quarta-feira, 20 de agosto de 2014

LENDAS DO FOLCLORE BRASILEIRO



Agosto, mês do FOLCLORE, é grande o número de visitas no blog ACORDA CORDEL (www.acordacordel.blogspot.com.br), sobretudo de professores e estudantes querendo pesquisar sobre Lendas Brasileiras em Cordel. Eis aqui mais um trabalho que fiz em parceria com JÔ OLIVEIRA. O livreto LENDAS FOLCLÓRICAS EM CORDEL, onde narro em cordel as lendas da MÃE DO OURO, CURUPIRA, BOTO COR-DE-ROSA e A MULA SEM CABEÇA. O trabalho foi feito por encomenda dos CORREIOS que lançou quatro selos de Jô Oliveira referentes à essas lendas do povo brasileiro. A seguir, trechos da LENDA DO CURUPIRA:



A LENDA DO CURUPIRA EM CORDEL

Autor: Arievaldo Viana – Desenhos: Jô Oliveira




1 - A poesia é um dom

Que a musa divina inspira

É a pepita que ofusca

O cascalho da mentira

Peço ajuda ao universo

Para narrar, no meu verso,

A lenda do Curupira.


2 - Tem os cabelos vermelhos

Dentes de rara beleza

Verdes como a esmeralda

Luz de vagalume acesa

Não gosta de caçador

É o gênio protetor

Das coisas da Natureza.

3 - Diz a lenda que um índio

Um dia, por distração,

Adormeceu na floresta

E acordou de supetão

Na sua frente sorria

O Curupira e queria

Comer o seu coração.


4 - O caçador já matara

Ali alguns animais

Então concebeu um plano

Astucioso e sagaz

Um coração lhe arranjou

O Curupira provou

E sorriu, pedindo mais.


5 - Um coração de macaco

O caçador lhe entregou

O Curupira comeu

O coração e gostou,

O caçador respondeu:

- Agora me dê o seu;

Que o meu você devorou...


6 - O Curupira inocente

Agiu com todo respeito

Pediu a faca do índio

E cravou no próprio peito

Depois ficou estirado

E o caçador assombrado

Saiu depressa, sem jeito.


7 - Por muito tempo o tal índio

Não queria mais caçar

Por mais que os seus amigos

Viessem lhe convidar

Ele inventava desculpa

No peito trazia a culpa

Medo, tristeza e pesar.


8 - A filha do caçador

Pediu a ele um colar

O índio, pai devotado,

Resolveu ir procurar

Os dentes do Curupira

Brilhantes como safira

Para a filhinha enfeitar.


9 - Achou o crânio do gênio

E ali mesmo procurou

Bater com ele na pedra

Mas logo que o tocou

De uma maneira funesta

O espírito da floresta

Depressa ressuscitou.


10 - O Curupira entendeu

Que ele fosse o responsável

Por sua ressurreição

E de modo muito amável

Deu-lhe um arco pra caçada

E uma flecha encantada

De valor inestimável.



(...)

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

GRANDE SERTÃO: VEREDAS



Sou um eterno apaixonado pelas coisas do sertão... Mas não é qualquer "sertão". Um recanto em particular me causa grande fascínio pela sua magia, retratos de uma infância feliz que ficaram retidos na memória. Rastros de luz que se fixaram de forma indelével nas lamparinas do juízo. O texto a seguir faz parte do livro SERTÃO EM DESENCANTO:

Sou, antes de tudo, um poeta matuto, inserido, a contragosto, num ambiente urbano, que teima em preservar as suas origens como forma de sobrevivência, de preservação da sua identidade cultural. Nem por isso sou dado à xenofobia e procuro absorver também outras culturas, palmilhar outros “sertões”, voar por outras latitudes, sem perder as minhas referências da infância e do ambiente onde fui criado. Daí ter dado preferência aos textos em Cordel, a expressão mais genuína da literatura nordestina e porque não dizer, do Brasil. Isso não quer dizer que eu não goste de escrever em prosa, técnica que também domino, num estilo, digamos, um tanto pessoal. É o que pretendo realizar neste novo projeto (a postagem é de 2014 e o livro Sertão em desencanto foi publicado no ano passado - 2016), debulhar fragmentos das minhas memórias em prosa e verso, como uma modesta contribuição para as gerações futuras. 




