segunda-feira, 16 de abril de 2018

Um ano sem Gonzaga


RELEMBRANDO O POETA

GONZAGA VIEIRA 


Conheci o poeta José Maria GONZAGA VIEIRA em 1980, no Salão Arte Canindeense, que funcionava nas imediações do zoológico de Canindé. A princípio eu não sabia que ele era cordelista e muito menos que já tinha algumas obras publicadas. A atividade por ele exercida, que me despertou interesse, era o ofício de artesão. Gonzaga trabalhava com um material bem variado: sementes de mucunã e mulungu, couro de porco curtido, talos de carnaúba, fios elétricos, arame, lã, cola de sapateiro, pedaços de madeira e usava tinta e verniz para o acabamento final de suas peças. Eram pequenos bonecos, sozinhos ou em dupla, sobre um pequeno pedestal de madeira, representando figuras típicas do Nordeste como o vaqueiro, a dupla de violeiros, Lampião e Maria Bonita, dentre outros. Esses pequenos calungas eram de uma expressividade ímpar e praticamente nunca mais vi algo parecido. Além de montá-los sobre um pedestal, Gonzaga também os fazia em formato reduzido e os pendurava em chaveiros. Tinham ótima aceitação junto aos romeiros. Além do artesanato, que aprendera com um hippie em Fortaleza, no início da década de 1970, Gonzaga também se dedicava à pintura num estilo próximo ao surrealismo.
Certa feira ele me viu com uma pequena tábua nas mãos, tentando fazer uma matriz de xilogravura. Era coisa puramente intuitiva, porque eu nunca vira ninguém trabalhar com essa técnica. Apenas umas fotos de matrizes do Mestre Noza numa matéria de jornal. Foi somente aí que ele me disse ser poeta popular, com folhetos publicados. Suas obras iniciais foram O ABC do Consumidor e O ABC dos Tubarões. No momento escrevia folhetos sobre São Francisco das Chagas, padroeiro da cidade, cujo oitavo centenário de nascimento se aproximava. Apresentou essa obra na SECULT-CE e levou até um desenho feito pelo Lisboa, para servir de capa. Seu texto não foi publicado e a capa foi utilizada em outro cordel escrito pelo Padre Matusalém de Sousa, com a mesma temática escolhida por Gonzaga. Isso lhe despertou um sentimento de revolta que ele externou por longo tempo.
Certa tarde apareci no Salão Arte Canindeense e ele estava com um caderno nas mãos, escrevendo um cordel. Dei alguns palpites, de rima e métrica e ele me propôs a parceria. “Vamos fazer a quatro mãos, poeta” – disse-me ele. Sentamos num banco do zoológico, próximo à jaula dos leões e começamos a nossa parceria. Era um folheto intitulado “Um dia de eleição no país da bicharada”, daí a escolha do zoológico para pesquisar costumes dos que se encontravam ali, sobretudo os macacos, que eram personagens de destaque nessa trama imaginária. Subitamente chegou um funcionário do zoológico trazendo a carcaça de um jumento morto e esfolado num carrinho de mão, para servir de repasto aos leões. Admiradores de Padre Vieira e Luiz Gonzaga e defensores naturais do jumento, nos revoltamos com aquilo e começamos, de imediato, outro cordel intitulado “O massacre do Jumento Nordestino”, cujas estrofes iniciais diziam o seguinte:

O jumento nosso irmão
Cantado em prosa e verso
Que um dia transportou
O Autor do Universo
Vive hoje maltratado
Sendo até eliminado
Num atentado perverso.

Na fuga para o Egito
Jesus, José e Maria
Optaram pelo jegue
Por ser boa montaria
E a Família Sagrada
Viu-se assim transportada
Com conforto e garantia.

(...)

Nos circos e zoológicos
É comida de leão
Repasto de outras feras
É o nosso pobre irmão;
Há tempos Luiz Gonzaga
Denunciava esta saga
Em inspirada canção.

