quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

NORDESTINO, SIM SENHOR!


 
Entrevista Arievaldo Viana Lima 
Por esses dias fui entrevistado pela assessoria de uma importante feira literária que acontecerá em agosto do ano que vem. Disseram-me que as informações por mim prestadas serviriam de base para elaboração de um catálogo com os autores convidados. Eis o teor da entrevista:

1.    Arievaldo Viana Lima por Arievaldo Viana Lima.

R: Sou, antes de tudo, um poeta matuto, inserido a contragosto num ambiente urbano, que teima em valorizar as suas origens como forma de sobrevivência, de preservação da sua identidade cultural. Nem por isso sou dado à xenofobia e procuro absorver também outras culturas, palmilhar outros “sertões”, voar por outras latitudes, sem perder as minhas referências da infância e do ambiente onde fui criado. Daí ter dado preferência aos textos em Cordel, a expressão mais genuína da literatura nordestina e porque não dizer, do Brasil. Isso não quer dizer que eu não goste de escrever em prosa, técnica que também domino, num estilo, digamos, um tanto pessoal. Nós, cordelistas contemporâneos, buscamos transmitir histórias, sentimentos, humor, filosofia através de uma linguagem simples, narrativa, rimada e metrificada, que possa ser entendida por gente de todas as idades e de quaisquer camadas sociais. Sempre foi assim, desde os tempos do pioneiro Leandro Gomes de Barros. 
O Cordel não pode mais ser visto como curiosidade folclórica ou peça de museu. É uma arte em movimento, que se renova constantemente e busca opinar sobre os mais diversos temas que vão surgindo em nosso dia-a-dia. Quanto a adaptação de clássicos da literatura universal para a linguagem do cordel vejo como uma coisa absolutamente natural, que vem desde os primórdios do romanceiro popular em versos. No tempo dos pioneiros, Leandro, João Athayde, José Camelo de Melo Resende, já tínhamos contos adaptados das “Mil e uma noites”, do livro de “Carlos Magno e os doze pares de França”, até mesmo romances como “O conde de Monte Cristo” e “Iracema” serviram de inspiração para os pais da Literatura de Cordel.
Considero-me um escritor sintonizado com a nova realidade do mercado editorial, com as modernas técnicas de impressão e divulgação virtual dos textos (e-book, internet), mas não quero esquecer o caminho da cacimba dos saberes, da fonte inesgotável, do manancial sagrado que sempre alimentou a minha imaginação, que num de meus folhetos aparece com o nome de “Fonte das Coronhas”, um lugar real, situado no sopé do serrote dos Três Irmãos, na divisa dos municípios de Canindé, Quixeramobim e Quixadá. Foi ali que eu nasci e era ali, naquela fonte, que meu pai colhia água potável e a conduzia no lombo de dois jumentos, cantando folhetos de cordel em voz alta, para encurtar o nosso caminho.

 

Serrote dos Três Irmãos. No período chuvoso essa paisagem se cobre de um verde belíssimo
 
2.    Ter nascido em Quixeramobim, sertão mítico do Ceará, terra de Antônio Conselheiro, deve ter trazido para sua infância inúmeras histórias e imagens. Como o seu território influencia na sua obra?  

R: Estou profundamente envolvido com uma pesquisa histórica que remete diretamente às minhas origens sertanejas e à região onde fui nascido e criado. Começou meio por acaso, quando o Instituto C&A me encomendou um texto sobre minha infância. Relembrei os lugares, brincadeiras e pessoas com quem convivi. Depois disso, me bateu a idéia de fotografar os lugares onde vivi os meus primeiros 12 anos. Deparei com a casa que foi construída pelo meu trisavô Miguel José de Sousa Mello, por volta de 1850, de taipa e tijolo, ainda de pé graças às vigas de aroeira que a sustentam. Quantas histórias aconteceram ali! Minha avó me contava que as onças desciam de uma serrania próxima e esturravam no terreiro de casa. Uma vez comeram um bode debaixo do alpendre da velha moradia!

