quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Contos e Crônicas que li na infância - VI


Na lagoa (A sucuri)

Viriato Correa
(in Cazuza)

UM MÊS ANTES da semana santa, o Ninico da Totonha comprometeu-se a levar-me à lagoa que ficava no caminho do canavial. — Estou fazendo uma balsinha,  informou-me, e, na balsa, a gente  poderá  passear na lagoa toda. Eu dormia sonhando com o passeio.
Para a  meninada  roceira  a  semana  santa  é  uma  das  quadras encantadoras d o ano. Fecha-se a escola  durante  os  sete  dias. Na  segunda -feira  o povoado  começa  a  encher-se.  Comadres que moram  longe,   vêm jejuar  com  as  comadres;  afilhados  vêm  tomar  a  bênção  aos  padrinhos. Até a quinta-feira, a vida é mais animada que nos outros dias. As crianças brincam livremente nos terreiros.  De manhã  à  noite,  à sombra das árvores, há uma algazarra como d e pássaros soltos.  Mas, ao  amanhecer  de  sexta-feira,  a  mudança  é  completa.  No ar  e  em  tudo,  pesa  um  grande  silêncio.  Parece que  o  povoado  está inteiramente adormecido. Nas  casas  não  se  ouve,  sequer,  um  riso  de  criança.  É  o  dia sagrado em que Jesus  morreu.  Respeita-se religiosamente  a paixão (1) de Jesus. Fala-se  o  menos  possível.  Não  se  permitem  vozes  altas. Quando alguém quer falar, fala tão baixo que parece um cochicho.  O mais pequenino esforço é pecado. É pecado varrer a casa. É pecado tomar b anho. Ralhar e  castigar são  pecados também.  Ninguém sai do seu terreiro. Não se visita ninguém. Fica-se em casa, recolhido, para não perturbar o "jejum". O  jejum  da  sexta-feira  da  paixão  é  um  traço  curioso  dos  costumes matutos. Em dia nenhum se come tanto como naquele dia de abstinência. É a mesa mais abundante, a  mais rica do ano.  Ao meio-dia exato, começa o almoço. Come-se devagar (é pecado naquele dia comer com gulodice e pressa), mas come-se abundantemente,  incrivelmente.  Leva-se à mesa nada menos de duas horas.  Ao terminar o almoço, a família  se  deita para  passar em  recolhimento o resto do dia sagrado. E, minutos depois, todo  mundo ressona. O Ninico da Totonha havia combinado  o  passeio  à  lagoa  para depois  do  almoço,  quando  a  povoação  estivesse  ferra da  no  sono.                                              
Iriam  também  conosco  o  Juquinha,  o  Maneco, o  Quincas  e  a Chiquitita. A  lagoa  era  um  lugar  sombrio,  onde  sapos  coaxavam  dia  e noite. Mas, para as  crianças,  tinham uma atração  irresistível aquela imensidade de água parada, a violenta  vegetação aquática das suas margens e, principalmente, a estonteante multidão de garças, marrecos, maçaricos, seriemas e jaçanãs, que lhe nadavam nas águas e lhe pousavam nas ilhotas. Os pais  proibiam  que  os  filhos  pequenos fossem  sozinhos  à  lagoa.  Além  de  jacarés,  diziam haver  lá  dentro  sucurijus (2) enormes  que  engoliam  um  boi inteiro.  Aquela  sexta-feira  santa era um desses dias abafados q ue acabam  sempre  com  aguaceiro. A lagoa dormia a sesta, como que amolecida p elo calor.  Tudo, tudo parado. A balsinha do Ninico estava amarrada à beira dágua Defronte  ficava  uma  ilhota de areia alvíssima. 
— Vamos  brincar  naquela areia? lembrou o Quincas.
— Vamos. O Ninico,  com  uma  vara  comprida,  dirigiu  a  balsinha  para  a ilhota. Era uma  areia  fina,  frouxa  e   fresca,  que  dava  ao  corpo  uma sensação  d eliciosa.  Metemos  nela  o  corpo  inteiro,  deixando  d e  fora apenas  a  cabeça.  E não  se  passaram  cinco   minutos,  quando  a Chiquitita, assustada e trêmula, agarrou fortemente a minha mão, perguntando baixinho:                                                
— Que é aquilo? A cem metros, um vulto enorme ondulava à flor dágua. 
Toquei no Ninico. Ele  gaguejou com a voz ab afada pelo  terror:
— Uma sucuriju! Diante  de  meus  olhos,  movia-se  uma  coisa  imensa,  muito grossa, como eu nunca tinha visto. Devia ter dez metros, pelo menos. Deslizava  rumo  da   margem  q ue  ficava  à   frente,  mas  tão  sutil  e cautelosa como se andasse no encalço d e alguma presa.
— Olha  ali,  olha! murmurou  o  Juquinha,  sem  uma  pinga  de sangue. Na margem fronteira, a Mimosa bebia água. Mimosa era a bezerra querida  da  meninada.  Não tinha  mãe  e vinha sendo cria da em  casa pelo dono, o Jorge Carreiro. Mansa  que  nem  um  cachorrinho,  vivia  em  toda  a   parte, mimada como se fosse um animal doméstico. Não tiramos mais os olhos da margem. A sucuriju caminhou prudentemente à procura da bezerra. Vimo-la  aproximar-se  de  terra,  o cultando -se  cuidadosamente entre  a folhagem.  No tronco de um açaizeiro  erguido  no  meio  da água, enrolou  a cauda,  como  para  se  firmar.  E  ali  ficou  enovelada, silenciosa e vigilante.  A novilha bebia tranqüilamente, pachorrentamente. De repente, um  silvo (3)   e,  no  mesmo  instante, a  cobra  se distendeu como se  fosse feita de mola. Era o bote (4). A Mimosa,  apanhada de surpresa pelo pescoço, deu um berro de susto que reboou medonhamente na  lagoa, espantando as aves.  A sucuriju  conseguiu  fazer-lhe  em  derredor  do  corpo  a  primeira rosca e puxou-a. A bezerra, um instante depois, fincou os pés no fundo da água e arrancou para a terra, num salto. A cobra contraiu-se e fez-lhe no corpo a segunda volta.
A Mimosa soltou um grande urro de agonia. Sentia-se  que aquelas roscas a  apertavam mortalmente,  quebrando-lhe os ossos. Mais outro anel, mais outro, outro. A bezerra debatia-se,  urrando.  Saltamos todos para cima da balsinha, tocando para a margem oposta.
— Depressa! Vamos!  gritou o Ninico da Totonha.
Ainda  vimos  a  Mimosa  toda  enrolada  pela  sucuriju,  o  pescoço torcido,  os  olhos  esbugalhados, a língua de fora, berrando tragicamente. Cheguei a casa desconfiado, inquieto. Havia  desobedecido  a meus pais, indo à lagoa ocultamente. Doía-me a consciência. O  quadro  da  sucuriju  cada   vez  mais  se  gravava  na  minha memória. No dia seguinte, acordei ardendo em febre.

1 Paixão — sofrimento, martírio (quando se  fala de santos).
2 Sucuriju — a maior cobra do Brasil. Tam bém se chama sucuri, sucuriú, sucuruju, sucuriúba e sucurijaba.
3 Silvo — assobio próprio das cobras.
4 Bote  - golpe

BIOGRAFIA

Viriato Correia (Manuel Viriato Correia Baima do Lago Filho), jornalista, contista, romancista, teatrólogo e autor de crônicas históricas e livros infanto-juvenis, nasceu em 23 de janeiro de 1884, em Pirapemas, MA, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 10 de abril de 1967.