sexta-feira, 15 de novembro de 2013

LEANDRO GOMES DE BARROS

 
Artigo publicado na revista CULTURA CRÍTICA, da APROPUC

Leandro Gomes de Barros, grande mestre da poesia popular brasileira

 
Arievaldo Viana

1 .  Leandro, fundador de uma literatura


A arte do trovadorismo, proveniente da Península Ibérica, chegou ao Novo Mundo, e floresceu tanto na América Espanhola quanto na América Portuguesa. Houve um tipo de literatura popular em verso no México, Chile, Nicarágua e Argentina muito parecido com o folheto nordestino... Até a gravura popular usada para ilustrar os corridos mexicanos e as folhas soltas da lira popular chilena apresenta características parecidas com a nossa, sem falar que muitos dos temas aproveitados pelos autores da literatura de cordel nordestina também foram explorados naqueles países. O que torna o nosso romanceiro bastante singular é o formato padrão adotado desde os primórdios por Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, Francisco das Chagas Batista e outros poetas-editores. Os folhetos impressos no Nordeste medem geralmente 11 x 15,5 cm - um ofício dobrado em quatro partes -, o que corresponde a oito páginas, que podem se multiplicar para 16, 24, 32, 40, 48 ou mais páginas, sempre múltiplas de oito, conforme o tamanho do texto. Outro aspecto que surpreende os pesquisadores de todo o mundo é a fabulosa quantidade de folhetos impressos no Brasil nos últimos cem anos: mais de 26 mil títulos, em milhares e milhares de edições, conforme atesta o pesquisador Altimar Pimentel.
A literatura de cordel brasileira surgiu de maneira tardia, porque antes da vinda da Corte Portuguesa, em 1808, era proibida a existência de prelos aqui no Brasil. A poesia popular oral ou manuscrita, que já existia desde os tempos de Agostinho Nunes da Costa, Hugolino do Sabugi, Inácio da Catingueira e Romano da Mãe D'água, só viria a se servir dos tipos móveis quando o poeta Leandro Gomes de Barros mudou-se da Vila do Teixeira, na Paraíba, para Vitória de Santo Antão (PE), e passou a editar os primeiros folhetos nas tipografias de Recife. Leandro não se limitou a reaproveitar os temas correntes, oriundos do romanceiro medieval e dos ABCs manuscritos compostos em quadra, que já circulavam aos montes pelo Nordeste narrando a gesta do boi e do cangaceiro. Ele foi mais longe. Criou um tipo de poesia cem por cento brasileira, versejou em diversas modalidades (sextilha, setilha e martelo), utilizando a redondilha menor (versos de cinco sílabas), a redondilha maior (sete sílabas) e o decassílabo. Em sua vasta produção, orçada em torno de mil poemas publicados em mais de seiscentos folhetos, destacou-se, sobretudo, pela qualidade de sua poesia e por sua sátira mordaz e instigante.
Leandro Gomes de Barros era filho de José Gomes de Barros Lima e Adelaide Gomes de Barros. Nasceu na fazenda Melancia, em Pombal (PB) (hoje pertencente ao município paraibano de Paulista), no dia 19 de novembro de 1865, e faleceu no Recife (PE), em 4 de março de 1918. Ele foi o fundador da poesia popular no Brasil e o mais importante poeta de seu tempo, conforme o testemunho do poeta Francisco das Chagas Batista. É também autor de dois folhetos, dos três que serviram de inspiração para Ariano Suassuna compor O Auto da Compadecida. São eles: O Dinheiro - O testamento do cachorro -, de 1909, e O Cavalo que Defecava Dinheiro.

