terça-feira, 3 de outubro de 2017

PRIMÓRDIOS DO CORDEL


DESCOBERTO UM PRECURSOR DA LITERATURA DE CORDEL

Por Bráulio Tavares


“Parem as máquinas!..” – gritaria o editor de um jornal, naqueles filmes policiais dos anos 1940. Parem de imprimir o jornal de amanhã, que já está quase pronto! Surgiu uma notícia tão sensacional que vale a pena jogar no lixo esse Corcovado de papel agora inútil, e começar tudo de novo. O furo de reportagem vale a despesa.

Os pesquisadores cearenses Arievaldo Vianna (cordelista, biógrafo de Leandro Gomes de Barros) e Stélio Torquato Lima (cordelista, professor de Literatura na Universidade Federal do Ceará) anunciam agora uma descoberta que vai fazer reescrever boa parte das histórias da literatura de cordel (ou Romanceiro Popular Nordestino, como gostava de chamar Ariano Suassuna).

Todos nós que estudamos o assunto consideramos que o primeiro a escrever e publicar folhetos de feira no Nordeste foi Leandro Gomes de Barros (1865-1918), e que o teria feito a partir de meados da década de 1890.  Fala-se também no grande poeta Silvino Pirauá de Lima, mas ao que parece não há folhetos seus, impressos, que comprovem atividade editorial nesse período.

Agora, Arievaldo e Stelio trazem a figura de Santaninha, poeta popular, recitador, rabequeiro, nascido em Touros (RN), criado em Fortaleza, e que teve uma parte importante de sua carreira poética no Rio de Janeiro. A pesquisa está no recém-lançado Santaninha – Um Poeta Popular na Capital do Império (Fortaleza: Editora IMEPH, 2017).

Por ter publicado no Rio, e não no Nordeste, Santaninha foi sempre um nome obscuro. Os cronistas cariocas registravam sua atividade; os autores do livro citam numerosas menções a ele e aos seus versos na imprensa da época. Mas nenhum usa o termo “cordel”, nem parece atribuir maior importância ao “pequeno poeta”, como ele se auto-denominava.

Por outro lado, a maioria dos pesquisadores de cordel devem ter feito o que eu fiz, quando me meti a estudar o assunto: procurava menções nos jornais, catálogos e almanaques das grandes capitais nordestinas, e não do Rio. E assim Santaninha não foi alcançado pelo radar.

Santaninha (João Sant’Anna de Maria, 1827-?) parece ter sido um tipo muito carismático, que cantava acompanhando-se de uma rabeca (que chamava de “Paraibinha”, “Sombrinha” ou “Profetinha”) e vendia folhetos, tanto pessoalmente quanto em pontos de venda fixos, no centro da cidade.

Já no Rio de Janeiro, eis um anúncio típico de sua atividade (Gazeta de Notícias, 5 e 16 de junho de 1881):

[Os folhetos] acham-se à venda na estação da estrada de ferro D. P. II, no quiosque do Luiz de Camões, no largo de São Francisco de Paula, na praça da Harmonia n. 31, no ponto das barcas, num quiosque em Botafogo, no ponto dos bondes e na rua do Resende n. 107.

Os primeiros registros ao seu respeito estão em jornais de Fortaleza em 1873, quando ele é descrito como “bem conhecido e popular”. Nessa época, teria possivelmente cantado para José de Alencar, que estava em visita a sua terra pesquisando para o romance O Sertanejo.

De 1881 em diante ele já aparece na imprensa carioca, anunciando vendas de livretos e até de partituras.

O cantador e cordelista Crispiniano Neto observa em seu prefácio:

[Santaninha] não tinha com quem trocar idéias sobre a Poética desse tipo de poesia do povo, pois estava deslocado no centro efervescente que partia da Serra do Teixeira e invadia o Pajeú, os Cariris e as Borboremas, forjando uma Escola Literária, a mais produtiva e mais variada de todas.

Os autores reproduzem capa de um folheto de Santaninha, do acervo da Biblioteca Nacional, impresso pela Livraria Editora Quaresma, contendo o que são talvez os seus quatro poemas mais conhecidos, publicados originalmente entre 1879-1881:

1) “Guerra do Paraguai”
2) “Imposto do vintém”
3) “O célebre chapéu de sol”
4) “A Seca do Ceará”

Os quatro poemas vêm transcritos integralmente na segunda parte do livro de Arievaldo e Stelio. São poemas em sextilhas, com todas as características que viriam a aparecer 10 ou 12 anos depois nos folhetos de Leandro Gomes de Barros. Há erros ocasionais de ortografia, de rima ou de métrica (que encontramos também em Leandro).  Mas o perfil do Romanceiro está ali, inconfundível e inegável.

Não se tem notícia certa do ano da morte do poeta, mas os autores supõem que ele teria morrido antes de 1888-1889. Sabe-se que ele manifestou (na imprensa do Rio) a intenção de voltar a sua terra natal, e não se tem notícia de obra sua sobre dois fatos como a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, sobre os quais um “poeta repórter” como ele não teria deixado de se manifestar poeticamente.