Havia também a casa do meu outro trisavô, Miguel Martins Vianna, naquela mesma localidade. Reza a tradição familiar que eles eram parentes do famoso Padre Mororó (Ignácio Gonçalo de Loiola Albuquerque e Mello), um dos heróis da Confederação do Equador, revolução republicana de 1824. Depois disso vem o Conselheiro (Antônio Vicente Mendes Maciel), cuja família se entrelaçou com vários ramos dos meus troncos familiares. Mergulhei fundo e recolhi fragmentos de mais de 200 anos de história. O achado mais interessante foram os versos escritos pelo meu bisavô Francisco de Assis e Souza e as anotações de Olympio de Souza Vianna, avô de minha mãe, que deixaram apontamentos sobre os nossos antepassados e também sobre seus descendentes. Disso tudo deverá resultar um livro em prosa intitulado provisoriamente de “Sertão em desencanto”, que tem por sub-título “Fragmentos das memórias de um poeta matuto”. Falo da perda de identidade cultural e do esfacelamento de antigos valores que norteavam o comportamento das comunidades rurais do Nordeste com o avanço da chamada “globalização”. 
Casa construída pelo meu trisavô Miguel José de Souza Mello

 
3.    Fale um pouco da sua infância e do momento em que você percebeu que seu caminho era a poesia popular?  

R: Como tenho afirmado em outras ocasiões, tudo começou com minha avó Alzira Vianna de Souza Lima e meu pai, Evaldo, que eram leitores contumazes de folhetos de cordel. Eles já haviam herdado esse hábito de seus antepassados. O Miguel José de Sousa Mello (meu trisavô) quando estava moribundo, aos 90 e tantos anos, recebeu a visita de uma comadre e a saudou com essa quadrinha de improviso:
 

- Quatro coisas me aborrecem,
Fora faca que não corta,
Dormir cedo, acordar tarde,
Mulher feia e besta torta! 

Tome esta pra você, comadre! Teria dito o enfermo...

Acho que esse gosto pela poesia popular já veio formatado no meu DNA. É uma coisa tão forte da qual eu nunca pude fugir. Na adolescência e começo da juventude andei tentando me distanciar, flertando com o rock, com os quadrinhos americanos e europeus, com uma nova maneira de escrever, mas nunca esqueci dessa “linguagem” primitiva. Eu gostava mesmo era de “Jerônimo, o herói do sertão”, desenhado pelo paraense Edmundo Rodrigues e minha leitura favorita terminava sendo Graciliano Ramos, Rachel de Queiróz, Leonardo Mota, Augusto dos Anjos... Em tudo que eu fazia, ouvia, lia ou comentava havia sempre uma referência, uma influência desse universo lúdico e misterioso do Cordel. 

4.    Como é a sua rotina de trabalho? Como é seu processo criativo? 

R: Eu leio muito, observo muito e, principalmente bebo na fonte. Gosto de conversar com pessoas do povo, nos ônibus que vão para o interior do Nordeste, nos mercados e feiras das cidades mais distantes do litoral. Gosto de ouvir os cantadores, os emboladores, fico escavacando na memória antigas lendas, parlendas, causos e contos populares que ouvia quando criança a fim de recontá-los por meio de crônicas, contos ou cordéis. O horário que mais gosto de trabalhar é o comecinho da manhã, quando a aurora vem surgindo e a natureza ainda está acordando. Mesmo morando na região metropolitana de Fortaleza, uma das maiores capitais do país, ainda consigo ouvir o canto de galos e pássaros pela manhã. As vezes penso que é pura imaginação, mas não é. Tenho um pé de carnaúba no meu jardim, além de bananeiras e um cajueiro no quintal e, a poucos metros de casa, fica uma lagoa. Os pássaros vêem mesmo para as imediações da janela do meu quarto de dormir... pardais, bem-te-vis e até um casal de galos-de-campina eu já vi. Mas eu gosto mesmo é de viajar para o sertão, passar dois ou três dias fazendo laboratório, jogando conversa fora e ouvindo causos, para depois reaproveitá-los em meus trabalhos. Quando se trata da adaptação de um clássico da literatura, procuro sempre moldá-lo numa linguagem escorreita e acessível a públicos diversos, de 8 a 80 anos de idade. Para fazer adaptações dos “Contos Gauchescos” e “Causos de Romualdo”, do escritor gaúcho João Simões Lopes Neto, tive que entender primeiro a cultura e a linguagem dos Pampas, dos “sertões” gaúchos, para ser fiel ao universo do grande escritor de Pelotas-RSMas aqui, acolá, se vê um traço da cultura nordestina. É inevitável. Tive a sorte de fazer esse trabalho em parceria com o grande Jô Oliveira, que tem ilustrado quase todas as minhas obras e entende muito da cultura rural brasileira, seja qual for a região. 

