sexta-feira, 22 de julho de 2016

UM POETA ANARQUISTA


OS 134 ANOS DE NASCIMENTO DO POETA JOSÉ OITICICA E O HARPAGÃO MODERNO

A campanha abolicionista no Brasil fez brilhar o estro de poetas como Castro Alves e Tobias Barreto, dois nordestinos de espírito libertário que fizeram da sua arte um instrumento de luta contra a escravidão. Após o 13 de maio de 1888, quando a Princesa Isabel promulgou a lei que anistiava os cativos, alguns poetas hoje esquecidos voltaram os seus ataques contra o pior dos opressores, o CAPITALISMO, elegendo o burguês como o mais desprezível dos opressores de homens pobres e supostamente livres. Não é à toa, portanto, que os estatutos da famosa Padaria Espiritual, o movimento literário mais expressivo do Ceará, tenham demonstrado ódio e desprezo pela burguesia.
Um desses poetas libertários que se projetaram após a campanha abolicionista é José Oiticica, nascido na data de hoje (22 de julho de 1882), em Oliveira-MG. Esse poeta foi brilhantemente retratado por Humberto de Campos em seu livro “Carvalhos e Roseiras”, relançado em 2009 pela editora Café & Lápis, de São Luís-MA. Referindo-se ao homem branco vítima desse sistema opressor diz o ilustre escritor maranhense:

“O senhor deste pária já não é, entretanto, o rei, o Estado, a autoridade política; mas o burguês, o capitalista, o Harpagão moderno, o polvo de vinte tentáculos, o soberano incontrastável, em suma, cujo cetro é guardado em silêncio, mas seguramente, em grandes cofres de ferro.”

Ora, nos “bons tempos” de Humberto de Campos e José Oiticica, homens de letras ainda ocupavam cargos de destaque na política. Vide o caso de José de Alencar, que foi ministro de Sua Majestade o Imperador Pedro II, Joaquim Nabuco, Machado de Assis e até mesmo Olavo Bilac e Paula Ney, que ocuparam cargos influentes depois da proclamação da República. Tivemos também o escritor José Américo de Almeida, autor do romance A Bagaceira, como ministro do primeiro governo de Getúlio Vargas. Hoje os representantes da plutocracia não se contentam mais em mandar em surdina, nos bastidores da política e passam a ocupar todas as esferas de poder com uma ganância nunca vista. Os homens de letras, com raríssimas exceções fazem parte de uma escória tratada com inexcedível desprezo pelos que mandam na política atual.

Analisando o soneto A ANARQUIA, um dos poemas mais conhecidos de José Oiticica, diz Humberto de Campos:

“O ideal revolucionário do Sr. José Oiticica é dos mais audaciosos que efervescem no momento. Ele já não se contenta com as modalidades mais arrojadas do socialismo europeu: é anarquista resoluto, firme, extremado, e prega, resolutamente, a anarquia.”


No soneto A Anarquia o então jovem poeta Oiticica expressou suas opiniões sobre esta filosofia política e a perseguição a qual sofriam muitos de seus entusiastas:






Para a anarquia vai a humanidade
Que da anarquia a humanidade vem!
Vide como esse ideal do acordo invade
As classes todas pelo mundo além!

Que importa que a fração dos ricos brade
Vendo que a antiga lei não se mantém?
Hão de ruir as muralhas da Cidade,
Que não há fortalezas contra o bem

Façam da ação dos subversivos crime,'
Persigam, matem, zombem... tudo em vão...
A ideia, perseguida, é mais sublime,

Pois nos rude ataques à opressão,
A cada herói que morra ou desanime
Dezenas de outros bravos surgirão.



SOBRE JOSÉ OITICICA:
Nascimento: 22 de julho de 1882 -Oliveira, Minas Gerais (Brasil)
Morte: 30 de junho de 1957 (74 anos) - Rio de Janeiro (Brasil)

Ocupação: Professor, Filólogo e Escritor