quarta-feira, 12 de agosto de 2015

GLAUCO MATTOSO



GLAUCO MATTOSO, um dos maiores poetas brasileiros da actualidade saúda os membros da ACLAME (Academia Canindeense de Letras, Artes e Memória), após receber o título de MEMBRO HONORÁRIO. Eis o teor de sua correspondência, enviada ao presidente Silvio Roberto Santos, que será publicado aqui em duas partes...


[Communicação appresentada à ACLAME em agosto/2015]

Prezados confrades,

Segue minha contribuição para a memoria do sonnetto brazileiro, tal como Cruz Filho certamente continuaria a preservar si vivo fosse. A própria memoria do illustre canindeense, por sua vez, continua viva no espírito dos presentes apponctamentos, com os quaes  aggradesço a inscripção do meu nome entre os membros dessa relevante confraria litteraria.
Saudações paulistanas do
GLAUCO MATTOSO

ENGENHOSOS ENGENHEIROS DO ENGENHO

[1] Quando, em 2008, compuz o sonnetto catalogado como #2280 e superei a marca dos 2.279 attribuidos ao italiano Giuseppe Belli (1791-1863), alardeei que battia um recorde mundial, como si Belli ja fosse detentor do maximo premio quantitativo. A pilheria fazia parte duma estrategia de rehabilitação do tradicional molde tetrastrophico, a qual architectei durante a primeira decada do novo seculo e na qual se incluia uma anthologia virtual intitulada SONNETTARIO BRAZILEIRO (formatada pelos dedos do poeta Elson Fróes) e um sitio pessoal intitulado THE GUINNESS BOOK OF SONNETS. O presupposto era a provavel occorrencia de proezas semelhantes, ainda mais volumosas, contadas aos milhares, assignadas por outros poetas que - a exemplo dos 3.500 sonnettos eventualmente compostos pelo catharinense Luiz Delphino (1834-1910) e que, em sua obra completa, não passavam de 1.300 - não tivessem reunido tudo em livro e permanescessem na obscuridade, à espera da porta internautica que os legitimaria no pantheão dos expoentes do genero. Verbetei para o SONNETTARIO auctores vivos e mortos, fui ampliando meu proprio sitio com mais milhares... e nada de apparescerem os prodigiosos sonnettistas inveterados como eu! Consultei confrades de differentes gerações, dei buscas na rede virtual (antes e depois do advento do google)... em vão!
Pensei commigo: "Esses sonnettistas millesimaes, si existirem e forem vivos... ou não são da era digital, ou são tão caretas que só divulgam seu trabalho entre seus collegas de dilettantismo, talvez presos a pudores formaes e thematicos, ou temerosos das criticas e accusações de anachronismo, provincianismo, mediocridade ou pieguice." No fundo, era um pouco de tudo isso.

[2] Em outras etapas da estrategia, elaborei um TRACTADO DE VERSIFICAÇÃO e digitalizei (annotada e rebaptizada) a monographia do cearense Cruz Filho (1884-1974), HISTORIA E THEORIA DO SONNETTO, empreitadas que me fornesceram maiores subsidios e ampliaram meu campo de pesquisa. Ainda assim, nem signal dos millesimaes, tão discretos que estavam em sua clausura, ou tão secretos em sua confraria.
[3] Annos antes, emquanto ainda enxergava e não dependia do computador fallante, troquei correspondencia (manuscripta e dactylographica) com um desses laboriosos e silenciosos poetas, o paranaense Eno Theodoro Wanke (1929-2001), que, si não se destaccou pela quantidade, foi incansável auctor e pesquisador, tanto da trova quanto do sonnetto. Sua obra mais curiosa é o livro intitulado APPELLO, no qual o sonnetto homonymo, de cunho pacifista, figura em todas as paginas, vertido para 95 idiomas.
Eis o poema original:

APPELLO [Eno Theodoro Wanke]

Eu venho da lição dos tempos idos
e vejo a guerra no horizonte armada.
Será que os homens bons não fazem nada?
Será que não me prestarão ouvidos?

Eu vejo a Humanidade manejada
em prol dos interesses corrompidos.
É mester accabar com esta espada
suspensa sobre os lares opprimidos!

É preciso ganhar maturidade
no fomento da paz e da verdade,
na suppressão do mal e da loucura...

Que a estructura economica da guerra
se faça em pó! E que reinem sobre a terra
os fructos do trabalho e da fartura!


