sábado, 13 de fevereiro de 2016

POR DENTRO DA HISTÓRIA



O BREVIÁRIO DE ANTÔNIO CONSELHEIRO E OUTRAS FONTES PARA A PESQUISA DA GUERRA DE CANUDOS

Por Arievaldo Vianna, da Aquiletras

Em agosto de 2012 estive na Bienal do Livro de São Paulo, realizada no Anhembi, lançando alguns livros em parceria com o meu ilustrador Jô Oliveira por editoras do Sudeste. É impressionante a diversidade e a quantidade de livros que abarrotam os “stands” daquela feira literária. O leitor fica com água na boca, se policiando para não gastar até o último centavo na aquisição de livros. Se bem que uma dessas aquisições me surpreendeu e eu pagaria até o dobro do que me foi cobrado para obtê-la. Trata-se da edição fac-similar de manuscritos de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, escritos de próprio punho ou a mando deste, pelo seu secretário Leão de Natuba, que era um rapaz esclarecido e trabalhava também como guarda-livros do armazém dos irmãos Vila-Nova. Eis o que se encontra escrito no frontispício de um desses manuscritos, datado de 1897:
“A presente obra mandou subscrever o peregrino
Antônio Vicente Mendes Maciel
No povoado do Belo Monte, Província da Bahia
Em 12 de janeiro de 1897.”
Outro, mais antigo, data de 1895 e parece haver sido escrito pelo próprio Conselheiro, argumento que baseia-se na comparação com a sua assinatura constante em algumas cartas que escreveu:
“Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo,
Para a salvação dos homens.
Pelo Peregrino Antônio Vicente Mendes Maciel,
No povoado do Belo Monte, Província da Bahia, em 24 de maio de 1895.”
Os responsáveis pela publicação de parte desses manuscritos em edição fac-similar são os professores da UFBA Walnice Nogueira Galvão e Fernando da Rocha Perez, que o obtiveram num precioso acervo de mais de 4 mil peças deixadas pelo incansável pesquisador José Calazans. Antes de sua morte, Calazans doou esse material para o Núcleo Sertão, do Centro de Estudos Baianos da Universidade Federal da Bahia. O belíssimo exemplar que adquiri em São Paulo tem 152 páginas (uma pequena parcela das mais de mil páginas deixadas pelo Conselheiro), mas traz uma amostra bem significativa e faz alusões aos seus Sermões que deixam entrever um homem instruído, pacífico e bem intencionado, para quem era melhor servir a Deus do que aos tiranos da terra. Antônio Vicente Mendes Maciel, segundo os organizadores desta publicação, foi um dos primeiros pregadores sertanejos a se insurgir contra a escravidão, elogiando a Princesa Isabel e a abolição da escravatura num de seus sermões. Vale lembrar que boa parte dos seus seguidores eram ex-escravos que vislumbraram no arraial recém fundado um local apropriado para viver em comunidade  e começar uma nova vida.

