domingo, 17 de novembro de 2013

FOLHETINS VIRTUAIS


Casa velha da fazenda Castro, construída há mais de 150 anos
 
 

 
 
Antigamente era costume dos grandes escritores publicarem as suas obras em folhetins que eram acompanhados avidamente pelo público leitor. Foi assim com diversas obras de José de Alencar, Machado de Assis, Victor Hugo, Fiódor Dostoyevski, só para citar alguns dos mais famosos mestres da pena. Com o advento da internet e a proliferação dos blogs e redes sociais, o escritor moderno testa seus escritos através de postagens na rede mundial de computadores. Eu tenho certas restrições a esse poderoso meio de comunicação, sobretudo no que diz respeito à preservação dos direitos autorais. Diversos textos de minha autoria e também charges, xilogravuras e ilustrações tão logo são disponibilizadas na internet, rapidamente se propagam por outros sites e blogs, muitas vezes (a maioria) sem qualquer consulta prévia ao autor e, portanto sem minha autorização. Isso quando não cometem o abuso de suprimir o nome do autor, na intenção de apropriar-se da obra alheia. A árdua pesquisa que realizei para montar a biografia do poeta Leandro Gomes de Barros já foi plagiada dezenas de vezes, sem que a fonte fosse citada. Resta-me o consolo de haver publicado o texto (um resumo substancial) na revista Cultura Crítica, da Apropuc. Uma vez registrado ali, na velha celulose, é prego batido e ponta virada! Por isso que é que defendo a existência do livro e demais impressos no papel, por mais que decantem as vantagens virtuais do e-book e seus congêneres.

Mesmo correndo os riscos acima descritos, resolvi publicar neste novo blog – MALA DE ROMANCES – os apontamentos que tracei para o primeiro capítulo do livro Sertão em desencanto (título provisório), que traz como subtítulo: Fragmentos das memórias de um poeta sertanejo. Repito: são apontamentos. O texto final será cuidadosamente burilado até atingir algo próximo do que realmente desejo. Deixemos pois de rodeios e vamos ao que de fato interessa:

 

FRAGMENTOS DAS MEMÓRIAS
DE UM POETA SERTANEJO

 

“Não direi que este livro seja uma autobiografia. É mais um fac-símile. Uma cópia em carbono do que sou e do que sinto. Gostaria mais que fosse um poema. Uma epopéia sobre o sertão. Ele bem que o merece.”

(Pe. Antônio Vieira  Sertão Brabo, 1968)

 

Poeta sei que sou, porque a genética não faz curvas (a geometria, sim), conforme explicou-me pacientemente o saudoso professor Laurismundo Marreiro. A coisa vem de longe. Remontando às raízes avoengas, descobri que meu bisavô Francisco de Assis — o Fitico do Castro —, fazia testamentos de Judas e segundo alguns teria escrito também A Onça da mão torta e O Boi Vermelhinho, dois cordéis que tiveram certa repercussão no limiar do século XX, mas que circularam somente de forma manuscrita em cadernos de família.

Nunca tive essa vaidade tola de andar procurando traços de nobreza ou fumaças de fidalguia nos meus antepassados, mas já que estamos bisbilhotando a gênesis de minha família, baseio-me nas muitas conversas que tive com minha avó Alzira, com meu tio José Viana e ultimamente com meu pai, para fazer um breve apontamento através dessas crônicas familiares.

Meu antepassado Miguel de Souza Mello, pai do Fitico, estabeleceu-se na fazenda Castro, então município de Quixeramobim, por volta de 1854, oriundo de Sobral. A partir de então passou a ser conhecido como Miguel do Castro. Consta que teria adquirido aquela gleba por compra à viúva Vitorina de Souza Mello, sua irmã. Eles eram aparentados com o Padre Mororó (Gonçalo Inácio de Loyola Albuquerque e Mello), nascido em Groaíras, a 24 de julho de 1774 e morto em Fortaleza, aos 30 de abril de 1825, sacerdote, jornalista e revolucionário na luta pela independência do Brasil.

