segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

PATRIARCAS DO CORDEL

Raimundo Clementino, Chico dos Romances e Arievaldo Vianna

Franciso Pérez de Sousa:

CHICO DOS ROMANCES
E A "ENCANTARIA" DO CORDEL

Por Arievaldo Vianna

No princípio da década de 1980, ainda criança, eu trabalhava como camelô nas ruas de Canindé, no período da romaria a São Francisco das Chagas. De agosto a dezembro eu perambulava pelo Bar Canindé, Abrigo dos Romeiros, na rua Euclides Barroso (antiga Rua da Palha), Alto do Custódio, porém preferia mesmo a rua João Pinto Damasceno, que fica às margens do rio Canindé e dá acesso à Basílica do padroeiro no sentido norte-sul.


Sempre fui admirador incondicional da Literatura de Cordel e numa dessas incursões pela João Pinto deparei com o poeta e folheteiro piauiense Francisco Pérez de Sousa, o Chico dos Romances, no saguão do Hotel Santo Antônio, arrumando a sua mala de romances para começar a sua atividade numa das praças da cidade. Acheguei-me do poeta e pedi para ver os títulos que ele trazia. Praticamente não havia nenhum clássico daqueles editados em Juazeiro do Norte ou Campina Grande. Eram folhetos de sua própria lavra e alguns de Lucas Evangelista, que ele conseguia mediante permuta. Gostei de dois títulos e os adquiri: “História de Sete Cidades ou a Deusa da Encantaria” e “O homem que era ateu e uma graça alcançada por São Francisco”. Comecei a ler imediatamente. Mas os versos, lidos em voz baixa, não tinham o mesmo encanto, o mesmo sabor de quando declamados pela voz de seu autor, que é um verdadeiro show-man. Chico dos Romances é um declamador de grandes recursos, que prende a atenção do público com gracejos, inflexões na voz e a magia dos seus olhos azuis e hipnóticos.

Passaram-se os anos. Muito tempo depois ouvi falar novamente de Chico dos Romances num livro do pesquisador Gilmar de Carvalho: “Poetas populares do Piauí’. Soube um pouco de sua biografia e fiquei contente ao constatar que ainda estava lúcido e em plena atividade. "Um personagem saído dos livros de Guimarães Rosa!" É assim que o descreve Gilmar de Carvalho em sua obra.

Ao ser convocado pela professora Rosilene Melo para uma pesquisa  patrocinada pelo IPHAN, cujo objetivo era fazer um levantamento dos poetas em atividade para reconhecimento do CORDEL, da CANTORIA e do ABOIO como patrimônio imaterial do povo brasileiro, fiz questão de ir até o Piauí e, na companhia do poeta Raimundo Clementino, fomos até Piripiri onde vive o poeta Francisco Pérez de Sousa, atuando nas feiras, declamando e compondo novos folhetos. 

Primeiro entrevistei os poetas radicados em Teresina - Joames, Pedro Costa, Edivaldo Guerreiro, Josefina Gomes, Marina Campelo, Ilza Bezerra, mestre José Barbosa, dr. Pedro Ribeiro, dentre outros. Depois fui ao programa de rádio do professor Wilson Seraine que me deu a preciosa dica: "- Rapaz, você precisa ir a Piripiri entrevistar o Chico dos Romances... Um velhinho engraçado dos zóio bem azuzim, que declama bem e conversa pelos cotovelos".

Foi uma das entrevistas mais rendosas e interessantes. É um dos depoimentos que pretendo peneirar,  aprofundar e transformar em livro num futuro próximo. Pérez me disse que começou a produzir seus folhetos ainda na adolescência e teve como primeiro editor o saudoso poeta Joaquim Batista de Sena (Tipografia Graças Fátima, situada na Rua Liberato Barroso, em Fortaleza) de quem foi discípulo e companheiro de muitas jornadas pelo Brasil afora. São mais de 60 anos dedicados exclusivamente à poesia, pois Chico além de poeta é editor e folheteiro. Bom, mas isso aqui é só um esboço, um texto de introdução às peripécias desse discípulo de Cancão de Fogo. Por enquanto, apresento a vocês tão somente um resumo biográfico de CHICO DOS ROMANCES, extraído de um site de Piracuruca, terra natal do poeta:

Francisco Peres de Souza (Piracuruca, 1 de abril de 1939) - Nascido no local Retiro, município de Piracuruca-PI, em 01 de abril de 1939, filho de Gerviz Rosa de Sousa e Paulo Pereira Neres, Chico do Romance aparenta uma jovialidade na sua narração diária de seus cordéis e na presteza com que atende seus clientes. Se for entrevista se prepare para passar a manhã toda... É que ele se sente orgulhoso aos extremos de sua obra literária.
Perdendo a mãe quando tinha apenas um ano de idade, o futuro cordelista foi morar em com a avó materna, a qual também faleceu cedo, quando Chico tinha apenas seis anos. Mais um golpe na vida do pequeno Francisco Perez. Mas sua predestinação lhe reservava um futuro gratificante.
 Sua biografia, que consta em seus “romances” diz:

Pequeno, ajudava seu pai na lavoura, mas logo veio morar em Piripiri, onde começou a cantar folhetos para os amigos, daí surgiu sua paixão pela literatura de cordel, onde descobriu que em si brotava a poesia, morando com sua tia Cecília em Piripiri e cantando nas casas de fazenda. Viajando para Fortaleza, depois com os melhores poetas da época, viajou pelo Piauí, Ceará, Maranhão, Goiás e Pará. Nas estradas de chão tudo isso dos 10 aos 30 anos.
Depois passou uns tempos em Fortaleza-Ceará, onde afirma ter penado muito, sem dinheiro e sem ter onde morar, fazendo bicos para sobreviver.
Redigindo seus textos fantásticos e sempre cativantes, Chico do Romance estreou como cordelista com 15 anos de idade, e hoje já contabiliza mais de 200 obras editadas. A princípio os cordéis eram impressos pelo tradicional método da xilogravura, ou seja, a matriz de impressão eram chapas de madeira esculpidas. É que as impressões tipográficas eram muito caras nos tempos idos.

A partir do início dos anos 1970, com a disseminação do sistema offset, que barateou os custos elevados do sistema tipográfico, Chico do Romance passou a imprimir seus trabalhos na gráfica de Gilberto Mendes (em Campo Maior) e posteriormente, na gráfica do ex-prefeito de Piripiri, Arimatéia Melo. Hoje seus trabalhos são impressos em impressoras de computador.
O cordelista casou-se aos 21 Anos de idade com Luzia Pessoa de Sousa, e criou família com nove filhos em Piripiri, onde reside, sempre tendo como trabalho principal a edição e venda de obras de cordel. Mora hoje no bairro piripiriense do recreio.
Com 75 anos completados em primeiro de abril de 2014 e em pleno vigor para escrever e ministrar palestras, Chico do Romance é sempre requisitado para fazer palestras e declamar suas poesias populares em colégios, academias, centros culturais, além de se fazer sempre solícito para entrevistas de jornais, Tvs, sites, etc.

UM EXEMPLO NOTÁVEL DA CULTURA POPULAR DE LITERATURA DE CORDEL DO PIAUÍ

Sua biografia acrescenta ainda, dentre tantas homenagens:

Participou de 17 a 21/08/2009 da I Mostra da cultura Popular, realizada na Casa da cultura em Teresina, recebendo a Comenda Fontes Ibiapina. Nos dias 26 e 27 de novembro de 2009, o poeta participou da II Conferência Estadual de Cultura do Piauí, em Teresina, no Clube Atlantic City. Por último, teve ao dia  24 de abril do ano de 2010 outorgado o título de Sócio Honorário da Casa do Padre Freitas, pela ACALPI (Academia de Ciências, Artes e Letras de Piripiri).
Destacam-se, nas suas centenas de obras: História das Sete Cidades e a Deusa da Encantada; Padre Domingos de Freitas e Silva-Fundador de Piripiri; Homenagem ao Piripiri do Século; Pequenos Dados Biográficos de Virgulino Ferreira da Silva - O Lampião; História do Catirina (Lenda de Sete Cidades); As Bravuras de José Pela princesa Franluzia etc.
Piripiri se orgulha de ter entre seus filhos adotivos um dos maiores nomes da literatura cordelista do Brasil.