2 .  Primeiro contato com a obra de Leandro

    Em 1976, com apenas nove anos de idade, estive na cidade cearense de Canindé, conhecida como o "maior santuário franciscano das Américas", onde há uma grande romaria dedicada a São Francisco das Chagas. Por lá, apareciam vendedores de poesia popular, os famosos folheteiros, atraídos pelo aglomerado de gente. Naquela oportunidade, meu pai presenteou-me com os dois volumes do folheto A Vida de Cancão de Fogo e seu Testamento, de Leandro Gomes de Barros (na imagem ao lado, aparece apenas o nome do editor João Martins de Athayde). A partir daquela data, Cancão e Leandro passaram a ser meus heróis (ou anti-heróis?) prediletos. Mais que quaisquer outros que eu viria a conhecer posteriormente, nacionais ou importados, dos quadrinhos ou do cinema. Toda criança sente-se fascinada pelos contos de encantamento que, em plena era de consideráveis (e por vezes abusivos) avanços tecnológicos, ainda influenciam o desenho animado e até mesmo os jogos de videogame. O folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo, em Cinco Livros do Povo, justifica a permanência e as transformações da novelística fantástica e dos contos de encantamento, tema freqüente dos livretos de cordel, lembrando que o cinema e os quadrinhos também estão impregnados desses motivos:
A necessidade do maravilhoso, a tendência natural à libertação das leis físicas da proporção e do equilíbrio explicam muito dessa literatura fantástica que resiste e se transfigura nas revistas infantis em que as fadas passam aos brutos SUPER-MEN desenhados em Nova Iorque. Todo o indispensável amor ao maravilhoso explica a perpetuidade do conto infantil e popular, como defende a vulgaridade dos filmes em série, dos horse ópera, romances em folhetins, as novelas gritadeiras e radiofônicas [o texto de Cascudo é de meados do século XX] que disputam o reino perdido de Ponson du Terrail, Alexandre Dumas, Pai, e Michel Zevaco.
Os cordéis já exerciam um grande fascínio sobre mim desde minha alfabetização, e constituíam a minha leitura predileta, embora, por conta disso, eu sofresse a crítica de diversas pessoas que não entendiam como uma criança de oito anos perdia o seu tempo "com esses livretos de gente velha". Pois bem, no caso do folheto de Cancão de Fogo, foi paixão à primeira vista, identificação total com o irreverente personagem e seu criador, cuja importância nunca foi devidamente reconhecida em nosso país. Apesar dos esforços de Câmara Cascudo, Leonardo Mota, Sílvio Romero, Gustavo Barroso, Manuel Diegues Jr., Sebastião Nunes Batista e outros intelectuais, Leandro só veio a ter algum valor nos meios acadêmicos nacionais depois que virou alvo da pesquisa de intelectuais franceses e norte-americanos, como Raymond Cantel e Mark J. Curran. E mais ainda, depois que Carlos Drummond de Andrade o considerou superior a Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac, que, curiosamente, nasceu e faleceu também nas mesmas datas que Leandro (1865 - 1918). Pode, aparentemente, haver certo exagero da parte de Drummond, mas levemos em conta o fato de que Leandro foi muito mais popular, pois suas obras tiveram milhares de edições, e foram consumidas até por analfabetos, que compravam seus folhetos e pediam para que terceiros, semi-alfabetizados, longe dos salões engalanados, os lessem em voz alta. Tais leituras formavam verdadeiros saraus de poesia nas noites sertanejas, com dezenas de ouvintes, embevecidos pela leitura alegre e cadenciada de: Cachorro dos Mortos, Juvenal e o Dragão, Donzela Teodora, Soldado Jogador, Sofrimentos de Alzira, Alonso e Marina e Meia-Noite no Cabaré.