Neste último final de semana, estive revendo velhas paisagens, serranias, morros e várzeas tostados pela seca, o vigor do juazeiro se sobressaindo na caatinga e desafiando a inclemência do sol. Seguem alguns versos que fiz inspirado neste cenário de luz...



O MARCO CIBERNÉTICO
DO REINO DOS TRÊS MONÓLITOS
Autor:  Arievaldo Viana

Nos  sertões do Ceará
Há mais de cinco milênios
Havia um reino imponente
Obra de fadas e gênios
Com três castelos vistosos
Quais luminosos procênios.

Nesse tempo tão distante
O índio selvagem, inculto,
Que habitava essas terras
Um dia avistou um vulto
De uma grande espaçonave
Conduzindo um povo culto.

Vinha de outra galáxia
Aquela grande astronave
Pousou em nosso planeta
A fim de trazer a chave
De grandes conhecimentos
Mas padeceu um entrave.

Os índios ficaram atônitos
Com a súbita aparição
Pois julgavam que Tupã
Vinha no grande clarão
Na sua rude linguagem
Buscavam uma explicação.

Vinham naquela missão
Engenheiros, cientistas,
Sacerdotes, artesãos,
Astrólogos e alquimistas
Matemáticos e geólogos
Poetas e repentistas.

Olhando o povo atrasado
Que habitava o lugar
Com muito zelo e cuidado
Quiseram os ensinar
Mas aquela raça inculta
Nada pôde assimilar.

Exilados neste mundo
Sua tecnologia
Mostrou-se pouco eficaz
E recorreram à magia
Para encantar os três reinos
Que aqui fundaram um dia.

Cristalizaram os castelos
Com tudo que existia
Uma camada de rocha
Fruto de grande magia
A sua esplêndida aparência
Ocultava e revestia.

Três monólitos de pedra
De assombrosa semelhança
Ocultaram os três castelos
Dos quais só resta a lembrança
No verso dos trovadores

Do reino da Esperança.

(...)



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SOBRE A SERRA DOS TRÊS IRMÃOS, 
É OPORTUNO ACRESCENTAR:

Dom Antônio de Almeida Lustosa, em seu livro Notas a lápis visitando a capela da Caiçarinha, que ficava na divisa dos municípios de Canindé e Quixadá (hoje pertence a Choró Limão), traz algumas informações sobre os serrotes Três Irmãos. Um fato curioso é anotado pelo arcebispo em visita pastoral em fins da década de 1940. A capela e a povoação ficavam no lado de Canindé, mas o cemitério ficava no território de Quixadá e os cidadãos daquela localidade passavam a “morar” no outro município depois que morriam. Ele fala também de um cruzeiro erguido na fronteira, em 1918, para comemorar o centenário de criação da Paróquia de São Francisco das Chagas de Canindé, ocorrida em 1817.
Deixando a Caiçarinha, Dom Lustosa passou pela ladeira do Pitanguá e pelos Três Irmãos, que naquela época, segundo atesta o arcebispo, ficava na divisa de quatro paróquias: Canindé, Madalena, Quixeramobim e Quixadá. Os velhos monólitos impressionaram o religioso: “Diante dos nossos olhos aparece a Serra dos Três Irmãos. É-nos preciso subir agora uma forte ladeira – do Pitanguá. Os Três Irmãos são três cabeços de serra bem próximos e semelhantes. Parecem as ameias de um castelo de gigantes. Podem ser vistos de longe e não se confundem com outras serras. Por isso servem de baliza até para aviadores. Ao passarmos ao pé dos Três Irmãos, nos informam que ali há petróleo... e que as chuvas sempre dão preferência aos Três Irmãos.”
Se há realmente petróleo não se sabe, mas na década de 1970 houve grande movimentação de geólogos e outros técnicos na ladeira da Esperança e Três Irmãos. Próximo a região, a oeste, fica a jazida de urânio de Itataia, na divisa de Itatira com Santa Quitéria.
Ao sul, não muito distante dos Três Irmãos, fica a Serrinha do Teixeira, onde supostamente ocorreu um teste nuclear clandestino no dia 06 de agosto de 1957, fato já noticiado na imprensa através de denúncias feitas pelo padre Ricardo (Richard Cornwall), sacerdote norte-americano que foi vigário de Madalena. A incidência de casos de câncer naquela região é algo espantoso, pois a área em redor já era densamente povoada quando aconteceu este fato. As pessoas mais velhas ainda guardam na memória esse episódio que teria iniciado com uma explosão seguida de forte clarão. Muitos pensavam que era o fim do mundo e desandaram a rezar. De fato precisavam mesmo da proteção divina.

