domingo, 1 de outubro de 2017

NO TEMPO DA LAMPARINA


Antônio Viana Martins, o popular Antõe França

A NOITE INTEIRA COM UM
SANTO NA CABEÇA

Mais interessante que a CABEÇA DO SANTO, romance premiado da escritora Socorro Acioly, baseado no Santo Antônio esculpido em Caridade pelo meu dileto amigo Franzé D’Aurora, é a história do homem que passou a noite todinha com UM SANTO NA CABEÇA. Confiram:
Meu bisavô Chico de Sousa, o Fitico do Castro, era profundamente religioso, devoto fervoroso da Virgem Maria e de São Francisco de Assis, santo de quem herdara o nome. Em suma, um homem ‘temente a Deus’ como se dizia antigamente. Durante os festejos do padroeiro de Canindé, transportava-se com alguns dos seus para a Meca Franciscana e instalava-se no bairro de São Mateus, onde residia o seu genro Fenelon Veloso e os netos Zequinha e Zélia. Pelos idos da década de 1950, dois sobrinhos o acompanharam nessa romaria, porém por motivos bem diversos daqueles que moviam o tio papa-hóstias. Eram tio José Bruno Viana e seu companheiro inseparável de farras, Antônio Viana Martins, o popular Antônio França. 
Maurinho me corrige dizendo que o sobrenome do pai dele é Antônio de Sousa Martins. Logo ele, o mais VIANA dos VIANAS...
Mal chegados no local da hospedagem, trataram de se desvencilhar da bagagem e já ganharam as ruas ávidos por cachaça e mulher, verdadeiro objetivo da dupla.
Como era de se esperar passaram a noite num puteiro tomando todas a que tinham direito e nem pisaram na igreja. De manhã cedo os dois resolvem se recolher à casa do Fenelon e são surpreendidos na chegada pelo velho Fitico, que foi logo perguntando, em tom de censura:
- Ô Zome, vocês vem de onde? Passaram a noite na farra... Foram, pelo menos, na igreja?
O Antônio França, com aquele seu jeito desabusado e irônico se encarregou de responder:
- Ora, Tio Fitico, passamos a noite todinha com um santo na cabeça!!!
- Votes, menino. Estavam pagando promessa? Que Santo era esse?
- São João da Barra! – Respondeu o sobrinho.
De fato, a dupla de peralvilhos havia passado a noite toda bebendo o famoso Conhaque de Alcatrão São da Barra e dançando com as raparigas do Vai-quem-quer.


Antônio França com a prefeita Sônia Costa, a esposa Cleide Viana
 e o amigo Gabriel Lopes da Silva


Tio José BrunoViana, comparsa do Antônio França 
na história do CONHAQUE.


O PEDRO TATU

Pedro Tatu era agricultor, cantador de viola e glosador inspirado. Mulato, miúdo, testa grande e carapinha repuxada para trás, parecia mesmo um tatuzinho. Morava no Mofumbo, comunidade que extrema com o Ouro Preto, sertões onde nasci e me criei. No período do inverno trabalhava no roçado e no tempo da safra vestia um paletó surrado, cor de burro quando foge, botava uns óculos escuros de vidro esfumaçado e saia pelo mundo fazendo cantorias em parceria com João Castelo, Antônio Ribeiro Maciel, Franciné Calixto (o famoso Calixtão de Teresina), que por essa época residia nos Três Irmãos, e outros parceiros que porventura aparecessem.
Poeta de quatro costados, tanto fazia versos ao som da viola como fazia glosas de improviso, com um copo de cachaça na mão. Essas glosas, criadas ao pé do balcão, serviam de entretenimento para a matutada, naqueles bons tempos em que o sertão não conhecia o aparelho de TV e sua inseparável companheira, a antena parabólica. Afora isso, tinha as corridas de cavalo, os jogos de futebol, cantorias, reisados, leilões e novenas. Forró não faltava e no período junino ficava ainda mais animado com as quadrilhas. Havia até uma espécie de teatro matuto, que as pessoas chamavam de ‘drama’. Vamos ver o drama do Zeca Idelfonso?