5.    Nos conte um pouco sobre que é o projeto Acorda Cordel na Sala de Aula? Como é trabalhar com a linguagem do Cordel para alfabetizar jovens e adultos?  

R: O Projeto Acorda Cordel foi implantado inicialmente em 2002 pela Secretaria de Educação do município de Canindé, na alfabetização de jovens e adultos, na gestão do então secretário de educação Celso Crisóstomo. O Projeto foi lançado a nível nacional em Brasília, no dia 04 de dezembro de 2002, em evento promovido pela Comissão de Educação da Câmara Federal, através de iniciativa da deputada federal Ester Grossi (PT-RS). Na oportunidade, uma caixa contendo doze folhetos foi lançada para um público de mais de três mil pessoas. Folhetos como A GRAMÁTICA EM CORDEL, de Zé Maria de Fortaleza, empolgaram os participantes, na presença de artistas como o cartunista Ziraldo (criador do Menino Maluquinho), do cineasta Nélson Pereira dos Santos e da atriz Lucélia Santos.
Nos seus dez anos de atividade, o projeto foi apresentado nas cidades de Fortaleza-CE, Palmas-TO, Mossoró-RN, São Paulo (Santo André, São Bernardo do Campo, Cubatão e Diadema), Campina Grande-PB, Salvador-BA, Uberlândia-MG, Recife-PE, São Luís-MA, Porto Alegre e Barra do Ribeiro-RS, e diversas cidades do interior cearense: Caridade, Canindé, Salitre, Reriutaba, Sobral, Crato, Aracati, Senador Pompeu, Quixeramobim, Boa Viagem, Cascavel (Praia do Balbino), Quixadá e Milhã, tendo grande repercussão entre os estudantes, professores e arte-educadores das escolas públicas. A apostila utilizada nas oficinas do projeto foi sendo aprimorada e enriquecida com textos de Arievaldo Viana, Zé Maria de Fortaleza e Gonçalo Ferreira, vindo a se transformar em livro que foi lançado com grande sucesso em abril de 2005, em tiragem inicial de 2.500 exemplares, que já se encontra praticamente esgotada. A segunda edição, revista e ampliada, saiu em 2010 e foi destaque no programa ‘Salto para o futuro’, da TV Escola, do qual fui consultor e redator.
Ainda hoje a distribuição do material e propagação do projeto está ao meu encargo. Toda semana envio, pelo correio, pacotes de livros e folhetos para diversos lugares do Brasil, a maioria cidades onde nunca estive. 

6.    Estamos perguntando a cada autor qual o projeto de leitura dos seus sonhos? Ou seja, qual o projeto que você gostaria que fizessem com seus livros na escola e que ainda não fizeram?

R: Quando criança, eu fui alfabetizado lendo folhetos de cordel. Minha avó mesma se encarregou de me ensinar o be-a-bá, numa velha carta de ABC. Depois que aprendi a juntar as sílabas, fui “desasnando” na leitura desses folhetos. Ela os guardava numa maleta, que para mim tinha ares de coisa encantada. Meu sonho é ver minha obra, ou pelo menos parte dela, reunida numa maletinha de madeira – 20, 30, 50 títulos – entre livros e folhetos de cordel, sendo distribuída nas bibliotecas escolares. É o projeto que batizei de “Mala de Romances”, um desdobramento do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula. Aliás, não apenas a minha obra, mas também de outros autores como Leandro Gomes de Barros, José Pacheco, José Camelo de Mello Resende e também de colegas contemporâneos como Marco Haurélio, Antônio Francisco, Moreira de Acopiara, Manoel Monteiro, Rouxinol do Rinaré, dentre outros. E tudo isso com as ilustrações inconfundíveis do mestre Jô Oliveira, que tão bem absorveu essa linguagem. Seria uma espécie de Biblioteca de Cordel, ou “cordelteca”, como costumamos chamar, com a vantagem de ser ambulante, ou seja, passar de sala em sala, de escola em escola, sem muitas dificuldades. Estou tentando encontrar editor interessado ou mesmo inscrever esse projeto num dos muitos editais de cultura que aparecem por aí, para torná-lo realidade.
Nesta casinha funcionava a primeira escola onde estudei