terça-feira, 1 de setembro de 2015

DO LIVRO DAS CRÔNICAS - Parte IV



1974: O ANO EM QUE ME ENTENDI POR GENTE

O ano de 1974 foi atípico. A começar pela experiência do dia de Santa Luzia, realizada por minha avó na noite de 12 para 13 de dezembro do ano anterior, a primeira do gênero que testemunhei. Vovó pegou uma tábua de pinho, colocou seis pedrinhas de sal e escreveu a lápis os nomes dos seis primeiros meses do ano vindouro. Cheio de curiosidade, perguntei como funcionava aquela experiência e ela explicou-me pacientemente. No dia seguinte, as pedrinhas seriam examinadas e se estivessem úmidas haveria bom inverno. Se amanhecessem secas, contudo, seria justamente o contrário. Torci para que amanhecessem alagadas pois meu avô havia preparado um enorme terreno para o plantio de um roçado e vivia pedindo chuva todo santo dia. Acho que até novena fizeram, pedindo bom inverno, fartura de gêneros, muita água e pasto para o gado. Em seguida, vovó pôs a dita tábua no frechal da cozinha e fomos nos deitar. De manhãzinha acordei com suas exclamações de espanto:
— Manuel, venha cá! Veja isso... As pedrinhas derreteram todas. Vamos ter o maior inverno dos últimos tempos no ano que vem.
— Louvado seja Deus, minha velha! Estamos mesmo precisando de chuva...
Levantei-me às pressas, com os olhos ainda embaraçados pelo sono e dirigi-me à cozinha onde meus avós testemunhavam os efeitos da dita experiência. Seguindo a velha crença popular, seria inverno de cabo a rabo. Nos meses de março e abril as pedras haviam se dissolvido de tal maneira, que a salmoura escorria pelas bordas da tábua. A partir de então, todas as pessoas que chegavam eram convidadas a ver aquele pequeno fenômeno do misticismo sertanejo, sempre taxado de crendice e abusão pelos entendidos da Ciência. Religiosidade à parte, penso eu que as pedras de sal servem para medir a umidade relativa do ar no período que antecede a quadra invernosa.

Profetas da Chuva - evento promovido pela UNILAB

Naquele tempo vovô não andava bem de saúde. Padecia dos sintomas de uma gastrite renitente, fumava compulsivamente e zangava-se com facilidade. Vovó dizia que ele andava enfezado e impertinente e procurava tratá-lo com brandura, para não exasperá-lo. Eram sintomas de uma úlcera que quase o levou a morte, mas, felizmente, tudo foi superado. Falarei sobre isso mais adiante.
Eu já tinha seis anos de idade e começava a compreender melhor o ambiente que me cercava. Sempre fui observador e procurava me inteirar de tudo. Naquele tempo, minha maior preocupação era ajuntar moedas numa lata vazia de leite em pó, para gastar na noite de Natal, em Canindé. Eu sabia exatamente o que desejava comprar com aquele dinheiro, poupado ao longo dos meses. Ninguém escapava à minha coleta. Os namorados de minhas tias eram minhas vítimas preferidas quando se tratava de arranjar mais um níquel para o meu cofrinho improvisado.
Foi mais ou menos por esse tempo que começaram a me alfabetizar e o meu fetiche eram os versos e romances da maleta de minha avó. Até àquela época ninguém chamava folheto de feira de “cordel”. Foi um apelido bem tardio, posto por pesquisadores europeus que andaram por aqui procurando chifre em cabeça de cavalo. Eu queria adquirir novos títulos nos festejos de Canindé e, se possível, um brinquedo também, com aquelas moedas que vinha ajuntando pacientemente. Mal sabia eu que mamãe tinha outros projetos e praticamente obrigou-me a comprar um par de sapatos com as minhas moedas. Quando falei em brinquedo ela foi taxativa:
— Maaaaarrrrr menino!... Seu dinheiro acabou!
— Acabou? Como?
— Ora mais esta... Mal deu para comprar o seu par de sapatos. Deixe de aperrear senão da próxima vez não lhe trago mais para Canindé.
A revelação feita assim, a queima roupa, pareceu-me uma machadada no quengo de um bode magro. A sorte é que meu avô me deu mais uns trocados e pude, finalmente, adquirir os tão desejados folhetos de feira, que estavam espalhados sobre uma lona na Praça Thomaz Barbosa, centro de Canindé. Eram centenas de títulos, das duas editoras de Juazeiro e também de João José e Manoel Camilo dos Santos. O folheteiro era um profissional bem traquejado no ofício e cantava trechos dos romances. No ápice da leitura, fechava o folheto e dizia:
— Quem quiser saber o resto, vai ter que comprar o livrinho.
Quase todo mundo comprava. Eu me peguei com “O Príncipe do Barro Branco e a Princesa do Reino do Vai-não-torna”, de Severino Milanês da Silva e um exemplar de “O grande debate de Lampião com São Pedro”, do genial José Pacheco da Rocha. Ainda quis adquirir os dois volumes do Cancão de Fogo mas o dinheiro não deu. Ficou para outra ocasião. Lembro-me que algumas pessoas da família me criticavam dizendo que eu tinha mania de gente velha, que na minha idade seria normal adquirir um livro infantil, uma revista em quadrinhos e não aqueles romances com cheiro de coisa passado. Os matutos já procuravam se modernizar, renegando Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e a poesia popular, substituindo-os pelas canções da Jovem Guarda e até mesmo por estrelas da música internacional.


Eu já nasci teimoso. E autêntico. Eu gostava mesmo era de forró e não perdia uma audição do programa “Guajará no Varandão”, onde o apresentador (o saudoso Guajará Cialdini) costumava declamar poemas de Zé da Luz, Patativa do Assaré, Jotamaro e Alberto Porfírio. Por ali desfilavam as canções de Luiz Gonzaga, Marinês, Ary Lobo, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos e Trio Nordestino. A linguagem do apresentador não tinha aqueles floreios urbanos que a gente escutava nos demais programas. Era uma prosa telúrica, com gosto de café torrado no caco.

Chegou o compadre Janeiro, como diziam os matutos e o inverno veio mesmo. Torrencial, abundante, desabusado como havia predito a experiência das pedrinhas de sal. O bom presságio fora também confirmado pela barra do alegre Natal. De repente as chuvas começaram a cair em excesso e as preocupações de meu avô foram aumentando a cada dia, agravando ainda mais o seu quadro de saúde. Foi no meio dessa invernada, com estradas encharcadas de lama, pontes quebradas, açudes arrombados, serras derretendo a olhos vistos, que meu avô caiu de cama gravemente enfermo. Com tanta coisa acontecendo ao meu redor comecei gradativamente a afastar-me das brincadeiras despreocupadas de criança e, pela primeira vez, pensei no futuro. O que seria de nós sem o vovô, mola mestra daquela família? Dizem que aos sete anos a criança começa a tomar consciência de seus atos... Antes disso as memórias que guardo da primeira infância são fragmentadas, encobertas por uma névoa difusa. Depois tudo ficou claro como uma pedra de malacacheta rebrilhando ao sol. Para mim, 1974 foi um ano que ficou na história.