Aqui, um anúncio típico dos que ele fazia publicar na imprensa. É do jornal Monitor Campista (Campos dos Goytacazes-RJ, 4-9-1881):

O pequeno poeta João Sant’Anna de Maria, que toca e canta excelente[sic] versos ao som de sua rabeca Sombrinha, faz tenção, no hoje 4 do corrente, [de] divertir [pela] segunda vez no Hotel da Coroa, por isso faz saber ao respeitável público desta cidade que o divertimento principiará às 4 horas da tarde, e cantará outras variedades. Espera, pois, a muito digna coadjuvação do muito hospitaleiro e ilustrado povo campista. Faz ciente mais que o divertimento será no jardim do mesmo Hotel: a entrada de cada pessoa será de 500 rs. Se não chover.

E algumas sextilhas de A Seca do Ceará, que fala da seca de 1877:

Chegam os pobres arrastados
com a fome com que vêm,
pedindo esmolas aos ricos,
muitos dizem que nada têm;
responde: “Eu estou de saída
para ir pedir também”.

Nsta seca em que nós estamos,
que traz os pobres arrastados,
não pedem só as viúvas,
nem cegos, nem aleijados;
pedem os homens sadios
robustos, moços e barbados.

Não pedem só os caboclos,
negros, pardos e mulatos;
também pede gente branca
que comia em finos pratos,
já hoje come nas cuias
bravas comidas dos matos.

A publicação é da Editora Imeph, de Fortaleza: www.imeph.com.br / imeph@imeph.com.br.

Santaninha foi aquilo que se costuma dizer agora “o ponto fora da curva”, um exemplo que se desvia notavelmente do comportamento mediano dos demais exemplos. Escrevia seus poemas, fazia imprimi-los e os vendia pessoalmente, cantando-os em público. Arievaldo Vianna e Stelio Torquato afirmam que lhe dão o nome de “Precursor e não de ‘Pai da Literatura de Cordel’, que julgamos ter sido merecidamente associado à figura do bardo de Pombal”.

De fato, Santaninha foi um agente isolado, embora, a partir de agora, nomes semelhantes ao seu possam surgir de novas pesquisas agora direcionadas para o ambiente de onde ele surgiu. O papel crucial de Leandro não foi apenas a escritura de folhetos (outros os escreveram antes dele), mas a ação constante e incansável que acabou deixando de ser apenas a iniciativa de um indivíduo, e sim um “processo de consagração da poesia popular como mercadoria rentável e altamente popular”.

Santaninha criou a própria obra, mas Leandro criou, com sua tenacidade e seu exemplo, gerações inteiras de – olha que ironia num país como o nosso – poetas que viveram da própria poesia.

Fonte: http://mundofantasmo.blogspot.com.br/2017/05/4231-descoberto-um-precursor-do-cordel.html?spref=fb

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Biografia de Santaninha – R$ 40,00
Pavão Misterioso em quadrinhos – R$ 30,00
A batalha de Oliveiros e Ferrabrás em quadrinhos – R$ 30,00
O Rei do Baião do Nordeste para o mundo – Editora Planeta - R$ 30,00
João Bocó e o ganso de ouro – Ed. Globinho – R$ 35,00
O coelho e o jabuti – Ed. Globinho – R$ 35,00
A peleja de chapeuzinho vermelho com o lobo mau – Ed. Globinho – R$ 35,00
O que é literatura de cordel – Franklin Maxado – R$ 30,00
A Lira do poeta Expedito – Gilmar de Carvalho – R$ 20,00
O baú da gaiatice – Arievaldo Viana – R$ 30,00
Encontro de Zé Ramalho com Raul Seixas na cidade de Thor – R$ 15,00
O jumento melindroso desafiando a ciência – R$ 20,00
Dez cordéis num cordel só, de Antônio Francisco – R$ 25,00
Antologia crítica – LULA na Literatura de Cordel, de Crispiniano Neto – R$ 100,00
Antologia da ABLC – 100 Cordéis históricos, 02 volumes – R$ 200,00

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Folhetos de 40 a 48 páginas = R$ 4,00

- O valente Zé Garcia - 40 páginas
- Batalha de Oliveiros com Ferrabras - 32 páginas
- A prisão de Oliveiros - 32 páginas
- Artimanhas de João Grilo (Arievaldo Viana) - 32 páginas
- O misterioso crime das tres maçãs - 24 páginas
- João Bocó e o Ganso de Ouro - 16 páginas
- Mil e uma maneiras de manter seu casamento - 16 páginas
- Luiz Gonzaga, o rei do baião - 16 páginas
- Yoyô, o bode misterioso - 20 páginas
- O batizado do gato - 8 páginas
- Discussão de seu Lunga com um corno - 8 páginas
- As peripécias da vaqueira Rosadina - 16 páginas
- Peleja de Severino Pinto com Severino Milanês - 16 páginas
- A donzela Teodora - 32 páginas
- Iracema, a virgem dos lábios de mel - 32 páginas
- A visita da morte - 16 páginas
- O jumento melindroso desafiando a ciência - 16 páginas
- A chegada de Lampião no inferno - 8 páginas
- Romualdo entre os bugios (40 páginas) - Ed. CORAG
- Quinta de São Romualdo (40 páginas) - Ed. CORAG
- A didática do cordel - 16 páginas
- A gramática em cordel - 16 páginas
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- A festa dos cachorros - José Pacheco - 16 páginas
- A cura da quebradeira - Leandro G. de Barros - 08 páginas
- A intriga do cachorro com o gato - 08 páginas
- O jumento melindroso desafiando a ciência - 16 páginas*
- O valente Zé Garcia - 40 paginas
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segunda-feira, 2 de outubro de 2017

