segunda-feira, 17 de novembro de 2014

CORDEL EM PORTO ALEGRE




No dia 13/11, fizemos nossa primeira apresentação na TENDA DE PASÁRGADA, onde o público de Porto Alegre nos deu as boas vindas com aplausos calorosos e boas risadas, quando declamamos poemas engraçados como PROEZAS DE JOÃO GRILO e CHEGADA DE LAMPIÃO NO INFERNO.
Logo depois, realizamos oficina de cordel na sala de vídeo da 60 Feira do Livro de Porto Alegre, para um público pequeno, porém interessadíssimo no assunto.
No dia seguinte  (14/11) tivemos uma tarde/noite memorável, de grande interatividade com os alunos do EJA da escola José Loureiro, em Porto Alegre-RS, durante a programação da 60a. Feira do Livro de POA. A direção da escola nos deu uma maravilhosa acolhida e ainda contamos com a presença da cantora/compositora Marisa Rotemberg que deu um show, interpretando canções de Lenine, Zeca Baleiro, Elba Ramalho e Ednardo, enquanto eu fazia meu repertório de declamações. Na lista dos mais aplaudidos: O batizado do gato e O jumento Melindroso desafiando a Ciência, de minha autoria, seguido de Me enganei com minha noiva (Luiz Campos), Eu e Maria (Geraldo Amâncio) e Idéias de Caboclo (Alberto Porfírio). Para encerrar, trechos do novo cordel Queixas de uma vaca a Roberto Carlos (parceria com Klévisson Vianna).



Na Biblioteca Moacir Scliar, com Rafael Cardoso 
e Sônia Zanchetta (organizadora do evento)

Com Maria Helena, da Editora CORAG

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

CORDEL CEARENSE EM PORTO ALEGRE


Arievaldo Viana ministra oficina Cordel na sala de aula na Feira do Livro, dia 13/11

Fonte: Fonte: http://www.feiradolivro-poa.com.br/noticias/arievaldo-viana-ministra-oficina-cordel-na-sala-de-aula-na-feira-do-livro

Escritor, poeta popular, radialista, ilustrador, chargista e xilogravador, o cearense Arievaldo Viana ministrará na 60ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre a oficina Cordel na sala de aula, no dia 13 de novembro, às 18h, na Sala de Vídeo.
Viana, que já escreveu mais de 100 livretos de cordel e publicou, como autor e ilustrador, cerca de 30 obras – sendo cinco lançadas em 2014 –, trará para a Feira as experiências do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, a partir do livro homônimo de 2005. Em pauta, as origens de cordel, suas modalidades, principais expoentes e regras básicas. “Tudo isso com  interatividade com o público e, no final, faço uma aula-espetáculo declamando alguns clássicos do gênero”, explica o cordelista.
Criado em 2002 em Canindé, no Ceará, o projeto propõe a utilização da poesia popular como ferramenta auxiliar na educação, através de oficinas de capacitação para professores e de cursos de iniciação à Literatura de Cordel para educadores e estudantes, assim como de estudos a partir da linguagem e informações diversas contidas nos folhetos.
O crescente interesse pela Literatura de Cordel pode ser medido pelo avanço do projeto em outras cidades cearenses, assim como em outros estados, e pela participação do autor em evento literários em todo o Brasil. Em 2014, Viana virá para a Feira do Livro pela terceira vez.
Segundo ele, um ponto alto  das participações anteriores foi o lançamento de alguns folhetos pela editora Corag, com adaptações de contos de Simões Lopes Neto para o cordel, além do Estatuto do Idoso e do Estatuto da Criança e do Adolescente nesse formato. “Gosto muito da receptividade do povo de Porto Alegre e da forma como a Feira [na Área Infantil e Juvenil] vem sendo organizada pela Sônia Zanchetta e toda a sua equipe. Espero dar continuidade ao meu projeto editorial nas editoras do Rio Grande Sul, pois sou fascinado pela cultura gaúcha e, principalmente, pelos livros do escritor Simões Lopes Neto, que tenho adaptado para o cordel”, conta.
A atividade integra a programação do ciclo A Hora do Educador. As inscrições podem ser feitas pelo e-mail visitacaoescolar@camaradolivro.com.br. É necessário informar nome completo, profissão, e-mail e telefones


