domingo, 5 de fevereiro de 2017

OS CONTOS QUE LI NA INFÂNCIA - III

Mais um conto que li na infância. O nariz do rei Mahendra um belíssimo conto de Malba Tahan (pseudônimo do professor Julio Cesar de Mello e Souza - Rio de Janeiro, 6 de maio de 1895 — Recife, 18 de junho de 1974).



O nariz do rei Mahendra

Era uma vez um rei estúpido, que tinha um nariz torto, monstruoso, horrível.
Não percebia, porém, o pobre monarca, a enormidade do seu defeito; julgava-se, ao contrário, um verdadeiro tipo de beleza masculina. Infeliz daquele que zombasse, ou de leve se referisse ao narigão disforme do rei! Punha a língua à mostra na forca mais próxima!
Um dia, o rei Mahendra– já me esquecia de dizer que era este o nome do rei narigudo – disse ao seu ministro:
– Quero ter aqui, no palácio, um retrato meu, cuja perfeição e fidelidade todos hajam de gabar.
O ministro mandou chamar os melhores pintores do país. O prêmio prometido ao mais hábil era magnífico: um elefante, um palácio e uma caixa de joias.
Apresentaram-se três artistas que passavam por habilíssimos: Kedar, pintor da corte, Meryem, de origem árabe, e o jovem Fauzi Nalik, sírio de grande talento.
Kedar, tomando da tela, fez surgir, de sob seus ágeis pincéis, um retrato perfeito do rei; reproduziu o nariz do monarca exatamente como o modelo se lhe mostrava –enorme e monstruoso.
Quando o rei Mahendra viu a figura grotesca, nitidamente reproduzida no quadro, ficou furioso:
– Atrevido! Miserável! Fazer de mim semelhante monstrengo!
E mandou enforcar o pintor.
Meryem, o segundo artista, ao ver o triste fim de seu companheiro, achou prudente não imitar a escola realista de seu malogrado colega. Isto de pintar os soberanos tal como eles são deu sempre mau resultado.
E o árabe retratou o rei, fazendo-o perfeito em todos os traços fisionômicos. Era aquilo uma verdadeira obra de arte.
Enfureceu-se ainda mais o monarca ao ver o novo trabalho. A figura feita por Meryem era bela e em nada se parecia com o original de nariz singularmente feio.
– O Belzebu desse pintor quer zombar de mim! – gritou colérico. – Esse retrato em nada se parece comigo! É, antes, um verdadeiro escárnio.
Ilustração: Solón Botelho


E mandou enforcar o infeliz Meryem.
Chegou, finalmente, a vez do jovem Fauzi Nalik, o pintor sírio.
–- Estou perdido! – disse ele aos seus botões. – Se pinto o rei de nariz torto, vou para a forca; se lhe endireito a cara, sou enforcado!
E todos na cidade já lhe lamentavam, por antecipar, o triste fim.
– No dia em que ele der o último retoque no retrato do rei, vai direitinho levar o pescoço ao baraço!
Mas, com espanto geral, tal não aconteceu. O monarca ficou encantado com o trabalho do talentoso Fauzi Nalik.
– Este, sim – proclamou vaidoso e satisfeito, – esse é o meu verdadeiro retrato.
E mandou que sem mais demora se entregasse ao moço a prometida e valiosa recompensa: um elefante, um palácio e uma caixa de joias.
Quando Fauzi Nalik, radiante e feliz, deixou o palácio real, viu-se cercado dos amigos, que o cumulavam de perguntas:
– Então? Como conseguiste o milagre? Pintaste o rei de nariz torto ou sem nariz? Conta-nos lá a proeza.
– Pois vou contá-la – respondeu o inteligente moço. – Pintei o rei exatamente como ele é. Tive, porém, a ideia de imaginá-lo a caçar tigres, e a arma que ele levava ao rosto tapava-lhe perfeitamente o nariz grotesco e monstruoso!
E, ao afastar-se, risonho, acrescentou:
– Se o aleijão do rei Mahendra, ao invés de ser no nariz, fosse nas pernas, eu o teria pintado a banhar-se num lago com água até a cintura.


[TAHAN, Malba. In Maktub! (Estava escrito!), Editora Conquista, 1951.]