segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Anedotas da Mala da Cobra

Cantoria - xilogravura de José Costa Leite

O HUMOR NA CANTORIA – LUIZ ANTÔNIO

Por: Arievaldo Viana

Luiz Antonio foi um dos cantadores mais espirituosos que conheci. Chamava-se, na verdade, Luiz Gonzaga da Silva e nasceu aos 28 de novembro de 1939, em Vista Serrana-PB. Faleceu em 2009, em Mossoró-RN onde residia. Ali presidiu por algum tempo a Casa do Cantador do Oeste Potiguar. Sempre que eu ia àquela cidade costumava encontrá-lo na recepção da Rádio Rural, aguardando o início do programa do poeta Crispiniano Neto. Já idoso, nunca havia publicado um folheto de cordel. Eu estava reunindo, na época, adaptações em versos para uma antologia composta de contos populares recolhidos pelo eminente folclorista Luís da Câmara Cascudo. Essa tarefa culminou com a publicação da caixa 12 contos de Cascudo em folhetos de cordel, pela Editora Queima-Bucha, de Gustavo Luz. Coube a Luiz Antonio adaptar o curioso conto “Couro de piolho”, que na sua versão transformou-se em O rapaz que encheu um saco de mentiras.  Versejador desembaraçado, fez uma adaptação brilhante do referido conto por mim indicado, terminando por compor um dos melhores folhetos da coleção. Depois deste ainda escreveu Um pouco da história de Jesuíno Brilhante e O sal nosso de cada dia.
Cantando certa feita com  o poeta Onésimo Maia, a cantoria começou a fraquejar e as ofertas na bandeja foram se tornando cada vez mais escassas. Desolado com a situação, Onésimo terminou uma estrofe dessa maneira: “Vamos parar o baião / que está ficando ruim.” O irreverente Luiz Antônio respondeu em cima da bucha:

Eu sei que cantamos ruim...
Eu reconheço a derrota,
A culpa é do seu baião
Tão doido e fora de rota
Que dá pra tirar de tempo
Até motor de Toyota.

De outra feita cantava com o saudoso Luiz Campos (autor do famoso poema Carta a Papai Noel) quando entrou uma mulher embriagada e espalhafatosa, prostituída ainda na adolescência, perturbando o ambiente. Luiz Antônio não se conteve e desferiu a seguinte estrofe:

O diabo desta menina
Nunca quis ter vida boa,
Nunca foi moça na vida
Nem casou, pra ser patroa...
De menina sem-vergonha
Passou pra mulher à toa.


* * *

Portador de uma propalada feiúra, mas humorista incorrigível brincava com a própria falta de atributos físicos que lhe negara a natureza. Certa feita viajava de ônibus e uma velhinha começou a rodeá-lo, querendo puxar assunto. Depois de olhar fixamente na sua cara, saiu-se com esta:
Estou lhe achando parecido com uma pessoa?!...
O poeta respondeu, em cima da bucha:
Eu sou uma pessoa, dona!


* * *

Essa outra quem contou-me foi Crispiniano Neto, ex-Secretário de Cultura do Rio Grande do Norte e inspirado poeta:  Quando o Café Kimimo ainda era do empresário paraibano conhecido como Pitéu, eram comuns os bingos em Mossoró. Quando o governo os proibiu, Pitéu que tinha feito muitos deles, não se deu por vencido. Bolou uma excelente ideia de marketing. Fez um bingo onde ninguém comprava a cartela. Quem chegasse com dez embalagens de Café Kimimo vazias, ganhava a cartela e ia concorrer a inúmeros prêmios. No dia marcado, lá ia o poeta tentar a sorte. Quem sabe, um carrinho para viajar e fazer cantorias. O bingo era de manhã. Terminou e o poeta não chegou nem perto de armar, quanto mais de bater. Voltava a pé, pois os coletivos, diante da imensa demanda de um final de bingo, não tinham uma vaga nem pelo amor de Deus. Já perto de casa, após andar vários quilômetros a pé, suor empapando a camisa, cansado e morto de fome, eis que uma vizinha lhe aborda aos berros:

"Seu" Luiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiz, foi pro bingo de Pitéééééu????????
Fui. Respondeu o poeta num fio de voz que denotava o seu imenso cansaço e desgosto.
E tirou alguma cooooooisa?
Tirei...
O quêêêêêêêê, "Seu" Luiz?
Tirei o dia pra ser besta!
 Sempre houve um certo preconceito contra o cantador de viola, sobretudo a partir da década de 1960, quando surgiram os primeiros ecos da jovem guarda e a moçada daqui do Nordeste passou a imitar desbragadamente as modas ditadas pela mídia do Sudeste. Lembro de minhas tias, agarradas com revistas de fotonovelas, suspirando por Wanderley Cardoso, Roberto Carlos e Jerry Adriani e copiando os modelos dos vestidos das atrizes da época. Luiz Gonzaga e cantoria nem pensar! Cordel era coisa de velho, sinônimo de atraso.
Foi nessa época que, em nome da modernidade, resolveram dar um fim na mala de folhetos de cordel de minha avó. Primeiramente a dita maleta foi “desterrada” para a casa velha, espécie de armazém de quinquilharias. Deparei com a mesma totalmente empoeirada, em cima do caixão da farinha e comecei a trazer os folhetos de volta para as gavetas dos móveis da sala de jantar. Nesse leva-e-traz acabaram sumindo de vez, sobretudo quando passei a estudar na cidade.
Geraldo Amâncio contou-me certa vez que quando era um iniciante na arte da cantoria, teve de passar à cavalo por Várzea Alegre ou Icó, juntamente com outro companheiro. Logo na entrada da cidade duas mulheres se acotovelaram numa janela e deram o sinal para as vizinhas:
Olha, mulher! Lá vem dois cantadores!
Aí o mundo desabou... Dezenas de cabeças surgiram nas janelas e começaram a rir, a fofocar e até mesmo vaiar a desafortunada dupla de poetas. Geraldo disse, que para desconto de pecados, a mula em que andava montado se acuou. Aí foi que a galhofa comeu de esmola.
Cena parecida aconteceu com o grande cantador Antônio Marinho (foto ao lado). Ao passar numa calçada, com a viola a tira-colo, duas mulheres o interpelaram e disseram:
O senhor é cantador?
Ante a resposta afirmativa, o poeta foi se afastando. Porém com os ouvidos atentos, aguardando possíveis comentários. Dito e feito, a mais velha e mais feia das duas foi logo dizendo:
Porque será que todo cantador é feio?
Antonio Marinho rodou nos calcanhares, dirigiu-se à velhota e, entregando-lhe a viola disparou:
Pegue a viola, dona, cante!!!
Situação similar aconteceu certa feita com o poeta Luiz Antônio. Ao deixar o modesto bairro em que residia, com viola às costas, meia dúzia de meninos, que brincavam despreocupadamente pela rua, de cipós em punho, começaram a imitar o som da viola em tom de deboche:
Tum, Tum, Tum, Tum, Tum, Tum...  Nhém, nhém, nhém, nhém, nhém, nhém...
Luiz Antônio, sem afobar-se, fitou a molecada e disparou:
Por quê vocês não vão dar os CUS?
Assim, mesmo no plural. Nem precisa dizer que os meninos meteram a viola no saco e pararam imediatamente de importuná-lo.


(In Mala da cobra – Almanaque Matuto, livro inédito de Arievaldo Viana)