesma muito instigante, despertou minha curiosidade pela sua ocorrência frequente, sinal da importância da tal efígie para o artista. Isso tudo dá claro indícios de que a mesma contém uma mensagem pictografada, bem diferente de desenhos ocasionais, de mero valor ilustrativo. Resolvi atentar para os detalhes.

            Vemos um robusto cavalo, na verdade um equino desmedido, de pescoço musculoso e peitoral avantajado. Mas a força física que porventura isso venha a denotar não é aproveitada na simbologia. A musculatura aponta para a intrepidez, a capacidade de impulsão, de romper obstáculos, não no plano mais denso da vida, mas no campo do pensamento. O cavalo está voando; sua constituição é um de um ser voador, próprio das alturas. Não só as asas remetem a isso, que aliás merecem um tratamento à parte, como também as patas denunciam a sua predisposição aérea. Não tem os cascos próprios para firmar-se pesadamente o chão; suas extremidades são pontudas como a dos caprinos e outros animais herbívoros e saltadores. A propósito, a posição fixa do animal na representação artística tem a mobilidade do salto, como se tivesse sido flagrado em pleno ar. A testa avolumada do quadrúpede indica, talvez, que o pensamento naquele bruto misterioso seja de um desenvolvimento bastante apreciável.

            Não é necessário observar o traço, a parte técnica da gravura. Apesar das asas terem sido feitas com golpes rápidos do instrumento cortante, proporcionando um efeito expressionista, o que interessa é que elas são grandes o suficiente para sustentar o peso do animal em seu transcurso pelo ar. O cavaleiro que o monta não parece comandar. É desproporcionalmente pequeno, e sua elegância salta à vista. O elemento humano na figura é um mero passageiro, que nada pode fazer senão apreciar a experiência daquela montaria. Será levado para onde o cavalo quiser. Parece constituir parte do próprio cavalo, como as crinas e a cauda, esvoaçantes.

            Não sei em que eu deveria me fundamentar para explorar a riqueza simbólica dessa xilogravura. Mas o que imediatamente notório, o que aparenta significar é essa grandiosidade do processo criativo, algo incontrolável, mas que leva o autor por um caminho seguro, na indeterminação do espaço da ideação. Os três monólitos abaixo e à distância do equino alado são os únicos pontos de referência terrestres dessa viagem. Dizem das raízes telúricas, uma geografia e uma história cheia de importâncias pessoais. A propósito, no campo real das realizações, eram um desejo do autor ir até eles, os tais monólitos, o que só conseguiu no ano de 2017. O resto é pensamento, é memória, é a imaginação e o desejo de manter-se sempre acima da realidade, mas sem perder o contato com ela.

            Essa imagem visual, aparece não desenhada, mas descrita verbal e poeticamente, no cordel “O marco cibernético do Reino dos Três Monólitos”:  “Um cavaleiro chegou/ Num Hipogrifo montado/ Do reino de Avalon/ Veio tele-transportado/ Sua presença era um elo/ Entre o futuro e o passado”. Na sequência desses versos, encontramos toda a riqueza ideal e utópica talvez representada pela gravura que estávamos examinando. Aliás, o referido cordel é todo prova desse aspecto supra-real, mitológico, visionário de riquezas ocultas impossíveis de serem manifestadas agora. Na mitologia, o Hipogrifo é um animal hibrido, e vimos pela análise que também o cavalo alado é uma união de vários conceitos. Se o próprio autor insiste em se expressar por essa imagem, é porque ele, ou seu labor como escritor e artista, talvez sejam muito bem representados por ela.

Maércio Siqueira
Poeta e Xilogravador