PARA OS CURIOSOS


UM PRECURSOR DE ZÉ LIMEIRA

Bernardo Guimarães (1825-1884) foi um romancista e poeta brasileiro nascido na cidade de Ouro Preto-MG. "A Escrava Isaura" foi o seu romance mais popular. Estudou Direito em São Paulo. Foi juiz municipal na cidade de Catalão em Goiás. Foi jornalista, professor de latim, francês, retórica e poética. Estreou como poeta com "Cantos da Solidão", mas foi como romancista que seu nome ganhou destaque. Foi considerado o criador do romance sertanejo e regional, ambientado em Minas Gerais e Goiás. De todos os seus romances "O Seminarista" é considerado sua melhor obra. É patrono da cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Letras.
No meio de sua obra avulsa encontram-se vários poemas irreverentes, como este intulado Disparates Rimados, escrito uns cem anos antes de Orlando Tejo nos revelar a verve poética de Zé Limeira, o Poeta do Absurdo:

DISPARATES RIMADOS

Quando as fadas do ostracismo,
Embrulhadas num lençol,
Cantavam em si bemol
As trovas do paroxismo,
Veio dos fundos do abismo
Um fantasma de alabastro
E arvorou no grande mastro
Quatro panos de toicinho,
Que encontrara no caminho
Da casa do João de Castro.

Nas janelas do destino,
Quatro meninos de rabo
Num só dia deram cabo
Das costelas de um supino.
Por tamanho desatino,
Mandou o Rei dos Amores
Que se tocassem tambores
No alto das chaminés
E ninguém pusesse os pés
Lá dentro dos bastidores.

Mas este caso nefando
Teve sua nobre origem
Em uma fatal vertigem
Do famoso conde Orlando.
Por isso, de vez em quando,
Ao sopro do vento sul,
Vem surgindo de um paul
O gentil Dalai-lama,
Atraído pela fama
De uma filha de Irmensul.

Corre também a notícia
Que o Rei Mouro, desta feita,
Vai fazer grande colheita
De matéria vitalícia.
Seja-lhe a sorte propícia,
É o que mais lhe desejo.
Portanto, sem grande pejo,
Pelo tope das montanhas,
Andam de noite as aranhas
Comendo cascas de queijo.

O queijo — dizem os sábios —
É um grande epifonema,
Que veio servir de tema
De famosos alfarrábios.
Dá três pontos nos teus lábios,
Se vires, lá no horizonte,
Carrancudo mastodonte,
Na ponta de uma navalha,
Vender cigarros de palha,
Molhados na água da fonte!...

Há opiniões diversas
Sobre dores de barriga:
Dizem uns que são lombrigas;
Outros, que vêm de conversas.
Porém as línguas perversas
Nelas vêem grande sintoma
De um bisneto de Mafoma,
Que, sem meias, nem chinelas,
Sem saltar pelas janelas,

Num só dia foi a Roma.

domingo, 1 de outubro de 2017

NO TEMPO DA LAMPARINA


Antônio Viana Martins, o popular Antõe França

A NOITE INTEIRA COM UM
SANTO NA CABEÇA

Mais interessante que a CABEÇA DO SANTO, romance premiado da escritora Socorro Acioly, baseado no Santo Antônio esculpido em Caridade pelo meu dileto amigo Franzé D’Aurora, é a história do homem que passou a noite todinha com UM SANTO NA CABEÇA. Confiram:
Meu bisavô Chico de Sousa, o Fitico do Castro, era profundamente religioso, devoto fervoroso da Virgem Maria e de São Francisco de Assis, santo de quem herdara o nome. Em suma, um homem ‘temente a Deus’ como se dizia antigamente. Durante os festejos do padroeiro de Canindé, transportava-se com alguns dos seus para a Meca Franciscana e instalava-se no bairro de São Mateus, onde residia o seu genro Fenelon Veloso e os netos Zequinha e Zélia. Pelos idos da década de 1950, dois sobrinhos o acompanharam nessa romaria, porém por motivos bem diversos daqueles que moviam o tio papa-hóstias. Eram tio José Bruno Viana e seu companheiro inseparável de farras, Antônio Viana Martins, o popular Antônio França. 
Maurinho me corrige dizendo que o sobrenome do pai dele é Antônio de Sousa Martins. Logo ele, o mais VIANA dos VIANAS...
Mal chegados no local da hospedagem, trataram de se desvencilhar da bagagem e já ganharam as ruas ávidos por cachaça e mulher, verdadeiro objetivo da dupla.
Como era de se esperar passaram a noite num puteiro tomando todas a que tinham direito e nem pisaram na igreja. De manhã cedo os dois resolvem se recolher à casa do Fenelon e são surpreendidos na chegada pelo velho Fitico, que foi logo perguntando, em tom de censura:
- Ô Zome, vocês vem de onde? Passaram a noite na farra... Foram, pelo menos, na igreja?
O Antônio França, com aquele seu jeito desabusado e irônico se encarregou de responder:
- Ora, Tio Fitico, passamos a noite todinha com um santo na cabeça!!!
- Votes, menino. Estavam pagando promessa? Que Santo era esse?
- São João da Barra! – Respondeu o sobrinho.
De fato, a dupla de peralvilhos havia passado a noite toda bebendo o famoso Conhaque de Alcatrão São da Barra e dançando com as raparigas do Vai-quem-quer.