Fonte: fonte;http://www.piracuruca.com/



sábado, 31 de dezembro de 2016

NA PASSAGEM DO ANO


VOCÊS! Que fazem parte dessa massa...

Haverá paz na terra "E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará". (Isaías 11:6 ). 

Desde o princípio das coisas, uma parte da humanidade sempre teve o desejo de conquistar, colonizar, civilizar, catequizar, enquadrar, explorar e escravizar o semelhante. Os que desejam viver em paz, trabalhando pelo seu sustento, sem agredir a fauna e a flora e sem explorar o semelhante são incompreendidos. Tidos como selvagens, ascetas, bichos do mato, sujeitos esquisitos e anti-sociais!
O que será dessa classe oprimida que navega tal e qual um rebanho de bodes e ovelhas neste Vale de Lágrimas? Às vezes perco algumas horas de sono refletindo sobre isso. Do jeito que a coisa vai, às vezes me bate o vago desejo de seguir os passos do Belchior... Evaporar como o éter e mandar todo esse sistema de coisas para o raio que o parta.
Antigamente, os nossos antepassados conseguiam escapar incólumes (pelo menos por algum período) em algum quilombo, caverna ou biboca, num sítio esquecido num pé de serra ou numa tribo perdida nos confins da Amazônia. Plantando, colhendo, criando e vivendo, camuflados como nativos “ignorantes” ou Cristãos “inofensivos”, sem prestar contas aos donos do planeta, somente ao Bom Deus, Onisciente e Onipresente, Aquele que tudo vê. Mas se não deu certo no passado, como iria dar certo hoje em dia, em plena era digital?


Hoje, com o advento da antena parabólica, do telefone celular, do tablet, do satélite, do chip, do radar e das redes sociais, a teia da aranha se fechou completamente. Não tem como escapar. Somos todos presas inúteis, imobilizadas e prestes a ser devorados pelo SISTEMA na hora que ELE bem entender, ao bel prazer. A marca da besta está em quase todas as testas. Nunca se viu tanta besteira junta. É besteira demais! 666 bestas por metro quadrado, disputando uma janela no facebook e no whats-app.
Mais cedo ou mais tarde, você cai na teia digital, nas redes sociais e na malha fina. Não tem como escapar. Se for inseto graúdo cai na Lava-Jato. Se for miúdo cai numa raquete Made in China, daquelas de matar muriçoca. Um dia você cai. Todos caem.


* * *


E, enquanto nos debatemos nessa teia e refletimos sobre tudo isso, é inevitável a pergunta: até quando iremos esperar pelo cumprimento das palavras do Profeta Isaías?


