sábado, 30 de janeiro de 2016

Dois coices de bacorinho


SERTÃO GAIATO

O humor na cantoria é um filão pouco explorado nas antologias do gênero, embora existam alguns livros que tratem especificamente do assunto. Geralmente as antologias assumem um tom mais sério por conta do conservadorismo de seus organizadores, que deixam de lado aquele material considerado imoral ou mais apimentado.
Mas existem boas exceções. Um exemplo é o livro O POETA GOZADOR, de Oliveira de Panellas, onde encontramos essa pérola (de autor anônimo) que lhe foi repassada pelo não menos gozador Moacir Laurentino:

Se o coitado do barrão
Também soubesse falar
Quando ouvisse uma peixeira
Numa pedra de amolar
Dizia: - Valha-me Deus,
Tão querendo me capar!

Outras obras que também estão repletas de estrofes engraçadas são “Da casca até o miolo”, livro do poeta Louro Branco, “Poes(r)ia com Luiz Campos”, organizado por Crispiniano Neto  e um livro póstumo que reúne as tiradas geniais do cantador José Amâncio de Moura. Há pelo menos duas décadas nos ocupamos da tarefa de garimpar esse filão inesgotável, recolha que já nos garantiu duas obras, ainda inéditas... os livros “Mala da Cobra – Almanaque Matuto” e “Sertão Gaiato”, ainda em preparo.  De “Sertão Gaiato” extraímos duas anedotas intituladas:

DOIS COICES DE BACORINHO


Bacorinho, como todos sabem, é a maneira como o filhote do porco é chamado aqui no Nordeste. A primeira historinha aconteceu com a velha Bastiana, torradeira de café, varredeira de terreiro, que morava lá nos cafundós do meu sertão natal… Ela às vezes trocava as bolas. Um pessoal da sua família foi casar na festa de Santa Luzia na Esperança. No outro dia minha mãe perguntou:
Dona Bastiana, que hora os noivos chegaram?
Três horas e 20 centímetros, minha fia!
Ela criava um porquinho para vender e sabendo que um marchante estava de passagem pelo local foi procurá-lo para oferecer o dito animal.
Quando custa o seu porco, dona Bastiana?
Eu estou pedindo 50 para deixar por 45, disse a velhota, antes mesmo do homem pedir um abatimento no valor. Era um bicho magro, atrofiado, feio de causar dó. Ao ver o porquinho o marchante retrucou:
Mas seu bacorinho é muito pequeno, dona Bastiana!
- Cristão, o bicho é pequeno mas é velho!!! Disse ela, encerrando a questão.

* * *
Vamos à segunda. Numa campanha eleitoral que presenciei num município do Sertão Central, na década de 1990, disputavam a prefeitura os candidatos Dr. Fulano e Dr Sicrano. Eleição das mais acirradas, as preferências foram se dividindo, vizinhos se intrigavam por causa de seus candidatos, mulheres arengavam no meio da rua. Até morte houve, por causa de discussões motivadas pela política.
Os eleitores mais fanáticos não perdiam oportunidade de expor publicamente o nome de seu candidato preferido, embora alguns mais espertos usassem de uma estratégia maquiavélica. Permitiam que determinado candidato pintassem sua logomarca nas paredes de sua casa, mediante o pagamento de uma certa quantia, mas mantinham uma foto do adversário num quatro, acima da cama ou do oratório e quando este vinha lhe fazer uma visita faziam questão de mostrar o retrato posto em local tão privilegiado.
Certa feita, voltando de um comício na carroceria de uma caminhonete, presenciei quando um bacorinho saiu alvoroçado do quintal de uma residência e atravessou a estrada, faltando apenas alguns centímetros para morrer atropelado sob as rodas do veículo. O motorista, atento à cena, freou bruscamente evitando a morte do porquinho, mas provocou um tumulto na carroceria do carro, com os passageiros pegos de surpresa, caindo uns por cima dos outros. No exato momento da freada, o espirituoso motorista gritou:
- Sai do meio, doutor Fulano! Numa clara ofensa ao candidato adversário. O dono do bacorinho, que por sinal vinha na mesma carrada, saiu em defesa do seu animal:
- Home, respeite meu porquinho, num compare o bichim com aquela praga não!

* * *

RESPINGOS DE CANTORIA

Sobre momentos irreverentes na cantoria, passo a apresentar uma preciosidade recolhida pelo mestre Alberto Porfírio, no seu impagável “Poetas populares e cantadores do Ceará”, de 1978. Num festival de cantoria realizado em Fortaleza e divulgado semanas seguidas na TV, a meta era escolher o maior repentista do Nordeste. Haveria apenas um vencedor e não uma dupla, como é comum hoje em dia. Depois de vencer diversas eliminatórias, contando mais com a sorte que o talento, o cantador Luiz Pereira Naum sagrou-se campeão e ficou “cheio de pernas”, como se diz por aqui. Dias depois, cantando com Geraldo Alencar, um dos poetas derrotados no concurso, Naum resolve fazer um auto-elogio de modo jactancioso:

Fui eu quem ganhou a taça
Sou o campeão do Norte!”

Geraldo Alencar, bom repentista, resolveu vingar-se do colega com essa estrofe magnífica:

Você teve muita sorte
Em ir a televisão
Cantou ruim, foi mal julgado
Trouxe a taça e um milhão
Onde tem juiz cavalo
Qualquer burro é campeão!”

E já que falamos de cavalo, vamos fechar com mais uma estrofe do livro “O poeta Gozador”, de Oliveira de Panellas, glosa esta da autoria do Dr. José Paulo Cavalcanti, grande apreciador da arte da cantoria e bom versejador:

Calígula deu ao cavalo
As honras de senador
Incitatus recebeu
Talvez pra fazer favor
Mas sabendo que cavalo
Era o seu Imperador.



Arievaldo Vianna