sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

PERAMBULANDO...



FREI MANÉ MAGO NA PRAÇA JOSÉ DE ALENCAR

Depois de orar fervorosamente na velha Igreja do Rosário, joia barroca que ornamenta a não menos vetusta Praça dos Leões, Frei Mané Mago de Jurema deu uma passadinha na Academia Cearense de Letras, onde solicitou uma cadeira para Frei Cancão de Fogo do Amor Divino, seu fiel secretário e escrevinhador de suas memórias. Disseram-lhe que assim que houver uma vaga, informarão com a maior presteza, basta que morra um acadêmico. Pena que o Presidente “à força” da República não seja Acadêmico da ACL, porque existem milhões de pessoas rezando para que esse cabra morra.
Inteirado da corrente de orações que cerca a diabólica figura daquele que tomou de assalto a Presidência da República, Frei Mané Mago contou as últimas moedas de sua algibeira e subiu as escadarias do velho L’Escalle, onde comeu 200 gramas de bacalhau, regado por uma boa dose de vinho do Porto. Em seguida, degustou uma xícara de café expresso e umas bolachinhas com doce de goiaba pregado no cocuruto. Frei Cancão de Fogo absteve-se do nobre repasto porque havia comido CINCO coxinhas...
Frei Mané seguiu pela Guilherme Rocha, procurando uma loja da TOK-DISCOS, porém foi logo informado por um transeunte que a referida casa, que fora deleite de sua juventude musical, há muito fora extinta. Procurou as escadas rolantes das lojas Americanas, que também não existem mais e entrou por uma galeria esquisita, batizada de Shopping “não sei das quantas”, onde deparou com 352 coreanos e mais uns 800 japoneses vendendo componentes eletrônicos e produtos de “marca”, todos de procedência e durabilidade duvidosa. A amarelidão dessa gente o fez lembrar, com escrúpulos (mas, sem preconceitos),  dos patos amarelíssimos da Praça Portugal.
Mais adiante cruzou com dois policiais do Ceará Pacífico, de que nos fala o governador Camilo Santana, e perguntou como estavam as coisas no Triângulo das Bermudas e a movimentação naval nas imediações da Coréia do Norte, regiões banhadas pelo dito Oceano. Não obtendo qualquer resposta de futuro, dobrou a esquina apressado.
Seguiu pela 24 de maio, rumo ao Sebo do Geraldo e adquiriu um livro raríssimo de Gustavo Barroso – Mulheres de Paris, onde leu com muito gosto uma crônica sobre a existência de um CAFÉ DU CEARÁ, em plena capital francesa, no distante ano “da graça” de 1931! Sim, meus diletos leitores. Segundo Gustavo Barroso, desde meados do Século XIX, existia em Paris, na rua La Gaité, uma casa de repasto chamada Au Café du Ceará, cujo proprietário, francês de nascimento, a pegara de terceira mão e não sabia a origem do nome. O bairrista Barroso deduziu que algum cearense dos velhos tempos do Ceará cafeicultor, da Serra do Baturité, instalara-se em Paris com esse negócio.


Inicio da crônica Au Café du Ceará (Gustavo Barroso)

Frei Mané seguiu adiante, sempre acolitado por seu fiel discípulo Frei Cancão do Amor Divino e dirigiram-se ao Beco da Poeira, que não mais existe no seu antigo lugar de origem. Ali pretendiam comprar uma agulha de radiola e um carretel de fita para sua máquina de escrever Olivetti Línea 88. Tudo debalde. Ali encontraram tão somente uma banca de revistas, onde leram a seguinte manchete: “Presidente Temer é internado e faz cirurgia na uretra”, enquanto um camelô esgoelava-se a cinco metros de distância:

- BORRACHA PARA PANELA DE PRESSÃO! DESENTUPIDOR DE PINTO!!!


Antigamente, nos bons tempos de Frei Mané Mago, ali se vendia desentupidor para fogão a gás.


Olivetti Línea 88 - a popular SETE LAPADAS, onde Frei Cancão de Fogo iniciou suas travessuras como escrevinhador.