domingo, 27 de novembro de 2016

HISTÓRIAS DE PAPAGAIO - PARTE III



ICÓ, A TERRA DO LOURO

Em março de 1991, a comunidade de Vila Campos, município de Canindé, foi cenário de um especial da Rede Globo de Televisão, exibido com o título de “Os homens querem paz” em abril do mesmo ano. Quem comandava a equipe de filmagens era a produtora Maria Alice, cearense do Icó. O Zerivaldo Secundino, um gozador de peso e medida, ao saber que a moça era natural do Icó foi logo soltando uma das suas:

Ai vai? É da “Terra do Louro”?!

A mulher fechou a cara e parece não haver gostado nem pouco da brincadeira. Eu que sempre fui curioso por esse tipo de assunto fui logo me aproximando do Zerivaldo e perguntando a origem desse epíteto dado ao município cearense. Ele me contou a história de um louro que foi salvo de uma enchente no Icó e ao saber onde se encontrava, protestou que queria continuar a descer de rio abaixo.


* * *

Icó é conhecida como a Terra do Louro. Essa denominação parece ter origem na antiga rivalidade entre Aracati e Icó. Nos primórdios da colonização do Ceará as duas vilas eram os polos mais importantes da Província do Siará Grande, como “Vilas de Brancos” nos Séculos XVIII e XIX.
Dentre as versões sobre a famosa história do louro, a que busca raízes históricas é que à época do Brasil Colônia, os periquitos, chamados de Louros eram uma verdadeira praga, devorando todas as plantações e lavouras. Foi então baixado um Alvará Régio ou alguma Portaria da Capitania do Ceará, autorizando a dizimação das aves (papagaios, periquitos e afins). As cabeças dos louros deveriam ser apresentadas, em atilho, ocasionalmente à autoridade para pagamento. Conta-se que o Icó bateu o record. Daí ter sido chamada "Terra do Louro". Lembro-me de ter lido algo a respeito numa obra de João Brígido ou nas Memórias do professor Manuel Ximenes Aragão, publicadas na Revista do Instituto Histórico do Ceará.
A outra versão mais conhecida e a mais antiga, narra que por ocasião de uma enchente, daquelas que deixam o Rio Salgado caudaloso, descia um papagaio falante e aos gritos “Salve-me, Acudam-me”. Ao chegar à ribeira dos icós, foi resgatado pelos icoenses aflitos com o destino do papagaio. O bichinho, então resgatado das águas perguntou:
Que terra é esta, meu povo?
É o Icó, meu Louro! Responderam os seus salvadores.
O Louro balançou a cabeça em visível desalento e foi logo dizendo:
Puxa vida! Era só o que me faltava! Me joguem de volta na enchente, que nessa terra eu não fico nem amarrado!

Segundo um texto publicado no blog Icó na Rede (http://iconarede.blogspot.com.br/), antigamente essa pilhéria enfurecia o povo do Icó, era motivo de contendas, brigas e olhe lá, até bala... Essa última versão é mais conhecida e hoje se conta por ai, Brasil afora, quando se fala do Icó. Mas longe das rixas antigas o icoense também ri dela e tornou o papagaio seu maior símbolo.



O CARREIRO E O PAPAGAIO
                                      
  Monteiro Lobato



 Vinha um carreiro à frente dos bois, cantarolando pela estrada sem fim. Estrada de lama.
Em certo ponto o carro atolou.
O pobre homem aguilhoa os bois, dá pancadas, grita; nada consegue e põe-se a lamentar a sorte.
Desgraçado que sou! Que fazer agora, sozinho neste deserto? Se ao menos São Benedito tivesse dó de mim e me ajudasse…
Um papagaio escondido entre as folhas condoeu-se dele e, imitando a voz do santo, começou a falar:
  Os céus te ouviram, amigo, e Benedito em pessoa aqui está para o ajutório que pedes.
O carreiro, num assombro, exclama:
Obrigado meu santo! Mas onde estás que não te vejo? 
 Ao teu lado. Não me vês porque sou invisível. Mas, vamos, faze o que mando. Toma da enxada e cava aqui. Isso. Agora a mesma coisa do outro lado. Isso. Agora vais cortar uns ramos e estivar o sulco aberto. Isso. Agora vais aguilhoar os bois.
O carreiro fez tudo como o papagaio mandou e com grande alegria viu desatolar-se o carro.
Obrigado, meu santo! Exclamou ele de mãos postas. Nunca me hei de esquecer do grande socorro prestado, pois sem ele eu ficaria aqui toda a vida.
O papagaio achou muita graça na ingenuidade do homem e papagueou, como despedida, um velho rifão popular: “Ajuda-te, que o céu te ajudará .”