3. Retalhos da infância de Leandro

    Leandro ficou órfão de pai aos sete anos, e mudou-se para a Vila do Teixeira (PB), na companhia de seu tio materno, padre Vicente Xavier de Farias, que ajudou a criá-lo. Deixou a companhia deste ao completar 11 anos de idade, por se considerar vítima de maus-tratos. A Vila do Teixeira era o berço dos grandes cantadores do passado - pioneiros do gênero - como Francisco Romano Caluête (o temido Romano da Mãe D'água ou Romano do Teixeira, que travou peleja com Inácio da Catingueira), e do famoso glosador Agostinho Nunes da Costa, pai de Ugolino e Nicandro Nunes da Costa, tidos como os melhores cantadores de seu tempo. O Teixeira foi ainda a terra de grandes valentões, com destaque para os Guabirabas, família de celerados cuja bravura Leandro imortalizaria em versos, muitos anos depois:

Deixo agora os cangaceiros
Da nossa atualidade,
Para vos contar a história
De outros da antiguidade:
Quatro cabras destemidos
Assombro da humanidade.

Os Guabirabas, um grupo
De três irmãos e um cunhado,
Tudo assassino por índole,
Cada qual o mais malvado!
Aquele sertão inculto
Tinha essas feras criado.

Parte deste poema encontra-se no livro Ao som da viola, de Gustavo Barroso, publicado em 1921. Liberato da Nóbrega, subdelegado do Teixeira, e Cirino Guabiraba são o cerne da questão. O delegado Delfino Batista havia ficado de fora da contenda, mas acabou sendo a principal vítima da refrega... Os atos de bravura de Cirino e seu cavalo Retróz são descritos com minúcias pelo poeta, que cresceu embalado por aquelas histórias. Até a intervenção do Padre Vicente Xavier de Farias é vista pelo repórter Leandro com imparcialidade. Os laços de família e as questões pessoais são deixadas de lado:

Achando o Padre Vicente,
Essas feras sem destino,
Disseram a ele: - Seu padre
Mande o sacristão ao sino
E pode escutar os tiros
Que vamos dar no Delfino!

Nessa conversa que estavam
Disse-lhes o padre Vicente
Que o Delfino Batista
Dessa morte era inocente.
O culpado disso tudo
Foi Liberato somente.

Mas eles nem escutaram
O que o padre dizia,
Cortaram em pequenas postas
Com a maior tirania
Uma das melhores almas
Que naquela terra havia!

Informa-nos o escritor Pedro Nunes Filho, autor de Guerreiro Togado, que o Padre Vicente, além de vigário da Vila do Teixeira, era também professor de latim e humanidades, o que no passado chamava-se padre-mestre, tendo sido, provavelmente, o responsável pela educação daquele garoto, que cedo revelou os seus pendores para a literatura. Leandro abandonou a companhia de seu tutor aos 11 anos, devido os maus-tratos que ele lhe infligia e algumas desavenças por causa da herança deixada por seu pai (o padre era o tutor da herança de sua família, e andou transferindo alguns bens para outras pessoas, deixando Leandro e seus irmãos na miséria). Este fato encontra-se minuciosamente descrito num livro ainda inédito, escrito pela professora Cristina da Nóbrega. Leandro abandonou a escola e fugiu de casa ainda adolescente, tendo passado por muitas privações. Qualquer semelhança com a história de Cancão de Fogo e Alfredo, personagens criados pelo mestre de Pombal, talvez não seja mera coincidência...

Esse homem que me cria
Me maltrata em tal altura
Que nem um preso no cárcere
Sofrerá tanta amargura
Não foi Deus, é impossível
Que me deu tanta amargura.

