quarta-feira, 9 de setembro de 2015

DIFUSORA DRAGÃO DO MATO


(A voz de ouro das Capembas Rajadas)

(Do Livro das Crônicas)



A Difusora Dragão do Mato, ZYH 1967 operava num estudio feito de varas de marmeleiro, coberto de sacos plásticos e galhos de mofumbo, numa capoeira que principiava logo após o monturo da casa de meus avós. O microfone era uma lata de sardinha ligado por fios de arame a uma velha bacia de alumínio, colocada na extremidade de uma longa vara que servia de antena. Eu destruía velhos cadernos escolares para retirar o arame dos espirais e construir os equipamentos da minha emissora de brinquedo. Além de atuar como disk-jóquei e sonoplasta, eu também era o único cantor da emissora, intepretando desde os clássicos de Luiz Gonzaga, o nosso imortal Rei do Baião, às cantigas safadas de Genival Lacerda, João Gonçaves e Messias Holanda:
— Ô lapa de minhoca, eita que minhocão / com uma minhoca dessas se pesca até tubarãããããoooo!


A construção do estúdio da Difusora Dragão do Mato principiou meio às escondidas. Vovô não gostava que a gente andasse pelos matos armados de foices e facões derribando moitas de marmeleiro e cavando buracos com alavancas para instalação dos pilares (forquilhas) que sustinham o teto da construção. Para tarefas dessa natureza eu contava sempre com a colaboração dos primos Totonho e Oswaldo, mais velhos do que eu, que ajudavam a pegar as ferramentas no quarto da casa velha, quando vovô tirava uma sesta após o almoço. Com um machado conseguimos cortar quatro forquilhas mais grossas e o restante foi feito com barbante, prego, arame e varas de marmeleiro. Tábuas de velhos caixotes e engradados vazios serviram para montar os móveis do estúdio, um verdadeiro luxo para os meus olhos de criança.
Por trás da emissora ficava o meu curral de gado. Gadinho de osso, feito com as articulações do mocotó das reses e o osso do chambari. Mais adiante a minha olaria, onde eu fabricava tijolos um pouco maiores que uma caixa-de-fósforo, com a ajuda de uma pequena grade que eu mesmo havia construído. Chegamos mesmo a fazer caieiras e botar fogo nesses pequenos tijolos, com o risco de incendiar toda a capoeira. Um dia o Totonho chegou com um plano mirabolante:
— Vamos fazer um açude? Nunca vi fazenda sem açude.
— Um açude? Aonde?
— Nessa grota que passa aqui por trás da rádio. Dá um açude que é uma beleza!
Começamos no mesmo dia. Fizemos um barreiro que dava para nadar, quando muito, meia dúzia de patos. Vovô às vezes se incomodava com aquela movimentação, o sumiço de ferramentas que esquecíamos no lugar da “obra” e aquela brincadeira incessante que lhe parecia uma coisa inútil e ociosa. Naquele tempo, menino sertanejo tinha suas obrigações. Os meus primos, por exemplo, botavam água e lenha, cuidavam de animais e trabalhavam no roçado. Só me ajudavam nessas brincadeiras quando não tinham o que fazer. Eu me dedicava mais ao estudo e à leitura e às vezes ajudava na bodega ou dava água a algum animal. Raríssimas vezes fui recrutado para o roçado. Minha avó, principalmente, achava que meu futuro estava nos estudos e não no cabo de uma enxada. Por isso ria embevecida quando escutava meus programas radiofônicos na Difusora Dragão do Mato, ZYH 1967, a Voz de Ouro das Capembas Rajadas.



* * *

Desde menino eu sonhava em me tornar radialista. O velho rádio de casa era ligado direto, das cinco da manhã até a hora de dormir, sintonizado nas rádios mais populares da época: Difusora Cristal de Quixeramobim, Tupinambá de Sobral, Uirapuru, Assunção e Dragão do Mar, de Fortaleza. Eram todas AM, com repertório eclético e comunicadores que ficaram na história da radiofonia cearense. Aurélio Brasil, Wilson Machado, Guajará Cialdini, Cid Carvalho, Narcélio Limaverde, José Lisboa e Jurandi Mitoso estavam entre os mais populares.
Eu me inspirava, principalmente, no Guajará Cialdini, forrozeiro da melhor cepa, que gostava de intercalar a programação com anedotas, chistes e poemas matutos como A estátua do Jorge, de Alberto Porfírio, Confissão de Caboclo, de Zé da Luz e Mulher super-teimosa, de Jota Amaro. Além desses, eu sabia de cor A chegada de Lampião no Inferno, As proezas de João Grilo e outros cordéis que eu lera desde que me alfabetizara. Os deuses que regem o destino da humanidade prestam muita atenção no que faz uma criança, tanto é que me tornei radialista profissional (redator, produtor, comunicador e radioator) algum tempo depois. Tornei-me também publicitário, ilustrador, escritor, poeta popular e declamador, do jeitinho que havia sonhado quando criança. Mas até hoje, nenhum microfone me deu tanto prazer quanto a velha lata de sardinha da Difusora Dragão Mato de Ouro Preto.




Arievaldo Vianna (Memórias - Parte III - O Livro das Crônicas)