segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

BAÚ DA MEMÓRIA


Lunário Perpétuo, de Jerônymo Cortez

UM CHÁ DE BINGA DE CACHORRO


Lendo o Lunário Perpétuo, Geral e Particular para Todos os Reinos e Províncias, composto por Jerônymo Cortez, Valenciano, edição impressa em Lisboa em meados do Século passado cheguei ao capítulo intitulado “Memória de remédios universais para as enfermidades ordinárias” a partir de anotações de Carlos Estevão e João Lihaut, médicos da cidade de Paris. Ali encontrei as fórmulas mais disparatadas e escatológicas que já vi. Os ingredientes das meizinhas são lesmas trituradas com açúcar, fumo de sapatos velhos queimados, fezes de animais, perna de grilo, asa de barata, fuligem de chaminé, unhas de jumento, ossos e cabelos humanos, tudo isso para ser ingerido como chá ou aplicado como emplastros. No segundo caso, usa-se farinha e clara de ovo para dar consistência ao preparado. Vocês calculem quantos pacientes morreram ou tiveram suas moléstias agravadas por tais “remédios”. 
O Lunário Perpétuo foi um livro muito popular no Nordeste de outrora. Lendo tais fórmulas, lembrei-me então de um remédio que quiseram me dar quando era menino: o chá de binga de cachorro. Segundo o meu amigo Santiago, cartunista famoso de Porto Alegre-RS, por lá essa beberagem tem o nome de “Jasmim de Cachorro”, porém o ingrediente é o mesmo: fezes caninas ressecadas pelo sol.


Isso foi pelos idos de 1975 ou 76. Estávamos no período da safra do algodão e vovô havia ensacado toda a sua produção. E também a colheita que comprara dos vizinhos ou recebera como pagamento de antigas contas na mercearia. Eu já sabia ler e contar e ajudava na contabilidade da bodega, fazendo anotações na caderneta dos fiados, somando contas, apesar de não ser muito bom em matemática. Mas com esforço e a ajuda de uma tabuada acabei desasnando com os números.
Nesse tempo eu era bem pequeno e brincava na companhia de uma prima sobre as sacas de algodão empilhadas no alpendre. Algumas chegavam a tocar o madeiramento do teto da moradia. Aquilo era uma aventura e tanto. Eu me pendurava nos caibros e ficava balançando no espaço, com risco de me estatelar no chão e quebrar um braço ou uma perna. Mas, felizmente, isso não ocorreu. O que aconteceu de fato foi uma surra caprichada que levei de meu avô, mas por motivo bem diferente.

Eu fazia a ponta dos meus lápis de cor com um canivete, que no momento estava ali, bem ao alcance da mão. A minha prima desafiou-me a cortar um dos sacos para ver as “tripas” do algodão. Na verdade era uma cilada, mas eu não me dei conta. Eu era muito inocente para entender as suas reais intenções. Relutei a princípio, mas ela continuava me instigando a fazer “malinação”.
— Eu sabia que você não tinha coragem. Vamos, taque o canivete, rasgue o bucho do saco de algodão!
Peguei corda. Dei a primeira estocada e um capucho branquinho começou a sair pelo furo. Criei gosto e dei a segunda facada. Nesse exato instante a minha prima saiu de fininho e foi enredar ao meu avô:
— Vovô, o Arievaldo está rasgando os sacos de algodão com um canivete!
— Que história é essa, menina?
— Venha ver! Está bem ali...
Só me lembro de ter visto o seu dedinho magro me apontando e a cara de raiva do meu avô. O velho se aproximou com um chicote na mão. Ou seria um chinelo? Não lembro direito qual o instrumento usado no castigo. Sei que além de um baita carão ainda levei umas boas lapadas. Fiquei muito ressentido. Era a primeira vez que ele me batia e quase não calo mais o par de queixos, num choro contínuo e magoado. Minha tia Augediva, como sempre, tomou as minhas dores e foi me consolar.
 Adormeci. No outro dia amanheci ardendo em febre e com manchas pelo corpo. Meu avô, muito arrependido, ficou tomado de remorsos e veio falar comigo, de maneira branda e afetuosa. Vendo o meu estado de saúde e querendo me agradar, despachou, incontinenti, um portador para São José da Macaóca, a fim de comprar um medicamento para febre, uma grade de Guaraná Champagne e uma lata de biscoito Cream Craker. Essa era a dieta daquele tempo. Um luxo! Embora que o doente não estivesse disposto a regalar-se com ela, porque a minha febre também veio seguida de vômito. Minha avó, ao examinar-me horas depois, constatou que eu estava com sarampo. Ou seja, a doença não fora motivada pela surra, o que deve ter aliviado bastante o remorso de meu avô.

Foram dias terríveis, em que passei o tempo deitado, com as feridas do sarampo incomodando e coçando sem parar, as janelas do quarto fechadas, as febres seguidas de vômito, o vozerio do povo da casa se referindo a mim com uma dose de pena e comiseração:
— Tadinho do bichinho. Além da surra, o diabo deste sarampo. O que será bom para curá-lo?
O tio Zequinha, que apareceu por lá certo dia, deu uma receita que, segundo ele, era infalível. Faria o doente ficar bom em 24 horas.
— E que remédio é esse, tio Zequinha? — Perguntou a titia.
— Um chá de ‘binga’ de cachorro! Você pega um cocô de cachorro já velho e embranquecido pelo sol, ferve na água e dá para ele beber. Vai ficar bom, com certeza!
Se eu não tivesse escutado a conversa, talvez tivesse bebido o tal chá enganado, porém menino tem um ouvido apurado. Sobretudo quando está doente. Quando a minha tia se aproximou fui logo dizendo:
— Tiazinha, pelo amor de Deus não me dê chá de bosta de cachorro! Eu prefiro continuar doente, a beber uma porcaria dessas!
— Mas meu filho, o tio Zequinha garantiu que você vai ficar bom!
— Quero o quê! Faça chá de binga de cachorro para aquele cabra velho, para mim não! Não tomo de jeito nenhum!
A partir de então passei a vigiar toda e qualquer bebida que me davam. Até o guaraná eu colocava contra a luz para ver se havia vestígio de cocô de cachorro. Quando minha tia fazia um chá eu me punha ao lado dela, à beira do fogão de lenha, observando atentamente os ingredientes que eram colocados. Ela veio com um pozinho branco triturado num vidro, cujo rótulo estava escrito “Flor de Sabugueiro”. Pedi o tal vidro para cheirar e ela começou a rir:
— Meu filho, deixe de ser desconfiado. Tá vendo que eu não vou lhe dar chá de cocô de cachorro? Isso é sabugueiro, tome que você vai ficar bom.
Tomei e serviu. Dias depois estava brincando lépido e fagueiro pelos terreiros, tomando o restinho do guaraná que havia sobrado. Nesse tempo não havia geladeira nas fazendas do sertão. Esfriava-se o guaraná no pé do pote ou dentro do tanque da cozinha. E até hoje ainda não pude saber se o tal pozinho branco era mesmo sabugueiro ou binga de cachorro.


(Arievaldo Vianna – O Livro das Crônicas: II Volume de Memórias)


Chá de Sabugueiro