quarta-feira, 12 de abril de 2017

UM ANO SEM AZULÃO



Esta semana (dia 14/04, sexta-feira) faz um ano da partida do cantor, compositor, poeta, cordelista e repentista José João dos Santos, o famoso "Mestre Azulão", de quem tive a honra de ser amigo e admirador. Presenciei (e participei como entrevistador) de uma de suas últimas entrevistas, feitas por Fernando Assunção, na Barraca da Chiquita (Feira de São Cristóvão) para um projeto de memória do cordel realizado pela Academia Brasileira de Literatura de Cordel – ABLC.

Um dos ícones da cultura nordestina, Mestre Azulão, tinha 84 anos e foi um dos fundadores da Feira de São Cristóvão, que é um Centro de Tradições Nordestinas na Zona Norte do Rio.

José João dos Santos nasceu em Sapé, na Paraíba. Mas foi com o apelido de Mestre Azulão que se tornou conhecido em todo o Brasil.



ARIBU

Era o mestre Azulão quem me contava essa deliciosa anedota, com sua prosa fácil, encantadora e verve aguçada.

O 'causo' refere-se a um sujeito do brejo paraibano, chamado Ari – e por conta de ser meu xará é que ele me contou isso umas cinco ou seis vezes, morrendo de rir.

Segundo o Azulão, o  cabra era morto de preguiça e totalmente despreocupado com o futuro da prole. Pai de uma récua de filhos, passava as tardes sentado num banco de aroeira, suspenso por duas forquilhas, posto à frente do casebre de taipa, dedilhando uma viola velha e desafinada, com pretensões de cantador. Num extremo da cerca, onde haviam jogado um gato morto, baixou um urubu. Um dos pequeninos, admirados de ver um bicho daqueles assim de perto, exclamou:

— Pía, pai! Olha acolá, um ARIBU.


— Olha acolá o quê, menino?!

— Um ARIBU, pai...

O sujeito meio agastado, segurou o braço da viola bruscamente, parando a toada e, em tom professoral, explicou:


— ARI, não, meu filho! Aribu não! ARI é seu pai. A pessoa que lhe deu a vida, que lhe gerou e  lhe sustenta com tudo que há de bom e de melhor! Aquele peste acolá é um URUBU. Um bicho nojento, asqueroso, fedorento, que vive unicamente de comer carniça, de remexer nos monturos, de beliscar coisa podre, de meter o bico aonde não deve... Ari... Ari é seu pai, meu filho!