terça-feira, 22 de novembro de 2016

HISTÓRIAS DE PAPAGAIO - PARTE II



Nossa postagem "Histórias de Papagaio" (http://maladeromances.blogspot.com.br/2016/11/historias-de-papagaio.html) foi um sucesso! Mais de 500 visualizações. Atendendo a frequentes pedidos de nossos leitores, publico mais duas histórias da série. A primeira delas escrita pelo irreverente José Augusto Moita, que adora narrar as peripécias do nosso PAULIM. O outro episódio vem dos cafundós da Bahia e me foi repassado pelo amigo José Walter Pires. Vamos aos causos...


PAULIM E O PAPAGAIO QUE
MANTINHA O DIÁLOGO

Eu não sei se já falei prá vocês, mas é que quando Paulim fez a Primeira Comunhão como prova a bela fotografia abaixo pediu a seu avô, homem rude e sério do alto Jaguaribe, de presente um papagaio.

Seu Paulão, homem experiente e sabedor do perigo que uma criança inocente corre nas mãos de um papagaio mal educado, tentou mostrar ao seu netinho que um papagaio não era um bom presente para um infante recém-entregue à Eucaristia Cristã. Mas foi convencido por Paulim que não haveria perigo algum em sua amizade com uma ave falante, posto que até lhe ajudaria nas orações diárias, já que seu principal intento era ensiná-lo todas as orações aprendidas no Catecismo.
Já pensou, Vovô, o Alfredim nome com o qual estava pensando em batizar a desejada ave rezando comigo, ajoelhadinho, as orações matinais?

Meu netinho Paulim, papagaio é bicho safado, diz muita coisa que não presta. Retrucava o velho, tentando demover da mente do candidato a anjo, presente tão insólito.
Para encurtar a conversa o velho mandou que Paulim fosse na casa de pássaros e se inteirasse sobre a aquisição do Alfredim. Soubesse sobre preço, licença no órgão competente, vacinas, e, principalmente, se já falava, que seria o mais importante. Pois, dependendo do vocabulário do dito cujo, entraria ou não na residência dos Costa.
O moço da casa de pássaros começou a mostrar a Paulim os papagaios que estavam rigorosamente expostos em ordem de destreza vernacular e preço. Nesta ordem, o que estava colocado no início da loja, custando apenas R$ 50,00, não falava porra nenhuma. Já o de quinhentos reais, dizia algumas tolices, tipo Ilari lari iêê Oh Oh Oh!. O de mil era um papagaio com cara de professor de português, falava tudo. Mas tinha um muito especial, que só sairia da loja com quem desembolsasse a exorbitante quantia de dez mil reais.
Mas moço, por que esse papagaio é tão caro.? Perguntou o inocentezinho Paulim.
Meu jovem, esse papagaio é muito especial, ele sabe conversar, mantém o diálogo. Quer ver? Fique conversando com ele aí enquanto eu atendo outro cliente que vai comprar alpiste pras rolinhas.
Paulim ficou maravilhado ao conversar com um pássaro tão esperto. Falaram sobre as aulas do Paulim, os coleguinhas, as brincadeiras com os garotos de sua rua, as férias na fazenda do Vovô Paulão, uma conversa animada e educada. Mas, prezadas leitoras e leitores, o instinto papagaísta sempre bate mais forte, e lá pras tantas da conversa o papagaio perguntou ao Paulim se ele já tinha queimado o carretel nas brincadeiras de esconde-esconde com os coleguinhas. Minhas amigas e amigos, aquilo traumatizou tanto nosso infante recém-entregue às Ordem Religiosas, que saiu correndo, aos prantos, em direção à sua casa, trancando-se no quarto sem querer conversa com ninguém.
Vovô Paulão, homem passado na casca do alho, viu logo que aquele chororô do netinho tinha alguma coisa com a negociação que fora fazer na casa de pássaros. Começou a conversar devagarinho com a vítima até descobrir a indecência praticada pelo infame louro. E prometeu que aquilo não iria ficar por menos, àquele imoral seria ensinado bons modos. Armou-se de trinta e oito e foi tomar satisfações com o fela da gaita conversador.
Chegando na loja o proprietário começou a ladainha de sempre: 
— Esse custa cinquenta, mas não fala nada. Este, de quinhentos...
...Não, não, não. Eu quero saber é do que vale dez mil, o que mantém o diálogo. Interrompeu o vendedor, Vovô Paulão.
Depois de ter sido deixado só, no fundo da loja, com o dialogador, começa um amistoso papo entre os dois. O papagaio perguntou sobre a fazenda, se tinha chovido bem, como estava o gado, o nome do vaqueiro, se o açude tinha tomado água, pêpêpê pápápá, e tome conversa. Até que o velho lembrou-se do motivo real de sua ida à loja.
Rapaz, você é muito conversadorzim, né? Comigo fica conversando coisa séria, mas com crianças fica com indecência. Cê num vai me perguntar sobre o carretel, não?
O papagaio apontou para o que estava na frente da loja e disse:
Cidadão, essa conversa de carretel de véi é com o de cinquenta que tá lá na frente. Sou nem proctologista, pra querer saber de fiofó de véi!