Cancão de Fogo, um amarelinho da mesma estirpe de Pedro Malazartes e João Grilo, é descrito por Leandro como "o quengo mais fino/ dessa nossa geração".  Familiares do poeta contam que o jovem Leandro era um menino "endiabrado", sempre disposto a aprontar travessuras, que ainda hoje estão retidas na oralidade de seus parentes. Não eram exatamente brincadeiras de mau gosto, mas atitudes que demonstravam grande irreverência. Já adulto, seu espírito brincalhão continuava o mesmo... No velório de um tio, trepou-se numa janela e ficou de atalaia, esperando a passagem de uma criada da casa, fingindo-se de onça. E não é que acabou pulando em cima dela, imitando o rosnado do feroz felino?! Foi uma situação de grande hilaridade, exceto para sua tia, a viúva, que ficou muito magoada: "- É, Leandro, eu sempre fico lhe devendo!"
Câmara Cascudo comparou esse folheto - A Vida de Cancão de Fogo e o seu Testamento -, em seu Vaqueiros e Cantadores, a um livro outrora famoso, Palavras Cínicas, do escritor português Albino Forjaz de Sampaio, uma das obras mais lidas no Brasil, no início do século passado... Realmente, a obra de Forjaz de Sampaio é plena de irreverência, cheia de máximas que podem haver inspirado o autor de O padre jogador. Já em Cinco Livros do Povo, Cascudo afirma que o Cancão de Fogo é uma "espécie matuta do Lazarillo de Tormes, Guzmán de Alfarache ou Estebanillo Gonzáles", quengos finos da velha Europa, personagens de novelas picarescas. Porém, somos de opinião que Leandro inspirou-se em sua própria história e outros tipos populares do Recife para compor o irrequieto Cancão:

Cancão de Fogo já tinha
Nove ou dez anos de idade
Quando o pai dele morreu...
Deixou-os em orfandade;
Cancão quando soube disse:
- Isso não é novidade!

- Mamãe está sem marido,
Por isso não vá chorar;
Eu também fiquei sem pai
Porém, sempre hei de passar.
Ela pode achar marido -
Pai é que eu não posso achar!

Acima, box com Biografia e Antologia Comentada de Leandro,
elaboradas por Arievaldo Viana, ainda inéditas.

    4.  A família de Leandro

    Segundo informações da escritora Cristina da Nóbrega, professora de Teologia no Recife, bisneta de Daniel Gomes da Nóbrega, Leandro era irmão de seu bisavô e também de Adonias, Cândida e Raimunda. Graças aos seus esforços, foi possível, pela primeira vez, fazer-se um esboço da árvore genealógica do poeta, mesmo que faltem algumas peças primordiais, como o nome e a origem de seus avós. Sabe-se que a mãe se chamava Adelaide, e era sobrinha do já citado padre Vicente Xavier de Farias, que ficou como tutor da família, após a morte do pai de Leandro. Segundo Cristina, os dois não se entendiam. Por esse motivo, Leandro acabou mudando o próprio sobrenome, renegando o "da Nóbrega" (da família de seu tio) e adotando "de Barros", que era o outro sobrenome de seu pai. Cristina também suspeita que a questão do subdelegado Liberato da Nóbrega com os Guabirabas, cangaceiros da antiga Vila do Teixeira, também haja contribuído para essa decisão do poeta. A certidão de óbito de Leandro, encontrada recentemente por Cristina, informa que o nome completo do pai de Leandro era José Gomes de Barros Lima. Provavelmente, o Nóbrega vem de sua mãe, Adelaide.
Leandro residiu até os 15 anos de idade no Teixeira, fonte irradiadora de poesia e nicho sagrado de grandes poetas populares do passado. A convivência com esses menestréis matutos, aliada às lições que recebeu do padre-mestre Vicente Xavier de Farias, afora a leitura de livros como as Escrituras Sagradas e a História de Carlos Magno e os Doze Pares de França fizeram de Leandro um verdadeiro elo entre o popular e o erudito. Diria mais: Leandro foi o veículo de transição entre a poesia oral "matuta" e a poesia popular urbana no Brasil!
 Por volta de 1880, mudou-se para Pernambuco, fixando-se inicialmente em Vitória de Santo Antão (PE). Após uma curta permanência em Vitória, Leandro mudou-se para Jaboatão, onde casou-se com dona Venustiniana Eulália de Sousa (que se tornou "de Barros"), com quem teve quatro filhos, segundo informa a pesquisadora Ruth Brito Lemos Terra em sua obra Memórias de Lutas: Literatura de Folhetos do Nordeste - 1893 - 1930. Seus contemporâneos relatam que o poeta, apesar de ter constituído uma família numerosa, nunca teve outro ofício além de escrever, imprimir e revender os seus versos, coisa muito rara no Brasil... Os filhos de Leandro eram Rachel Aleixo de Barros Lima (que se casou em 1917 com o escritor Pedro Batista, irmão do também poeta Francisco das Chagas Batista), Herodías (Didi), Julieta e Esaú Elóy. Este último seguiu a carreira militar, tendo participado da Revolução de 1924 e da Coluna Prestes. Durante as pesquisas realizadas para elaboração de sua obra, Ruth Terra conseguiu entrevistar Julieta Gomes de Barros, uma das filhas de Leandro. Esaú assinou, juntamente com a mãe, o documento de venda da obra de seu pai ao poeta João Martins de Athayde, em 1921.