[4] Wanke era engenheiro de formação e sua vocação poetica foi tida por uns e outros como hobby de apposentado, coisa de vovô fazendo versos para a netinha. Na bitolada visão de taes criticos, uma carreira litteraria "maior" teria que passar pelo crivo academico, teria que furar o bloqueio dos patrulheiros ideologicos e methodologicos, esses pedantes obstaculos à diffusão, no patamar mais intellectualizado, de toda producção superficialmente rotulada de "maneirista" e "simploria".
Indifferente aos commentarios de que o sonnetto accyma seria "rhymaticamente pobre, syntacticamente primario e thematicamente ingenuo", considero-o estichologicamente correcto e litterariamente meritorio, no sentido de reflectir o pensamento do auctor e, portanto, ser fiel a uma biographia - o que, do poncto de vista existencialista, lhe confere a mesma authenticidade que reivindico para a minha própria obra em relação ao dicto "eu lyrico" ou à dicta "voz poetica". De resto, a erudição de Wanke nada deixava a desejar, comparada à de qualquer cathedratico em lettras, o que desarma as levianas accusações de amadorismo feitas por este ou aquelle desadvisado. Em summa, si quero para mim o reconhescimento da pornographia como legitima expressão da biographia e a acceitação da escatologia como legitima expressão da mythologia pessoal, coherentemente quero para Wanke a consagração do truismo como legitima expressão do altruismo.

[5] Si vivo fosse, Wanke seria necessariamente a fonte a quem eu recorreria para appurar e mensurar a obra de outro engenheiro subestimado como sonnettista mas digno da maior attenção como phenomeno creativo. Fallo de Jorge Tannuri (1939-?), sobre quem ja postei os
paragraphos abbaixo em meu blog de annotações e sobre quem tenho outros commentarios a adduzir mais addeante.

{Os maiores sonnettistas occidentaes (portanto mundiaes, ja que o sonnetto, ao contrario do macarrão ou do futebol, é uma typica invenção occidental) não são maiores pelo volume da obra, certamente, pois que a contam pelas centenas, não pelos milhares de sonnettos, a começar dos paes da creança: Petrarcha com trez centenas, Camões com duas. No Brazil, mesmo durante o apogeu parnasiano, a conta não inflaciona alem do excedido milhar que se attribue a Luiz Delphino, a julgar pelo balanço do tambem parnasiano Cruz Filho, cuja HISTORIA E THEORIA DO SONNETTO (que assim rebaptizei apoz annotar criticamente) credita mais de oito centenas ao arcadico José Maria do Amaral e evita maiores comparações numericas. Como ninguem aqui está fallando dos gols de Pelé nem de Friedenreich, a preoccupação quantitativa só faria sentido si o sonnettista fosse candidato a uma vaga, não na Academia Brazileira de Lettras, mas no Guinness Book. Pessoalmente, pilheriei bastante sobre um hypothetico recorde do genero emquanto, entre 1999 e 2012, compuz alem do quincto milhar e, mais acintosamente, quando superei os 2.279 sonnettos compostos pelo italiano Giuseppe Belli no seculo XIX, embora sciente de que, dentro ou fora do meu proprio paiz, haveria algum maluco que, anonymo ou não, se fixasse nesse molde ainda mais obsessivamente do queme fixei.






Ja na epocha (2008) em que eu andava pelos dois milhares, alguem me fofocou que um certo Jorge Tannuri passava dos quattro. Quando, finalmente, me "limpei" do vicio, em 2012, elle teria chegado aos seis milhares e, a menos que battesse as botas, estaria hoje pelos dez. O mais inaccreditavel nessa historia é que alguem com tamanha bagagem, si não entrasse para a ABL, teria de ser ao menos commentadissimo na rede virtual, como eu mesmo fui, ainda que pouquissimo lido... mas Tannuri não era encontradiço no cyberespaço. Seria um personagem da ficção internerdica? Só recentemente as buscas deram algum resultado, para meu allivio, pois eu temia que os boatos fossem alimentados apenas pela lenda dum auctor quantitativamente productivo mas qualitativamente inconsistente. Ainda bem que sua versificação se me revelou inteiriça e, o mais importante de tudo, não era assim tão oca. Não sei por que a midia especializada, os organizadores de anthologias ou os zineiros e blogueiros não ventilavam o nome de Tannuri. Publicar, elle publicava, fosse no formato livro ou folheto. Participar de encontros e debattes poeticos, que eu saiba, elle participava. Paresce que até fundou uma Sociedade Litteraria do Sonnetto, que seria a SOLIS, mas a sigla suggere um isolamento que não sei si chega às proporções do Gremio Recreativo e Eschola de Samba Eu Sou Mais Eu. Espero que não, mesmo sem ter sido convidado a me associar, pois sempre achei que o sonnetto precisava de mais defensores, ja que detractores não lhe faltam.

