quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A PELEJA DE PINTO E MILANÊS



Severino Pinto (Pinto do Monteiro)


Severino Milanês da Silva







Por: Arievaldo Viana (da ABLC - Academia Brasileira de Literatura de Cordel)

Um dos poetas que eu mais lia e gostava na minha infância era Severino Milanês da Silva. Li a sua célebre peleja com Severino Pinto (totalmente escrita por Milanês), li “O príncipe do Barro Branco“, “Romance das 3 princesas encantadas“, “O príncipe Guidon e o Cisne Branco“, enfim, sempre fui admirador desse vate sertanejo pela riqueza de imagens que utiliza na descrição dos cenários e dos personagens.


Severino Pinto foi um grande repentista, mas não escreveu cordel. Aliás, segundo as pessoas que o conheceram, dizem que ele mal sabia assinar o nome. Jamais escreveu coisa alguma, pois era um amante do improviso. Alguns apologistas dos improviso costumam enaltecer as qualidades do repentista em detrimento do poeta de bancada, ignorando que uma peleja do quilate desta que foi produzida por Milanês, está repleta de grandes momentos poéticos.
Na opinião do pesquisador Roberto Benjamim, Severino Milanês, pernambucano de Bezerros (18 de maio de 1906 – Vitória de Santo Antão, 1956/1967) “tanto era bom no improviso da cantoria, quanto nos romances, e alguns deles ficaram imortalizados na memória popular, visto sua predileção pelas histórias de amor e de príncipes e princesas de reinos imaginários.”
Milanês não era muito cuidadoso com a geografia nem com a história. Vez por outra abusava da “licença poética” na composição de seus romances, que às vezes beiram o surrealismo, mistura gênios e fadas com índios guerreiros e gigantes desaforados que chamam o herói de “cabrinha” e outros xingamentos tipicamente nordestinos no auge da luta. Deve ter sido leitor assíduo do livro “O mártir do Gólgota”, do espanhol Enrique Pérez Scrich, pois freqüentemente fala da Palestina com a mesma graça e beleza… Confesso que quando vi as primeiras fotos da terra de Nosso Senhor Jesus Cristo fiquei deveras decepcionado, pois na descrição de Scrich e Milanês é o cenário mais bonito do mundo:
O Reino do Barro Branco 
É detrás de uma colina
Cercado por quatro rios 
De água potável e fina
Fica nos confins da Ásia
Bem perto da Palestina.
O Príncipe do Barro Branco, por ser um dos clássicos mais procurados da Literatura de Cordel, foi reescrito por Manoel Pereira Sobrinho, para editora Prelúdio, de São Paulo
Outras obras de Severino Milanês:
- Estória de Rosa e Maximiano; 
- História de dois amigos – Joãozinho e Nequinho; 
- História de Ubirajara e o índio Pojucan; 
- História de Valentão do mundo; 
- Romance de Noêmia e Luís; 
- Romance de Amédio e Lucinda; 
- O valor do dinheiro e a beleza da mulher; 
- O rapaz que mamou na onça.
PINTO DO MONTEIRO, REI DOS REPENTISTAS
Severino Pinto, paraibano da cidade de Monteiro, é uma verdadeira legenda no mundo da cantoria. Alguns cantadores da atualidade chegam mesmo a dizer que ele foi o maior repentista de todos os tempos. Nunca escreveu uma linha para cantar, fazia tudo de improviso, pegando na deixa e fulminando os adversários que pretendiam desbancá-lo. É presença obrigatória em qualquer antologia de cantadores que se pretenda escrever.
É impossível falar de humor na cantoria sem lembrar o velho mestre do Monteiro. Por isso, selecionamos alguns repentes geniais do velho Pinto do Monteiro. Cantando com um parceiro muito atrasado, desses que rimam capim com “passarim”, Pinto foi impiedoso:
“ Cantar com cantador ruim
É como correr na pista,
Num carro velho sem freio,
E um chofer curto da vista,
Com um doido gritando em cima:
- Atola o pé, motorista!”
Numa cantoria, um sujeito com uma enorme verruga no nariz, torcia ardorosamente pelo adversário, o que não passou desapercebido ao menestrel do Monteiro:
“Eu não tenho confiança
Em cabra que tem berruga;
Cachorro da boca preta,
Terreno que pouco enxuga,
Comida que doido enjeita,
Casa que cigano aluga.”
Folheto editado em Juazeiro do Norte-CE, na Tipografia São Francisco
TRECHOS DA PELEJA COM SEVERINO PINTO
Peleja de Pinto com Milanês – Autor: Severino Milanês da Silva
Milanês estava cantando
em vitória de Santo Antão
chegou Severino Pinto
nessa mesma ocasião
em casa de um marchante
travaram uma discussão.
M – Pinto, você veio aqui
se acabar no desespero
eu quero cortar-lhe a crista
desmantelar seu poleiro
aonde tem galo velho
pinto não canta em terreiro
P – mas comigo é diferente
eu sou um pinto graúdo
arranco esporão de galo
ele corre e fica mudo
deixa as galinhas sem dono
eu tomo conta de tudo
M – Para um pinto é bastante
um banho de água quente
um gavião na cabeça
uma raposa na frente
um maracajá atrás
não há pinto que agüente
P – Da raposa eu tiro o couro
de mim não se aproxima
o maracajá se esconde
o gavião desanima
do dono faço poleiro
durmo, canto e choco em cima.
M – Pinto, cantador de fora
aqui não terá partido
tem que ser obediente
cortês e bem resumido
ou rende-me obediência
ou então é destruído
P – Meu passeio nesta terra
foi acabar sua fama
derribar a sua casa
quebrar-lhe as varas da cama
deixar os cacos na rua
você dormindo na lama
M – Quando vier se confessar
deixe em casa uma quantia
encomende o ataúde
e avise a feguezia
que é para ouvir a sua
missa do sétimo dia
P – Ainda eu estando doente
com uma asa quebrada
o bico todo rombudo
e a titela pelada
aonde eu estiver cantando
você não torna chegada
M – O pinto que eu pegar
pélo logo e não prometo
vindo grande sai pequeno
chegando branco sai preto
sendo de aço eu envergo
sendo de ferro eu derreto
P – No dia que eu tenho raiva
o vento sente um cansaço
o dia perde a beleza
a lua perde o espaço
o sol transforma-se em gelo
cai de pedaço em pedaço
M – No dia que dou um grito
estremece o ocidente
o globo fica parado
o fruto não dá semente
a terra foge do eixo
o sol deixa de ser quente
P – Eu sou um pinto de raça
o bico é como marreta
onde bate quebra osso
sai felpa que dá palheta
abre buraco na carne
que dá pra fazer gaveta
M – Eu pego um pinto de raça
e amolo uma faquinha
faço um trabalho com ele
depois pesponto com linha
ele vivendo cem anos
não vai perto de galinha
(…)