Do Sertão para o mundo
Nascido no Sertão Central do Ceará, criado com feijão de corda, cuscuz e rapadura, à luz de lamparina e bebendo água de pote, como faz questão de ressaltar na sua biografia, Viana é mais do que conhecedor, é um apaixonado pela poesia popular nordestina.
Alfabetizado em meados da década de 1970, graças ao valioso auxílio da Literatura de Cordel, teve como referência o seu pai, Evaldo Lima e sua avó, Alzira de Sousa Lima, que liam folhetos de cordel em voz alta para ele e outras crianças da família.
Uma vivência que virou marca do seu trabalho. “Minhas primeiras incursões no mundo das letras já estavam relacionados com o cordel. Em 1986, lancei uma HQ intituladaCanindé – da lenda à realidade, que mesclava a linguagem dos quadrinhos com a literatura de cordel. Nos anos seguintes, publiquei algumas crônicas em jornais e revistas e alguns folhetos de cordel que resolvi enfeixar num livro chamado O Baú da Gaiatice (hoje na terceira edição), que foi um sucesso. Em 2002 surgiu o projeto Acorda Cordel na Sala de Aula e começaram a surgir convites de editoras para publicação de textos em cordel no formato livro infantojuvenil ilustrado”, lembra.
“A princípio, houve alguma resistência por parte de pesquisadores alegando que isso descaracterizaria o cordel. Isso não é verdade. O que determina a autenticidade do cordel é a sua LINGUAGEM e não seu SUPORTE.
Eu sempre procurei ser fiel à escola de Leandro Gomes de Barros e José Pacheco da Rocha, pioneiros e grandes expoentes desse gênero”, defende.
Em 2000, Viana foi eleito para a cadeira de número 40 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, cujo patrono é o poeta João Melchíades Ferreira (1869 – 1933), um dos pioneiros desse gênero.  Em 2002, conquistou o prêmio Domingos Olimpio de Literatura, promovido pela Prefeitura de Sobral-CE, com uma adaptação do romance Luzia Homem para o cordel.
O autor já recebeu selo “altamente recomendável” da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e teve livros incluídos no catálogo da Feira Internacional do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, na Itália, uma das mais importantes do mundo. Alguns dos seus livros também foram adotados pelo Ministério da Educação (MEC), através do PNBE (Programa Nacional da Biblioteca Escolar). São eles: A Raposa e o Cancão (Editora IMEPH, 2007), Ilustrado por Arlene Holanda, A ambição de Macbeth e a maldade feminina (Editora Cortez, 2009), ilustrado por Jô Oliveira, João de Calais e sua amada Constança (Editora FTD, 2012), em parceria com Jô Oliveira. Lançado em 2014 em parceria com Arlene Holanda, O beabá do sertão na voz de Gonzagão (Editora Armazém da Cultura), também integra a relação.
Mais sobre a Literatura de Cordel
Considerada a mais legítima manifestação cultural do povo nordestino, a Literatura de Cordel representa um poderoso veículo de comunicação de massas. Oportunamente batizada de “professor folheto”, foi responsável, durante muitos anos, pela alfabetização de milhares de nordestinos, constituindo, em muitos casos, o único tipo de leitura que tinham acesso as populações rurais na primeira metade do século 20.
A poesia popular nordestina, que ainda sobrevive nos dias de hoje, é herdeira direta da tradição grega, eivada de influências dos trovadores medievais da Península Ibérica. Essa poesia, antes difundida pela tradição oral, passou a ser publicada sistematicamente a partir da última década do século 19, pelo poeta paraibano Leandro Gomes de Barros.
Aliás, o poeta, que completa 150 anos de nascimento em 2015, é tema de uma biografia ainda inédita de Viana, intitulada Leandro Gomes de Barros – Vida e Obra.