5.  Um "matuto" de gosto apurado

    A única foto de Leandro que chegou à posteridade mostra um cidadão de meia-idade, elegantemente trajado, de pele e olhos claros, rosto arredondado, de serena expressão e a testa ampla dos homens inteligentes. Erram aqueles que o taxam de "matuto" e de "caboclo atarracado".
Pela obra de Leandro, deduz-se que ele era um homem cosmopolita, pois se mudara ainda adolescente para as imediações do Recife, uma das mais prósperas capitais do Brasil. Nacionalista que era, e ainda mais por seus minguados rendimentos, advindos unicamente da venda de seus folhetos, Leandro não adquiriu hábitos de um lord inglês, cuja moda era copiada pela sociedade das capitais nordestinas, mas nem por isso pode-se dizer que ele não tinha um gosto refinado. Lia regularmente, além dos livros úteis à sua pesquisa, jornais e revistas (seus folhetos de época mostram que ele era muito bem informado), andava constantemente de trem, hospedava-se em hotéis quando viajava e andava regularmente calçado de sapatos ou botinas. Mesmo morando nos arrabaldes, Leandro trajava-se decentemente, e criou a sua família com dignidade, conforme atesta Câmara Cascudo. Bebia vinho do porto, quando podia, cerveja e cachaça. Uísque não, porque deliberadamente não simpatizava com os ingleses. Pela letra de Rachel Aleixo, que se vê  na coleção de folhetos pertencente a Casa de Rui Barbosa, nota-se que a filha de Leandro teve boa instrução, numa época em que era raro os "matutos" nordestinos colocarem as filhas nas escolas. Vejamos estas três estrofes,
extraídas do folheto O Cometa, de 1910:

Eu andava a meus negócios,
Na cidade de Natal,
No hotel que hospedei-me
Apareceu um jornal,
Que dizia que no céu
Se divulgava um sinal.

Tratei de tomar o trem
E seguir minha viagem,
Disse: - Tudo vai morrer,
Para que comprar passagem?
Inglês vai perder a vida,
Perca logo essa bobagem.

Eu estava tirando as botas
Quando chegou um caixeiro,
Esse vinha com a conta
Que eu devia ao "marinheiro"
Eu disse: - Vai morrer tudo,
Seu patrão quer mais dinheiro?