(In Sertão em desencanto - Arievaldo Vianna)

POST SCRIPITUM

CENAS DO SERTÃO DE HOJE EM DIA
(Na minha opinião está cada vez melhor)

Fotos: Autemar Vianna


Casa construída pelo nosso bisavô Olympio Vianna, em 1925. 
Aqui nasceu o tio José Bruno Vianna


Roçado do Ti Liu, tendo ao fundo a Serra da Cacimba Nova



Seu Luiz, comi seu milho. Agora, peado de pé e mão, não como mais.


Luiz Gonzaga Viana - Ti Liu, um HERÓI SERTANEJO, viu?




quarta-feira, 6 de agosto de 2014

IMAGENS DA FLIPINHA 2014



Estivemos na FLIP Paraty 2014, no período de 31/07 a 03/08. Participamos de 4 atividades: Visita a Escola CASA DAS CRIANÇAS, de Patitiba; Encontro com o autor, na Biblioteca da Flipinha; Bate-papo na tenda dos autores, com o poeta Fábio Sombra e o professor Amaury e, finalmente, mesa de encerramento em homenagem a Millôr Fernandes, com todos os autores convidados. Uma viagem marcante e muito divertida.

Confiram as fotos:

 Professores da Casa da Criança de Patitiba recebem kit do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula

Declamando "O COELHO E O JABUTI", Editora Globo.

Com o mestre JAGUAR, um dos fundadores do PASQUIM

Com a ilustradora Luciana Grether

Com Mário Bagg e Rosana Rios

Macambira & Querindina, cordelistas paraibanos presentes na FLIP

Mesão dos autores em homenagem a Millôr Fernandes


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Entrevista no Portal da TV Cultura



Trechos de uma entrevista de ARIEVALDO VIANA ao site CMAIS, do Portal da TV Cultura, sobre a sua participação na Flipinha de Paraty-RJ:

EXCLUSIVO

ARIEVALDO VIANA FALA SOBRE 

SUA PARTICIPAÇÃO NA FLIPINHA

(Mala de Romances)

flipinha

Voltado especialmente para os pequenos, a Flipinha surgiu em 2004, junto com a Flip, 
para ser um movimento de formação de leitores em Paraty. O ano inteiro, a ação social e educativa segue uma agenda intensa, incentivando e instigando a curiosidade das crianças para o universo mágico da literatura infantil.
Entre os dias 29 de julho e 3 de agosto, os jovens leitores de Paraty norteiam a programação da Flipinha com os temas trabalhados em sala de aula e um levantamento dos autores mais lidos por elas do acervo de 12 mil títulos da Biblioteca Casa Azul. Tudo isso junto com a participação das crianças visitantes.
O cordelista cearense da cidade de Quixeramobim Arievaldo Viana, que está a frente do projeto ‘Acorda Cordel na Sala de Aula’, estará pela primeira vez no evento. Com quase trinta livros publicados, ao longo de 10 anos de atividade, e mais de 100 folhetos de cordel, ele participará de duas mesas na Flipinha, sendo uma delas em parceria com o poeta Fábio Sombra.
O cmais conversou com o autor, que conta sobre seus projetos para levar cada vez mais cultura aos brasileirinhos, da resistência ao cordel que é feito fora do Nordeste, de sua história de vida e o que espera da Flipinha 2014.
cmais: Você já participou de alguma edição da Flip ou essa é sua primeira vez? Como é seu contato com o público infantil?
Arievaldo Viana: Trabalho com a Literatura de Cordel e livros infanto-juvenis desde o final da década de 1990 e já participei de diversas bienais e feiras de livro em diversas cidades: Fortaleza, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Porto Alegre, dentre outras, a maioria das vezes lidando com o público infantil. É a primeira vez que sou convidado para a FLIP de Paraty e estou muito honrado com esse convite. Na verdade, eu já venho trabalhando há bastante tempo, através do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, ministrando palestras, oficinas, shows de declamação e os resultados são sempre favoráveis.
cmais: Você já teve algum momento marcante com os pequenos leitores?