Para saber mais sobre Literatura de Cordel, acesse o blog do autorhttp://www.acordacordel.blogspot.com.br/.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

CAVALARIA EM CORDEL



MEU CORDEL DE CARLOS MAGNO

De todos os temas versados pela Literatura de Cordel, os folhetos de cavalaria estão entre os que mais me fascinam. Quando menino, eu gostava de ouvir meu pai declamar trechos e mais trechos de "A BATALHA DE OLIVEIROS COM FERRABRÁS", do grande Leandro Gomes de Barros. Recentemente, lendo um conto de Alexandre Dumas (Pai) encontrei assunto para mais um cordel de CAVALARIA, do qual publico a introdução:



O SONHO MISTERIOSO
DO IMPERADOR CARLOS MAGNO
Autor: Arievaldo Vianna


Dos romances que eu li
Nos meus tempos de criança
Existe uma bela história
Que não me sai da lembrança
“A vida de Carlos Magno
E os Doze Pares de França”.

Viveu na Idade Média
Esse grande imperador:
França, Alemanha e Itália
Reconhecem o seu valor;
Inspira gestas guerreiras
Na lira do trovador.

“Eram doze cavaleiros
Homens fortes, destemidos”
A sua guarda de elite
Como se lê nos “Corridos”
E nos “Cordéis” que propagam
Seus feitos mais conhecidos.

Nos sertões do meu Brasil
Inspirou as cavalhadas
De Mouros contra Cristãos
Velhas lendas repassadas
De beleza e misticismo
Como nos Contos de Fadas.

Pretendo citar agora
Alguns de seus cavaleiros
Todos eles destemidos
E valorosos guerreiros
Dos quais destaco Roldão
E o corajoso Oliveiros.

Rolando e Olivier
Chegaram aos nossos sertões
Vindos da Península Ibérica
Nos folhetos e canções
Que os colonizadores
Declamavam nos serões.

Muitos bardos nordestinos
Sentiram-se fascinados
Por esta saga guerreira
E por serem inspirados
Contaram tudo a seu modo
Em belos versos rimados.

Leandro Gomes de Barros
Poeta muito capaz
Transpôs pro mundo das rimas
De um modo que satisfaz
“A Batalha de Oliveiros
Com o turco Ferrabrás”.

João Melchíades também
Nesse mesmo bebedouro
Procurando inspiração
Achou ali um tesouro
E versou, com muita ação,
“Roldão no Leão de Ouro”.

E nem em tempo vindouro
Eles serão esquecidos...
Leandro porque foi mestre
De méritos reconhecidos;
Melchíades, por Zé Garcia
De feitos tão conhecidos.

Eu venho da mesma cepa
Sou poeta e trovador
Pretendo contar em versos
Como fiel narrador
O sonho misterioso
Que teve o imperador.

O conto maravilhoso
Da memória não me sai
Desde que o conheci
Sua beleza me atrai;
É o seu autor, em prosa,
Alexandre Dumas, pai.

É o autor consagrado
De “O Conde de Monte Cristo”
Seguindo, pois, esta fonte,
Da empreita não desisto
E traço um roteiro em versos
Conforme estava previsto.

No tempo em que Carlos Magno
Consolidou seu império
À noite, no seu palácio,
Deu-se um caso muito sério
Teve um sonho atribulado
Encoberto de mistério.

(...)