Agora que me livrei do TOS (transtorno obsessivo sonnettomaniaco), posso allegar, entre amigos, que isso de recorde é bobagem, ainda que o proprio Tannuri, ao que me relatam, fizesse questão de superar metas. Minhas allusões ao assumpto, alem de ironicas, serviam mais para emphatizar a compulsão sonnettistica como alternativa (no caso do cego emputescido e puteador) ao suicidio, ao alcoholismo, às drogas, ao jogo ou, simplesmente, à insomnia e à masturbação. Si eu realmente estivesse obcecado pelo recorde e dependente dessa insomne addicção, não teria parado de sonnettar em 2012 nem teria interrompido a producção tantas vezes para escrever romance, conto, chronica, motte glosado, pelleja ou tractados estichologicos e orthographicos. Peor, si eu de facto ambicionasse um logar no Pantheão dos campeões de productividade sonnetifera, minha insomnia não seria causada pela cegueira, mas pela paranoia de que, em qualquer poncto do paiz, uma Emily Dickinson da
vida, quem sabe la em Florianopolis, em Paraisopolis ou em Petropolis, tivesse deixado, manuscriptos em calhamaços, mais de dez ou vinte mil sonnettinhos psychographados, fossem assucarados ou amargurados, para desbancar Amaral, Delphino, Mattoso ou Tannuri sommados... Credo em Cruz, Filho!

Voltando ao Jorge, que felizmente não é tão aguado nem mellado quanto o J. G. de Araujo Jorge, achei delle, si não seus livretos, alguns exemplos que em nada desmerescem a reputação desse paulistano de 1939 que, radicado no Rio, formou-se pela Eschola Nacional de Engenharia da Universidade do Brazil (hoje UFRJ) em 1961, especializou-se na França em 1964 e, desde 1976, habituou-se a compor sonnettos, timidamente a principio e, depois de apposentar-se em 1997, capitulou à mania. Sei bem como é isso. Mas não é intrigante? Mesmo registrando seus livros na Bibliotheca Nacional e, ja em 2008, chegando aos cinco mil (emquanto eu ainda estava nos trez), seus sonnettos não eram divulgados siquer a poncto de chegarem-me às mãos... O caso de Tannuri me lembra o de outro profissional da area, Eno Theodoro Wanke, incansavel pesquisador da trova e tambem sonnettista, que só era bem conhescido em círculos alternativos, embora tivesse até suas connexões internacionaes.

A que se deve (perguntariam os adeptos da theoria da conspiração) tal ommissão, ou tal indifferença, ao caso de Tannuri? Seria por causa da thematica? Mas si até a minha, pornographica em grande parte, não permanesceu silenciada pelos puristas e puritanos! Ou seria por algum viez politico, ideologico ou sectario, vale dizer, as inexoráveis panellinhas e egrejinhas, que vivem a nos patrulhar? Quanto às egrejinhas, talvez uma pista para o hypothetico boycotte ao Tannuri fosse sua solidariedade ethnica e ethica ao povo palestino, ao qual tambem me solidarizei, como no caso do sonnetto "Damnações Unidas" que offeresci à anthologia POEMAS PARA A PALESTINA, organizada por Claudio Daniel e Khaled Mahassen. Não sei. Só sei que Tannuri maneja sem pejo a grammatica, a metrica, a rhyma e, principalmente, a thematica. Si não é desbragadamente debochado nem despudoradamente fetichista, isso até deveria ser tido na conta de virtude, por opposição ao vicio que me estigmatizou como pornographo. Algum mestrando ou doutorando provavelmente theorizará a respeito, ainda que tarde.

Examinemos, entretanto, o que temos à mão, attendo-nos aos contextos palestino e brazileiro. Intercalo sonnettos meus aos de Tannuri a fim de propiciar ao leitor uma base de parallelismo. Depois commentamos.

A HEROICA SAPATADA [Sonnetto 4630 de Jorge Tannuri, em 19/12/2008]

Ao fim dos seus ruinosos dois mandatos,
Resolve o abutre-mor inconsequente,
Chegar até Baghdad, onde seus actos
Deixaram morticinio deprimente...

Um jornalista adverso dos maus tractos
Impostos pelo biltre prepotente
No Irak, direcciona dois sapatos
E o chama de cachorro delinquente...