Antônio França com a prefeita Sônia Costa, a esposa Cleide Viana
 e o amigo Gabriel Lopes da Silva


Tio José BrunoViana, comparsa do Antônio França 
na história do CONHAQUE.


O PEDRO TATU

Pedro Tatu era agricultor, cantador de viola e glosador inspirado. Mulato, miúdo, testa grande e carapinha repuxada para trás, parecia mesmo um tatuzinho. Morava no Mofumbo, comunidade que extrema com o Ouro Preto, sertões onde nasci e me criei. No período do inverno trabalhava no roçado e no tempo da safra vestia um paletó surrado, cor de burro quando foge, botava uns óculos escuros de vidro esfumaçado e saia pelo mundo fazendo cantorias em parceria com João Castelo, Antônio Ribeiro Maciel, Franciné Calixto (o famoso Calixtão de Teresina), que por essa época residia nos Três Irmãos, e outros parceiros que porventura aparecessem.
Poeta de quatro costados, tanto fazia versos ao som da viola como fazia glosas de improviso, com um copo de cachaça na mão. Essas glosas, criadas ao pé do balcão, serviam de entretenimento para a matutada, naqueles bons tempos em que o sertão não conhecia o aparelho de TV e sua inseparável companheira, a antena parabólica. Afora isso, tinha as corridas de cavalo, os jogos de futebol, cantorias, reisados, leilões e novenas. Forró não faltava e no período junino ficava ainda mais animado com as quadrilhas. Havia até uma espécie de teatro matuto, que as pessoas chamavam de ‘drama’. Vamos ver o drama do Zeca Idelfonso?

No dia primeiro de abril de 1977 o então presidente Ernesto Geisel havia fechado o Congresso Nacional, mas todos pensavam que era mentira, devido a data do decreto. Minha avó e meu tio Zé Viana — ouvintes assíduos da Voz do Brasil — comentavam este assunto numa tarde modorrenta de domingo, dia 24 de abril. Naquele ano foi também aprovada a lei do divórcio, do Senador Nelson Carneiro, a Rachel de Queiróz ingressou na Academia Brasileira de Letras — a primeira mulher a conquistar esse privilégio —, e o Elvis Presley, cujo par de costeletas estampava a capa de um dos meus cadernos escolares, bateu as botas em agosto, embora ainda haja quem diga que o Elvis não morreu. Lembro-me bem desse ano, o ultimo que passei integralmente no Ouro Preto, terreno de meus avós, onde fui nascido e criado. No ano seguinte eu seria ‘deportado’ para Maracanaú a fim de estudar e minha vida de travessuras, feliz e descompromissada, nunca mais seria a mesma. Expulso do Éden, eu só podia retornar nas férias escolares para breves temporadas, que passavam numa velocidade alucinante. A espada flamejante da responsabilidade começava a rebrilhar no portão do paraíso perdido de minha infância!
Lembro-me também desta data, 24 de agosto, por outro motivo: nosso vizinho Edmar Tubiba, um caboclo pai de numerosa prole, que morava nas imediações, havia ajustado uma grande empreita na Cacimba Nova e andava recrutando trabalhadores para a limpa de mato.
Edmar Tubiba vivia sempre agitado, falando sozinho e andando apressado pelas estradas, com a mão direita girando em torno do ouvido, como quem mexe um copo de dados para jogar no tabuleiro. Aliás, o jogo era o seu vício predileto. Involutariamente, botou um apelido cruel num dos filhos, o Edmilson, que se popularizou devido o testemunho de meu tio Everardo. O menino brincava ao pino do meio dia num barreiro de porcos, no terreiro da bodega. Quando o pai viu naquelas condições, totalmente enlameado, não se conteve:

—  Passa pra dentro, bicho pateta. Vai te lavar! Esse bicho é pateta mesmo!

A partir daquele dia, nunca mais o coitado do Edmilson foi chamado pelo seu verdadeiro nome. As pessoas até esqueceram o nome de batismo e ele tornou-se Pateta pelo resto da vida.
Mas voltemos ao plantel de trabalhadores que o Edmar andou recrutando naquele domingo de abril. Uma das vítimas foi o Pedro Tatu, que estava quieto no seu rancho, lá no Mofumbo, quando recebeu a visita do Edmar.  Dias depois, arrependido de haver aceito a demanda, Pedro Tatu se queixava glosando, no balcão do tio Everardo. Reclamava, sobretudo, do passadio, que não era dos melhores. O mote era o seguinte: “Quem quiser morrer de fome / Vá trabalhar ao Edmar”. Foram várias estrofes, mas apenas esta ficou retida em nossa memória:

A 24 de abril
Domingo, de tardezinha,
Tava na minha casinha
E o Satanás me iludiu...
A minha alma caiu
Numa tentação sem par
Saí para trabalhar
Quase que esqueço meu nome
Quem quiser morrer de fome
Vá trabalhar ao Edmar.

