domingo, 6 de março de 2016

CRÔNICAS DA INFÂNCIA

MUNDIM LUIZ? NÃO PODE SER!


Eu devia ter uns cinco anos quando apareceu uma ninhada de gatinhos na casa velha do Ouro Preto, em cima do caixão da farinha. Dois em particular se tornaram meu xodó. Um branquinho de olhos azuis e outro amarelinho, de um amarelo queimado bem vivo e pelos rajados como os gatos mouriscos. Fui mostrar o meu achado à vovó, que costurava tranquilamente no quarto do santuário.
­Olha vovó, a Foguete teve dois gatinhos. Esse aqui é o Mundim Luiz, disse eu, mostrando-lhe o gatinho branco.
Eu disse “teve” porque naquele tempo menino não dizia “pariu”. Era uma palavra feia, proibida para as crianças.
Vovó me olhou por cima dos óculos e retrucou:
Ora, ainda mais esta! Mundim Luiz é nome de gente... Não pode ser!
Realmente Mundinho Luiz era um freguês de meu avô, que vez por outra aparecia para fazer uma compra e tomar uma bicada lá pela bodega. Quando vovó disse aquela frase imaginei que ela estivesse dando um apelido para o outro bichano. Gostei do nome. Imediatamente batizei o segundo gato com o nome de “NÃO PODE SER”.


Todo dia eu subia no caixão da farinha para ver os meus amiguinhos Mundim Luiz e Não-pode-ser ,  que cresciam a olhos vistos, amamentados pela mãe. Um dia, reparando bem na cara do Mundim Luiz, aquela carinha branca de olhos azuis, achei semelhança com meus parentes do Castro. Desci imediatamente com o gatinho nas mãos e fui comentar meu achado com a vovó. Disse com uma vozinha fina, em falsete, como se fosse o próprio gato falando:
Bom dia, vovó. Sabia que eu sou da raça de Soiza? Pois é... Branquinho dos olhos azuis!
Vovó suspendeu o trabalho na máquina de costura e fazendo uma cara bem zangada foi logo dizendo:
Você é besta, menino. Ah bom, basta! Era só o que me faltava... Você vir comparar este “não-sei-que-diga” com a minha raça! Ô lástima. Tire esse gato daqui!
Minha tia Augediva, que presenciara a cena, quase morre de rir da reação de minha avó e o assunto rendeu pano pras mangas pelo resto do dia. E Mundim Luiz, a partir dessa data, passou a se chamar “Não-sei-que-diga”.

(Do "Livro das Crônicas" - Parte III de Memórias)