Casa velha da fazenda Castro, construída há mais de 150 anos
Antigamente
era costume dos grandes escritores publicarem as suas obras em folhetins que
eram acompanhados avidamente pelo público leitor. Foi assim com diversas obras
de José de Alencar, Machado de Assis, Victor Hugo, Fiódor Dostoyevski, só para
citar alguns dos mais famosos mestres da pena. Com o advento da internet e a
proliferação dos blogs e redes sociais, o escritor moderno testa seus escritos
através de postagens na rede mundial de computadores. Eu tenho certas
restrições a esse poderoso meio de comunicação, sobretudo no que diz respeito à
preservação dos direitos autorais. Diversos textos de minha autoria e também
charges, xilogravuras e ilustrações tão logo são disponibilizadas na internet,
rapidamente se propagam por outros sites e blogs, muitas vezes (a maioria) sem
qualquer consulta prévia ao autor e, portanto sem minha autorização. Isso
quando não cometem o abuso de suprimir o nome do autor, na intenção de
apropriar-se da obra alheia. A árdua pesquisa que realizei para montar a
biografia do poeta Leandro Gomes de Barros já foi plagiada dezenas de vezes,
sem que a fonte fosse citada. Resta-me o consolo de haver publicado o texto (um
resumo substancial) na revista Cultura Crítica, da Apropuc. Uma vez registrado
ali, na velha celulose, é prego batido e ponta virada! Por isso que é que
defendo a existência do livro e demais impressos no papel, por mais que
decantem as vantagens virtuais do e-book e seus congêneres.
Mesmo correndo
os riscos acima descritos, resolvi publicar neste novo blog – MALA DE ROMANCES –
os apontamentos que tracei para o primeiro capítulo do livro Sertão em
desencanto (título provisório), que traz como subtítulo: Fragmentos das
memórias de um poeta sertanejo. Repito: são apontamentos. O texto final será
cuidadosamente burilado até atingir algo próximo do que realmente desejo.
Deixemos pois de rodeios e vamos ao que de fato interessa:
FRAGMENTOS
DAS MEMÓRIAS
DE UM POETA SERTANEJO
“Não direi que este livro seja uma
autobiografia. É mais um fac-símile. Uma cópia em carbono do que sou e do que
sinto. Gostaria mais que fosse um poema. Uma epopéia sobre o sertão. Ele bem
que o merece.”
(Pe.
Antônio Vieira Sertão Brabo, 1968)
Poeta sei que sou, porque a genética não faz curvas
(a geometria, sim), conforme explicou-me pacientemente o saudoso professor
Laurismundo Marreiro. A coisa vem de longe. Remontando às raízes avoengas,
descobri que meu bisavô Francisco de Assis — o Fitico do Castro —, fazia
testamentos de Judas e segundo alguns teria escrito também A Onça da mão torta
e O Boi Vermelhinho, dois cordéis que tiveram certa repercussão no limiar do
século XX, mas que circularam somente de forma manuscrita em cadernos de
família.
Nunca tive essa vaidade tola de andar procurando
traços de nobreza ou fumaças de fidalguia nos meus antepassados, mas já que
estamos bisbilhotando a gênesis de minha família, baseio-me nas muitas
conversas que tive com minha avó Alzira, com meu tio José Viana e ultimamente
com meu pai, para fazer um breve apontamento através dessas crônicas
familiares.
Meu antepassado Miguel de Souza Mello, pai do
Fitico, estabeleceu-se na fazenda Castro, então município de Quixeramobim, por
volta de 1854, oriundo de Sobral. A partir de então passou a ser conhecido como
Miguel do Castro. Consta que teria adquirido aquela gleba por compra à viúva
Vitorina de Souza Mello, sua irmã. Eles eram aparentados com o Padre Mororó
(Gonçalo Inácio de Loyola Albuquerque e Mello), nascido em Groaíras, a 24 de
julho de 1774 e morto em Fortaleza, aos 30 de abril de 1825, sacerdote,
jornalista e revolucionário na luta pela independência do Brasil.

Minha avó Alzira narrava, baseada na tradição oral
familiar, episódios da vida desse herói da Confederação do Equador, inclusive
do dia em que foi fuzilado na Praça dos Mártires, atual Passeio Público.