6. A morte de Leandro
Do mesmo modo que a sua vida, a morte de Leandro também é envolta em lendas e controvérsias. Há pelo menos umas quatro versões para esse fato. O jornalista Permínio Ásfora, em artigo publicado no Diário da Noite do Recife, em 13 de dezembro de 1949, intitulado "Crise no romanceiro popular", diz o seguinte:
Trechos de sua vida são lembrados ainda hoje. Contam que já morava aqui no Recife quando um senhor de engenho, indignado com um morador, resolveu aplicar neste uma sova de palmatória. (...) Um dia o senhor de engenho é surpreendido por violenta punhalada vibrada pela mesma mão que levara seus bolos. O poeta Leandro aproveita o caso policial, transformando-o em folheto que era um libelo contra o senhor de engenho. Descreve em "O punhal e a palmatória", com calor e simpatia, a inesperada vindita. O chefe de polícia, enfurecido com a literatura de Leandro, manda metê-lo na cadeia. Apesar de folgazão, Leandro era homem de muita vergonha e de muito sentimento. E como naquele já distante ano de 1918 a cadeia constituía uma humilhação, à humilhação da cadeia sucumbiu o grande trovador popular.
Outros pesquisadores afirmam que Leandro morreu vítima da influenza espanhola, uma gripe mortífera que assolou o Brasil no início do século passado. Egídio de Oliveira Lima, por sua vez, diz que Leandro morreu "de uma enfermidade que o havia atacado uns dez anos antes" (Lima, 1978: 156), e no seu ATESTADO DE ÓBITO consta como causa mortis ANEURISMA.

7. Conclusão

    O estilo de Leandro é inconfundível. Ele teve fôlego para transitar em todos os gêneros e modalidades correntes: peleja, romance, gracejo, crítica social, e o fez com maestria. Poucos conseguiram igualar-se. No geral, ninguém o superou até hoje. José Camelo de Melo, autor do Romance do Pavão Misterioso, foi um gênio no gênero romance, assim como José Pacheco, autor de A Chegada de Lampião no Inferno, foi um gênio em matéria de gracejo. Mas ninguém teve a grandeza de Leandro, que foi gênio em todos os estilos.
Recentemente, o jornalista Lorenzo Aldé, da Revista de História da Biblioteca Nacional, comparou-o a Machado de Assis, pelo fato de ser um dos patriarcas da literatura nacional e por ter sido um "crítico mordaz dos valores de seu tempo, observador sensível da vida pública e da política tupiniquim, dono de um estilo irônico e imaginação inesgotável". Também por haver influenciado as gerações de poetas populares que o sucederam.  É esse o Leandro que o Brasil precisa conhecer.
 


Bibliografia
ALDÉ, Lorenzo. "Hora de Conhecer Leandro", in Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 3, n. 29, fevereiro de 2008.
BARROSO, Gustavo. Ao Som da Viola (Folclore), nova edição correta e aumentada. Rio de Janeiro, 1949.
BATISTA, Francisco das Chagas. Cantadores e poetas populares. 2. edição. João Pessoa, 1997.
BATISTA, Sebastião Nunes. Bibliografia Prévia de Leandro Gomes de Barros. Rio de Janeiro: Divisão de Publicações e Divulgação da Biblioteca Nacional, 1971.
CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e cantadores. São Paulo: Ediouro, 2000.
__________. Cinco Livros do Povo. 2. edição. João Pessoa: Editora Universitária/UEPb, 1979.
CURRAN, Mark. História do Brasil em cordel. 2 ed. São Paulo: EDUSP, 2001.
FILHO, Pedro Nunes. Guerreiro Togado - Fatos Históricos de Alagoa do Monteiro. Recife: Editora Universitária - UEPE, 1997.
LIMA, Egídio de Oliveira. Folhetos de Cordel. João Pessoa: UFPB, 1978.
LITERATURA POPULAR EM VERSO. Estudos. Tomo I. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1973 (Coleção de textos da Língua Portuguesa moderna).
__________. ANTOLOGIA, Tomo III. Leandro Gomes de Barros - 2. João Pessoa: UFPB, 1977.
LOPES, Ribamar. Literatura de Cordel - Antologia. 3. edição. Banco do Nordeste do Brasil S.A., 1984.
PIMENTEL, Altimar. F. das Chagas Batista, Antologia. São Paulo: Hedra, 2007.
TERRA, Ruth Brito Lemos. Memória de Lutas: Literatura de Folhetos no Nordeste - 1893 - 1930. São Paulo: Global, 1983.
 
Arievaldo Viana Poeta popular, criador do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula