sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

TRAÇOS BIOGRAFICOS


Esta é a casa onde nasci, na divisa dos municípios de Quixeramobim e Canindé, na Fazenda Ouro Preto (hoje município de Madalena-CE) 


Esse texto, escrito há mais de dez anos, eram apontamentos para uma auto-biografia. Serviu de base para o projeto MEMÓRIAS DA POESIA POPULAR. Fazia tanto tempo que eu havia postado num antigo blog, que nem me lembrava mais. Vou deixar exatamente como estava:





ARIEVALDO VIANNA  - AUTOBIOGRAFIA


Nasci às 3 da madrugada do dia 18 de setembro de 1967, filho primogênito de Francisco Evaldo de Sousa Lima e Hathane Maria Viana Lima, na Fazenda Ouro Preto (município de Quixeramobim-CE), de propriedade dos meus avós paternos. Quando me entendi por gente, com quatro ou cinco anos de idade, estava no alpendre da casa do meu avô Manoel Barbosa Lima, ouvindo minha avó Alzira Sousa lendo versos da literatura popular para uma platéia atenta e embevecida. “A Vida de Cancão de Fogo e o seu Testamento”, “As proezas de João Grilo”, “Travessuras de Pedro Malazartes” etc. Menino travesso e irrequieto, logo me identifiquei com as peraltices daqueles “amarelinhos”. De posse de uma caixa de lápis de cor, rabisquei todas as paredes do alpendre, mesmo sem saber ler ou escrever, com uma porção de garatujas. Foi aí que meus avós perceberam que era tempo de ensinarem-me as primeiras letras. E foi justamente a minha avó que, de posse de uma “carta de ABC”, ensinou-me a conhecer o alfabeto e juntar as primeiras sílabas.

Pelo que lembro, os únicos livros que existiam na casa eram a Bíblia Sagrada, dois volumes de “O Mártir do Gólgotha”, do romancista espanhol Henrique Pérez Escrish, um volume de contos infantis que abria com a a estória d´A Gata Borralheira e algumas biografias de santos. E uma maleta cheia de folhetos de cordel, que minha avó guardava a sete chaves. Estes livros maiores, da chamada cultura erudita, não chegavam às mãos de um menino de cinco anos, principalmente um traquinas que vivia colorindo figuras. Sabendo que minha avó dormia depois do almoço, eu pegava a maleta de versos e ia para o alpendre debulhar o meu português de recém-alfabetizado nos romances e pelejas da malinha encantada. O ritmo dos versos, a forma cadenciada de leitura que aprendi com minha avó e a métrica perfeita de José Pacheco da Rocha fizeram com que eu “desasnasse” a leitura em poucos dias.

Foi com surpresa que me surpreenderam lendo em voz alta “A chegada de Lampião no inferno”, sem soletrar e sem gaguejar. Meu avô, satisfeito com o meu progresso na leitura, fez-me o maior elogio que ele costumava fazer a um neto: “Esse menino é um monstro! É um Cancão de Fogo! Lê verso melhor do que gente grande!” Daí por diante, a mala de folhetos era meu xodó. Toda vez que minha avó ia ao Canindé trazia alguma novidade. Em 1973 ou 74, fui com a família passar o Natal na Meca Franciscana. Passara todo o verão daquele ano juntando minhas moedas numa latinha de cerveja para comprar um brinquedo e alguns “romances” para minha coleção. Fiquei bestinha quando deparei com um folheteiro na Praça Thomaz Barbosa, centro de Canindé, com centenas (talvez milhares) de folhetos espalhados sobre uma lona. Um espetáculo magnífico, que ainda hoje trago retido nas dobras memória. Havia folhetos editados na Tipografia das Filhas de José Bernardo, de Manoel Caboclo e Silva, de João José da Silva e de Manoel Camilo dos Santos. Lembro-me bem de haver comprado “Roberto do Diabo”, “Intriga do Cachorro com o Gato”, “Roldão no Leão de Ouro” e “O príncipe do Barro Branco no Reino do Vai-não-torna”. Minhas tias me repreenderam: “Esse menino parece um velho. Podendo comprar uma revista em quadrinhos, gasta o dinheiro dele com verso. Onde já se viu?” Nesse tempo as pessoas do sertão começavam a sentir vergonha da própria cultura. Os jovens, principalmente, detestavam cantoria, Luiz Gonzaga, Coronel Ludugero e aplicavam os ouvidos para Roberto Carlos, Wanderley Cardoso e Jerry Adriani.

