terça-feira, 23 de maio de 2017

Histórias do PAULIM


AS PROEZAS DE PAULIM
NO SANTANTÕE DO BURACO

Meu amigo Paulo Renato da Silva Costa, músico talentoso, mais conhecido pelo codinome de Paulim, fez hoje uma postagem no facebook que me trouxe à mente algumas recordações dos meus tempos de menino. O Paulim tem umas tiradas engraçadas. De "pareia" com o José Augusto Moita ele faz a gente se "esqueixelar" de rir.
Nas décadas de 1960/70, todo menino danisco, levado da breca, fiote ou impossível era ameaçado de ser internado no Santo Antônio do Buraco (Instituto Carneiro de Mendonça), cujas instalações ficam depois de Maracanaú, num lugar chamado Olho D'água, onde moravam os irmãos de minha mãe. Atualmente o local se chama Olho D’água de Santo Antônio do Pitaguary.
No blog de Manoel Róseo Landim, encontramos a seguinte explicação para a origem do Santo Antônio do Buraco:

“Ninguém sabe, com certeza, a história de Santo Antônio do Buraco, mas de acordo com a lenda e a crendice popular, seu Antônio, chefe da Família Pitaguari, ardentemente devoto de santo Antônio,nutria um grande desejo: possuir a imagem do Santo, como as existentes nas igrejas. A sua casa só tinha estampas em papel. Certo dia, em suas constantes andanças pelas redondezas de sua moradia, viu um ponto luminoso como que emergindo de um buraco. Aproximou-se vagarosamente, pé-ante-pé e lá, refletindo à luz do sol, a cobiçada imagem de Santo Antônio. Estava num buraco estreito, mas muito fundo. Santo Antônio estava preso nas ramagens da borda do buraco. Logo uma fonte surgiu, perene, ao lado, com água milagrosa. Daí o lugar ter sido chamado, inicialmente Santo Antônio do Buraco.”

Crédito da imagem: Blog Manoel Róseo

Era próximo a esse recanto bucólico que funcionava O Instituto Carneiro de Mendonça ou Escola de Menores. O ‘Santantõe do Buraco’, juntamente com o Véi do Saco e o Chiqueirador, um relho de couro cru, bem comprido, amarrado na ponta de cacete de jucá (tipo aqueles chicotes de domadores de circo), foram o terror de muitas crianças da nossa geração. Na maioria das vezes eram só ameaças, para o pivete se aquietar, mas às vezes bem que rolava umas lapadas. A respeito desse instrumento de suplício, usado para tanger comboios de jumento, o gado e as cabras do chiqueiro, havia até um dito popular. Um grupo de adultos se reunia para jogar baralho ou dominó e os meninos ficavam rodeando a mesa de jogo e, de vez em quando, deixavam escapar um palpite, uma indiscrição, que era de pronto repreendida:

- Peru calado, ganha UM CRUZADO. Peru falador, ganha CHIQUEIRADOR.

No mesmo instante o menino se calava e parava de “aperuar” o jogo alheio.
Quanto ao 'Santantõe do Buraco', ouvi muito essa ameaça, porque na verdade não fui menino dos mais quietos.  Além das travessuras costumeiras eu era, no dizer dos adultos, fiote, letrado, cabido e conversador de arisia. Pelos idos de 1979/80 visitando uns tios que moravam por ali, perto do Horto Florestal, em Maracanaú, vi que as instalações da velha escola correcional estavam abandonadas. Que alívio. Mas, deixemos de coisa e cuidemos na vida, como disse o autor de Na hora do almoço, e passemos ao texto publicado pelo Paulim em suas redes sociais:

“Lembranças da minha infância, que me acompanham até hoje. Tinha um casal de idosos que saia pelas ruas do bairro onde eu morei até aos meus treze anos de idade, Jardim América. Eles fuçavam os sacos de lixo da vizinhança, para catar qualquer coisa que encontrasse. Ele, SEU CHICO MOCURA. Ela, JESSINA PAPEL CAGADO. Mas eles dois metiam um medo danado na gente. Pois os mesmos carregavam uns sacos pendurados que a mãe dizia que eles levavam crianças 'maluvidas' e malinas que não gostavam de rezar e estudar, lá para um tal de Santo Antônio do Buraco. Quando eu os avistava de longe, eu corria pra 'dendicasa' e ficava brechando pelo buraco das venezianas da janela, até eles sumirem, dobrando a esquina.
Este retrato foi tirado lá no Pan Filme, pertinho da praça do Jardim América. Espiem, o charme do garoto!”

Como se nota, Paulim não chegou a entrar no Buraco do Santantõe, a tal escola correcional para menores. Será que a cabecinha do Paulim não passou no buraco? O que se apreende, pelo texto que postou, é que foi constantemente ameaçado por sua genitora, que usava as figuras do casal de catadores de lixo - Chico Mocura e Jessina Papel Cagado para amedrontá-lo, causando profundos traumas na pobre criança. Daí essa carinha de tristeza que ele apresenta na sua foto de sete anos (brincadeira, Paulim, não me queira mal).
É oportuno registrar também o comentário do leitor Raimundo Cavalcante dos Santos, o popular Raimundão. Só faltou o José Augusto Moita, para também dar o seu palpite...

“ Instituto Carneiro de Mendonça "Santantõe do Buraco, Se eu não tivesse uma avó invocada, eu teria ido pra lá depois de quebrar o chifre de uma vaca da vacaria do seu Antonio Jovino, no Carlito Pamplona em 1959/1960.”


* * *

Segundo Ailton Gomes, que mantém a página Maracanaú Antigo, no facebook, “Os menores que eram recolhidos ao Instituto Carneiro de Mendonça eram muito diferentes dos atuais, que estão em unidades da FEBEM. Naquela época, eram apenas crianças e adolescentes abandonados pelas famílias ou autores de pequenos delitos. Eles não causavam tumulto, nem fugiam. Vejam nas fotos das postagens anteriores (postadas na página Maracanaú Antigo), que o muro era muito baixo, da altura das crianças. Antigamente, os pais amedrontavam profundamente seus filhos, quando ameaçavam enviá-los para o “Santo Antônio do Buraco”, que era o nome popular dado ao Instituto Carneiro de Mendonça e eternamente conhecido por “Escola de Menores”.


Escola de Menores (Foto da Prefeitura Municipal de Maracanaú).


Crédito da imagem: Blog do Manoel Róseo.

TEXTO | PESQUISA: Arievaldo Vianna


Fontes: facebook do Paulo Renato Costa e http://manoelroseo.blogspot.com.br