quarta-feira, 2 de novembro de 2016

HISTÓRIAS DE PAPAGAIO




Mestre Moreira Campos assegura que os cães vêem coisas, mas eu, particularmente, prefiro os papagaios como bichos de estimação. Metido em sua casaca verde e amarela - "padrão nacioná" - um louro falador alegra a mais sorumbática residência. Não é à tôa que Walt Disney em visita ao Brasil na década de 40, criou o malandro verde Zé Carioca como autêntico representante da ginga tupiniquim. Sempre foi moda contar piada de papagaio aqui no Brasil e isso influenciou Disney em sua escolha. Uma segunda versão da história dá conta de que o cartunista cearense Luís Sá já havia realizado alguns desenhos animados cujo personagem principal era um papagaio, antes que o  americano por aqui aportasse. As fitas de Luiz Sá foram  apreendidas pelo departamento de propaganda da Ditadura Vargas, que preferia a política "chiclete com banana". Alegaram para tanto, que iriam retirar a prata dos filmes como "economia de guerra".
O poeta Geraldo Amâncio, em suas andanças pelo interior da Paraíba, encontrou na cidade de Sapé um velho contador de causos, sujeito cheio de parolas e pabulagem, que tinha o hábito de gabar desmesuradamente tudo que lhe pertencia. Falando de um jipe que possuíra, dizia o seguinte:
Poeta, o bicho era um 59, quatro portas, mas era tão novo, mas tão novo, que a pintura parecia um prato de ágata que um cachorro acabou de lamber!
Geraldo, disfarçando o ar de riso, avistou um papagaio sonolento encarapitado em cima de um poleiro e perguntou:
— E esse louro, ‘seu’ Zé, é falador?
— Quem? Este louro? É quem tira as novenas do mês de maio por aqui...

* * *



O PAPAGAIO DA TEREZA

Mas já que o assunto é papagaio, passo a falar agora do mais pitoresco que já conhecí. Ir ao CASTRO (Pequena povoação do Município de Madalena) e não conhecer o papagaio da Tereza, genitora do vereador Aroaldo Martins, é como ir à Roma e não ver o Papa. Desde que me entendo por gente no mundo, que ouço falar das peripécias do "louro" da Tereza. O bicho é mais velho do que a Serra da Borborema e fala mais do que pobre na chuva. Uma de suas qualidades é imitar o locutor esportivo Gomes Farias:
Tá chovendo nas coivaras... tome bola Cearááááá!"
De tão velho, o louro já nem voa mais. Foi por isso que uma ausência mais prolongada deixou a casa da Tereza em polvorosa.
Três dias após o sumiço do "louro" fujão, Tereza varria o terreiro ao amanhecer, quando lá se vem aquele bicho de paletó verde, subindo um alto morto de cansado. De maneira afetuosa mas repreensiva (como mãe, quando se dirige ao filho) Tereza indagou:
Por onde você andava, meu Louro?
Na baixa da égua. Sou solteiro e faço o que eu quero! - Respondeu  a ave desaforada.
  (De “O Baú da Gaiatice”)


O LOURO DO ZÉ ANTÔNIO


José Carvalho de Brito, o Cariri Braúna da Padaria Espiritual, em seu livro “O matuto cearense e o caboclo do Pará” narra deliciosas anedotas de papagaio, uma delas bem pitoresca, que apresentamos a seguir.
No interior do Ceará, o caboclo Zé Antônio vivia se mudando tal e qual um cigano. Passava tempos num lugar, abusava e partia em busca de novo rancho. Sua mobília composta de potes, tamboretes, panelas e outros cacarecos era arrumada em dois caçuás e posta no lombo de um cavalo magro. No topo da carga ele empoleirava o seu papagaio falador e saía tangendo o animal munido de um bom chiqueirador, daqueles ponta de linha. De vez em quando, o cavalo velho fracassava o choto e o Zé Antônio estalava a macaca por cima da carga, a fim de alertar o passo do seu Rocinante. O problema é que toda vez que a linha do chiqueirador estalava, pegava o pobre do louro que não aguentava mais a situação e resolveu descer da carga, em voo meio atrapalhado e continuou seguindo o comboio a pé, pela beira da estrada.
O sol estava a pino, o papagaio morto de cansado e o Zé Antônio penalizado resolveu colocá-lo novamente em cima da carga:
Venha cá, meu louro! Dá o pé!
Muito obrigado, ‘seu’ Zé Antônio! Muito obrigado, mas eu prefiro ir a pé mesmo! Respondeu a pobre ave.