Minha avó, como já disse, colecionava folhetos. Meu pai foi mais longe. Queria ser cantador de viola. Chegou mesmo a comprar um instrumento mas não aprendeu a tocar. Mas, ainda hoje, faz versos de improviso com a maior facilidade. Lembro-me bem, que durante as estiagens mais prolongadas, meu pai encangalhava os jumentos e ia buscar água no olho d´água das Coronhas, no sopé do serrote dos Três Irmãos. Durante o trajeto, ia cantando “A batalha de Oliveiros com Ferrabrás”, seu romance predileto, da autoria do grande Leandro Gomes de Barros. O serrote dos Três Irmãos é outro caso à parte. Encravado na fronteira dos municípios de Canindé com o Quixeramobim, é constituído por três monólitos gigantescos e idênticos, alinhados um ao lado do outro. O velho Chico Pavio, que trabalhava de alugado no roçado do meu pai, dizia que eram três reinos encantados. E a gente, com aquela pureza de menino, acreditava piamente no que o velho dizia. Um dia, um dos serrotes deu uns estrondos ensurdecedores e alguns blocos de pedra se desprenderam da rocha e rolaram de serrote abaixo. Nesse dia, até os adultos passaram a dar crença às conversas do Chico Pavio. Os três reinos estava prestes a desencantar... O Chico Pavio era filho da Bastiana, uma velha rezadeira e contadora de histórias, que encantava a meninada da região com seu bom humor e suas “gaitadas” emitidas por uma boca já sem dentes. Era tal e qual a velha Totonha dos romances de José Lins do Rego. Uma neta dela, a Rita Maria, morou algum tempo em nossa casa e passava horas e horas nos contando histórias de trancoso.



Leandro Gomes de Barros e José Pacheco da Rocha sempre foram os meus poetas preferidos. No plano erudito, gosto de Olavo Bilac, Castro Alves e Augusto dos Anjos. Ultimamente tenho lido as travessuras de Gregório de Matos Guerra – o boca do inferno -, cuja obra se assemelha bastante com os fundamentos do cordel. Influencido, principalmente, por Leandro e Zé Pacheco, rabisquei minhas primeiras sextilhas. Foi a descrição de um episódio envolvendo meus primos Totonho, Osvaldo e Marquinhos. Os três depredaram um pé de cabaceira que havia no quintal do meu avô, a fim de colocar os frutos verdes na fogueira de São João. A cabaça verde na fogueira reproduz um “papôco” parecido com uma bombinha junina. Brinquedo de menino pobre, do sertão. Mas o vovô queria as cabaças para levar água para o roçado e também para serrar ao meio e fazer uma espécie de funil para levar para o açude. Sabendo do ocorrido, aplicou uma surra na meninada malina e eu, já mordido pelo micróbio da poesia, descrevi tudo em sextilha num folheto artesanal. Eu pegava um papel que vinha no miolo de uma caixa de Maisena, dobrava ao meio e fazia o miolo de um libreto do mesmo formato de um cordel. Depois pegava aquele papel de embrulho verde ou rosa que havia no balcão da bodega do meu avô e fazia a capa do verso. Pra completar, escrevia em letra de forma e fazia uma capa com caneta preta, imitando uma xilogravura. Tudo isso com oito ou nove anos de idade.

Meu reinado, ou melhor, minhas “reinações” de menino do sertão acabaram em janeiro de 1978. tendo concluído a quarta série primária na fazenda, me obrigaram a vir morar em Maracanaú, na casa de uns parentes, a fim de dar seqüência aos meus estudos. Cordel, eu comprava em Maranguape. O vendedor, provavelmente, devia ser o José Flor, um folheteiro que atuou nesse período em várias cidades do Ceará. Ele vinha todo sábado para o mercado de Maranguape e abria sua mala de folhetos em cima da calçada ou sobre um tripé. Sempre que minha avó me mandava algum dinheiro para a merenda, eu fazia uma dieta de faquir e guardava os cobres para adquirir meus cordéis.

A saudade do sertão era muita, e as férias eram pequenas para tanta traquinagem represada. Quando chegava o mês de julho e os meses do final do ano, eu botava meus folhetinhos na bagagem e me mandava para a casa dos meus avós. Minha chegada era uma novidade, o reencontro com os primos, que já estavam morando em Canindé, era motivo para mil e uma brincadeiras. Mas a noite, eu era intimado pelos adultos a me postar sob a lâmpada de gás Butano da sala de jantar para ler os folhetos que eu levara. Eu também escrevia os meus, num caderno, e fazia sucesso na região. Lembro de um, intitulado “As proezas de Jota Severo numa paga do Bolsão”, que ainda hoje é o meu “best-seller” no Ouro Preto e localidades vizinhas. Foi escrito quando eu tinha 13 anos. Circularam cópias datilografadas entre os parentes.

