terça-feira, 13 de junho de 2017

VOVÓ E O ESCUDO ADMIRÁVEL

Óleo sobre tela (44,2 x 35 cm). Museu Nacional de Arte Antiga. Lisboa.

13 DE JUNHO, DIA DE SANTO ANTÔNIO

A 13 de Junho de 1231, morre em Pádua, Santo António de Lisboa (1195-1231), frade franciscano português que ao longo da sua vida desenvolveu intensa vida religiosa e apostólica. Canonizado em Maio do ano seguinte pelo papa Gregório IX, foi declarado oficialmente Padroeiro de Portugal em 1932 e proclamado por Pio XII, Doutor da Igreja, em 1946. É venerado pela Igreja Católica, que o considera um grande taumaturgo e lhe atribui um extraordinário número de milagres. A circunstância de o dia festivo de Santo António (13 de Junho) coincidir com as festas do Solstício de Verão, faz com que seja celebrado em Portugal como um dos santos mais populares. SANTO ANTÔNIO COM O MENINO JESUS (séc. XVIII) – Francisco de Matos Vieira (1699 -1783), mais conhecido por Vieira Lusitano. (Fonte: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com.br)




OS PODERES MILAGROSOS 
DO RESPONSO DE SANTO ANTÔNIO

O meu bisavô Francisco de Assis e Sousa, o Fitico, um velhinho muito religioso e temente a Deus (como se dizia antigamente) possuía alguns livros de orações, dentre os quais um exemplar do Escudo Admirável*, magnífico compêndio de rezas editado na cidade do Porto – Portugal, na segunda metade do Século XIX.
Essa relíquia bibliográfica, encadernada em capa dura e ainda em excelente estado, apesar do constante manuseio, coube por herança à minha avó Alzira, que deu-me de presente poucos dias antes de expirar o seu último suspiro aqui na terra.


Alzirinha era devota fervorosa de Santo Antônio de Pádua, taumaturgo católico que goza de grande prestígio no Brasil e Portugal, cuja data magna se festeja no dia de hoje, 13 de dezembro. Vovó costumava rezar a sua trezena, de 01 a 13 de junho e o ponto alto da celebração era a declamação do RESPONSO DE SANTO ANTÔNIO, que assim se apresenta no Escudo Admirável:


              RESPONSO DE SANTO ANTONIO

- Se milagres desejais,
Recorrei a Santo Antônio,
Vereis fugir o demônio
E as tentações infernais.

- Recupera-se o perdido.
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.

- Todos os males humanos
Se moderam, se retiram,
Digam-no aqueles que o viram,
E digam-no os paduanos.

- Recupera-se o perdido.
Rompe-se a prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.

- Pela sua intercessão
Foge a peste, o erro, a morte,
O fraco torna-se forte
E torna-se o enfermo são.

(Rezar um Glória ao Pai).

- Recupera-se o perdido
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.

V. – Rogai por nós, bem-aventurado Antônio.
R. – Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.


(Fonte: Escudo Admirável, pág. 451)


Fotografia de minha avó paterna Alzira de Sousa Lima**

Atribui-se ao Responso de Santo Antônio o dom de achar objetos perdidos e também desvendar roubos misteriosos. Tal propriedade é citada no romance Luzia Homem, de Domingos Olympio. Seus devotos confiam plenamente na sua intercessão e quando algo é pedido e não é atendido pelo santo costumam dizer: "Nem Santo Antônio com um gancho". O provérbio vem de Portugal, onde também é dito dessa maneira: "Nem Deus com um gancho, nem Santo Antônio com um garrancho".
Sobre o santo Orago português, nos diz o folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro: “Um dos santos de devoção mais popular no Brasil. Suas festas quase desapareceram, mas o prestígio se mantém nos assuntos de encontrar casamento e encontrar coisas perdidas. (...) Uma tradição conservada oralmente há mais de um século reza:

Quem milagres quer achar
Contra os males do demônio,
Busque logo a Santo Antônio
Que só há de encontrar.

Aplaca a fúria do mar,
Tira os presos da prisão,
O doente torna são,
O perdido faz achar.

E sem respeitar os anos
Socorre a qualquer idade,
Abonem esta verdade
Os cidadãos paduanos.”