Viana: Na Feira do Livro de Porto Alegre, por exemplo, os autores são ‘apadrinhados’ por escolas da rede estadual de ensino e contato com as crianças é algo maravilhoso. Estive, em 2012, no município de Barra do Ribeiro-RS, onde as crianças da escola que visitei transformaram três obras minhas em apresentações teatrais. Foi um momento muito marcante, com música, dança, declamações e outras atividades culturais, tendo como eixo os meus textos em cordel. Um desses textos foi “A PELEJA DE CHAPEUZINHO VERMELHO COM O LOBO MAU”, livro ilustrado por Jô Oliveira, que foi lançado numa coleção pela Editora Globo. Essa coleção inclui também “O COELHO E O JABUTI” e “JOÃO BOCÓ E O GANSO DE OURO”, todos de minha autoria. Aqui no Nordeste, tenho vários livros por uma editora chamada IMEPH, que trabalha um projeto chamado “Nas ondas da leitura”. Sempre sou convidado a participar de atividades desse projeto e o encontro com o público infantil é sempre muito marcante.
cmais: Com quantos anos surgiu o interesse pelo cordel? Conte um pouco de sua trajetória de vida no sertão do Ceará.
Viana: Antes mesmo de ser alfabetizado, aí por volta dos quatro ou cinco anos de idade, eu já havia me encantado com os folhetos da Literatura de Cordel. Tanto meu pai, quanto a minha avó Alzira tinham o hábito de ler folhetos em voz alta para um público misto, que incluía crianças e adultos.


Nesse tempo ainda não havia energia elétrica no sertão do Ceará. Só nas cidades. As comunidades rurais ainda eram iluminadas por lampiões a gás. Eu ficava encantado pelo texto agradável dos cordéis. Aquilo mexia com a minha imaginação e motivou meus primeiros passos como poeta popular. Minha primeira escola funcionava numa casinha de taipa. Éramos somente uns 10 alunos, mas o aprendizado funcionava de verdade. A leitura em voz alta, principalmente de poesia, era uma prática comum nessa escola. 
Aos dez anos tive que me mudar para a cidade, a fim de continuar os meus estudos e só então tive contato com a televisão, a revista em quadrinhos e os brinquedos industrializados. Claro que isso também me influenciou, mas aquela cultura popular, típica do ambiente rural, já estava impregnada no meu processo criativo. A essa altura eu já desenhava e escrevia compulsivamente. O engraçado é que só comecei a publicar meus trabalhos no final da década de 1980 e de forma artesanal, usando, na maioria das vezes, a velha fotocopiadora. Foi o período dos fanzines e dos folhetos alternativos. Finalmente, na virada do milênio, comecei a levar a coisa mais a sério e comecei a bancar as minhas próprias edições. Esteei com um livro chamado “O baú da gaiatice”, que traz uma miscelânea de causos, anedotas, crônicas e cordéis. Essa obra foi muito bem aceita. Apesar de nunca ter saído por uma grande editora já vendeu mais de 10 mil exemplares e já está na 4a. Edição. Em 2006 recebi convite do Governo do Estado do Ceará para participar de uma coleção chamada “BAIÃO DAS LETRAS”. Foi aí que nasceu a ideia de fazer cordéis ilustrados, com capa colorida, para o público infantil. A princípio houve alguma resistência por parte do público tradicional e de alguns pesquisadores mais conservadores, mas isso foi superado porque CORDEL não é o suporte. O que caracteriza o cordel é o seu estilo literário, que é determinado por regras fixas: métrica, rima, oração etc. O “cordelivro” caiu no gosto da criançada e hoje, mais de 20 editoras de todo o Brasil trabalham com esse tipo de literatura.
(...)
VER ENTREVISTA COMPLETA AQUI: http://cmais.com.br/flip/exclusivo/arievaldo-viana-fala-sobre-sua-participacao-na-flipinha

quarta-feira, 16 de julho de 2014

ARIEVALDO VIANA NA FLIPINHA DE PARATY-RJ

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 Flipinha e FlipZona, a festa das crianças e dos jovens

