quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Quando os bichos falavam...


 
A FÁBULA EM TOM DE SÁTIRA
NA LITERATURA DE CORDEL

 

Segundo Ivonne Bradesco-Goudemand, em “O Ciclo dos animais na literatura popular do Nordeste” (Literatura Popular em Verso – Estudos/Nova Série; publicado pela Fundação Casa de Rui Barbosa, em 1982, com tradução de Therezinha Pinto), O Casamento e divórcio da Lagartixa, de Leandro Gomes de Barros, “é uma estória maliciosa que se passa no mundo dos batráquios (sic). Notemos, para começar, que as ligações amorosas e os casamentos obedecem aos sexos atribuídos a seu gênero gramatical na língua portuguesa. Trata-se aqui de dois tipos de sáurios, o calango, lagarto verde, e a lagartixa, pequeno lagarto cinzento ou lagarto dos muros (...).” 

E prossegue sua análise afirmando que “o conto de Leandro é uma sátira meio cômica, meio mordaz dos namoricos, do casal briguento e desunido; da mulher leviana e infiel, preguiçosa e cínica; do marido enganado e fraco, dois tipos particularmente insuportáveis no meio nordestino, onde dá-se o maior valor à fidelidade da mulher e se considera o marido complacente (“homem mole, frouxo”) com um misto de desprezo e irritação. Esse apólogo é uma caricatura levado ao extremo (...). Aqui, vê-se a mulher que ridiculariza a honradez remediada de seus sogros, que gaba, ao contrário, a leviandade cínica de sua mãe; e é somente por meio de tal caricatura que se pode atingir com essa desenvoltura o respeito absoluto que merece a mãe, feita santa pela maternidade. Eis que ela zomba também do noivado, pois que seu pai mal tem tempo de perceber que o “serviço” já havia sido feito: “Quando foi abrir os olhos / foi tarde, já tinha neto”; zomba da instituição sagrada do casamento, cujo único valor, a seus olhos, é assegurar-lhe um bem-estar fácil... e a impunidade social:

 

Honestidade não veste

Honra não enche barriga

...... ........ ....... ...... .....

A vida é uma pilhéria

Antes viúva contente

Do que conservar-se séria.

 

É a Viúva-Alegre dos répteis. Segundo ela, homens se encontram às centenas.

Tudo isso só poderia terminar mal: o calango provoca um duelo com o amante de sua mulher, o camaleão (papa-vento). A mulher esperar tranqüilamente que um dos dois morra, para que ela entre no dinheiro. Enquanto lutam, chega o gato que come o marido e uma ave pernalta, a “seriema”, que engole a esposa. O camaleão foge por um cipó, feliz de escapar, não somente ao perigo, mas principalmente a essa mulher: “Mil diabos a carreguem/ Para bem longe de mim”.

Tal é a moral expedita da estória, na qual, de qualquer maneira, os maus são punidos.”

 

CASAMENTO E DIVÓRCIO DA LAGARTIXA

Autor: Leandro Gomes de Barros
 

Não há quem viva no mundo
Que não deseje gozar
Desde o velho à criancinha
Quer a vida desfrutar
E tudo aspira o amor
Porque viver diz  amar!
 

Disse a Lagartixa um dia:
"Eu só ficarei solteira
Se não achar nesta terra
Um diabo que me queira,
Procurarei desde as casas
Até o largo da feira."
 

“Mamãe com quarenta anos
Estava ficando "titia”
Mas tomou um cachaça
Da mais forte que havia,
Foi à feira, achou papai,
Voltou rica neste dia.”
 

“É o que eu faço também...
Tomo um dia uma cachaça
Vou para a porta da rua
Ali nem mosquito passa
E só volto com um marido
Ou emprestado ou de graça."
 

"Mamãe dizia uma coisa
Que eu achava muito exato:
- Quando faltar o cachorro
Se pode caçar com gato
E não tem um desses dois
Então bota a mãe no mato."
 

Uma tia disse a ela:
- Minha filha, não se veixe!
Respondeu a Lagartixa:
O que vier na rede é peixe,
Eu vou procurar marido
Se achar muito trago um feixe.
 

A Lagartixa então saiu
Vendendo azeite às canadas,
Encontrou com o Calango,
Uma alma dispersada
Que andava com a moléstia
Procurando namorada. 