* Sobre o ESCUDO ADMIRÁVEL
Escudo Admirável para os Males da Vida
Padre Manoel José                      
Editora: Casa de Cruz Coutinho
Ano: 1863

Título completo: Escudo Admirável Para os Males da Vida: Torre fortíssima para o instante da morte e patrocínio efficaz no Divino Tribunal. Nova edição, accrescentada com muitas Novenas e outras devoções Pelo Padre J. R. C.

** Quando solteira, chamava-se Alzira Vianna de Souza. Após o casamento com Manoel Barbosa Lima, adotou o sobrenome do marido, tornando-se "de Souza Lima". Nasceu na fazenda Castro, então Quixeramobim-CE, no dia 15 de junho de 1912.

Arievaldo Vianna

* * *

Aos devotos de Santo Antônio e apreciadores da Cultura Popular, recomendamos também a leitura deste blog: 

SANTO ANTÓNIO NA TRADIÇÃO ORAL


Capa da revista ILUSTRAÇÃO PORTUGUEZA nº 16 de 11 de Junho de 1906.

Por Hernâni Matos


PRÓLOGO
É vasta a literatura de tradição oral portuguesa referente a Santo António. Debruçar-nos-emos aqui sobre o adagiário, tradições e superstições populares, orações populares e cancioneiro popular alentejano.

ADAGIÁRIO PORTUGUÊS.
Não é extenso, mas existe algum adagiário relativo a Santo António:

- “Água de Santo António tira o pão à gente e dá o vinho ao demónio.”
- “Ande o calor por onde andar, pelo Santo António, há-de chegar.”
- “Dia de Santo António, vêm comer as cerejas ao castanheiro.”
- “Entre António e João planta teu feijão.”
- “Não há sermão sem Santo António, nem panela sem toucinho.”
- “Nem Deus com um gancho, nem Santo António com um garrancho.”
- “Ovelha que é do lobo, Santo António Antônio não guarda.”
- “Santo António tira a dor, mas não tira a pancada.”

TRADIÇÔES E SUPERSTIÇÕES POPULARES
- No dia de Santo António deve-se colher um raminho de erva-pinheira, para pendurar em casa. Se este reverdecer, tal facto é indício de fortuna. [2]
- Para que Santo António opere o milagre de casar uma rapariga solteira, é preciso que uma sua imagem seja roubada a outra pessoa. [2]
- Rezar um responso a Santo António faz com que a pessoa ou o animal responsado não consiga andar para diante, mas apenas para trás, pelo que volta ao ponto de partida. [2]
- Na véspera do dia de Santo António, é costume ornamentar as portas ou as sacadas das casas com canas verdes. [7]

ORAÇÕES POPULARES ALENTEJANAS
Um tipo de oração popular é a encomendação (recomendação) que se faz a Jesus, à Virgem Maria ou a um Santo, para eles livrarem o encomendante de qualquer bicho ou pessoa que lhe queira fazer mal, assim como de qualquer influência maléfica ou demoníaca que o possam afectar. Vejamos uma “Encomendação a Santo António”:

“Santo António se levantou,
Caminho e carreira andou,
Nossa Senhora encontrou,
Ela lhe perguntou:
- Aonde vais, António?
- À vossa Santa busca vou.
- Pois tu, António, irás
E na terra ficarás,
O meu corpo me guardarás
De mau lobo e de má loba,
De mau cão e de má cadela,
De mau homem e de má mulher
E de tudo mau que houver,
Que eu nunca tenha perca
Nem dano nem prejuízo algum.
Em louvor da Virgem Maria
Um Padre Nosso e uma Ave Maria.” [5]

Um outro tipo de oração popular é o responso, entendido como uma oração a um Santo, visando o aparecimento de coisas desaparecidas ou que não ocorram males que se temem. Vejamos um “Responso de Santo António”:

“Santo António se levantou,
seu sapatinho calçou,
seu bordãozinho pegou,
seu caminho caminhou,
Jesus Cristo encontrou.
Jesus Cristo lhe perguntou:
- Onde vais, Beato António?
- Senhor, convosco vou.
- Comigo não virás,
na terra ficarás
guardando o que está perdido,
que à mão do dono seja restituído.
Em nome de Deus e da Virgem Maria
Pai-Nosso e Ave-Maria.” [1]

Este responso reza-se três vezes, depois das quais, as coisas desaparecidas, aparecem.

VER POSTAGEM COMPLETA NESTE ENDEREÇO: 
https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com.br/2011/06/santo-antonio-na-tradicao-oral.html