Na offensa contra o norte-americano,
Mostrou-se bem heroico o mussulmano,
Embora fosse amarga a recompensa

Da sapatada, com prisão, tortura,
Espancamento, abuso de censura
E desrespeito à livre acção da Imprensa.


LANÇAMENTO DE LIVRO [Sonnetto 3886 de Glauco Mattoso, em 17/10/2010]

Sapatos attirar no presidente,
si for americano, é o melhor gesto
de alguem que, revoltado, faz protesto
e, ao vivo, está das cameras na frente.

Mas gesto ainda mais intelligente
é aquelle do escriptor, tão immodesto
a poncto de esperar que o manifesto
lhe renda fama e gloria, de repente:

Seu proprio livro attira (e rente passa
ao rosto do estadista), emquanto a photo
lhe flagra a cappa e a imagem nem embaça.

Em todos os jornaes, depois, eu noto
que ommittem livro e auctor, ja que, de graça,
ninguem faz propaganda nem dá voto.


GAZA [Sonnetto 4635 de Jorge Tannuri, em 31/12/2008].

Que importa democratica victoria
Obtida num pragmatico escrutinio,
Si um povo é dizimado em morticinio
Por manu-militari peremptoria?

Que importa Mahomé, no vaticinio
Da crença mussulmana alcançar gloria,
Si a vida do Hamaz é merencoria
Com Gaza no calvario do exterminio?

Que importa existir ONU quando as guerras
Decretam-se, por ambições de terras
Tramadas pelos credos assassinos?

Que importa haver a Paz, si a humanidade
Condemna à morte e priva a liberdade,
Na patria dos heroicos palestinos?


SEMITA [Sonnetto 854 de Glauco Mattoso, em 28/8/2003]

"Shalom!" traduz "Salam!": todo opprimido
é primo do oppressor, com quem apprende
a lingua de quem compra e de quem vende
petroleo ou arma, a seita ou o partido.

Mais tempo a guerra aos bancos tem servido,
mais rende, emquanto a morte não se rende
à vida. Quando, emfim, alguem desvende
o enigma, já estará tudo perdido.

Salim e Salomão, Thorah e Corão.
Caim cahiu, e Abel é bellicista.
Javeh propoz, shiitas disporão.

Na areia, cada gotta é uma conquista.
Diluvios racionaram cada grão.
Divisa é linha. A paz, poncto de vista.


O VERO EIXO DO MAL [Sonnetto 4638 de Jorge Tannuri, em 2/1/2009]

Um eixo, para o mal, antes citado
Por Bush, o criminoso costumeiro,
No seu papel de estupido guerreiro,
Não teve seu perjurio comprovado...

Um vinculo deveras destinado
À morte, se appresenta sorrateiro,
Com Tel-aviv e Washington, certeiro
Em dizimar quem seja de outro lado...

Na ONU com o seu poder de veto,
Os norte-americanos dão concreto
Appoio contra a causa palestina

E as armas de Israel vão destroçando
Escholas, hospitaes, gente... em nefando
Terror que desaccapta a lei divina.


DAMNAÇÕES UNIDAS [Sonnetto 4713 de Glauco Mattoso, em 25/9/2011]

Questão controvertida! A Palestina
estado quer tornar-se. Tem direito,
é claro. Um bom accordo estava acceito
entre arabe e judeu, não fosse a mina.

A mina, subterranea, sibyllina,
symbolica, que impede esse perfeito
accordo, é o interesse do subjeito
que está, não la, nem perto, nem na China.

Quem mella qualquer chance de fronteira
commum haver alli, tem seu quartel
num banco americano, é o que me cheira.

Não só: tambem está botando fel
nas aguas, no petroleo, e vae à feira
vender metralhadora ao coronel.


HA... [Sonnetto 3850 de Jorge Tannuri, em 24/5/2006]

Ha récordes de imposto arrecadado
E o povo sobrevive na inquietude...
Ha nullo attendimento na Saude
E o pão de cada dia está minguado...

Ha tempos, o governo nos illude,
Mentindo ser precioso o resultado,
Mas só num raciocinio retardado
Cae bem esta banal similitude...

Ha pantanos nos leitos das estradas,
Ha escholas que estão sendo abandonadas
E o ensigno se degrada por inteiro...

Ha crime organizado e insegurança...
E deante desta homerica lambança,
Pergunta-se onde vae tanto dinheiro.