De outra feita, trabalhando para o meu parente Antônio Viana Martins, mais conhecido pelo apelido de Antõe França, devido sua mãe chamar-se Francelina, queixou-se que havia trabalhado até o anoitecer, sem que o dono do roçado viesse “lhe soltar”. Era costume, no sertão de antigamente, o dono do roçado avisar ao trabalhador o momento de largar o serviço. Geralmente isso ocorria entre 4 e 5 da tarde, quando era servido um café com bolacha e em seguida fazia-se a paga do jornaleiro. Nesse dia parece que o Antônio esqueceu dos seus trabalhadores e só foi soltá-los já perto da Ave-Maria. Pedro Tatu vingou-se nesta glosa:

Quem deve, perde a moral...
Por causa de estar devendo
É que ‘nós vive’ sofrendo
Trabalhando a este imoral!
Comendo d’água no sal
Que ele só tem lambança...
Um branco sem confiança
Que não tem quem o acoite
Quem quiser largar de noite
Vá trabalhar ao Antõe França.

*  *  *




sexta-feira, 22 de setembro de 2017

LANÇAMENTO EM JOÃO PESSOA


LIVRARIA DO LUIZ PROMOVE MANHÃ DE AUTÓGRAFOS DO LIVRO “MIOLO DA RAPADURA”, DE KLÉVISSON VIANA

Klévisson Viana é um danado. Após dezenas de livros e folhetos premiados, nos apresenta mais um balaio saboroso de suas múltiplas criações, com este livro MIOLO DA RAPADURA. Tem desenhos e gravuras assinalados com sua marca. Tem poemas pungentes, saudosos, mas também avulta a alegria descarada deste moço. Há uma mostra de seus folhetos e algumas parcerias com Bráulio Tavares, Evaristo Geraldo da Silva, Rouxinol do Rinaré e Arievaldo Vianna. 

                Adubando o material, o vigor deste artista que soube fruir a seiva generosa do povo nordestino ao mesmo tempo em que expandia a rama contemporânea desta cultura através dos caminhos do hiperespaço. Porque o Klévisson Viana é o matuto mais moderno do mundo!

                Nas 168 páginas de o MIOLO DA RAPADURA, o leitor deparar-se-á com hilárias e também tristes narrativas, verídicas, fantásticas e/ou adaptadas, textos críticos, recheados de conteúdo, de sabedoria erudita e popular, em diferentes formatos - Oitavas, Sétimas, Sextilhas, Décimas, Emboladas, Poesia Matuta entre outros. Tudo com o padrão Klévisson de produção - o máximo cuidado na forma e no conteúdo, a qualidade do artesão premiado na palavra. É o Klévisson agora quarentão que sabe dizer porque vivencia as coisas do sertão como um refinado observador do que há acolá.

                MIOLO DA RAPADURA não é apenas um livro, ou uma coletânea de textos. É obra que busca encontrar a essência, o tal miolo da nossa arte-rapadura, sabidamente doce, como diz o poeta de Quixeramobim. O mel mais saboroso não está no aspecto que o autor aqui descreve, mas no cerne das tradições nordestinas revividas e revigoradas pelas letras escritas, na recontagem e remontagem d’algumas histórias clássicas da cultura mundial, em traço tipicamente nosso.

Além deste livro, que o leitor lerá entre sorrisos e mesmo rasgadas gaitadas, queria lembrar aqui as novelas gráficas de KV, em particular, ''Lampião... Era o cavalo do tempo atrás da besta da vida'', aonde traço fino, paisagem recriada ao estilo da talha cortada dos gravadores da madeira e de uma reconstituição perfeita da época de Lampião, abriram passagem para Klévisson Viana voar além das fronteiras regionais. Seu trabalho na Tupynanquim - reimprimindo romances em folheto há muito fora de catálogo - aliás, quem imprime ainda estes livrinhos, que imortalizaram nomes como os do mestre Leandro Gomes de Barros, José Pacheco, Athayde e muitos outros? Só este caboclo sonhador, mas sonhador de pés bem fincados em sua terra, e com este olhar carinhoso a sua gente.

PS: Pra sentir o verdadeiro sabor da rapadura, tem que provar até o miolo. Pra entender de verdade o que Klévisson diz, só lendo o livro todinho, de ponta a ponta, como quem diante do “pequeno tijolo doce” está a lambê-lo, persignado e feliz.

Serviço:

MANHÃ DE AUTÓGRAFOS DO LIVRO
“MIOLO DA RAPADURA” DE KLÉVISSON VIANA

Local: LIVRARIA DO LUIZ
Endereço: Galeria Augusto dos Anjos – Praça João Pessoa, 88 – Centro, João Pessoa – PB
Data: Dia 30 de setembro (sábado)
Horários: 10h da manhã
Classificação indicativa: Livre
Valor do livro: R$ 40,00
Informações: (85) 3217-2891 | (83) 3576-5573

Atendimento à imprensa:
(85) 9 9675-1099 | (85) 3217-2891 | tupynanquimcordelbrasil@gmail.com


 

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KLÉVISSON VIANA

Antônio Clévisson Viana Lima (Klévisson Viana) é cordelista, cartunista, xilogravador, editor e presidente da AESTROFE – Associação de Escritores, Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará. É também membro da ABLC-Academia Brasileira de Literatura de Cordel (RJ). Coordena o projeto editorial da Tupynanquim Editora, onde já publicou cerca de mil obras de quase uma centena de autores. Como autor, Klévisson Viana publicou mais de 30 livros e quase 200 folhetos de Literatura de Cordel. Seus trabalhos já “passearam” pelos quadrinhos, televisão e adaptações para o teatro. Destaca-se o folheto "A quenga e o delegado", transformado em episódio da série Brava Gente da Rede Globo. Tem trabalhos publicados em diversas editoras nacionais e internacionais como Chandeigne – Paris (FR), Editora Leya – Lisboa (PT), Editora Hedra –São Paulo (BR), Nova Alexandria –São Paulo (BR), Editora Demócrito Rocha – Ceará (BR), Editora Amarilys – São Paulo (BR), Edelbra – Porto Alegre (RS), Nova Alexandria – São Paulo (BR) dentre outras. Tem outras obras publicadas em antologias na Turquia, Bélgica, Itália e Holanda. Seu currículo consta de diversos prêmios importantes. Foi vencedor seis vezes consecutivas do PNBE – Programa Nacional da Biblioteca Escolar (MEC), três vezes do Troféu HQ Mix, uma vez do PNAIC – Programa Nacional de Alfabetização na Idade Certa (MEC) e "Prêmio Jabuti de Literatura" concedido anualmente pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) dentre outros. Klévisson Viana coordena eventos culturais, ministra palestras, oficinas e recitais em todo o Brasil e já levou sua arte a países como França, Portugal, México, Cabo Verde e Costa Rica e é o idealizador da Feira do Cordel Brasileiro, já na segunda edição.


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

LOS TABAJARAS EM CORDEL


“LOS INDIOS TABAJARAS”
Dois tapuias cearenses que conquistaram o mundo


O Ceará sempre teve bons instrumentistas. De Nonato Luis a Vilamar Damasceno, de Manassés a Macaúba, de Cirino a Luzirene do Cavaquinho, sempre tivemos artistas que se projetaram dedilhando instrumentos de corda, mas nenhuma história se compara a dos índios Mussaperê e Herundy, dois remanescentes da nação Tabajara, nascidos em Tianguá, que apesar de serem ilustres desconhecidos em seu Estado natal, projetaram-se no mundo inteiro como virtuoses do violão, chegando a se apresentar nos maiores teatros da América do Norte e da Europa, além de terem gravado dezenas de discos pela RCA norte-americana. No site da gravadora “Revivendo”, responsável pelo relançamento de alguns de seus discos (através do selo Again) encontramos esse texto que serviu como base para produção de uma biografia em CORDEL, narrando a fantástica saga de “Los Índios Tabajaras”. Essa biografia em versos deverá ser lançada ainda este ano.

“A trajetória dos Índios Tabajaras dificilmente encontrará paralelo com qualquer outra, vindo de onde vieram e alcançando, no chamado mundo civilizado, o que alcançaram. Tudo pareceria a criação de um delirante ficcionista, não fosse a mais concreta realidade.

Primeiro, por suas origens. São índios brasileiros autênticos, da raça tupi-tabajara, nascidos na remota e agreste serra de Ibiapaba, dentro do então isolado município cearense de Tianguá, na divisa com o Piauí.

Na língua tupi, receberam os nomes de Mussaperê e Herundy, que significam O Terceiro e O Quarto, pois estavam nessa ordem de nascimento dos filhos do cacique Ubajara, ou Senhor das Águas, ao todo trinta e quatro irmãos.




A FANTÁSTICA TRAJETÓRIA DE
‘LOS INDIOS TABAJARAS’
Os cearenses que conquistaram o mundo
Autor: Arievaldo Viana

Brisa que sopra na serra
Onde cantam as águas claras
Que descem num véu de noiva
Banhando as lindas Iaras
Dai-me rimas pra contar
A vida dos TABAJARAS.

Nos contrafortes da serra
E no topo da Ibiapaba
A brava Nação Indígena
Ali ergueu sua taba
O índio via a fartura
Dentro de sua igaçaba.

Viçosa, Guaraciaba,
São Benedito, Ubajara,
A linda bica do Ipu
Com sua beleza rara,
Frecheirinha e Tianguá
São da Nação Tabajara.

Veio o colonizador
Com seu instinto cruel
Se espalhou rapidamente
Como abelha no vergel
E fez jorrar muito sangue
Aonde jorrava mel.

