quinta-feira, 17 de agosto de 2017

NA PAREDE DA MEMÓRIA



A RURAL, O TOCA-FITAS, O TREM 

E O PICOLÉ DA MAGUARY



Dedicado ao escritor Bruno Paulino


A primeira vez que vi o trem foi no Quixeramobim, em 1971. Eu tinha uns três ou quatro anos e naquele momento meus pais visitavam o Acrísio da Tia dos Reis, que residia num casarão próximo à ponte metálica. Fizemos a viagem, de Ouro Preto a Quixeramobim, numa Rural Willys do meu tio Zé Adauto, novinha em folha, ouvindo as cantigas dos The Fevers num toca-fitas, verdadeiro luxo naquela época. Passamos pela Cacimba Nova, Ferros, Chapéu, Canafístula, e chegamos a Quixeramobim por volta de 8 horas da manhã, a tempo de assistir uma missa na Matriz de Santo Antônio. Depois é que saímos em visita aos parentes. Foi também a primeira vez que chupei um picolé. Menino matuto, nascido e criado no tempo da lamparina, eu não fazia a menor ideia do que fosse um doce gelado. O picolé, da marca Maguary Kibon, saiu “fumaçando” do congelador. Na primeira mordida tive a sensação de que o danado era quente e sacudi no meio do calçamento! Foi ainda a primeira vez que vi o Chico Doido, também apelidado de "Dinheirão", pois o maluco abordava as pessoas de forma ríspida e impertinente, pedindo um dinheirão! Um dinheirão, no seu entender, era uma cédula. Moeda era "dinheirinho".

Em dado momento saí da vista dos adultos e fui brincar na linha férrea. Naquele tempo os trens de passageiros ainda cruzavam os nossos sertões e a sua presença era um deslumbramento para os matutos que vinham lá dos cafundós. Quando a locomotiva apitou para dar a partida foi que meus pais perceberam a minha falta e me encontraram justamente nos trilhos, onde a máquina haveria de passar. Fui salvo pelo gongo, ou melhor, pelo apito do trem. Para falar a verdade, eu nem sabia o que era aquela fila de “casinhas” com rodas, cheias de cabeças nas janelas. Só quando a locomotiva se pôs em movimento é que percebi tratar-se de uma fila de carros atrelados, puxados por uma máquina barulhenta e fumegante, verdadeiro monstrengo que bufava em nossa direção, soltando apitos estridentes e colunas de fumaça pelo ar.



Passei então a ter um misto de medo e fascínio pelo trem, mas a primeira viagem só aconteceria bem depois, mais precisamente em janeiro de 1978, quando vim estudar em Maracanaú. Minha mãe precisava comprar meus livros e algumas peças do meu enxoval, já que dali em diante iria morar na casa alheia. Compramos os nossos bilhetes cedinho, na estação de Maracanaú, e fizemos um animado trajeto até a Estação Central, em Fortaleza, com várias paradas pelo caminho.  Eu só conhecia Fortaleza através de vagas informações de parentes ou referências colhidas em livros didáticos que davam como fundadores da capital alencarina o português Martins Soares Moreno e/ou o holandês Mathias Beck, o homem que ergueu o Forte Schoonenborch, no topo da colina Marajaitiba.

Foi um deslumbramento entrar em Fortaleza pela primeira vez numa manhã ensolarada, vendo tudo pela janela do trem. Mondubim, Parangaba e depois o Centro, com suas lojas imensas e movimento tão intenso como eu só havia visto parecido nos festejos de São Francisco, em Canindé.

Agarrei-me a mão de minha mãe com medo de me perder ou ser atropelado. Minhas primas, acostumadas com o trânsito de Fortaleza, sabiam o que era mão única. Eu, por prudência e desconfiança, só atravessava quando olhava para os dois lados. Aí foi a vez de visitar as lojas de departamento, subir e descer em escadas rolantes e namorar com os estojos de tinta guache, pincéis atômicos, réguas, compassos e outros materiais de desenho. Me deram um livro ilustrado com a história do Rei Midas, que li de um só fôlego assim que cheguei em casa.

Fiquei chateado porque não deu tempo ver o mar. Na verdade, a visita limitou-se ao centro da cidade. Praças da Estação, José de Alencar e do Ferreira, e as ruas principais do centro histórico. Curioso, como sempre fui, procurei guardar na memória alguns pontos de referência, para o caso de um dia precisar andar sozinho por ali. Meses depois vim na companhia do meu pai e falei novamente do desejo que tinha de ver o mar. Era uma manhã de domingo. O centro estava vazio e esquisito, as lojas fechadas, tudo bem diferente daquela vez anterior. Descemos ali em direção à Santa Casa de Misericórdia e das varandas do Passeio Público tive a primeira visão do Atlântico. Um despropósito, uma imensidão de água em movimento, despejando ondas na areia da praia. Verdadeiro alumbramento para um menino nascido e criado no sertão.

Entrar na água, nem pensar. Como sempre, eu andava de calça comprida e sapato. Nem meu pai estava a fim de prolongar aquele passeio. Foram somente uns quinze minutos de contemplação dos verdes mares bravios, mas foi amor à primeira vista. Ainda hoje me encanto diante do mar que banha a “Loura desposada do sol”. O “açudão do governo”, como ainda se diz pelo sertão. Deu até vontade perguntar na ocasião:


— Pai, onde é que fica a parede desse bichão?

Ao contrário da canção de Belchior, na parede da memória essa lembrança é o quadro mais legal.

(De "O LIVRO DAS CRÔNICAS - VOLUME II DE MEMÓRIAS - Arievaldo Vianna)