Segundo ela, um grupo de crianças foi assistir a execução dos condenados e
trepou-se nas galhas de um frondoso cajueiro, para ter uma visão privilegiada.
O resultado é que o dito galho se partiu, devido o excesso de peso, provocando
a queda dos meninos e uma gostosa risada do sacerdote que estava prestes a ser
espingardeado a mando das autoridades da Coroa Portuguesa. Ainda sobre a
execução, consta que o Padre Mororó pôs a mão sobre o peito e disse que ela
seria o alvo de seus carrascos. A primeira bala partiu o seu dedo anelar e
atingiu o seu coração.
Vamos aos fatos. Em 1824 a Câmara Municipal da Vila
de Santo Antônio do Campo Maior (atual Quixeramobim), insuflada pelo
revolucionário Gonçalo Mororó, teve a
ousadia de depor o imperador D. Pedro I
e declarar o território de Quixeramobim desmembrado do Brasil.
Sobre a história de Quixeramobim existe um excelente
livro escrito pelo professor Juarez Leitão, que narra com minúcias os episódios
da revolução de 1824, com foco especial na atuação do Padre Mororó e nas ações
da Câmara de Quixeramobim. Juarez, amigo de longa data, concedeu-me a honra de
prefaciar a terceira edição do meu livro Baú
da Gaiatice, relançado em 2012 pela Editora Assaré. Acerca desse episódio
histórico pouco divulgado nacionalmente, mas motivo de muito orgulho para o
povo Nordestino, recomendo a leitura da obra do historiador Juarez Leitão.
LIÇÕES
INFORMAIS DE HISTÓRIA
Quando criança eu costumava acompanhar minha avó
Alzira nas suas visitas ao Quixeramobim. Ela sempre me mostrava lugares
históricos e relembrava fatos que ouvira da boca de seus antepassados. Sabia
até o nome dos sinos da igreja matriz de Santo Antônio, erguida pelo português
Antônio Dias Ferreira. Mostrou-me a casa de Antônio Conselheiro e a antiga sede
da Câmara. Falou-me também da passagem dos revoltosos da Sedição de Juazeiro
por Quixeramobim, em 1914, depredando lojas e saqueando o comércio. Uma de suas
tias, a velha Maria dos Reis (tia ‘dos Reis’) falava de um compadre seu que
tivera grande prejuízo pois os jagunços haviam atirado peças de fazenda no meio
da rua, para alegria do populacho.
Ela lembrava às vezes que a sua avó Francinha, mãe
do Fitico chamava-se Francelina Paulino do Amor Divino e era pertencente ao clã
dos Paulinos da Vila Campos, em Canindé. Achava despropositada, portanto, uma
certa rivalidade que havia entre o povo dos Campos e a gente do Castro, já que,
de certo modo, eram ‘farinha do mesmo
saco’.
Miguel José de Sousa Mello, meu tataravô, era filho
de Fortunato José de Sousa Mello e Ana Úrsula Cavalcanti de Sousa, casal
proveniente dos sertões da Paraíba ou de Pernambuco. Contam que o Miguel foi
pai aos 14 anos. Engravidara uma escrava chamada Irene e a mãe descobriu a
travessura ao fazer o parto da moça, quando constatou que o rebento tinha os
olhos e a pele clara do seu Miguelzinho. Muitos anos depois esse filho apareceu,
acho que na terrível seca de 1877, buscando a ajuda do pai, que no momento se
encontrava ausente. A mulher o recebeu com uma certa frieza e disse-lhe que
esperasse o retorno de seu pai, para ver o que ele resolveria. Arranchado no
alpendre, Chico Irene (esse era o apelido do rapaz) foi surpreendido por um
grupo de jagunços (ou por uma horda de sertanejos famintos) querendo saquear a
fazenda. Prontamente o rapaz assumiu a defesa da casa e perguntou à esposa de
seu pai, se tinha alguma arma disponível. A velha deu-lhe um clavinote e ele
enfrentou os cabras disposto a matar ou morrer. Diante de sua demonstração de
coragem, os homens preferiram se retirar, de modo que o saque iminente foi
evitado. Depois do seu ato de bravura, não houve mais nenhum impedimento ao seu
intuito. A dona da casa ordenou que ele encostasse o seu burrico e suprisse os
caçuás com bastante mantimentos: farinha, rapadura, feijão, carne seca e outros
alimentos comuns nas fazendas sertanejas daquele tempo.