Dessa tribo de guerreiros
Descende a Índia Iracema
A musa de Alencar
Heroína do poema
Anagrama de América
Do cearense um emblema.

Porém a história que
Pretendo agora narrar
É tão inacreditável
Que alguém pode duvidar
Dois curumins que partiram
Para o mundo conquistar.

São “Los Índios Tabajaras”
Ilustres desconhecidos
Na sua pátria natal
Não foram muito queridos;
Porém conquistaram o mundo
E foram reconhecidos.

Seus nomes: Muissaperê
E Herundy, seu irmão,
Filhos de um bravo cacique
O último desta Nação
Dos Tabajaras famosos
Tianguá foi seu torrão.

No início do século XX
Nasceram estes meninos
Tiveram muitos irmãos
Sofreram mil desatinos
Porém Tupã já traçara
Pra eles belos destinos.

Preciso agora explicar
Os nomes deles aqui
No meio de sua gente
Mussaperê e Herundy
Quer dizer: Terceiro e Quarto
No dialeto Tupi.

Os nomes eram por causa
Da ordem de nascimento
Foram 34 irmãos
Eu li num apontamento
Muita gente batalhando
Para obter seu sustento.

Certo dia uma milícia
Na sua tribo chegou
E o tenente Hildebrando
Moreira Lima os levou
De lá para o Cariri
Numa reserva os botou.

Pelo tenente Hildebrando
Foram todos bem tratados
E os filhos do Cacique
Foram todos registrados
Inclusive, alguns deles,
Foram alfabetizados.

Com o nome de Natalício
Herundy foi registrado
E também Mussaperê
Teve o seu nome alterado
Antenor Moreira Lima
Passou logo a ser chamado.

Porém o sangue tupi
Corria nas suas veias
E não quiseram ficar
Retidos nessas aldeias
As terras que foram suas
Agora eram alheias.

Seu desejo era chegar
Lá no Rio de Janeiro
E então percorreram a pé
Quase o Nordeste inteiro
Buscando a sobrevivência
Vagando sem paradeiro.

Partiram em trinta e três
Os pais e quatorze filhos
Cruzaram muitas estradas
Vencendo mil empecilhos
Mas sempre visando o Rio
Sem jamais sair dos trilhos.

Numa feira nordestina
Compraram um violão
E aprenderam sozinhos
A tocar uma canção
Mas tiveram que trocá-lo
Por u’a cuia de feijão!

Finalmente eles chegaram
Na capital Salvador
No Estado da Bahia
E ali o Governador
Lhes deu passagens e foram
Ver o Cristo Redentor.

Chegaram em trinta e sete
Lá no Rio de Janeiro
Após percorrerem todo
O nordeste brasileiro
A pé, com longas paradas
Mas sem perder o roteiro.

Almirante Jaceguai
Era o nome do navio
Nele seguiu a família
Exposta ao vento e ao frio
Até que certa manhã
Eles chegaram no Rio.

No Albergue Leão XIII
Conseguiram se abrigar
Porque a sua odisséia
Foi mesmo de admirar
Saiu longa reportagem
Em um jornal popular.

Deslumbrados com a cidade
Falando um mal português
Vestindo roupas de branco
E assustados, talvez,
Se apresentavam nas praças
Esperando a sua vez.

Eles tocavam de ouvido
A viola e o violão
E encantavam platéias
A cada apresentação
Mas negavam sua origem
Com medo de repressão.

Porém o aspecto físico
Da dupla denunciava
Sem falar no seu sotaque
Que também atrapalhava
É que alguém, por maldade,
Aos índios amedrontava.

Dissera alguém que no Rio
Tivessem muito cuidado
Se o Governo descobrisse
Sua origem ou seu estado
Seriam mortos ou presos
Eis o engodo formado.

Mas com o tempo a dupla
Começou desconfiar
Que aquilo era mentira
E começou a pensar
Numa emissora de rádio
Para se apresentar.

(...)




Chefe Tabajara




TRECHOS DA BIOGRAFIA PUBLICADA

NO SITE DA GRAVADORA REVIVENDO:



"Passam a atuar também nos cassinos da Urca e da Pampulha, em Belo Horizonte. Em 1944, vão a São Paulo para, em seguida, empreenderem uma longa temporada por toda a América Latina, que se estenderá até 1949. Começam pela Argentina, onde o sucesso foi grande e depois rumam para o Chile, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Cuba e México. Às vezes só ganhavam o suficiente para a alimentação e o prosseguimento da viajem.




Mussaperê já vinha se interessando pelos autores clássicos: Beethoven, Bach, Litzt, Mozart e outros grandes mestres. Quando chegam ao México ainda só sabiam tocar de ouvido, sem nenhum conhecimento teórico musical. Num espetáculo, são apresentados pelo ator mexicano Ricardo Montalbán como "analfabetos musicais", um modo peculiar encontrado para dizer que, apesar disso, tocavam bem, mas que os acabou instigando a aprender música.

Mussaperê volta para Caracas e toma lições com Francisco Christancho, maestro da sinfônica da capital venezuelana, e prossegue seus estudos no Brasil. Herundy, por sua vez, volta a Buenos Aires, onde compra uma casa, e também passa a se dedicar ao estudo da música e do canto.