PEDIDOS: acordacordel@hotmail.com

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O FOLE RONCOU

UMA HISTÓRIA DO FORRÓ


'O Fole Roncou' mapeia caminhos do forró ao historiar vozes do gênero

 Texto de Mauro Ferreira / Blog:  Notas Musicais

Resenha de livro
Título: O Fole Roncou! - Uma História do Forró
Autores: Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues
Editora: Zahar

O nome do baiano Pedro Almeida e Silva quase nunca é associado à história da música nordestina nos registros oficiais sobre o forró. Mas Pedro Sertanejo - como passou a ser chamado desde que em 1956 gravou seus primeiros discos (de 78 rotações por minuto) para a extinta gravadora Copacabana - é figura importante na história do gênero. Não tanto como sanfoneiro, mas por ter aberto em São Paulo (SP), em 1961, o Forró do Pedro Sertanejo, casa de shows que reforçou o elo natural entre o povo e os artistas nordestinos  que migraram para o Sudeste em ônibus ou mesmo num já lendário pau-de-arara em busca de emprego, sorte e oportunidade. A real importância de Pedro Sertanejo na história da música nordestina está corretamente dimensionada no livro O Fole Roncou! - Uma História do Forró, escrito pelos jornalistas paraibanos Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues.
O livro mapeia os (des)caminhos do forró ao contar a trajetória de vozes que propagaram a música nordestina - sejam como cantores, produtores de discos ou empresários. O  eixo é a vida e obra de Luiz Gonzaga (1912 - 1989), pilar mais forte do gênero, personagem fundamental tanto como cantor - por ser a voz que lançava e avalizava compositores que chegavam do Nordeste sem saber que rumo tomar - quanto como conselheiro de colegas intérpretes ainda atordoados com o cotidiano e os códigos de metrópoles como Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP). Mas o livro - escrito em narrativa fluente e meio romanceada que peca somente por reproduzir diálogos que certamente não aconteceram tal como descritos pelos autores - dá voz a personagens pouco ou nada ouvidos nos registros oficiais. Casos do produtor fonográfico José Abdias de Farias - fundamental para o investimento da gravadora CBS em discos de forró nas décadas de  60 e 70 - e do cantor e compositor paraibano Sebastião Xavier de Souza, o Biliu, lançado como compositor por Abdias na década de 80, quando o produtor (já em fase de decadência profissional) trabalhava na extinta Copacabana, gravadora que propagou em escala nacional nos anos 70 a voz vivaz e os temas de duplos e maliciosos sentidos de Genival Lacerda, outro personagem recorrente nas 472 páginas do livro. Vem de Biliu, aliás, a definição que delimita na página 439 o significado do genérico termo forró. "Esse negócio de que a palavra forró veio de for all é frescura. Vem de forrobodó, forrobodança... Significa festa, fuzarca, pagode... Forró é um local onde se canta tudo. Forró é tudo. Não é ritmo, nunca foi", sentencia Biliu, com autoridade e razão. Escrito a partir da feitura de mais de 80 entrevistas, O Fole Roncou! - Uma História do Forró também relata os fatores sociais que impulsionaram a migração nordestina para o eixo Rio-SP e, por consequência, acabaram dando visibilidade ao forró além das fronteiras nordestinas. Os autores cruzam as histórias de personagens como os paraibanos Antonio Barros (compositor de numerosos sucessos do gênero) e Jackson do Pandeiro (1919 - 1982), outro pilar da musical Nação Nordestina. De alma paraibana, a pernambucana Marinês - nome artístico de Inês Caetano de Oliveira (1935 -2007), a eterna Rainha do Xaxado - também é personagem de grande presença na narrativa, dimensionada na medida de sua importância para a música nordestina. Já a paraibana Elba Ramalho - embora citada várias vezes quando o livro aborda a nova corrente migratória que deslocou artistas nordestinos (Alceu Valença, Fagner, Zé Ramalho) para o eixo Rio-SP nos anos 70 - poderia ter tido sua trajetória contada com mais detalhes por ter sido a grande propagadora da música nordestina em escala nacional nos anos 80. Em contrapartida, os autores acertam ao mostrar como se criou a indústria do forró eletrônico a partir da iniciativa do empresário cearense Emanoel Gurgel, cujo faro comercial detectou a demanda popular por um forró mais pop e mais diluído. Ao fabricar a banda Mastruz com Leite, Gurgel criou império que, mesmo sem ter hoje a solidez dos anos 90, gerou dezenas de bandas genéricas e redesenhou a história da música nordestina, mesmo sob os ataques (desferidos no livro por personagens como o cantor cearense Alcymar Monteiro) de vozes defensoras de um forró com pegada mais tradicional. Opiniões e interesses à parte, o livro O Fole Roncou! - Uma História do Forró é trabalho de fôlego. Livro arretado e crucial para entender a criação e a evolução de parte importante (e subestimada) da música brasileira.