OS PAPAGAIOS DO TONICO


Em 1921 Gustavo Barroso lançou um delicioso livro de contos pela Companhia Editora de Monteiro Lobato, do qual existe apenas essa única edição. Trata-se de “Casa de marimbondos”, volume raríssimo nos dias atuais, com 160 páginas onde prevalece o anedotário do sertão cearense.
Diz o renomado escritor cearense que nas ribeiras do Quixeramobim morava um tal Antônio Fernandes do Nascimento que atendia pela alcunha de Tonico, caçador, criador e vendedor de papagaios, conhecido em toda a região por suas histórias mirabolantes de papagaios faladores e cães treinados no ofício da caça.
Em conversa com um compadre de sua estima, saiu-se com esta:
Compadre da minha alma, eu andava de viagem pelo sertão, montado numa bestinha castanha, estradeira, que foi do finado Misael do Saco da Velha. Nosso Senhor não me deixe mentir!
Já o sol ia alto, quando passei por uma coroa fechada, onde havia, beirando a vereda, uma porção de paus-brancos secos. Em cima de um dos paus, num oco, remexia qualquer coisa que eu bem senti ao chegar perto.”
De fato era um casal de filhotes de papagaio, ainda implumes. Um macho e uma fêmea. Tonico pegou o macho com o maior cuidado, desceu com ele na palma da mão e o depositou perto da besta que pastava. Quando foi subir para buscar a fêmea ouviu uma vozinha de criança, fraca e fanhosa a lhe dizer:
Meu senhorzinho, tire essa bestinha daqui, senão ela me pisa!
Deixemos o próprio Tonico, através da pena magistral de Gustavo Barroso, concluir o seu relato:
Olhei espantado: era o papagainho que estava falando. E eu vi logo que ele ia ser muito falador.
Levei os dois para casa. A papagainha morreu logo, mas o machinho se criou e ganhou fama. Foi o papagaio mais falador que já houve no sertão. Sabia, em latim, a ladainha de Nossa Senhora e o responso de Santo Antônio, de cór. E nunca houve “chama” melhor.
Soltava-o, de manhã, na gameleira grande do terreiro. Quando passavam bandos de papagaios rumo do sertão, no inverno, buscando as praias no verão ele os chamava gritando. Os bandos vinham, esvoaçando em torno da árvore, pousavam. Então, me aproximava com a espingarda, fazia cuidadosamente a minha pontaria e zás! Traz! Papocava fogo. Dois ou três dos mais gordos comiam terra. Jantava-os com arroz.
Uma feita, ia passando um grande bando, pus o bichinho na gameleira, fui buscar a espingarda e esperei. Ele chamou. Os outros vieram meio desconfiados e pousaram muito pertinho do meu “chama”, de maneira que fiquei hesitando em atirar, com receio de feri-lo. Estava sem saber o que fazer, quando ele gritou lá de cima:
Atira, Tonico, que eles já estão falando em ir embora!
Não tive mais dúvidas. Mandei chumbo num casal de papagaios gordos, mais distanciados. Ambos caíram; mas (aí o compadre Tonico chorava), coitadinho do meu filhinho! Um caroço de chumbo “variado” pegou-lhe também. Caiu. Corri para ele, que agonizava no chão. Quando me abaixei para levantá-lo, botou a patinha no peito ensanguentado e, com os olhinhos rasos d’água, disse:

Mataste-me, Tonico, mas como sei que não foi por querer, perdoo-te...