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

HISTÓRIAS DE PAPAGAIO - PARTE IV



HISTÓRIA DE UM PAPAGAIO
Graciliano Ramos

Quem principiou a história do papagaio foi Cesária, mas os homens se aproximaram da esteira onde ela cochichava com Das Dores e depois de alguns minutos Alexandre concluiu a narração. Cesária falou assim:
— O nosso casamento foi pouco depois da vaquejada. Você se lembra, Das Dores? O caso da novilha se espalhou de repente e o nome de Alexandre correu de boca em boca. Ele não disse isto porque não gosta de pabulagem, mas acredite que ficou o homem mais importante do sertão. Os fazendeiros tiravam o chapéu quando passavam por ele e cumprimentavam com respeito: — “Como vai a obrigação, major Alexandre?” É isto, Das Dores. Alexandre num instante virou major. Meu pai era pessoa de muito cabedal, e todo mundo por aquelas bandas queria casar comigo. Eu não fazia conta de ninguém, mas quando Alexandre se apresentou, bem vestido e bem-falante, quebrou-me as forças. Vinha preparado, com um rebenque de cabo de ouro, esporas de ouro...
— Montado no bode? perguntou Das Dores.
— Não, respondeu Cesária. O bode era para as vaquejadas. Vinha num cavalo baixeiro, arreado com arreios de ouro, espelhando. Só queria que você visse, Das Dores. Meu pai ficou muito satisfeito com o pedido e eu concordei logo: — “Se vossemecê acha que deve ser, está certo.” Marcou-se o dia e preparou-se o enxoval, que foi uma beleza, Das Dores. Só queria que você visse.
Um enxoval em que trabalharam todas as costureiras do lugar. A festa do nosso casamento durou uma semana. Muita dança, muita bebida, muita comedoria. Não ficou peru nem porco para semente. Veio o vigário, veio o promotor, veio o comandante do destacamento, veio o prefeito. Meu pai estava-se estragando, mas era senhor de muitas posses e dizia: — “Festa é festa. Mais vale um gosto que quatro vinténs.” Quando os derradeiros convidados se retiraram, fomos morar na nossa casa nova, uma casa bonita como as da cidade. E o pai de Alexandre deu a ele um baú cheio de moedas de ouro. Aí era preciso a gente tratar da vida. Eu vendia e comprava, dirigia as coisas direito. Sempre tive cadência para as arrumações. Mas as viagens e as transações de muito dinheiro quem fazia era Alexandre. Na primeira viagem dele encomendei um papagaio. Queria um papagaio falador, custasse o que custasse. Agora você conta o resto, Alexandre.
— Não senhora, respondeu o marido. Você não começou a história? Então acabe.
— Não senhor, replicou Cesária. Comecei porque podia começar, mas acabar não acabo. Contei a minha parte, que dei a encomenda, mas quem comprou o papagaio foi você.
Depois de muitas razões, Alexandre se resolveu a tomar a palavra.
— Em vista disso, eu conto. Isto é, conto o fim da história, que o princípio os senhores já sabem. E nesse princípio não acrescento nada, porque tudo quanto Cesária disse é a pura verdade. Amarro o negócio no ponto em que ela ficou.
Realmente esse caso não tem importância, e até nem sei como Cesária foi mexer nele. Papagaio é bicho besta, ninguém presta atenção a lorotas de papagaio. Esse era melhor que os outros, sem dúvida. Eu nem me lembrava dele, mas como a patroa foi desenterrá-lo, vá lá. Escutem. Estávamos na viagem, não é isto?
Viagem do sertão à mata, para vender gado. Como era a primeira que eu fazia, a separação foi custosa. Cesária chorou, deu-me conselhos, afinal se aquietou com a esperança de possuir um louro falador. Prometer eu não prometia, que não ia oferecer a minha mulher um bicho ordinário, mas se aparecesse coisa boa, Cesária estava servida. Separei o gado, escolhi os tangerinos, despedi-me da mulher depois de muitos poréns e tomei o caminho do sul, sempre aumentando a boiada com o que havia de melhor por aquelas redondezas. Aves de pena vi em quantidade, araras, ararões, e canindés, mas viventes de pouca fala. Procurei, pedi informações — não achei nada que servisse. Larguei a encomenda e decidi levar uma lembrança diferente para Cesária, volta de ouro ou corte de pano fino.
Ora um dia de calor bati numa porta, com vontade de pedir água: — “Ô de casa!”
Uma voz de homem perguntou lá de dentro: — “Ô de fora! Quem é?” E eu respondi: — “É de paz. O senhor faz favor de arranjar uma sede de água para
um viajante.”
— “Não posso, tornou a voz. Não posso porque estou amarrado.”
Espantei-me: — “Como? Quem amarrou o senhor? Diga, que eu desamarro.”
— “Não se incomode não, moço, foi a resposta. Aqui em casa o costume é este. Vivo acorrentado.”
— Nessa altura uma velha apareceu com um caneco de água e falou:
— “Cala a boca. Deixa de tomar confiança com quem tu não conheces.”
Bebi e ia agradecer quando percebi que ela se dirigia a um papagaio que batia as asas, na gaiola pendurada à parede. Não é que eu tinha sido embromado, comendo o bicho por gente? — “Sinha dona, perguntei, vossemecê me vende esse louro?” — “Não vendo não, moço, é de estimação.” Eu cantei a velha: — “Que seja de estimação não duvido. Mas pense direito, sinha dona. Quem tem vida morre. Se botarem mau-olhado nele, vossemecê fica sem mel nem cabaço. Eu pago bem. Faça preço no papagaio, dona.” A velha endureceu, depois chegou às boas e acabou pedindo pelo bicho um despropósito. Discutimos e findamos o ajuste, comprei o papagaio por quinhentos e cinquenta e quatro mil e setecentos réis. Vejam que dinheirão. Quinhentos e cinquenta e quatro mil e setecentos. Bem.
Recebi a gaiola e fiquei atrapalhado. Como havia de levá-la numa viagem que ia durar meses? Depois de refletir, desocupei uma bolsa de roupa, fiz uns buracos nela e meti ali o papagaio, que protestou, muito contrariado. Arrumei a bolsa no meio de uma carga e tocamos para a frente. Onde andei e quanto ganhei não preciso contar, basta dizer que a boiada se vendeu e fiz bom negócio. Conheci homens de consideração e vi sobrados. Quando voltei, trazia um surrão cheio de ouro e cargas de mantimentos. Dei uma festa quase tão grande como a do casório.
O povo da rua se admirou, meu pai e meu sogro arregalaram os olhos. Eu de correntão no peito, eu lorde, mandando abrir caixas de bebidas. Quem quisesse beber bebia até cair. Dinheiro não faltava. Enfim tudo se acomodou, o pessoal saiu e nós fomos endireitar a casa, varrer, lavar, limpar, arranjar as coisas.
Cesária passou um dia arrumando a bagagem, abrindo malas e guardando troços nos armários. No meio do trabalho me chamou: — “Está aqui uma bolsa furada, Alexandre. Que é isto?” E eu me lembrei: — “Ai, Cesária! É o papagaio.
Tranquei o papagaio na bolsa. Coitado. Esqueci-me dele e o pobre viajou sem comer.” Corri mais que depressa e fui abrir a bolsa. Encontrei o infeliz nas últimas, enrolado num canto, feio como um pinto molhado. Cesária trouxe um pires de leite, mas era tarde, não havia jeito não. O papagaio olhou para mim, balançou a cabeça, levantou-se tremendo, encorujado, e disse baixinho:
— “Sim senhor, seu major, isto não é coisa que se faça.”
Amunhecou e morreu.

(In “Alexandre e outros heróis”)


* * *


OUTRA DE PAPAGAIO



Mestre Luís da Câmara Cascudo, em seu livro de memórias “Na ronda do tempo” escrito em 1969, traz essa interessante anotação a respeito de um papagaio que pertencera a Nunes Pereira, maranhense autor de um livro intitulado “Moronguetá – um Decamerón Indígena”. Diz o célebre folclorista potiguar:

“Nunes Pereira possuiu um papagaio que gritava: — Viva o Pará! Depois de segundos, concluía em voz baixa: — Oh, besteira!”

Manoel Nunes Pereira, também conhecido como Nunes Pereira (1892 — 1985), nascido no Estado do Maranhão, foi um antropólogo e ictiólogo que viveu grande parte de sua vida em Manaus, e, posteriormente, na cidade do Rio de Janeiro, tendo viajado seguidamente ao interior da Amazônia.

Nunes Pereira foi veterinário do Ministério da Agricultura até a sua aposentadoria e teve alguns de seus opúsculos científicos editados pelo próprio Ministério. (O pirarucu, A tartaruga verdadeira do Amazonas e O peixe-boi da Amazônia). Escreveu diversos livros, sendo a sua obra mais conhecida Moronguetá - Um Decameron Indígena, conjunto monumental de pesquisas, apresentado por Thiago de Mello (dois tomos), onde constam reproduções de páginas de cartas a Nunes Pereira emanadas de cientistas sociais como Roger Bastide e Claude Lévi-Strauss. Com esses estudiosos o antropólogo maranhense-amazonense travou contato pessoal, quando da passagem deles pelo Brasil. Carlos Drummond de Andrade escreveu, no Jornal do Brasil, uma crônica sobre o autor de Os índios maués, um dos primeiros pesquisadores mestiços brasileiros - era cafuzo, descendente de índios, negros e brancos - a obter reconhecimento científico internacional.

domingo, 25 de dezembro de 2016

PAPAI NOEL X VÉI DO SACO


O KRAMPUS SERTANEJO
(PAPAI NOEL ÀS AVESSAS)


Pelos idos de 1973 ou 74 deu-se um fato curioso: o dia em que não vi Papai Noel. Lembro-me de uma única vez em minha infância em que amanheceu um brinquedo debaixo da rede, na manhã de Natal. Disseram-me que era o Papai Noel que o havia deixado. Mesmo desconfiado, fingi acreditar naquela farsa. Tempos depois aconteceu um episódio que me fez perder inteiramente a crença no velhote.  Eu voltava da escola certo dia, quando nosso primo José Rodrigues de Sousa, o Zé Miguel, me chamou muito animado e perguntou:

— Arievaldo, você já viu o Papai Noel?

— Vi não, Zé Miguel. Ano passado apareceu um brinquedo debaixo da minha rede e disseram ter sido o Papai Noel quem botou, mas eu desconfio que foi mesmo obra da vovó ou de alguma de minhas tias.

— Que nada, rapaz! Papai Noel existe! Está aqui em casa passando uns dias. Quer ver?


                       O saudoso Zé Miguel, atuando como padre de uma quadrilha


A Marta, minha prima, andava comigo e também ficou curiosa para ver o “bom velhinho”. O Chico Bastião, devidamente combinado com o Zé Miguel, começou a cantar velhas cantigas natalinas invocando o Papai Noel, enquanto o nosso ardiloso parente nos preparava uma surpresa. Entrou apressadamente para o quarto, vestiu uma velha roupa de estopa, botou uma máscara horrenda de papangu e apareceu no alpendre de supetão, trajando essa estranha indumentária e sapateando em nossa direção.
Nem é preciso dizer o que se seguiu. Arrancamos em desabalada carreira, botando o coração pela boca, com medo daquela aparição. Entretanto deu-me na veneta voltar discretamente por dentro do mato e verificar a coisa de perto, para contar de certo. Ora, não deu outra. Presenciamos o Zé Miguel às gargalhadas, juntamente com seu cúmplice, despindo a máscara e a estranha indumentária. Criei coragem e voltei para desmascará-lo, dizendo que já sabia de tudo, desde o começo.

— E por que foi que correram?

— Corremos para ver o Papai Noel achando graça!

Eu tinha resposta para tudo, nessas situações.

* * *



Sem o saber, o Zé Miguel encarnou o Krampus, o antinoel dos contos europeus. Reza a lenda que o Krampus seria uma criatura mitológica que acompanhava São Nicolau durante a época do Natal. E essa crença difundiu-se em várias regiões do mundo.
A palavra Krampus vem de Krampen, palavra para "garra" do alto alemão antigo. Nos Alpes, Krampus é representado por uma criatura semelhante a um demônio. Enquanto o Pai Natal dá presentes para as crianças boas, o Krampus avisa e pune as crianças más. Tradicionalmente, rapazes se vestem de Krampus nas duas primeiras semanas de dezembro, particularmente no anoitecer de 5 de dezembro, e vagam pelas ruas assustando crianças com correntes e sinos enferrujados. Em algumas áreas rurais, a tradição também inclui surras aplicadas pelo Krampus.
As fantasias modernas de Krampus consistem em uma Larve (máscaras de madeira), pele de ovelha e chifres. A manufatura das máscaras artesanais demanda um esforço considerável, e vários jovens em comunidades rurais competem nos eventos do Krampus. O “Papai Noel” encarnado pelo primo Zé Miguel nada mais era que uma imitação desse personagem lendário, que aqui no Nordeste possui o nome de “Papa-figo” ou “Véi do Saco”.  

Foi bom perder a crença no Papai Noel porque, ao mesmo tempo, deixei também de acreditar nesse outro personagem que usavam para intimidar as crianças, o “Véi do Saco”.

Arievaldo Vianna

sábado, 24 de dezembro de 2016

O FARSANTE QUE USURPOU O NATAL





Um velhote ridículo, vestido de vermelho, montado num trenó puxado por renas voadoras usurpou a Festa Magna da Cristandade em nome do capitalismo selvagem. Os poetas GERALDO AMÂNCIO e OLIVEIRA DE PANELLAS, em mote inspiradíssimo, fizeram esse belo protesto:

SEM NOEL E SEM NATAL

"Criancinha do mocambo
Teu Papai Noel não vem
Pra te trazer um He-man
Ou um boneco do Rambo
Quando você, por um bambo
Vê um no comercial
Deseja pegar o tal
Porém teme aos seguranças
Trinta milhões de crianças
Sem Noel e sem Natal

Ou Papai Noel, por que
O senhor nunca visita
O guri da palafita
Que procura e não lhe vê
Ouvi tanto de você
'Tudo pelo social'
Chegou seu tempo, afinal
Restam amargas lembranças
Trinta milhões de crianças
Sem Noel e sem Natal

Criancinha magricela
Cadê teu Papai Noel
Esse homem de papel
Que entra pela janela?
Será que pela favela
Papai Noel passa mal
Por pensar que o marginal
Rouba as suas alianças?
Trinta milhões de crianças
Sem Noel e sem Natal".

UM FELIZ NATAL a todos os seguidores do blog MALA DE ROMANCES, sem NOEL e com a Luz e as Bênçãos do Menino Jesus.




terça-feira, 13 de dezembro de 2016

SINVAL SÁ

O BIÓGRAFO DO REI DO BAIÃO


Sinval Sá e o livro O SANFONEIRO DO RIACHO DA BRÍGIDA 
(Capa de Klévisson Vianna)


Arievaldo Viana, Sinval Sá e Assis Ângelo
(Três biógrafos do Rei do Baião)

Sinval Sá teve a honra de escrever a primeira biografia sobre Gonzagão. O sanfoneiro do Riacho da Brígida — Vida e andanças de Luiz Gonzaga foi lançado em 1966. Agora, por conta do centenário de nascimento do mestre, a ser comemorado em 13 de dezembro, o livro chega à 9ª edição. Sá estará presente na solenidade comemorativa, em Recife, apresentando a nova versão de seu rebento. “Na época, o lançamento em Fortaleza teve a presença do próprio Luiz”, relembra o escritor, orgulhoso, aos 90 anos. Sinval vive em Brasília há 46 anos e já publicou outros dois romances e dois livros de contos.
Segundo o autor, foi o próprio Gonzaga quem tratou de divulgar a biografia: levava para os shows Brasil afora e a vendia em suas andanças. Na época, os 10 mil exemplares se esgotaram rapidamente. Paraibano de Conceição, filho de pais pernambucanos, Sá morava no Ceará quando escreveu o retrato do sanfoneiro, no começo dos anos 1960. “Eu ia ao Rio, onde ele morava, e passava algumas temporadas na casa dele. A convivência era muito boa. Era uma pessoa maravilhosa, bem educada. Vinha à minha casa quando estava em Brasília. Me chamava de ‘doutorzão do Ceará’”, diverte-se.
O sanfoneiro... é contado de forma fiel aos relatos de Gonzaga, com pitadas de ficção. Sá até tentou romancear um pouco, mas o biografado não aprovou e pediu que o escritor se ativesse ao que haviam conversado. Ele assistiu à cinebiografia que está nos cinemas e notou que algumas passagens são parecidas com as retratadas em seu livro. “Sei que eles se basearam no Gonzaguinha e Gonzagão, da Regina Echeverria, mas ela me consultou para fazer o livro dela e, inclusive, me cita”, destaca. Na película de Silveira, entretanto, Sinval não teve nenhuma participação — pelo menos não diretamente. (Gabriel Sá - Correio Brasiliense).




E agora, para lembrar os 104 anos de nascimento do nosso REI DO BAIÃO, a letra da composição TREZE DE DEZEMBRO:


Ilustração: Arievaldo Vianna (Direitos Reservados)

TREZE DE DEZEMBRO
Música: Luiz Gonzaga / Zedantas
Letra: Gilberto Gil

Bem que essa noite eu vi gente chegando
Eu vi sapo saltitando e ao longe
Ouvi o ronco alegre do trovão
Alguma coisa forte pra valer
Estava pra acontecer na região

Quando o galo cantou
Que o dia raiou
Eu imaginei
É que hoje é treze de dezembro
E a treze de dezembro nasceu nosso rei

O nosso rei do baião
A maior voz do sertão
Filho do sonho de Dom Sebastião
Como fruto do matrimônio do cometa Januário
Com a estrela Sant'Ana
Ao romper da era do Aquário
No cenário rico das terras de Exu
O mensageiro nu dos orixás

É desse treze de dezembro que eu me lembrarei
E sei que não esquecerei jamais.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

APRENDA FAZENDO...

O Rabicho da Geralda é um dos textos mais antigos do romanceiro popular nordestino e foi construído em quadras. O ladrão besta e sabido utiliza o esquema da "embolada" e O romance da princesa do Reino do Mar Sem Fim foi escrito em sextilhas.

PEQUENA AULA DE CORDEL E CANTORIA
(PARA PRINCIPIANTES)

Tenho percorrido esse Brasil de ponta a ponta ministrando palestras, oficinas e apresentando recitais de cordel. Por onde passo muitas pessoas demonstram interesse em aprender um pouco sobre essa arte. Fiz uma síntese de tudo, em poucas pinceladas, para principiantes. Os versos aqui apresentados são de autoria do poeta Valentim Cordeiro Brabo.

A quadra é o princípio de tudo. A gênesis da poesia. Geralmente são quatro versos de sete sílabas, rimando o primeiro com o terceiro e segundo com o quarto, vejamos...

QUADRA:

Você que bateu panelas
Dando patada e esturro
Veja as terríveis sequelas
E reconheça que é BURRO!



Acrescentando mais dois versos, no estilo que chamam XAXAXA (Ou seja, apenas os versos pares rimam entre si) teremos uma sextilha.

SEXTILHA:

Não pego em lâmina de faca
Nem mato cobra de murro...
Você que bateu panelas,
Dando patada e esturro,
Resolva a sua cagada,
Para deixar de ser BURRO!

Para se construir a setilha, em redondilha maior (verso de sete sílabas), rima-se assim: ABCBDDB (ou seja, o primeiro e terceiro verso não rimam, o segundo rima com o quarto e com o sétimo, enquanto o quinto e o sexto rimam entre si).

SETILHA:

SÉRGIO MACHADO não é
O autor de DOM CASMURRO:
Você que bateu panelas,
Dando patada e esturro,
Perdeu a sua caçada...
Resolva a sua cagada,
Para deixar de ser BURRO!

Um mote em dez pés (ou dez linhas) apresenta a seguinte estrutura.

MOTE:
“PEIDANDO NA RABICHOLA
ANTES DA CILHA APERTAR"


GLOSAS:

Esta cilha, na verdade,
Aperta o bucho do pobre...
Todo dia se descobre
Vigarista em quantidade!
Muitos roubam em liberdade...
Besta é quem vai protestar;
Não sabem em quem atirar,
São cavalinhos de OLA,
PEIDANDO NA RABICHOLA
ANTES DA CILHA APERTAR"



Variação sobre o mesmo MOTE:

Tenho coragem de sobra
Pra defender meus direitos
Que agora estão sujeitos
Nas garras da PEC COBRA!
Não sou massa de manobra
Pois sei raciocinar;
Se a grande MÍDIA apoiar
Não entra em minha cachola!
Não peido na rabichola
ANTES DA CILHA APERTAR.

(Versos de Valentim Cordeiro Brabo)