Outra grande influência que recebi na infância e adolescência foi Alberto Porfírio. Meu pai foi a Quixadá e comprou um exemplar do livro “Poetas Populares e Cantadores do Ceará”, que influenciou não apenas a mim, mas ao Klévisson e todos os meus irmãos. Ainda hoje, todos nós sabemos de cor poemas matutos de sua autoria, como “A estátua do Jorge”, “No tempo da Lamparina”, “Eu gostei mais foi do cão” e “Idéias de Caboclo”. Meu tio José Viana me apresentou Sertão Alegre e Violeiros do Norte, do grande Leonardo Mota.

Avancemos um pouco no tempo. Em 1980, vim morar com meus pais em Canindé. No início dessa década eu colaborava no jornal O POVO de domingo com uma “tira” do cangaceiro “Nonato Lamparina”, personagem que criei em 1982. Na mesma página, havia o Geraldo Jesuíno e o Wálber Benevides, que publicava um Cartum com as tiradas filosóficas do escultor Zé Pinto. Era um trabalho chamado “Zé Pintismo”. Na mesma página, havia o Ribamar Lopes escrevendo uma coluna sobre cordel. Eu lia aqueles folhetos, colecionava a página, mas tinha vergonha de dizer aos meus amigos e principalmente às minhas namoradas que gostava de cultura popular. Eu era um matuto querendo ser urbano.

Década de 1990 - Por esse tempo, trabalhando numa das maiores agências de propaganda de Fortaleza, sempre que eu tinha uma folga ia para Canindé, sobretudo durante a festa de São Francisco, na esperança de encontrar algum folheteiro. Foram tempos difíceis para o cordel. A Lira Nordestina havia fechado. Manoel Caboclo e Silva parou de editar. Em Canindé eu só encontrava material da editora Luzeiro, de São Paulo e do poeta Lucas Evangelista. Foi um tempo em que eu voltei a produzir cordel com grande intensidade, alguns em parceria com Pedro Paulo Paulino e Gonzaga Vieira, dois poetas populares de Canindé. Preocupados com a “morte” do folheto de feira, reunimos esse material e publicamos numa caixa intitulada “Coleção Cancão de Fogo”, com texto de apresentação do Ribamar Lopes. Nesse período passei a me corresponder por carta com José Costa Leite, Antônio Américo de Medeiros, Gonçalo Ferreira, Mestre Azulão, Abraão Batista, Vicente Vitorino de Melo, Manoel Monteiro e outros poetas em atividade. Quase todos achavam que o cordel estava com os dias contados. Manoel Monteiro, por exemplo, um remanescente da editora Estrella da Poesia, de Manoel Camilo dos Santos, ainda escrevia, mas não publicava mais. Gonçalo fundara uma academia – a Academia Brasileira de Literatura de Cordel -, com sede em Santa Tereza, Rio de Janeiro, e lutava bravamente pela sobrevivência do cordel. Sempre foi um entusiasta, sempre foi um otimista.

Foi aí que a Tupynanquim entrou na jogada. A Tupynanquim foi criada pelo Klévisson com o intuito de lançar histórias em quadrinhos. Quando ele viu o cordel conquistando espaço nos jornais, aparecendo em reportagens, e todo aquele movimento que nós estávamos desencadeando em benefício do cordel ele se empolgou. Colocou a editora a serviço do cordel e, em menos de 15 dias, chegou com os originais de um folheto: “A botija encantada e o preguiçoso afortunado” para que eu fizesse a revisão poética. Me admirei. Não o conhecia como poeta, mas como grande desenhista. A verdade é que ele havia bebido na mesma fonte que eu. Então não teve dificuldades de desenvolver seu potencial. Em poucos dias já sabia o que era métrica, rima e oração, principais pilastras da literatura de cordel, já havia lido todos os clássicos e já escrevia como gente grande.

Passamos a editar em parceria os folhetos que escrevíamos, mais o material de diversos colegas e os grandes clássicos do cordel, gentilmente cedidos pela ABC – Academia Brasileira de Cordel, que tem a frente o poeta Vidal Santos.

Participei do prêmio Domingos Olympio de Literatura em 2002, promovido pela Prefeitura de Sobral-CE e obtive o primeiro lugar na modalidade cordel, com uma adaptação de Luzia Homem. Participei também do Concurso de Literatura de Cordel promovido pelo Metrô de São Paulo, ficando entre os dez primeiros colocados. Tenho 70 trabalhos escritos e cerca de 80 já publicados. Três livros publicados (O Baú da Gaiatice, São Francisco de Canindé na literatura de cordel e Acorda Cordel na Sala de Aula) e um inédito (A mala da cobra) e co-autoria da HQ “A moça que namorou com o bode”, prêmio HQ-MIX na categoria Melhor Álbum Independente.

Atualmente (2014) chego a marca de 120 folhetos de cordel e cerca de 30 livros já publicados.