Minha avó Alzira narrava, baseada na tradição oral familiar, episódios da vida desse herói da Confederação do Equador, inclusive do dia em que foi fuzilado na Praça dos Mártires, atual Passeio Público. Segundo ela, um grupo de crianças foi assistir a execução dos condenados e trepou-se nas galhas de um frondoso cajueiro, para ter uma visão privilegiada. O resultado é que o dito galho se partiu, devido o excesso de peso, provocando a queda dos meninos e uma gostosa risada do sacerdote que estava prestes a ser espingardeado a mando das autoridades da Coroa Portuguesa. Ainda sobre a execução, consta que o Padre Mororó pôs a mão sobre o peito e disse que ela seria o alvo de seus carrascos. A primeira bala partiu o seu dedo anelar e atingiu o seu coração.

Vamos aos fatos. Em 1824 a Câmara Municipal da Vila de Santo Antônio do Campo Maior (atual Quixeramobim), insuflada pelo revolucionário Gonçalo Mororó,  teve a ousadia de depor o imperador  D. Pedro I e declarar o território de Quixeramobim desmembrado do Brasil.

Sobre a história de Quixeramobim existe um excelente livro escrito pelo professor Juarez Leitão, que narra com minúcias os episódios da revolução de 1824, com foco especial na atuação do Padre Mororó e nas ações da Câmara de Quixeramobim. Juarez, amigo de longa data, concedeu-me a honra de prefaciar a terceira edição do meu livro Baú da Gaiatice, relançado em 2012 pela Editora Assaré. Acerca desse episódio histórico pouco divulgado nacionalmente, mas motivo de muito orgulho para o povo Nordestino, recomendo a leitura da obra do historiador Juarez Leitão.
 

LIÇÕES INFORMAIS DE HISTÓRIA
 

Quando criança eu costumava acompanhar minha avó Alzira nas suas visitas ao Quixeramobim. Ela sempre me mostrava lugares históricos e relembrava fatos que ouvira da boca de seus antepassados. Sabia até o nome dos sinos da igreja matriz de Santo Antônio, erguida pelo português Antônio Dias Ferreira. Mostrou-me a casa de Antônio Conselheiro e a antiga sede da Câmara. Falou-me também da passagem dos revoltosos da Sedição de Juazeiro por Quixeramobim, em 1914, depredando lojas e saqueando o comércio. Uma de suas tias, a velha Maria dos Reis (tia ‘dos Reis’) falava de um compadre seu que tivera grande prejuízo pois os jagunços haviam atirado peças de fazenda no meio da rua, para alegria do populacho.

Ela lembrava às vezes que a sua avó Francinha, mãe do Fitico chamava-se Francelina Paulino do Amor Divino e era pertencente ao clã dos Paulinos da Vila Campos, em Canindé. Achava despropositada, portanto, uma certa rivalidade que havia entre o povo dos Campos e a gente do Castro, já que, de certo modo,  eram ‘farinha do mesmo saco’.

Miguel José de Sousa Mello, meu tataravô, era filho de Fortunato José de Sousa Mello e Ana Úrsula Cavalcanti de Sousa, casal proveniente dos sertões da Paraíba ou de Pernambuco. Contam que o Miguel foi pai aos 14 anos. Engravidara uma escrava chamada Irene e a mãe descobriu a travessura ao fazer o parto da moça, quando constatou que o rebento tinha os olhos e a pele clara do seu Miguelzinho. Muitos anos depois esse filho apareceu, acho que na terrível seca de 1877, buscando a ajuda do pai, que no momento se encontrava ausente. A mulher o recebeu com uma certa frieza e disse-lhe que esperasse o retorno de seu pai, para ver o que ele resolveria. Arranchado no alpendre, Chico Irene (esse era o apelido do rapaz) foi surpreendido por um grupo de jagunços (ou por uma horda de sertanejos famintos) querendo saquear a fazenda. Prontamente o rapaz assumiu a defesa da casa e perguntou à esposa de seu pai, se tinha alguma arma disponível. A velha deu-lhe um clavinote e ele enfrentou os cabras disposto a matar ou morrer. Diante de sua demonstração de coragem, os homens preferiram se retirar, de modo que o saque iminente foi evitado. Depois do seu ato de bravura, não houve mais nenhum impedimento ao seu intuito. A dona da casa ordenou que ele encostasse o seu burrico e suprisse os caçuás com bastante mantimentos: farinha, rapadura, feijão, carne seca e outros alimentos comuns nas fazendas sertanejas daquele tempo.

