segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O ano em que cururu pediu lençol...

1974: Final

FARTURA DE PREÁS




Uma fartura, um despotismo, a quantidade de preás que apareceu naquele ano. Depois dos meses de chuva rigorosa, em que até cururu pediu lençol, chegou o mês de junho, mês em que a vovó rezava sempre a Trezena de Santo Antônio de Pádua. Esse período, chamado antigamente pelos sertanejos de “fins d’água”, quando a rama das árvores e o capim começa a amarelar, propicia o surgimento de muita caça. É também o período em que as abelhas produzem mel com abundância e o sertanejo, roçando o algodão ou preparando novas brocas sempre voltava para casa com um favo de mel ou uma caça silvestre. O João, empregado de meu avô gostava de matar nambus. Não errava um tiro. Saia sempre ao meio-dia, depois do almoço e ia tocaiá-las na bebida ou nas camas de folha que faziam, debaixo das moitas de mofumbo, na hora mais quente do dia. Ele sempre voltava com o bisaco cheio delas. Naquele tempo não se falava em ecologia nem haviam criado o IBAMA. Eu tinha pena das nambus, tão bonitinhas e tão perseguidas, mas acabava fazendo igualzinho ao menino da música Fogo Pagou, de Luiz Gonzaga: “Teve pena da rolinha que o menino matou / mas depois que torrou a bichinha, comeu com farinha, gostou...”

Enquanto o João se exercitava na caça às nambus, o Gabriel armava fojos para pegar os preás. Na verdade ele chamava os pequenos roedores por outro nome: “mendengo”. Menino gosta de novidade. Eu dispensava a costela de carneiro mais apetitosa, a galinha mais suculenta, para misturar o meu almoço com nambu ou preá que vovó torrava especialmente para mim.
Gabriel otimizou a captura dos mendengos. Enquanto os outros pegavam de quixós ou fojos primitivos, compostos unicamente de uma tábua posta sobre um buraco, suspensa por duas pequenas traves de madeira e dois pregos servindo de pinos, ele os fazia com latas de querosene da marca Jacaré. Grandes, fornidos, bem feitos, de onde os pobrezinhos não conseguiam escapar. Nos fojos comuns, acontecia de cair um punaré ou um furão. Eles cavavam túneis e os preás se aproveitavam para fugir. Nesse sistema inventado pelo Gabriel nem tatu escapava. Os outros fojos também tinham o risco de cair uma cobra venenosa e picar a mão da pessoa quando fosse tentar resgatar os preás. Nesse fojo de latas, por ser mais profundo e espaçoso, era fácil verificar se havia algum perigo desse tipo, antes de pegar os roedores.
Esses fojos eram armados no meio das veredas dos preás, entre locas de pedras e meio ocultas pelo capinzal, num dos morros que sustentavam a parede do açude. Os bichinhos se alimentavam de uma plantação de batata-doce feita na vazante. A noite, quando adormecia, meus sonhos de menino era iguaizinhos aos da cachorra Baleia, do mestre Graciliano Ramos. De manhazinha cedo Gabriel já avisava:
— Vamos pro açude, buscar os mendengos. Leve um saco, para trazê-los, que de ontem para hoje devem ter caído de oito a dez.
Eu gostava dos preás torrados, mas desejava mesmo era mantê-los vivos, criados dentro de casa. Vovó dizia que não dava certo, pois os gatos iriam comê-los de qualquer jeito. Era mesmo um encanto aqueles olhinhos pretos e redondos, aquele focinho aceso e aquele andar inquieto dos bichinhos. Tanto que quando iam matá-los eu não gostava de ficar por perto e só retornava à cozinha quando diziam que já estavam torrados e postos à mesa. Aí quem ficava com os olhinhos pretos e brilhantes era o menino. Dois zoim de preá do reino e o apetite insaciável da cachorra Baleia!


A cachorra Baleia - Aldemir Martins