segunda-feira, 20 de julho de 2015

Do Livro das Crônicas - Parte III

O "LIVRO DAS CRÔNICAS" (relembranças da infância), terceira parte do meu livro de memórias, vem ganhando novas pinceladas a cada dia. A tela da memória é fragmentada e nem sempre apresenta as imagens por ordem cronológica. São peças de um quebra-cabeças que já se perdeu na poeira do tempo. É preciso paciência para reconstituí-lo e, mais ainda, torná-lo palatável para o leitor. 

Na crônica que ora apresento, uma lembrança distante de quando eu devia ter seis ou sete anos de idade e ainda acreditava em tudo que me diziam. O personagem central, o tio Zequinha, é acompanhado ao longo do tempo até à velhice.



PROFESSOR FUNDO DE COCÓ

(Um relato do tempo da palmatória)




Mexer com menino é arranjar um inimigo pelo resto da vida. Ai daquele que cai na antipatia de uma criança, humilhando-a com brincadeiras de mau gosto. Eu tiro isso por mim, que nunca tolerei as brincadeiras sem graça do tio Zequinha (José de Anchieta Sousa), irmão de minha avó Alzira. Perto de morrer, meu bisavô Fitico chamou a minha avó e lhe disse:

— Minha filha, tenha cuidado no Anchieta. Preste atenção no seu irmão que aquilo é um menino tolo.

O velho Chico de Sousa sabia o que dizia. Em meados da década de 1970 o Zequinha teve uma crise de depressão e vivia no fundo de uma rede, barbado que só um pai do mato, abraçado com uma foice, dizendo a todo instante que iria morrer, que sua mãe viria lhe buscar etc e tal. A minha avó meteu o pé na estrada e foi dar uns conselhos ao irmão. Naquele tempo ninguém sabia o que era depressão. Não achavam que fosse uma grave doença e sim tolice de quem apresentava os sintomas. Chamava-se “fraqueza no juízo” e curava-se à base de muito carão. Um tratamento de choque, para Freud nenhum botar defeito.
Lembro-me perfeitamente daquele visita que fizemos ao doente. Fomos por um atalho, uma velha vereda que começava na Morada Nova e saia no Castro, para chegar mais depressa. No oitão da casa de morada do Tio Zequinha havia um jumento amarrado com dois caçuás de palma e três iniciais bem vistosas, feitas a capricho, na parede caiada: J.A.S. Eu decifrei da seguinte maneira:

— Olha acolá, vovó... J.A.S. Jumento Amarrado Sofre!