PENDORES
LITERÁRIOS
O velho Fitico era um danado… Possuía uma pequena,
porém ótima biblioteca com livros editados no Brasil, Portugal e até Alemanha,
quase todos de temática sacra e gostava muito de escrever, em bom português e
ótima caligrafia. Olympio Viana (o Pai Viana da Cacimbinha), um de meus bisavós
maternos, também tinha esse hábito. Quanto ao Miguel do Castro dizem que também
era poeta de nomeada, pois quando estava moribundo ainda teve fôlego para
compor essa quadrinha para uma comadre que viera visitá-lo:
Quatro coisas me aborrecem,
Fora faca que não corta...
Dormir cedo, acordar tarde,
Mulher feia e besta torta!
- Pegue esta pra você, comadre! - Teria dito o enfermo.
Francisco de Souza, o Fitico do Castro
Francisco de Assis de Sousa nasceu no dia 19 de
novembro de 1870 e casou-se com uma sobrinha, Maria das Mercês Viana de Sousa,
filha de Miguel Martins Viana e de sua
irmã Francisca, mais conhecida como ‘Mãe Souza’. A moça era 14 anos mais jovem,
pois nascera no dia 18 de fevereiro de 1884. Ainda adolescente, Fitico estudou
na capital, nos bons tempos da Fortaleza descalça e chegou a conhecer a famosa Marica Lessa,
personagem que inspirou Manoel de Oliveira Paiva em seu célebre romance Dona
Guidinha do Poço. Já senil e amalucada, a velha ainda teimava em protestar
inocência no caso do assassinato do seu marido, o Sr Abreu, morto pelo escravo
Corumbé, a mando da própria Marica Lessa, segundo se dizia.
Fitico foi contemporâneo e admirador do Padre Cícero
Romão e protetor do Padre Azarias Sobreira, o melhor e mais fidedigno biógrafo
do patriarca do 'Joaseiro'. Encontrando-o adoentado, ainda adolescente, a
caminho do Convento de Canindé, onde foi seminarista, Fitico prontificou-se a
cuidar de sua saúde na Fazenda Castro, de sua propriedade. No Castro, o jovem
Azarias recebeu calorosa acolhida durante meses, até recuperar-se e poder
retornar aos estudos religiosos, pois era esse o seu intento. Quando ordenou-se
sacerdote, veio celebrar uma missa na capelinha do Castro, erguida pelo meu
bisavô, dedicada à Jesus, Maria e José, capela na qual eu viria a me batizar
pelas mãos do padre Vital Elias, então vigário de Madalena. Ali também fiz a
primeira comunhão que me foi ministrada pelo Padre Nery Feitosa, escritor e
historiador dedicado.
Minha avó Alzira Viana de Sousa (Lima, após o
matrimônio) era leitora contumaz dos clássicos do cordel e papai, Francisco
Evaldo de Sousa Lima, um apaixonado por cantoria que não aventurou-se pelo
mundo com uma viola às costas porque a família (meu avô, principalmente) não
foi de acordo. Mas adquiriu um vasto cabedal de livros e folhetos que decorava
com grande facilidade e lia ou declamava para os filhos sempre que tinha tempo.
Dois de meus irmãos também fazem versos com grande facilidade, são eles
Klévisson e Itamar.
RETALHOS DA
INFÂNCIA
O cordel foi minha leitura de primeira hora,
literatura que vislumbrei da soleira das janelas de minha infância, linguagem
corriqueira que utilizávamos no dia-a-dia com a vantagem de ser rimada e
metrificada. Antes mesmo de aprender o beabá eu já me deliciava com a leitura
de minha avó Alzira, corrida e desembaraçada, na toada mais adequada para os
folhetos e romances de cordel. Desfilavam diante de mim reis, princesas
encantadas, castelos de ouro e cristal, gigantes descomunais, dragões
flamejantes, guerreiros medievais, amarelinhos sabidos, o diabo logrado, as
fábulas repletas de bichos da fauna nordestina e a saga dos cangaceiros
audaciosos. Universo mais lúdico é impossível.