Fonte:http://www.blognotasmusicais.com.br/2012/11/o-fole-roncou-traca-descaminhos-do.html

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O PROFESSÔ DUS MENINOS

HOJE, 15 de outubro, dia do PROFESSOR, lembrei-me desse singelo poema do mestre Alberto Porfírio, intitulado
 IDÉIAS DE CABOCLO:




Ideias de Caboclo
Extraído do Livro: "Poetas Populares e Cantadores do Ceará", de Alberto Porfírio

O professô dos menino
Fala, fala chega estronda!
Querendo qui eu acredite
Qui a terra seja redonda.

Não, senhor, num acredito
Nunca pude acreditá
Qui viva assim todo mundo
Andando em cima duma bola
Sem nunca iscorregá!

Vós mincê preste atenção,
Um monstro cuma é o trem!...
Se a terra fosse redonda,
Iscorregava tombém.

Ele só diz qui a terra
Veve solta no espaço
Rodando num canto só
Sem tê nada de embaraço.

Muvimenta... muvimenta
E nunca descansa um pedaço,
E qui é as volta qui ela dá
Qui serve pra controlá
A frieza e o mormaço.

Num acredito!... não! não!
Qué sabê cuma é a terra
Na minha maginação?
É um prato feito de barro
Mal feito mais bem grandão!
Emborcado em riba d’água
N’uma firme pusição,
Cum a gente morando in riba
Cum toda satisfação.

Vou prová cuma é mermo
Vou dá toda a insplicação:

Quando Deus fez este mundo
Mandou a terra secá,
Mandou se juntá as água
E foi assim qui fez os má.
E se a terra fosse doida
Rodando pra se acabá,
Tinha derramado as água
E era até pirigoso
O próprio Deus se afogá.

Tá certo ou num tá?!

Os home religioso
Gostun de dizê a gente
Qui tem um tal de inferno
De fogo qui é munto quente
Qui vai pra dentro desse fogo
As alma dessas pessoa
Qui num vão munto decente

Desses home priguiçoso
Qui num quere trabaiá;
Dessas muié vaidosa
Qui usun as roupa curta
Qui é do juêio pra lá;
Qui usun outras safadage
Fazendo a gente pecá
Dispois tudo morre
Vai morá nesse lugá
Debaixo desse arguidá.

Agora eu aviso os home
Qui pras muié são ingrato
Tombém aviso as muié
Qui andun de ponta-de-pé
Mode os sarto do sapato;
Dão zunhada e esconde as unha
Fazendo a moda de gato
Se morrê nesses pecado

Vão pra debaixo do prato!...

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

DUAS ANEDOTAS DO FITICO...


O casal Fitico e Mercês, em foto rara da década de 1930

... E O VELHO RÁDIO ZILOMAG

Raimundo Albuquerque de Pinho é filho de uma tradicional família de Madalena, nascido em 1930. Quando jovem, trabalhou na Fazenda Teotônio, um complexo agro-industrial, pertencente à época ao Sr. Gerardo Câmara. O Teotônio era um oásis de prosperidade em meio à pobreza sertaneja. Depois largou-se mundo afora e percorreu os quatro cantos do país, passando por Paraná, São Paulo, fixando-se depois em Goiás onde trabalhou como ‘candango’ na construção de Brasília. Mesmo distante de seu torrão, Albuquerque de Pinho procurou manter a sua identidade sertaneja, alimentando-se com as histórias de sua gente, sem jamais perder de vista a sua Madalena querida.