EUROPA
Dois anos depois, reúnem-se novamente e partem para uma excursão à Europa. A música clássica passa então a predominar em seu repertório. Tornam-se respeitados em vários países como intérpretes de Tchaikovsky, Sibelius, Targa, Falla, Villa-Lobos, Chopin e outros. As adaptações instrumentais são feitas por Mussaperê, que as passa para o irmão. Incluem também em seus espetáculos músicas folclóricas européias, cantando-as nos diversos idiomas, sempre com os maiores aplausos do público e a melhor crítica, a ponto de terem a agenda tão cheia de compromissos que têm de recusar muitos convites.

Foi uma demorada excursão que terminaria em Madri, onde o êxito não foi menor. No retorno ao Brasil, no entanto, sentiram que não passavam de uns ilustres desconhecidos e que a música que faziam não correspondia ao interesse das gravadoras e das emissoras. É quando fazem três discos na gravadora Continental, lançados em 1953/54: Tambor Índio/Acara Cary (16.869), Pássaro Campana/Fiesta Linda (16.913) e Te Besaré/Te Quiero Mucho Más (16.972).

AMÉRICA
Cientes de que santo de casa não faz milagre, como diz o ditado, partem, em 1954, para uma nova excursão pelo exterior, a fim de se exibirem inicialmente no Rádio City de Nova Iorque, precedida de uma pequena temporada em Cuba. Gravam, em 1957, na RCA Victor americana, um Lp. chamado Sweet and Savage (Doce e Selvagem), no qual incluem o bolero Maria Helena, de Lorenzo Barcelata, melodias brasileiras e outros standars latinos, que todavia passa despercebido.

Voltam ao Brasil, encetando nova tentativa de penetrar no mundo artístico de sua terra. Não obtendo a mesma aceitação do exterior, resolvem encerrar as atividades artísticas. Como as economias feitas, efetuam a compra de uma propriedade rural na localidade de Araruama, distante cerca de cem quilômetros do Rio de Janeiro, com mais da metade da área coberta por mata virgem. Com a maioria dos trinta e quatro irmãos, fazem da agricultura seu novo meio de existência, procurando reproduzir a vida tribal de sua infância no contato com a natureza.

O RETORNO
Estavam nessa vida anônima e calma, quando a mão do destino começou a agir. No verão de 1963, um produtor da Rádio WNEW, de Nova Iorque, para fazer o fundo musical de um programa humorístico, procura na discoteca da emissora uma música instrumental qualquer. Experimenta daqui e dali e, por acaso, puxa da prateleira justamente o Lp. Sweet and Savage, encontrando logo na primeira faixa em Maria Helena, o que estava querendo.

Assim, diariamente, o fox Maria Helena foi sendo tocado nesse programa de grande audiência. Não tardaria muito para que muitos ouvintes fossem se encantando e passassem a indagar quem eram aqueles grandes instrumentistas e como poderiam adquirir o disco.

Esses pedidos eram encaminhados à R.C.A. Victor, que, dado o volume das cartas, mandou editar um compacto simples, que, para sua surpresa, começou a ser vendido em todos os Estados Unidos em números impressionantes, a ponto de alcançar o 4º lugar no hit parade! Daí para o relançamento do Sweet and Savage, aquele de 1957, foi um passo. Resultado: 2º lugar entre os estéreos e 4º lugar entre os monos no ano de 1963!

Os executivos da R.C.A. Victor, diante de fatos tão inacreditáveis, comunicaram-se com sua filial do Rio de Janeiro, com a ordem expressa de que aqueles índios fossem localizados e embarcados imediatamente para Nova Iorque, pois queriam produzir com eles novos discos.

Encontrá-los, porém não foi nada fácil. Ninguém sabia onde tinham se escondido. Por fim, são encontrados no seu retirado sítio de Araruama, às margens da lagoa do mesmo nome.

- Pensávamos que fosse brincadeira. Só acreditamos mesmo quando recebemos a passagem de ida-e-volta e ajuda de custo para seguir com destino a Nova Iorque com tudo pago...Ficamos hospedados nos melhores hotéis e só não gostamos mesmo foi do tal caviar servido todos os dias - contava Mussaperê.

Em apenas trinta e seis dias, gravam em Nova Iorque dois Lps. e dois compactos, com destaque especial para Moonlight and Shadows, Solamente Una Vez e Always In My Heart, tendo esta última vendido rapidamente 200 mil cópias e ido para o 3º lugar nas paradas.

Os convites para se apresentarem por todos os Estados Unidos não cessam de chegar, assim como para a Europa e o Japão, onde também se tornam ídolos. Em muitos concertos são acompanhados por orquestras filarmônicas. No início dos anos 70, já estão com 48 Lps. gravados e oito milhões de cópias vendidas.

Tudo parece mesmo criação de algum delirante ficcionista, mas é a vida real e fantástica de dois pobres índios, que de uma aldeia perdida numa serra brasileira, um dia iniciaram sua jornada, rumo ao sucesso internacional, caminhando a pé."

O texto acima não representa a biografia completa do artista, mas sim, partes importantes de sua vida e carreira.


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