REDUNDANTE [Sonnetto 190 de Glauco Mattoso, em 1999]

Pediram-me um escandalo, e é p'ra ja.
Malversação de fundos? Nada disso.
O seio da modello, que é postiço,
tambem ja não excita a lingua má.

A droga nas escholas? Ninguem dá
a minima importancia ao desserviço.
Sequestro de empresario? Algum sumiço?
Remedio adulterado? Qua! Qua! Qua!

A fraude eleitoral virou roptina.
As contas no exterior não causam pasmo.
Ninguem extranha o cheiro da latrina.

Até Mathusalem ja tem orgasmo!
Só resta a commentar, em cada esquina,
que o cego é chupa-rola... Um pleonasmo!


Dirão os adeptos do rigor estichologico que, à primeira e superficial leitura, tudo paresce fluir bem nos versos tannurianos. Os decasyllabos, quasi todos heroicos, estão regularmente metrificados, rhymados e rhythmados. Mais attentamente observando, comtudo, verificarão que as rhymas são, por vezes, pauperrimas: no sonnetto 4630 de Tannuri, quattro substantivos dão versos graves em "atos", quattro adjectivos em "ente", mais dois adjectivos em "ano", dois substantivos em "ura" e dois em "ensa". A syntaxe delle, telegraphica, caresceria de artigos e
conjuncções que alliviassem a juxtaposição de tantos substantivos e adjectivos. Emfim, o effeito essencialmente poetico, que deveria ser obtido por meio das figurações metaphoricas ou anastrophicas mais typicas do discurso sonnettistico, deixa, diriam, a desejar, ficando apenas a impressão de obviedade simploria, aggravada pela ordem directa, fria e secca. Isso para não fallarem na sisudez casmurra, na ausência total de ironia, sarcasmo, emfim, senso de humor. Quanto a mim, que nunca estou livre de criticas, dirão que tambem no sonnetto 190 as
rhymas dos tercettos são pobres, que tambem commetto ellipses asyndeticas, e tal. Mas são os leitores que vão dizer si meus versos teem a cara do Mattoso e si os de Tannuri teem cara só delle.

Technicamente considerando, segundo os mais zelosos, os sonnettos de Tannuri seriam correctos. Poeticamente, porem, nem tanto. Ahi alguém poderá dizer que quaesquer sonnettos, de todos os auctores (inclusive os meus) incorreriam nos mesmos lapsos, uns mais, outros menos relapsos. De certo modo, sim. Em milhares de versos, por exemplo, fatalmente algumas rhymas mais recorrentes accabam por banalizar-se. Uns tantos logares communs, à força de reiteradamente empregados, desgastam o estylo e causam aquella monotona e tediosa impressão de autoplagio ao fim da leitura de poucas centenas de estrophes. Até Camões padesce de taes vicios durante a extensa jornada dos LUSIADAS. Mas cada poeta acha seu trunfo num estylema especial, numa "assignatura" discursiva pessoal, numa "tara" verbal particular, propria ou figuradamente fallando, que lhe "salva" a originalidade da composição, e Tannuri paresce resentir-se da falta dessa marca registrada. Um sonnetto seu poderia ser impessoalmente attribuido a qualquer outro auctor do genero, desses que pullulam obscuramente pelas anthologias, sem que ninguem desse pela coisa. Por essas e outras é que, alem do meu linguajar promiscuamente chulo e prophanamente castiço, faço questão de orthographar meus versos, tal como reorthographei os de Tannuri aqui exemplificados. E você,
leitor, seria capaz de confundir um deca delle com um meu? Peor que sim, alguem dirá que confundiu. E agora, Pedro José?

Si serve de consolo, não morri da sonnettomania que accompanharia ao sepulchro a mediunica senhorinha de Petropolis ou o hyperactivo engenheiro apposentado, pois o cego puto, debattendo-se entre a insomnia, o pesadelo e a phantasia masturbatoria, appegar-se-a desesperadamente ao motte glosado, ao madrigal, ao conto, ao romance ou ao ensaio, quando não ao buddhismo, ao fakirismo ou à automassagem linguopedal contorcionistica, a fim de preencher seus ultimos estertores antes do derradeiro suspiro... Ufa!}

(...)

Glauco Mattoso, pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva, (São Paulo, 29 de junho de 1951) é um escritor brasileiro.Seu nome artístico é um trocadilho com glaucomatoso, termo usado para os que sofrem de glaucoma, doença que o fez perder progressivamente a visão, até a cegueira total em 1995. É também uma alusão a Gregório de Matos, de quem se considera herdeiro na sátira política e na crítica de costumes [1] . (Fonte: Wikipedia)