(...)
 

A genialidade do mestre de Pombal-PB criou uma sátira que só encontra paralelo em “A festa dos Cachorros”, do alagoano José Pacheco. Apresento a seguir, um cordel que escrevi em parceria com o poeta VIDAL SANTOS em 2004, intitulado “O alucinante namoro do Menestrel e a Lagartixa”:

 


VICENTE E FELIZBELA
Ou o alucinante namoro do Menestrel e a Lagartixa
Autores: Arievaldo Viana e Vidal Santos

 

O amor não tem idade
Nem repara condição
Quando se alberga no peito
Endoida qualquer cristão
E quando aflora o amor
É possível um beija-flor
Se enamorar de um dragão.
 

Vicente Lopes Trajano
Rapaz velho e solitário
Poeta de profissão
Um boêmio perdulário
Um dia se apaixonou
E seu peito se tornou
Um sonoro campanário.
 

Nosso ilustre menestrel
Era muito vaidoso
Andava sempre alinhado
Embora já meio idoso
Com o cabelo pintado
E um violão de lado
Pachola e todo garboso.
 

Um dia, num recital
Do amor veio a procela
No momento em que Trajano
Se encontrou com Felizbela
Uma jovem recatada
Filha de classe abastada
Educada, jovem e bela.
 

Ele era muito tímido
Felizbela recatada
Com cerimônia um do outro
Não deram andamento a nada
Tanto que a noite passou
E Vicente não conversou
Com a pretensa namorada.
 

Por causa disso Vicente
Pediu um litro de cana
Tomou um grande pifão
E quando ficou bacana
Saiu a cambalear
Em procura do seu lar
Pra curar a carraspana.
 

Era alta madrugada
A lua estava fagueira
E no peito de Vicente
Crepitava uma fogueira
Lembrando da doce amada
Tão meiga e encabulada
Tão pura, tão verdadeira.
 

Ao passar por uma praça
Avista uma lagartixa
Como ia embriagado
Se enamorou dessa bicha
Pensando ser Felizbela
Dirigiu-se logo à ela
Com sua rima prolixa.
 

A lagartixa era grande
Vicente viu dela o vulto
E mesmo assim o seu rabo
No capim estava oculto
A bichinha admirada
Fitava a cena calada
Vicente achou um insulto.
 

Mirou pra ela ligeiro
Todo belo, engalanado,
Bateu uma chama no peito
Viu que estava apaixonado
Sendo da pinga um freguês
Perdeu toda timidez
Sentou-se logo ao seu lado.
 

A lua no céu brilhava
Com seu raio reluzente
A lagartixa postada
Na beirada de um batente
Com a cauda pendurada
Olhou sem entender nada
E ele todo contente...
 

Disse assim, naquela hora:
- Minha querida donzela
Confesso que nunca vi
Criatura assim tão bela!
Flechado pelo cupido
Nosso poeta enxerido
Aplicou um beijo nela.
 

- Me responda, Felizbela,
Queres namorar comigo?
Ou preferes que eu seja
De ti apenas  amigo?
Eu nasci pra te querer
Responda se queres ser
A deusa do meu abrigo?
 

Nesse instante a lagartixa
Num gesto puro, inocente
Balançou a cabecinha
(Muito afirmativamente)
Felicidade completa:
Com isso nosso poeta
Quase morre de contente.
 

- Tu queres seguir comigo
Nessa noite de luar,
E ser de hoje em diante
A rainha do meu lar?
A lagartixa escutou
E a cabeça abaixou
Outra vez a confirmar.
  

Era um namoro “rombudo”
Como diria o Leandro
Vicente se adiantava
Como faz um bom malandro
Fazendo declarações
De derreter corações
E vencer qualquer meandro.
 

Pegou na mãozinha dela
Tão pequena e delicada
E disse: - Que mão cascuda!
Tão áspera, tão eriçada!
Deves ser trabalhadeira
Oh! Meu amor, que besteira
Isso não quer dizer nada!
 

- De hoje em diante você
Não irá mais trabalhar
Pois este humilde poeta
É quem vai te sustentar
Com um creme amaciante
Resolverei num instante
Podes em mim confiar! 

 
(...)