No dia primeiro de abril de 1977 o então presidente Ernesto Geisel havia fechado o Congresso Nacional, mas todos pensavam que era mentira, devido a data do decreto. Minha avó e meu tio Zé Viana ouvintes assíduos da Voz do Brasil comentavam este assunto numa tarde modorrenta de domingo, dia 24 de abril. Naquele ano foi também aprovada a lei do divórcio, do Senador Nelson Carneiro, a Rachel de Queiróz ingressou na Academia Brasileira de Letras a primeira mulher a conquistar esse privilégio —, e o Elvis Presley, cujo par de costeletas estampava a capa de um dos meus cadernos escolares, bateu as botas em agosto, embora ainda haja quem diga que o Elvis não morreu. Lembro-me bem desse ano, o ultimo que passei integralmente no Ouro Preto, terreno de meus avós, onde fui nascido e criado. No ano seguinte eu seria ‘deportado’ para Maracanaú a fim de estudar e minha vida de travessuras, feliz e descompromissada, nunca mais seria a mesma. Expulso do Éden, eu só podia retornar nas férias escolares para breves temporadas, que passavam numa velocidade alucinante. A espada flamejante da responsabilidade começava a rebrilhar no portão do paraíso perdido de minha infância!
Lembro-me também desta data, 24 de agosto, por outro motivo: nosso vizinho Edmar Tubiba, um caboclo pai de numerosa prole, que morava nas imediações, havia ajustado uma grande empreita na Cacimba Nova e andava recrutando trabalhadores para a limpa de mato.
Edmar Tubiba vivia sempre agitado, falando sozinho e andando apressado pelas estradas, com a mão direita girando em torno do ouvido, como quem mexe um copo de dados para jogar no tabuleiro. Aliás, o jogo era o seu vício predileto. Involutariamente, botou um apelido cruel num dos filhos, o Edmilson, que se popularizou devido o testemunho de meu tio Everardo. O menino brincava ao pino do meio dia num barreiro de porcos, no terreiro da bodega. Quando o pai viu naquelas condições, totalmente enlameado, não se conteve:

 Passa pra dentro, bicho pateta. Vai te lavar! Esse bicho é pateta mesmo!

A partir daquele dia, nunca mais o coitado do Edmilson foi chamado pelo seu verdadeiro nome. As pessoas até esqueceram o nome de batismo e ele tornou-se Pateta pelo resto da vida.
Mas voltemos ao plantel de trabalhadores que o Edmar andou recrutando naquele domingo de abril. Uma das vítimas foi o Pedro Tatu, que estava quieto no seu rancho, lá no Mofumbo, quando recebeu a visita do Edmar.  Dias depois, arrependido de haver aceito a demanda, Pedro Tatu se queixava glosando, no balcão do tio Everardo. Reclamava, sobretudo, do passadio, que não era dos melhores. O mote era o seguinte: “Quem quiser morrer de fome / Vá trabalhar ao Edmar”. Foram várias estrofes, mas apenas esta ficou retida em nossa memória:

A 24 de abril
Domingo, de tardezinha,
Tava na minha casinha
E o Satanás me iludiu...
A minha alma caiu
Numa tentação sem par
Saí para trabalhar
Quase que esqueço meu nome
Quem quiser morrer de fome
Vá trabalhar ao Edmar.

De outra feita, trabalhando para o meu parente Antônio Viana Martins, mais conhecido pelo apelido de Antõe França, devido sua mãe chamar-se Francelina, queixou-se que havia trabalhado até o anoitecer, sem que o dono do roçado viesse “lhe soltar”. Era costume, no sertão de antigamente, o dono do roçado avisar ao trabalhador o momento de largar o serviço. Geralmente isso ocorria entre 4 e 5 da tarde, quando era servido um café com bolacha e em seguida fazia-se a paga do jornaleiro. Nesse dia parece que o Antônio esqueceu dos seus trabalhadores e só foi soltá-los já perto da Ave-Maria. Pedro Tatu vingou-se nesta glosa:

Quem deve, perde a moral...
Por causa de estar devendo
É que ‘nós vive’ sofrendo
Trabalhando a este imoral!
Comendo d’água no sal
Que ele só tem lambança...
Um branco sem confiança
Que não tem quem o acoite
Quem quiser largar de noite
Vá trabalhar ao Antõe França.

*  *  *