Antônio Conselheiro - Museu da República-RJ


O mais surpreendente de tudo é que desta segunda edição, de 2011 (existe uma outra, datada de 2002), foi feita uma reduzida tiragem de apenas 300 exemplares, o que por si só já torna esta obra uma verdadeira raridade. A intenção da EDUFBA foi suprir uma lacuna, colocando ao alcance dos pesquisadores do assunto uma edição comentada dos preciosos documentos encontrados em Canudos, momentos antes de sua destruição.
O responsável pela conservação deste documento foi um soldado do 9º. Batalhão, chamado Eugênio Carolino de Sayão Carvalho, que doou os manuscritos a um jornal de Salvador. José Calazans conseguiu obtê-los no começo da década de 1970, dedicando-se à sua conservação e estudo, juntamente com outros papéis encontrados em Canudos, inclusive dezenas de versos populares que foram publicados no seu estudo “Canudos na Literatura de Cordel”.
Outra fonte assaz interessante é o blog de Maninho do Baturité, mais precisamente a postagem que traz como título “EXPEDIÇÃO DE PEDRO WILSON MENDES A CANUDOS”, realizada em 1949, quando este audacioso advogado e jornalista cearense, que era sócio de uma loteria, empreendeu uma viagem de jipe até a Bahia, onde fotografou e entrevistou diversos sobreviventes da chacina patrocinada pela República. Quem quiser conhecer este material basta acessar http://www.maninhodobaturite.com.br/?tag=canudos
Eis a apresentação que Maninho de Baturité faz deste intrépido aventureiro: “Aos 35 anos de idade, sem embargo da fama de ser um advogado que jamais perdeu uma causa, Pedro Wilson somava ao seu currículo a qualidade de jornalista combativo ininterruptamente disposto a denunciar falcatruas. Em 1949, contudo, o jovem jurista resolve dar um brevíssimo tempo às lides forenses e ao jornalismo para atirar-se na pesquisa histórica. Longe do o imediatismo das redações, Pedro Wilson se insurge como a primeira voz no deserto a abrir os olhos dos escritores com relação ao verdadeiro caráter de Antonio Vicente Mendes Maciel o Conselheiro.”

A guisa de conclusão, recomendamos ainda o recente livro publicado pelo escritor quixeramobiense João Bosco Fernandes Mendes, presidente da Aquiletras, que traz um minucioso estudo sobre o assunto em ordem cronológica, enfeixando as principais fontes que se ocuparam da Guerra de Canudos. A obra de Bosco Fernandes intitula-se “Antônio Conselheiro, memórias de família – Guerra de Canudos, levantamento cronológico.

(Artigo publicado no jornal O SERTÃO, de Quixeramobim-CE)

Página fac-similar do breviário de Antônio Conselheiro


DADOS BIOGRÁFICOS

Ilustração: Arievaldo Vianna (Direitos Reservados)

Antônio Vicente Mendes Maciel, mais conhecido na História como Antônio Conselheiro, nasceu em Quixeramobim-CE, no dia 13 de março de 1830. Foi sua madrinha de batismo a sra. Marica Lessa, célebre por servir de inspiração ao romance “Dona Guidinha do Poço”, de Manoel de Oliveira Paiva. Antônio Vicente, que se autodenominava-se “O Peregrino”, com seu discurso liderou uma das guerras populares mais sangrentas do Brasil, que ficou conhecida como Guerra de Canudos.
Na opinião da historiadora Valquíria Velasco (UVA-RJ), “Nascido em uma família de comerciantes, tem uma formação cultural para poucos no Brasil do século XIX. No entanto sua história é marcada pelas perdas: aos seis anos fica órfão de mãe, aos vinte e sete seu pai morre. Antônio, no entanto, devido a sua formação que incluía aritmética, latim, francês, português e geografia, atuou como professor e posteriormente como escrivão de cartório. Quando sua vida parecia ter se acertado uma nova perda o atinge, dessa vez de forma decisiva. Sua mulher o abandona e foge com um amante.”
Em suas peregrinações pelo interior do Ceará e outros Estados nordestinos, abraça também o ofício de pedreiro, realizando obras em igrejas, capelas e cemitérios. É aí que trava contato com outro peregrino daquelas terras, o grande missionário cearense Padre Ibiapina, que peregrinava realizando obras de caridade. Os trabalhos e obras do padre Ibiapina influenciam Antônio de forma que esse se debruça na leitura do Evangelho que passa a pregar em suas andanças. Ouvindo os pobres, pregando o evangelho e distribuindo conselhos aos problemas que as pessoas o traziam surge o apelido que o tornou célebre: Antônio Conselheiro.
Antônio Vicente faleceu em Canudos-BA, aos 22 de setembro de 1897, poucos dias antes da rendição e aniquilamento de sua Belo Monte, nome pelo qual chamava o Arraial de Canudos.