Esse caderno, contendo uns dez originais que produzimos entre 1981 e 82, perdeu-se, irremediavelmente, por ocasião de um dos porres que o poeta costumava tomar. Às vezes passava semanas inteiras mergulhado na bebida. Tempos depois resolveu ingressar num grupo de Alcóolicos Anônimos, onde perseverou por algum tempo, abolindo completamente o uso da bebida. Porém, tinha recaídas e, quando menos se esperava, retornava ao álcool. A princípio, era vinho e cachaça. Já nos últimos anos de vida, dava preferência à cerveja.
Fizemos muita coisa em parceria... Escrevemos mais de 20 cordéis, dentre os quais: "O massacre do jumento nordestino", "Um dia de eleição no país da bicharada", "As peripécias da Vaqueira Rozadina", "A lida de Conrado e a honradez sertaneja", dentre outros. Editamos, no final da década de 1980 um fanzine chamado TRAMELA, com tiragem de, aproximadamente, 500 exemplares mensais. Publicamos um álbum de HQ em cordel, um dos primeiros desse gênero, intitulado Canindé – Cidade da Fé, com tiragem de 10 mil exemplares, que esgotaram em menos de um ano!
Atuamos juntos nas rádios Jornal de Canindé AM e São Francisco AM, participamos de feiras e palestras sobre cordel e, um ano antes de sua morte, gravei o seu depoimento para o IPHAN. Mais de uma hora em áudio e vídeo falando da sua atuação como poeta popular e folheteiro. Por ocasião de sua morte, em abril deste ano (2017), publiquei essa homenagem ao poeta no blog “Mala de Romances”:

ENCANTOU-SE O POETA GONZAGA DE CANINDÉ

Faleceu na madrugada do último domingo (16/04), no Hospital Regional São Francisco de Canindé, vítima de úlcera no estomago, o cordelista José Maria Gonzaga Vieira (Gonzaga Vieira), 70 anos, nascido aos 20 de setembro de 1946. (...)
O corpo do poeta Gonzaga de Canindé foi velado na sede da Associação da Cultura de Canindé, ao lado da Policlínica, na Av. Francisco Cordeiro Campos, no bairro do Monte. Juntamente com seu primo Lisboa e outros artistas canindeenses, lutava pela criação de uma entidade para congregar os artistas de sua terra, sendo que as primeiras tentativas foram o Salão Arte Canindeense, e depois a PROARTCA - Projeção Artística Canindeense, que infelizmente nunca se consolidou. Mais tarde, esse mesmo grupo fundaria a Associação de Artesãos de Canindé, que existe até os dias de hoje.
José Maria Gonzaga Vieira era artesão, radialista, cordelista, escritor, poeta popular e representante regional da Associação Cearense de Jornalistas do Interior ACEJI. Seus trabalhos mais conhecidos como cordelista eram O ABC do Consumidor, Assim era São Francisco, Canindé da Lenda à Realidade, Peripécias da Vaqueira Rozadina, A lida de Conrado ou a honradez sertaneja e História de Aparecida, a Menina Perdida nas Matas do Amazonas, A vida de Alan Kardec em cordel, dentre outras. Muitas dessas obras foram publicadas pela Tupynanquim Editora, do poeta e editor Klévisson Viana.
De acordo com pessoas mais próximas a Gonzaga, ele vinha lutando contra uma enfermidade na próstata, inclusive já marcara uma cirurgia, que não chegou a se realizar. Porém, não foi esse o motivo de sua morte; de acordo com levantamentos feitos junto aos parentes de Gonzaga, ele passou mal no dia 14 de abril, sendo socorrido na Unidade de Pronto Atendimento - UPA 24 Horas, e depois encaminhado ao Hospital São Francisco, onde veio a falecer por volta das 4 horas da madrugada de domingo, 16 de abril. Conforme o laudo médico, vítima de complicações em úlcera no estômago, a qual já se encontrava em estágio bastante avançado. O sepultamento de Gonzaga Vieira aconteceu no Cemitério São Miguel, em Canindé, às 16 horas de domingo, 16 de abril de 2017.
José Maria Gonzaga Vieira nasceu em Canindé no dia 20 de setembro de 1946, filho de Francisco Barbosa Vieira e Bernardete Maria Gonzaga, filha do mestre Luiz Gonzaga de Maria (Luiz Fabiano), que foi, segundo o poeta, aluno do Liceu de Artes e Ofícios fundado pelos frades Capuchinhos, que administraram a Paróquia de Canindé no período de 1896 a 1923. Luiz Fabiano foi construtor de vários prédios em Canindé, inclusive a ermida do Monte ou Igreja de Cristo Rei.

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(Do livro "NO TEMPO DA LAMPARINA", ainda inédito)