Vovó deu uma boa risada e chamou o mano para uma conversa. O maldizente levantou-se a custo da tipoia, com os cabelos desgrenhados e a barba por fazer. A Alzirinha não poupou-lhe os couros e deu início ao sermão. Na qualidade de irmã mais velha (e mais ajuizada) mandou que fosse tomar banho e fazer a barba, imediatamente, no que foi obedecida. Depois aplicou-lhe vigorosos conselhos, com sabor de escalda-rabo, para que deixasse de asneira. Que um pai de família como ele não era para viver amocambado no fundo de uma rede, como um demente. Que pegasse a dita roçadeira e fosse brocar ou fazer cerca que tinha muito mais futuro. Por fim recomendou que se valesse de Nossa Senhora da Cabeça e procurasse rezar para espantar os maus pensamentos. Foi um santo remédio. Não se falou mais na depressão do Tio Zequinha, desse dia em diante.
Quando não estava se maldizendo da vida, o Zequinha ocupava-se em mangar dos outros. Era um mangador fino e, diga-se de passagem, era um tanto original e engenhoso no ofício de fazer debique dos outros. Eu morava com meus avós e fora tomado sob a proteção dos meus tios Augediva e Everardo a quem chamava de Adá. Titia era chamada de Gedinha, pelos parentes. O Zequinha gostava muito desses dois sobrinhos, mas curiosamente implicava comigo, com a conivência de ambos. Vivia inventando coisas para me aborrecer ou fazer medo. Disseram-lhe que eu andava muito impossível e ele sugeriu que eu fosse enviado para um colégio interno que, segundo ele, existia para as bandas da Esperança. Ora, nunca no mundo houve tal colégio, mas eu não sabia disso e acreditei na história. Caí como um patinho. Ele passou o resto da tarde a me atormentar com requintadas descrições dos terríveis castigos que eram infligidos aos meninos mal criados e desobedientes. Segundo ele, o Professor Fundo de Cocó era terrível. Pegava o aluno pelo nó do pirão, arrastava uma palmatória de aroeira e mostrava ao aluno com quantos ovos se deita uma macaca.  Quanto à origem do apelido do mestre, era o seguinte. Ele vira, não sei por onde, um sujeito das calças frouxas e muito mal amanhadas, que faziam pregas no fundilho. Daí nasceu a ideia de criar o professor Fundo de Cocó.
Eu me pelava de medo dessa conversa imaginando os sofrimentos que teria de passar no tal colégio, para onde meus tios diziam que eu deveria ir, caso continuasse um menino malino e maluvido.
Isso foi num domingo e na terça feira bem cedo, eu já estava completamente esquecido da história quando chegou um portador a cavalo, trazendo uma carta do Tio Zequinha e outra do Professor Fundo de Cocó.
A missiva envelopada tinha caráter de coisa séria e eu entrei em pânico. A carta do cabra velho dizia mais ou menos o seguinte:

“Primo Adá, prima Gedinha, meu abraço, meu beijinho.

O fim dessas poucas linhas é somente para dar-lhes a boa notícia de que o menino foi realmente admitido na escolinha do Professor Fundo de Cocó, onde já está matriculado. Preparem a mala dele que eu mesmo faço questão de levá-lo. Não se preocupem quanto ao resto. Já falei com o professor a respeito dos castigos que deverá aplicar, caso o infante continue teimoso e maluvido. Junto a esta missiva, segue a cartinha do professor Fundo de Cocó dando boas vindas ao novo aluno.

Sem mais para o momento, aceitem um abraço do tio
José de Anchieta Sousa”

Titia ria a bandeiras despregadas da astúcia do parente, mas eu estava em pânico, achando que a coisa era séria realmente e desatei no choro. Minha avó foi quem pôs fim a brincadeira dizendo que tudo aquilo não passava de invenção do Tio Zequinha.
Pelo resto da infância, a partir daquela data, nunca mais simpatizei com aquela figura e fazia questão de demonstrar a minha antipatia quando ele aparecia na casa dos meus avós. Somente depois de adulto é que o perdoei e até ri da brincadeira... Coitado, ele só queria ser engraçado, mas acabou caindo em desgraça no meu conceito. No fim da vida, o velho tornou-se um chantagista de primeira. Dizia aos filhos que ia para o mato se perder e lá se ia um menino encarregado de pastorá-lo, enquanto ele vagava a esmo pelas capoeiras. Certa feita, uma filha já cansada daquela chateação disse ao filho:

— Menino, acompanha teu avô por dentro dos matos, mas não deixe que ele te veja. Apenas procure saber para onde ele se botou, caso a gente precise procurá-lo.

O menino foi e voltou em pouco tempo dizendo que ele estava na beira do rio, muito bem deitado debaixo de um pé de oiticica. Levara até uma esteira para forrar a cabeça e um pacote de bolachas num dos bolsos da calça. Passou a hora de almoço, entrou pela tarde e a filha dizia com seus botões. Quando a fome apertar ele vem... Como de fato veio mesmo, lá por volta das 3 horas da tarde, na maior maldizência:

— Vocês são muito ruins!  Vocês são péssimos! A gente sai de casa dizendo que vai se perder e vocês não mandam ninguém procurar a gente. Ô lástima!!!