Era afilhado de batismo do casal Raimundo Chagas e Almerinda Viana, pais do Dr. Galileu Viana Chagas. Ao Galileu, devo a gentileza de uma cópia xerocada de um livro de memórias escrito por Albuquerque de Pinho (Histórias da Minha Terra), publicado em 2002, onde aparecem algumas crônicas bem interessantes como “O canguçu da Itataia”, que conta a origem do nome da localidade de Queimada da Onça; “A divina tragédia”, que narra as peripécias de um pai-de-chiqueiro desembestado, puxando o andor de São Gonçalo numa procissão e muitas outras crônicas interessantes onde desfilam personagens irreverentes como  Manezim Ilia (Elias), Nogueira da Barra-Nova, Assis Macena, Mané do Óleo e Fama Roseira. O meu bisavô Fitico aparece em duas histórias, ambas bem humoradas.


Raimundo Chagas, padrinho de Albuquerque de Pinho

Na primeira delas o autor narra as peripécias que envolveram a sua primeira comunhão, ocorrida por volta de 1940, ministrada pelo padre Jaime Felício. Quando estava na fila da confissão, diz ele que ouviu “um tilintar de medalhas, acompanhado de cochichos, sussurados por uma voz quase em lamento” que lhe chamou atenção. Era meu bisavô Fitico, agarrado a um rosário e seguido de perto pelo seu genro Mané Aderaldo. Assim diz o autor: “ambos, em atitude de extremo respeito e piedade, de mãos espalmadas sobre o peito, contritos, desfiavam as contas de seus rosários e com os olhares contemplativos, quase em êxtase, olhando para o altar, pediam a Deus e à Virgem Padroeira, perdão para os crimes que nunca cometeram.” O desfecho do conto é hilário... O padre ordena que o menino conte os seus pecados e o coitado cai na besteira de dizer que havia furtado umas canas e algumas frutas da propriedade de um tio. O padre ergue-se do confessionário visivelmente exasperado o chamando de “ladrãozinho safado!” Depois pergunta se ele “já conhecia mulher”. Ora, o coitado, longe de imaginar o sentido capcioso da pergunta, lembrou-se que conhecia a mãe, a avó, as tias, as vizinhas e respondeu desembaraçado:
— Conheço, sim senhor!
Deixemos o próprio Albuquerque de Pinho narrar o desfecho da tragédia:
“O padre Jaime arregalou os olhos, estufou o peito, que de tão magro, mais parecia a titela duma peitica, para fora do confessionário e, para espanto dos que estavam na fila (no caso o Fitico e o Manezinho Aderaldo), pegou a minha orelha, torceu-a até quase encostar a minha cara no chão e berrou:
— Taí, seu safado, para você deixar de ser tão sem-vergonha e nunca mais fazer isto!”
O resultado foi uma penitência aloprada, composta por dezenas de Padre-Nossos e Ave-Marias. O coitado do garoto mijou nas calças, de tanto medo, e saiu dali encolhido, morto de vergonha, arrastando os chinelos mijados pela nave da igreja.