Quero iniciar este novo livro com um cordel feito
recentemente para o Instituto C&A, que encomendou-me um texto sobre brincadeiras
e folguedos de um menino sertanejo a fim de inserir numa de suas publicações.
Lembrei-me, é claro, da minha infância lúdica e feliz na fazendola de meus
avós:
Divisa dos municípios de Madalena e Canindé (Três Irmãos)
Foto: Autemar Viana
MEUS
BRINQUEDOS DE CRIANÇA (TRECHOS)
Arievaldo
Vianna Lima
Vou falar
das brincadeiras
Do meu tempo
de criança
Porque não
posso olvidar
Tanta
bem-aventurança
Um tempo
lúdico, encantado,
Que não me
sai da lembrança.
Ouvi canções
de ninar
Que a minha
mãe cantava
Numa rede de
varandas
A noite ela
me botava
E solfejando
cantigas
Com prazer
me embalava.
Três
monólitos gigantes
No final da
cordilheira
Dominavam a
paisagem
Nessa terra
hospitaleira
Onde vivi
com prazer
A minha
infância primeira.
Nesse lugar
encantado
Onde só
reina alegria
No meio dos
meus parentes
Como num
sonho eu vivia
Lá, a
própria natureza
Só respira
poesia.
As aves
cantam nos galhos
Trina a
cigarra na mata
Os cristais
resplandecentes
Parecem de
ouro e prata
E o olho
d'água da fonte
Jorra em
suave cascata.
No sopé da
cordilheira
Que se ergue
abruptamente
O sabiá
laranjeira
Canta
sublime e plangente
O sol
dardeja os seus raios
Tocando a
alma da gente.
Preás se
escondem nas locas
Com medo dos
predadores
Inhambus
arrulham nas matas
Atraindo os
caçadores
Abelhas
zumbem na relva
Sugando o
néctar das flores.
No sopé dos
três serrotes
Tudo é
encanto e beleza
Seus
habitantes convivem
Em paz com a
natureza
E os
monólitos ostentam
O seu porte
de nobreza.
No ano
sessenta e sete
Do outro
século passado
Nasci
naquele recanto
E fui por
Deus inspirado
A beber
daquela fonte
Perto do
reino encantado.
Quando eu
era pequenino
Nos
alpendres do sertão
Que ouvia: “
Era uma vez...”
Ficava de
prontidão:
Já sabia que
as estórias
Jorravam em
profusão.
Os meninos
do sertão
Bebiam a
nossa cultura;
Os mais
velhos transmitiam,
Em prosa
franca e segura
As estórias
de Trancoso
Em oralidade
pura.
Belos
romances rimados
(Os
folhetinhos de feira)
Eram lidos
em voz alta
No alpendre
e na bagaceira
Dos engenhos
de açúcar
Para toda
cabroeira.
O Fiscal e a Fateira
Os Cabras de Lampião
A Vida de Pedro Cem
Testamento de Cancão
O Crente e o Cachaceiro
Numa grande
discussão.
Martírios de Genoveva
E a Donzela Teodora
São romances
que o povo
Guarda,
conserva e adora
E a criança
inteligente
Lê, admira e
decora...
Cancão de Fogo e João Grilo
Aderaldo e Zé Pretinho
Juvenal e o Dragão
Eu li tudo
com carinho,
No alpendre,
em voz alta,
Rodeado de
vizinho.
(...)
Mas, de toda
diversão,
Do meu tempo
de criança
O contador
de estórias
Jamais me
sai da lembrança
Essa figura
encantada
Renova a minha
esperança.
Eu tenho
muita saudade
Dos saberes
e cantares
Vovô sabia
narrar
Muitas
lendas populares
Tinha o
urubu e o sapo
Numa festa,
pelos ares.
Tinha o
macaco e a onça
A raposa e o
“cancão”
Dois gênios
da esperteza
Como reza a
tradição;
No fim da
fábula, a moral,
Trazendo
alguma lição.
Por tudo
quanto vivi
Me tornei um
menestrel
Penso rimas,
traço trovas
Em pedaços
de papel
Eis o que me
transformou
Num poeta de
cordel.