José Augusto Moita


***


MAIS UMA HISTÓRIA DE PAPAGAIO
“ME ACODE, ZEZINHO”


Ouvi esta história em minha terra natal, Ituaçu, mas omitindo as referências nominais, vou recontá-la como registro de mais uma das peripécias de papagaios, que povoaram e enriqueceram o nosso anedotário popular, muitas das quais já reunidas pelo poeta, cronista e pesquisador cearense Arievaldo Viana.

Aí pelos idos dos anos cinquenta, uma ilustre Senhora viera do Rio de Janeiro para Salvador e, em seguida, para um lugarejo, na encosta da Serra do Sincorá, chamado Triunfo, em visita aos parentes e, naturalmente, matar as saudades de todos.

Após uma longa viagem, em um dos trens da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro, entretanto, bucólica, desembarcou na estaçãozinha, em Sincorá, daí, sendo levada até à casa dos seus familiares, onde fora recebida com grande festa, reunindo parentes, aderentes, compadres, parteiras, serviçais e curiosos, aos costumes do sertão.

Um verdadeiro acontecimento naquele lugarejo, que só uma vez por outra recebia visitas dos parentes mais distantes. Outras notícias e correspondências só chegavam pelos trens ou pelo Correio, em malas trazidas a lombos de burros, e entregues no pequeno Posto, de onde eram distribuídas, pelo Agente, aos destinatários. No mais tudo era feito por positivos, pessoas de confiança para esses encargos.
O casarão estava repleto. Abraços, risos, mesa farta, presentes, espanto diante dos membros desconhecidos da família e o bate papo em cada canto da casa. Quantas novidades! Uma contagiante alegria.
Tudo aquilo era observado por um papagaio que, do seu poleiro, não parava de tagarelar, cantar, chamar pelo nome as pessoas da casa, gargalhar à imitação do que ouvia, sem parar de rodopiar, dar cambalhotas e a responder perguntas dos circunstantes, sem se fazer de rogado com toda aquela barulheira. Aliás, virou uma atração, à parte.
A visitante ficou encantada com o que via e ouvia. Uma admiração imensa pelo Louro, como se fosse um membro da família. Nos dias seguintes, a mesma coisa. Nem bem raiava o dia, ele já papagaiava, gritando pelos meninos, cantarolando, dando o pé para quem pedia, enfim, recebendo carinhos de todos. Ela não cansava de elogiar e, o que foi pior, expressou o seu desejo de levar aquele papagaio para o Rio de Janeiro. Pronto. Foi o bastante para a tristeza tomar conta da casa.
— Minha irmã, não importa quanto vai custar; quero levar esse papagaio para mim; diga quanto é; vai ser um sucesso, quando chegar lá no Rio.
Sem saber como desvencilhar-se daquele assédio, a dona do papagaio de estimação, com o coração apertado, respondeu:
— Não custa nada, não!  Você pode levar de presente!
A visitante pulou de alegria. Mas, de repente, parecia que alguém tinha morrido ali. O papagaio era a paixão de todos. Não poderia ser levado.
Dia do retorno. A decisão foi mantida muito a contragosto. Acomodaram o papagaio em um pequena gaiola, e ele emudeceu, inteiramente. Durante a viagem de trem, até Salvador, nem uma palavra. Permanecia encolhido, em silêncio, apesar dos insistentes estímulos. Ele se acostumaria! – pensava a nova dona.
Chegando em Salvador, outro ritual. Como leva-lo para o Rio, no Avião. Certamente, não seria permitido. Substituíram a gaiola por uma caixa, arrumaram como se fosse um presente, abriram uns buraquinhos de lado, tudo com o fito do disfarce no momento do embarque.  Isso aconteceu. Ufa! Que alívio! Não foi percebido. Embarque tranquilo. Ela com a caixa no colo. De vez em quando uma sacudidela. Um sussurro com o papagaio. Nada. Ela o olhava pelos buraquinhos da caixa, disfarçadamente. Ele estava vivo, só um pouco triste. Isso era natural. Enquanto a viagem foi por cima do mar, sem oscilações tudo bem.  A aeronave, ainda pequena, trepidava com as turbulências, mais nada demais. Mas ela sentia que o papagaio se inquietava na caixa. As turbulências aumentaram. De repente um vácuo e, em seguida, ouviu-se, vindo da caixa:
— Uiiiiiiii!
Mais outro,
— Uiiiiiiiiiiiiii!
Outro mais longo e sofrido:
— Uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
As pessoas começaram a entreolhar-se, curiosas com aqueles gemidos. Procurando contê-los, a Senhora sacudia a caixa, mudava de posição, pedia silêncio ao papagaio. De repente outro vácuo, com mais intensidade. A aeronave deu uma forte despencada. Aterrissagem. E de dentro da caixa, uma gritaria:
— Me acode, Zezinho! ... Me acode, Zezinho! ... Me acode, Zezinho! ...
Zezinho era um dos meninos da casa. Após o pouso, ela explicou aos demais passageiros o que estava acontecendo e abriu a caixa, mostrando o papagaio, arrepiado e tremendo que só vara verde, encolhido em um dos cantos. Desembarque feliz.

José Walter Pires

Novembro/2016

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