* * *



A outra anedota é intitulada “O NÓ DA GRAVATA” e tem o Fitico como um personagem ativo da história. Como já foi dito anteriormente, Francisco de Assis de Souza, o Fitico, esmerava-se no vestuário e jamais dispensou paletó e gravata. Isso pode ser comprovado em todas as fotografias em que aparece, mesmo nas mais antigas. Gostava de um bom terno de linho branco e uma gravata de cor para arrematar o visual. Esse modo de vestir-se poderia até ser comum na capital e nas cidades mais evoluídas do interior, mas naqueles cafundós sertanejos era uma notável excessão.
A história documentada por Albuquerque de Pinho lhe foi repassada pelo José Raimundo da Vaca Serrada e teria ocorrido, segundo o autor, nas primeiras décadas do Século XX. O Capitão Joaquim Felício de Castro, dono da fazenda Açude, bisneto de um imigrante italiano que dera com os costados em Quixeramobim no final do Século XVIII, herdara de seu ancestral um vistoso suéter de couro de puma, que para não ser comido por traças e polias vinha sendo conservado com pó de enxofre e breu, o que certamente lhe deixou impregnado de um “cheiro de múmia”.
Joaquim Felício era muito amigo de um certo João Macambira que morava no Pitanguá. Certo dia, voltando com um comboio da Serra do Baturité, hospedou-se na propriedade desse cidadão e daí nasceu uma grande amizade que foi cultivada pelos anos seguintes. Depois da terrível Seca do Quinze (1915), o Capitão recebeu certo dia um convite especial enviado por seu amigo do Pitanguá, para participar do novenário do Divino Pai Eterno, que ali se celebrava da noite do natal (24 de dezembro) ao dia 06 de janeiro, dia da Festa de Santo Reis.
Assegura Albuquerque de Pinho, que o Capitão entendeu de comparecer a tal festejo envergando uma camisa de seda e o tal casaco de couro de puma, herança do seu antepassado. O problema era o nó da gravata, que o Felício não acertava e que ninguém sabia fazer em roda de pelo menos umas duas ou três léguas. Foi aí que ele lembrou-se de seu amigo Fitico do Castro, que residia bem distante de sua moradia mas que era perito em dar qualquer espécie de nó, especialmente em gravatas.
Depois de cavalgar seis léguas, três pra lá, três pra cá, Joaquim Felício retornou feliz da vida, com a sua gravata perfeitamente acomodada em volta do pescoço. Dormiu assim e no dia seguinte empreendeu viagem para o Pitanguá, a fim de atender o convite do amigo. Deixemos a cargo do próprio Albuquerque o desfecho da história:
“Ali, lhe estava reservado tudo o que havia de melhor: desde uma rede branca de varandas, aos melhores petiscos da mesa. Foram quinze dias em que os dois amigos deram vasta dimensão ao conhecimento de seus costumes e as origens de suas cepas ancestrais.
No último dia, porém, estava reservada ao visitante ilustre, uma surpresa. Seria o pregoeiro do leilão, que culminaria com o encerramento daquela animada e cerimoniosa festa. O Capitão estava impecável dentro do seu suéter que exalava um intolerável odor balsâmico.
E, entre os: ‘quem dá mais?’ (...), a vibração do martelo sobre a mesa, uma boa dose de zinebra, com tira gosto de coxa de peru recheado, mais uma apertada no nó da gravata que, a a estas alturas, depois de quinze dias e noites, presa ao seu gogó, já não era possível distinguir suas franjas, assemelhando-se, no dizer do Zé Raimundo, a um papo de urubu-rei”.
Concluindo a história, Joaquim Felício retornou à sua fazenda Açude ainda com a maldita gravata no pescoço e ao chegar em casa, depois de despir o velho suéter, calças, e borzeguins, viu-se às voltas com o nó da gravata que não cedia nem a custa de reza. Baldados todos os esforços, lembrou-se mais uma vez do seu amigo Fitico:
“Depois do almoço, montou mais uma vez o seu cavalo cansado e estropiado e dirigiu-se à casa do seu Fitico, que depois de paciente malabarismo, conseguiu com um pontudo sovelão de chifre de veado, arrancar do seu pescoço aquela histórica e malvada gravata que, daquele dia em diante, nunca mais apertou o pomo de Adão do Capitão Joaquim Felício.”
Eu não conheci o bisavô Fitico, mas cheguei a conhecer o tal sovelão de chifre de veado a que se refere o Albuquerque de Pinho. Na sala de costura da minha avó, ficava também o ‘santuário’ (um pequeno oratório de madeira escura, feito pelo Chico Tomé) com as imagens dos santos de sua devoção, uma velha penteadeira e a banca do rádio, um pequeno móvel com gaveta, onde estavam, dentre outras relíquias, os óculos de aro de tartaruga que pertencera ao Fitico, o seu exemplar do Escudo Admirável, poderoso livro de orações e o tal sovelão de chifre de veado que eu gostava de usar para aplicar cutucões nas costelas de algum primo distraído. O velho rádio a válvula, da marca Zilomag era um companheiro diário que divertia e informava, sintonizado desde as primeiras horas da manhã até a boca-da-noite na Difusora Cristal de Quixeramobim, Rádio Tupinambá de Sobral, Assunção e Uirapuru de Fortaleza, quando cedia lugar às conversas do alpendre ou a leitura dos folhetos de cordel na sala de jantar. Foi nesse aparelho que ouvi, pela primeira fez, as cantigas de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês, Ari Lobo, Trio Nordestino e a sanfona inconfundível do Noca do Acordeón, embora minhas tias preferissem os programas de “Jovem Guarda” com o “Rei” Roberto Carlos e seu séquito de cafonas. Sinto saudades de locutores como Aurélio Brasil, Guajará Cialdini, Wilson Machado e José Lisboa, homens de prosa fluente e agradável, que valorizavam a verdadeira música popular brasileira. Dos remanescentes dessa “Velha Guarda” da radiofonia cearense, ainda temos a honra de escutar as vozes marcantes de Cid Carvalho e Narcélio Limaverde, falando de um tempo bom que não existe mais.





