sexta-feira, 17 de julho de 2015

Do LIVRO DAS CRÔNICAS - II



OURO BRANCO

(QUE FAZIA O POVO FELIZ)

“Sertanejo do Norte / Vamos plantar algodão...”
(Luiz Gonzaga – Zedantas)

Eu quase não trabalhei na lavoura. Sempre vivi apegado aos livros e aos estudos, por isso mesmo era poupado de serviços pesados, que todo menino do sertão fazia nos tempos de minha infância. Meu avó Mané Lima queria que eu fosse “bacharel em Direito”... Ele achava esse título o último biscoito do pacote. Na verdade eu gostava mesmo era do balcão da bodega, mais pela prosa farta que propriamente pelo comércio. Sem saber já exercitava minha vocação de cronista.
Naquele tempo menino sertanejo pegava no pesado. As tarefas eram variadas: botar água, cortar palma e capim e transportar em lombo de jumento; ajudar a plantar e a colher, limpar mato, cultivar, cuidar dos bichos. Eu quase não fazia nada disso. Gostava muito de plantar, logo que davam as primeiras chuvas. Meu pai ou meu avô iam na frente, abrindo as covas, e os meninos vinham logo atrás, semeando milho e feijão. Quatro caroços de milho, tres de feijão, em covas espaçadas. Isso eu fiz diversas vezes. Outra atividade que também gostava era apanhar algodão, sobretudo quando os adultos me davam a cata de final de safra para apanhar de meia. Se colhia vinte ou trinta quilos, tinha direito à metade e isso rendia um dinheirinho. Todo mundo lucrava, todo mundo ganhava alguma coisa na safra do algodão.
Relendo o precioso livro Notas à lápis, de D. Antônio de Almeida Lustosa encontramos uma crônica que se refere a antiga estrada que ligava São José da Macaóca a Lagoa do Mato. No lusco-fusco da tarde, quase noite, o virtuoso arcebispo estranhou que a galharia seca das margens da estrada estivesse cheia de pequenos flocos brancos, como se houvesse caído neve em pleno sertão! Eram fiapos de algodão que ficavam presos à ramaria nua das árvores, após a passagem dos caminhões que transportavam o chamado ouro branco.
Passando pela Ladeira Grande, na estrada que liga Maranguape a Canindé, encontramos também antigos remanescentes de algodão mocó, velhas plantas com mais de 30 anos que ainda resistem e botam carga no período da safra. Dizem que a praga do bicudo foi uma ação criminosa, calculada, coisa dos trustes internacionais que não queriam o nosso algodão rivalizando com o seu produto. Será? Sabe-se, de certeza, que no tempo da Guerra da Secessão, nos Estados Unidos, o algodão cearense ganhou fama no mercado e o porto de Fortaleza passou a experimentar uma movimentação nunca vista. O que eu lembro mesmo, de certeza, é que em meados da década de 1970 as cooperativas que compravam algodão e o próprio Governo Federal andaram distribuindo cartilhas entre os produtores aconselhando a erradicação do algodão mocó para o plantio de outra espécie que os matutos chamavam “verdão”. Foi esse danado quem atraiu o inseto destruidor que deu cabo da lavoura algodoeira do Nordeste, dizem os entendidos no assunto.
O período da safra do algodão movimentava o sertão de antigamente. Pessoas de localidades distantes chegavam se oferecendo para trabalhar na apanha do valioso produto e às vezes passavam a semana inteira, trabalhando, comendo e às vezes até dormindo na fazenda que os contratava. Lembro-me bem da Gildete e seu filho Deoclécio, um menino magrelo e espevitado que apareceram numa dessas safras para trabalhar nas capoeiras do Ouro Preto.
Vovô colhia a sua produção, que nunca era pouca e ainda comprava a dos vizinhos, esperando melhor preço para vender o algodão em Canindé ou Quixeramobim. Geralmente era na praça de Canindé que ele realizava os seus negócios, com a firma Montenegro ou mesmo através da Cooperativa. Havia duas indústrias de beneficiamento de algodão movimentando um comércio próspero e lucrativo na região. Tudo isso desapareceu de meados da década de 1980 para cá. Eu achava lindo aquele saco de estopa amarrado nos caibros, um pisador dentro do mesmo socando o algodão e dois ou três meninos dispostos ajudando a encher. Participava mais por diversão que por obrigação. Dias depois vinha o caminhão marca Chevrolet Brasil do Tobias (que depois se casaria com minha tia Augediva) e levava duas ou três carradas de algodão durante a safra. Vovó geralmente aproveitava a vinda desse caminhão para visitar algum parente. Eu queria ir em cima da carrada, junto com os ajudantes, mas ela não deixava. Insistia para que fosse com ela na boléia. O motorista era o Peba e o ajudante o Chico Matias. Eu já os conhecia desde pequenino. Uma carrada de algodão, com cinco metros de altura, era a coisa mais linda desse mundo.

Agricultor colhendo algodão colorido


No começo da década de 1980 vovô me deu uma capoeira, a mim e ao primo Totonho, para apanharmos de meia. Ficava nas imediações do açude. Eu tinha faro para encontrar os pés mais carregados e o Totonho se irritava, dizendo que tinha que catar pelo eito, seguindo cada qual a sua carreira. Cinco e meia da manhã ele já estava me atormentando, puxando os punhos da minha rede e dizendo:

- Deus ajuda a quem cedo madruga. Vamos pro roçado!

Eu já estava preto retinto de tanto levar sol, os cantos das unhas esfolados pelas capembas do algodão e a barriga encalombada pelos piolhos que davam na pluma, mas a vontade de superar o Totonho era grande e diriamente disputávamos para saber quem apanhava mais quilos de algodão. Como a capoeira já estava vasqueira, era de segunda apanha, a colheita nunca passava de 20 ou 25 quilos por dia. No final do mês fomos prestar conta com o vovô, que nos pagou cada centavo e elogiou o nosso esforço. Acho que foi o primeiro dinheiro que ganhei com meu suor. Dinheirinho abençoado, diga-se de passagem, porque serviu para que eu montasse o meu primeiro negócio, um tabuleiro de bijouterias e artigos religiosos em Canindé. Mas isso já é história para outra crônica.

Carrada de algodão, do blog Tok de História, de Rostand Medeiros