LIVROS PUBLICADOS

- Canindé – da lenda à realidade – HQ em cordel, Edição do autor, 1986
- O Baú da Gaiatice – Editora Varal, 1999; (A terceira edição saiu em 2012, pela Editora Assaré, com tiragem de 3 mil exemplares).
- São Francisco de Canindé na Literatura de Cordel – Edições Livro Técnico, 2002;
- A moça que namorou com o bode, HQ em parceria com Klévisson Viana, prêmio HQ-MIX - 2003;
- Acorda Cordel na Sala de Aula – 2005 – Editoras Tupynanquim e Queima-Bucha, (a segunda edição, com 5 mil exemplares, saiu em 2010);
- O Pavão Misterioso (Infanto-Juvenil, parceria com JÔ OLIVEIRA) – Editora IMEPH, 2006;
- A Raposa e o Cancão – (PNBE 2007 – Editora IMEPH) do qual já foram feitas várias edições;
- O Bicho Folharal – (Editora IMEPH, 2007)
- A ambição de Macbeth e a maldade feminina – Ilustrado por JÔ OLIVEIRA - (PNBE 2009 - Ed. CORTEZ),
- Padre Cícero, o santo do povo (Ed. Demócrito Rocha, presente no catálogo da Feira de livros infanto-juvenis de Bologna-Itália, 2009;
- Dona Baratinha e seu casório atrapalhado – Projeto Viva Leitura, Edições Demócrito Rocha - 2009;
- João de Calais e sua amada Constança – Editora FTD – 2010, selecionado para o PNBE 2012.
- Luiz Gonzaga, o Embaixador do Sertão – Editora Iris, 2011
- Chapeuzinho Vermelho em Cordel – Editora Globo – 2011.
- O Coelho e o Jabuti – Editora Globo – 2011.
- Lendas do Folclore Brasileiro – Edição especial feita pelo CORREIOS, 2011.
- O jumento Melindroso desafiando a ciência – 2012 – Editora Prêmius (texto e ilustrações do autor).
- O Rei do Baião – Do Nordeste para o Mundo – Editora Planeta Jovem, 2012.
- João Bocó e o Ganso de Ouro – Editora Globo, 2012
- João Grilo e Cancão de Fogo tecendo a roupa nova do imperador – Franco Editora, 2012
- O soldadinho de chumbo e a bailarina dourada em cordel - Franco Editora, 2012
- O tronco do ipê – adaptação do romance de José de Alencar para o cordel – Editora Armazém da Cultura, 2012
- 300 Onças - Editora CORAG (RS) - Ilustrado por Jô Oliveira
- Melancia - Coco Verde - Editora CORAG (RS) - Ilustrado por Jô Oliveira
- Romualdo entre os bugios - CORAG
- Quinta de São Romualdo - CORAG
- O crime das três maçãs – Armazém da Cultura, 2012.
- O beabá do Sertão na voz de Gonzagão, parceria com Arlene Holanda (Editora Armazém da Cultura), 2013.
- CERVANTES EM CORDEL – Quatro Novelas Exemplares, parceria com Stélio Torquato, pela editora Folia de Letras, 2014.
- OTHELO, O MOURO DE VENEZA – Editora Pallas, 2014
- SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO – Editora Manole, 2014
- ENCONTRO COM A CONSCIÊNCIA – Editora IMEPH, 2014.
- LEANDRO GOMES DE BARROS – VIDA E OBRA – Edições Fundação Sintaf/Queima-Bucha
- LUZIA HOMEM (Coleção Clássicos Cearenses Recontados em Cordel) - 2014

OBRAS INÉDITAS:

- Leandro Gomes de Barros – Antologia comentada
- Sertão em desencanto (Memórias)
- O besouro e outras histórias (contos)
- A mala da cobra – Almanaque Matuto (em prosa e verso)
- O Afilhado da Virgem ou a Sina do Enforcado
- O preço da ambição (cordel baseado num conto de Eça de Queirós)
- Carmélia e Sebastião ou A Justiça Divina (cordel em parceria com Evaristo Geraldo).
- João e Maria – Uma versão nordestina
- Artimanhas de João Grilo
- O sonho do Imperador Carlos Magno



No projeto CANTOS DE LUZ atuei como autor (cordel) e xilogravador.

PROJETOS COLETIVOS:

Cantos de Luz – Livro em parceria com Mestre Azulão, José Costa Leite e Manoel Monteiro – 2004.
Antologia do Cordel Brasileiro – Editora Global, 2012 - organizada por Marco Haurélio. Texto incluso: “O rico ganancioso e o pobre abestalhado”

Vozes do Sertão – Organizado por Lenice Gomes, editora Cortez, 2014. Texto incluso: “O homem que queria enganar a morte”.