Aparelho receptor de rádio da marca ZILOMAG

Sobre o RÁDIO ZILOMAG, veja essa postagem no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=JQ-ymSq1NH0

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

CORDEL NOS PAMPAS


Arievaldo Viana ministra oficina Cordel 

na sala de aula na Feira do Livro


Escritor, poeta popular, radialista, ilustrador, chargista e xilogravador, o cearense Arievaldo Viana ministrará na 60ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre a oficinaCordel na sala de aula, no dia 13 de novembro, às 18h, na Sala de Vídeo.
Viana, que já escreveu mais de 100 livretos de cordel e publicou, como autor e ilustrador, cerca de 30 obras – sendo cinco lançadas em 2014 –, trará para a Feira as experiências do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, a partir do livro homônimo de 2005. Em pauta, as origens de cordel, suas modalidades, principais expoentes e regras básicas. “Tudo isso com  interatividade 
com
 o público e, no final, faço uma aula-espetáculo declamando alguns clássicos do gênero”, explica o cordelista.
Criado em 2002 em Canindé, no Ceará, o projeto propõe a utilização da poesia popular como ferramenta auxiliar na educação, através de oficinas de capacitação para professores e de cursos de iniciação à Literatura de Cordel para educadores e estudantes, assim como de estudos a partir da linguagem e informações diversas contidas nos folhetos.
O crescente interesse pela Literatura de Cordel pode ser medido pelo avanço do projeto em outras cidades cearenses, assim como em outros estados, e pela participação do autor em evento literários em todo o Brasil. Em 2014, Viana virá para a Feira do Livro pela terceira vez.
Segundo ele, um ponto alto  das participações anteriores foi o lançamento de alguns folhetos pela editora Corag, com adaptações de contos de Simões Lopes Neto para o cordel, além do Estatuto do Idoso e do Estatuto da Criança e do Adolescente nesse formato. “Gosto muito da receptividade do povo de Porto Alegre e da forma como a Feira [na Área Infantil e Juvenil] vem sendo organizada pela Sônia Zanchetta e toda a sua equipe. Espero dar continuidade ao meu projeto editorial nas editoras do Rio Grande Sul, pois sou fascinado pela cultura gaúcha e, principalmente, pelos livros do escritor Simões Lopes Neto, que tenho adaptado para o cordel”, conta.

A atividade integra a programação do ciclo A Hora do Educador. As inscrições podem ser feitas pelo e-mail visitacaoescolar@camaradolivro.com.br. É necessário informar nome completo, profissão, e-mail e telefones.

VER MATÉRIA COMPLETA AQUI: www.feiradolivro-poa.com.br/noticias/arievaldo-viana-ministra-oficina-cordel-na-sala-de-aula-na-feira-do-livro