PENDORES LITERÁRIOS
 

O velho Fitico era um danado… Possuía uma pequena, porém ótima biblioteca com livros editados no Brasil, Portugal e até Alemanha, quase todos de temática sacra e gostava muito de escrever, em bom português e ótima caligrafia. Olympio Viana (o Pai Viana da Cacimbinha), um de meus bisavós maternos, também tinha esse hábito. Quanto ao Miguel do Castro dizem que também era poeta de nomeada, pois quando estava moribundo ainda teve fôlego para compor essa quadrinha para uma comadre que viera visitá-lo:
 

Quatro coisas me aborrecem,
Fora faca que não corta...
Dormir cedo, acordar tarde,
Mulher feia e besta torta!
 

- Pegue esta pra você, comadre! - Teria dito o enfermo.
 
 Francisco de Souza, o Fitico do Castro

 
Francisco de Assis de Sousa nasceu no dia 19 de novembro de 1870 e casou-se com uma sobrinha, Maria das Mercês Viana de Sousa, filha de Miguel Martins Viana e  de sua irmã Francisca, mais conhecida como ‘Mãe Souza’. A moça era 14 anos mais jovem, pois nascera no dia 18 de fevereiro de 1884. Ainda adolescente, Fitico estudou na capital, nos bons tempos da Fortaleza descalça  e chegou a conhecer a famosa Marica Lessa, personagem que inspirou Manoel de Oliveira Paiva em seu célebre romance Dona Guidinha do Poço. Já senil e amalucada, a velha ainda teimava em protestar inocência no caso do assassinato do seu marido, o Sr Abreu, morto pelo escravo Corumbé, a mando da própria Marica Lessa, segundo se dizia.

Fitico foi contemporâneo e admirador do Padre Cícero Romão e protetor do Padre Azarias Sobreira, o melhor e mais fidedigno biógrafo do patriarca do 'Joaseiro'. Encontrando-o adoentado, ainda adolescente, a caminho do Convento de Canindé, onde foi seminarista, Fitico prontificou-se a cuidar de sua saúde na Fazenda Castro, de sua propriedade. No Castro, o jovem Azarias recebeu calorosa acolhida durante meses, até recuperar-se e poder retornar aos estudos religiosos, pois era esse o seu intento. Quando ordenou-se sacerdote, veio celebrar uma missa na capelinha do Castro, erguida pelo meu bisavô, dedicada à Jesus, Maria e José, capela na qual eu viria a me batizar pelas mãos do padre Vital Elias, então vigário de Madalena. Ali também fiz a primeira comunhão que me foi ministrada pelo Padre Nery Feitosa, escritor e historiador dedicado.

Minha avó Alzira Viana de Sousa (Lima, após o matrimônio) era leitora contumaz dos clássicos do cordel e papai, Francisco Evaldo de Sousa Lima, um apaixonado por cantoria que não aventurou-se pelo mundo com uma viola às costas porque a família (meu avô, principalmente) não foi de acordo. Mas adquiriu um vasto cabedal de livros e folhetos que decorava com grande facilidade e lia ou declamava para os filhos sempre que tinha tempo. Dois de meus irmãos também fazem versos com grande facilidade, são eles Klévisson e Itamar.

 

RETALHOS DA INFÂNCIA

 

O cordel foi minha leitura de primeira hora, literatura que vislumbrei da soleira das janelas de minha infância, linguagem corriqueira que utilizávamos no dia-a-dia com a vantagem de ser rimada e metrificada. Antes mesmo de aprender o beabá eu já me deliciava com a leitura de minha avó Alzira, corrida e desembaraçada, na toada mais adequada para os folhetos e romances de cordel. Desfilavam diante de mim reis, princesas encantadas, castelos de ouro e cristal, gigantes descomunais, dragões flamejantes, guerreiros medievais, amarelinhos sabidos, o diabo logrado, as fábulas repletas de bichos da fauna nordestina e a saga dos cangaceiros audaciosos. Universo mais lúdico é impossível.

