segunda-feira, 25 de abril de 2016

ABRIL PARA LEITURA



PALESTRA SOBRE A GUERRA DE CANUDOS

 NA LITERATURA DE CORDEL. 

A VISÃO DO EX-COMBATENTE JOÃO MELCHÍADES FERREIRA DA SILVA, O CANTOR DA BORBOREMA, AMANHÃ, DIA 26 DE ABRIL, 19h30min, no Centro Cultural Banco do Nordeste de Sousa-PB, dentro do projeto ABRIL PARA LEITURA - VII EDIÇÃO, comemorativo do Sesquicentenário de nascimento do escritor Euclides da Cunha.




Conheça a incrível saga de um dos patriarcas da Literatura de Cordel. Neto de um beato discípulo do Padre Ibiapina, foi raptado por ciganos aos 7 anos de idade, na terrível seca de 1877. Ingressou no Exército em 1888 e combateu na Guerra de Canudos. Segundo o pesquisador baiano José Calazans, é autor de um dos primeiros folhetos escritos sobre a Guerra de Canudos e publicado em 1904.
Como poeta popular é o criador do Valente Zé Garcia, romance fartamente elogiado por Câmara Cascudo em Vaqueiros e Cantadores. Personagem do Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna e autor de uma versão do Pavão Misterioso... Com vocês João Melchíades Ferreira da Silva, O Cantor da Borborema.

João Melchíades

O sertanejo é antes de tudo um forte, diz a frase clássica de Euclides da Cunha. A função do verdadeiro pesquisador é percorrer mares nunca dantes navegados. É garimpar em terrenos desconhecidos, tirar proveito do que já foi colhido sem descuidar-se de acrescentar novidades ao assunto. O pesquisador José Calazans, ao escrever o estudo “CANUDOS NA LITERATURA DE CORDEL” bebeu em fontes que não haviam sido pesquisadas pelo o autor de ‘Os Sertões’ nem por outros estudiosos da vida de Antônio Conselheiro. Aliás, antes dele Sílvio Romero já havia recolhido no seio da musa popular quadrinhas como estas:

Do céu veio uma luz
Que Jesus Cristo mandou
Sant'Antonio Aparecido
Dos castigos nos livrou.

Quem ouvir e não aprender
Quem souber e não ensinar
No dia do juízo
A sua alma penará”.

Conforme José Calazans, “Os versos, que lembram o responso de Sant'Antonio, eram, sem dúvida alguma, os primeiros de uma dilatada série de composições referentes ao Bom Jesus Conselheiro e ao povoado de Canudos, onde o místico cearense iria se fixar em 1893, já desfrutando de grande prestígio no seio da comunidade sertaneja. A produção rimada sobre o “messias” cearense pode ser apontada, em nossos dias, como das maiores da nossa poética popular.”

Essa tosca produção poética dos seguidores de Antônio Conselheiro não passou despercebida ao escritor Euclides da Cunha, que a ela se refere em sua obra magna, o livro OS SERTÕES:  “(...) no mais pobre dos saques que registra a história, onde foram despojos imagens mutiladas e rosários de côcos, o que mais acirrava a cobiça dos vitoriosos eram as cartas, quaisquer escritos e, principalmente os desgraciosos versos encontrados. Pobres papeis, em que a ortografia bárbara corria parelhas com os mais ingênuos absurdos e a escrita irregular e feia parecia fotografar o pensamento torturado, eles, resumiam a psicologia da luta. Valiam tudo porque nada valiam”. E numa outra passagem, mais adiante, conclui desta maneira: “Os rudes poetas rimando-lhe [do Conselheiro] os desvarios em quadras incolores, sem a espontaneidade forte dos improvisos sertanejos, deixaram bem vivos documentos nos versos disparatados que deletreamos pensando, como Renan, que há, rude e eloquente, a segunda Bíblia do gênero humano, nesse gaguejar do povo”

Na opinião de Calasans, o autor de “Os Sertões” sentiu a importância que os conselheiristas davam às criações da Lira anônima, usadas como armas de combate na guerra de vida e morte da jagunçada contra as forças poderosas da República. Dir-se-ia que versejar ajuda a combater. Os conselheiristas, enfrentando dificuldades sem conta, não abandonaram as musas nas horas difíceis e dramáticas da peleja suicida.
E conclui o eminente pesquisador baiano: “Vem da própria gente do Conselheiro a primeira contribuição ao hinário canudense.”

Além dos poetas anônimos, seguidores de Conselheiro, tivemos também um militar paraibano engajado no Exército Republicano que escreveu e publicou uma versão rimada da Guerra de Canudos. Esse poeta foi contemporâneo de Leandro Gomes de Barros, Silvino Pirauá de Lima e Chagas Batista e pode ser considerado um dos pilares do nosso romanceiro popular.


Nosso desafio agora é falar um pouco desse poeta que foi combatente e testemunha ocular da queda de Canudos. Trata-se do paraibano de Bananeiras João Melchíades Ferreira da Silva, o “Cantor da Borborema”, nascido em 1869 e falecido em 1933. Em suma, um poeta, um sertanejo e acima de tudo um forte. 


Num folheto escrito após a guerra e publicado em 1904, após ser reformado como Sargento do Exército Brasileiro, Melchíades registrou versos como estes descrevendo a fuga atropelada do General Tamarindo, chefe interino da Terceira Expedição, após a morte do “corta-cabeças” General Moreira César:

“Escapa, escapa, soldado
Quem tiver perna que corra
Quem quiser ficar que fique
Quem quiser morrer que morra,
Há de viver duas vezes
Quem sair desta gangorra.”


João Melchíades Ferreira, neto do beato Antônio Simão, discípulo fiel do Padre Ibiapina, sentou praça ainda na Monarquia e com o advento da República foi convocado a combater em Canudos e posteriormente no Acre. Seus descendentes guardam manuscritos de sua esposa Senhorinha onde o poeta descreve os horrores da guerra, que assistiu de perto, ao contrário de Euclides da Cunha, que jamais esteve na linha de frente de combate. Este é o tema da nossa palestra que apresentaremos em abril no BNB Cultural de Sousa-PB.