Quero iniciar este novo livro com um cordel feito recentemente para o Instituto C&A, que encomendou-me um texto sobre brincadeiras e folguedos de um menino sertanejo a fim de inserir numa de suas publicações. Lembrei-me, é claro, da minha infância lúdica e feliz na fazendola de meus avós:

 
Divisa dos municípios de Madalena e Canindé (Três Irmãos)
Foto: Autemar Viana
 

MEUS BRINQUEDOS DE CRIANÇA (TRECHOS)

Arievaldo Vianna Lima

 

Vou falar das brincadeiras
Do meu tempo de criança
Porque não posso olvidar
Tanta bem-aventurança
Um tempo lúdico, encantado,
Que não me sai da lembrança.

 
Ouvi canções de ninar
Que a minha mãe cantava
Numa rede de varandas
A noite ela me botava
E solfejando cantigas
Com prazer me embalava.

 
Três monólitos gigantes
No final da cordilheira
Dominavam a paisagem
Nessa terra hospitaleira
Onde vivi com prazer
A minha infância primeira.

 
Nesse lugar encantado
Onde só reina alegria
No meio dos meus parentes
Como num sonho eu vivia
Lá, a própria natureza
Só respira poesia.
 

As aves cantam nos galhos
Trina a cigarra na mata
Os cristais resplandecentes
Parecem de ouro e prata
E o olho d'água da fonte
Jorra em suave cascata.

 
No sopé da cordilheira
Que se ergue abruptamente
O sabiá laranjeira
Canta sublime e plangente
O sol dardeja os seus raios
Tocando a alma da gente.
 

Preás se escondem nas locas
Com medo dos predadores
Inhambus arrulham nas matas
Atraindo os caçadores
Abelhas zumbem na relva
Sugando o néctar das flores.

 
No sopé dos três serrotes
Tudo é encanto e beleza
Seus habitantes convivem
Em paz com a natureza
E os monólitos ostentam
O seu porte de nobreza.

 
No ano sessenta e sete
Do outro século passado
Nasci naquele recanto
E fui por Deus inspirado
A beber daquela fonte
Perto do reino encantado.

(...)

 

 
Quando eu era pequenino
Nos alpendres do sertão
Que ouvia: “ Era uma vez...”
Ficava de prontidão:
Já sabia que as estórias
Jorravam em profusão.

 
Os meninos do sertão
Bebiam a nossa cultura;
Os mais velhos transmitiam,
Em prosa franca e segura
As estórias de Trancoso
Em oralidade pura.
 

Belos romances rimados
(Os folhetinhos de feira)
Eram lidos em voz alta
No alpendre e na bagaceira
Dos engenhos de açúcar
Para toda cabroeira.

 
O Fiscal e a Fateira
Os Cabras de Lampião
A Vida de Pedro Cem
Testamento de Cancão
O Crente e o Cachaceiro
Numa grande discussão.
 

Martírios de Genoveva
E a Donzela Teodora
São romances que o povo
Guarda, conserva e adora
E a criança inteligente
Lê, admira e decora...

 
Cancão de Fogo e João Grilo
Aderaldo e Zé Pretinho
Juvenal e o Dragão
Eu li tudo com carinho,
No alpendre, em voz alta,
Rodeado de vizinho.


(...)
 

Mas, de toda diversão,
Do meu tempo de criança
O contador de estórias
Jamais me sai da lembrança
Essa figura encantada
Renova a minha esperança.

 
Eu tenho muita saudade
Dos saberes e cantares
Vovô sabia narrar
Muitas lendas populares
Tinha o urubu e o sapo
Numa festa, pelos ares.

 
Tinha o macaco e a onça
A raposa e o “cancão”
Dois gênios da esperteza
Como reza a tradição;
No fim da fábula, a moral,
Trazendo alguma lição.

 
Por tudo quanto vivi
Me tornei um menestrel
Penso rimas, traço trovas
Em pedaços de papel
Eis o que me transformou
Num poeta de cordel.