FOTO: DIVULGAÇÃO
Programação infantil traz encontros com autores e ilustradores

PARATY
Parte da programação da Flipinha, a Ciranda dos Autores leva a Paraty um time de nove escritores e seis ilustradores de livros infantis, que participam de encontros aguardados com expectativa pelos alunos das escolas da cidade.
A mesa Da memória às histórias, que reúne as ilustradoras Laura Teixeira e Luciana Grether Carvalho marca a abertura das atividades na tenda da Flipinha. Ilustração é o tema da conversa de Daniel Kondo, que desenhou Contos das quatro estações e Domingão joia, e Mario Bag, cujos traços estão em Mentiras caipiras e Mitos e lendas do folclore do Brasil.
Entre os destaques, também aparecem a cultura indígena, com o amazonense Roni Wasiry Guará, do povo Maranguá, e a temática nordestina, presente nas obras Cordel da Candelária e Cordel das cavalhadas, de Sandra Lopes; e nas adaptações de Shakespeare para o teatro e o cordel, de Arievaldo Viana. 
Complementam as atividades da Flipinha as apresentações de alunos das escolas de Paraty, os já tradicionais “pés de livro”, que convidam à leitura sob as árvores da Praça da Matriz, e a mesa em homenagem a Millôr Fernandes.
Formação de leitores 
Ao longo do ano, a Casa Azul desenvolve em Paraty um trabalho permanente de formação de leitores, como parte do programa educativo da Biblioteca Casa Azul, que envolve cerca de 13 mil alunos de mais de 40 escolas públicas e privadas da região. No início do ano letivo, os professores recebem o Manual da Flipinha, material didático com informações sobre a vida e a obra dos autores convidados, e participam de uma oficina de formação. É o ponto de partida para trabalharem a Flipinha em sala de aula, com leituras e atividades práticas que culminam nas apresentações dos alunos nos dias de festa.
FlipZona: espaço de experimentação
A programação jovem contempla diferentes áreas de interesse e se caracteriza pela presença de múltiplas linguagens, como a produção audiovisual e o grafite. Palestras, bate-papos e oficinas fazem parte da programação, que traz para o universo jovem alguns autores da programação da Flip, como Antonio Prata e Eliane Brum, e da Flipinha, como a escritora e roteirista Rosana Rios.

Ao longo dos cinco dias da Flip, um grupo de jovens paratienses estará ativo na Central FlipZona – uma redação jornalística que fará a cobertura de toda a festa literária. No último dia, domingo, será a vez de apresentarem sua produção audiovisual: é o CineZona.
Oficinas para jovens
Assim como na Flipinha, o trabalho de formação com foco nos leitores jovens – sob o nome de FlipZona – também é um movimento que acontece o ano inteiro na Biblioteca Casa Azul, em Paraty. Sempre aberta a novos participantes, a FlipZona mantém um blog e realiza oficinas de artes visuais e literatura. Em abril e maio de 2014, realizou uma oficina de fotografia com Walter Craveiro, fotógrafo oficial da Flip, e uma oficina de grafite, com o designer e grafiteiro carioca Meton Joffily. Participaram cerca de 80 jovens paratienses. 

SAIBA MAIS: http://www.avozdacidade.com/site/page/noticias_interna.asp?categoria=56&cod=33984

domingo, 13 de julho de 2014

LEANDRO NO DN

Ilustração: Arievaldo Viana


LITERATURA DE CORDEL

O best-seller da poesia popular

13.07.2014

Clássico maior do cordel, Leandro Gomes de Barros é ainda referência para os autores do gênero

Em prosa, Carlos Drummond de Andrade escreveu em sua reverência: "não foi príncipe dos poetas do asfalto, mas foi, no julgamento do povo, rei da poesia do sertão, e do Brasil em estado puro". O registro, está em artigo publicado no Jornal do Brasil, em meados da década de 1970. Leandro Gomes de Barros (1865 - 1918), paraibano, "caboclo entroncado, de bigode espesso, alegre, bom contador de anedotas", como o definiu o Câmara Cascudo (no livro "Vaqueiros e Cantadores"), é ainda hoje um dos mais influentes autores da literatura de cordel.
Em sua bibliografia, há quem defenda um legado em torno de mil livretos de cordel. A Fundação Casa de Rui Barbosa, detentora da maior coleção do poeta, disponibiliza 200 títulos digitalizados na internet (www.Casaruibarbosa.Gov.Br/cordel). Além de escritor, considerado o primeiro cordelista de quem se tem notícia, foi pioneiro também como editor de livretos e é o mais vendido do gênero.
"Em 2018, completará 100 anos de sua morte. E com quase 100 anos do seu desaparecimento, ele continua sendo um dos principais poetas populares brasileiros de todos os tempos. É um fenômeno. Se for escolher 20 clássicos dessa literatura, no mínimo cinco obras tem que ser do Leandro. Os folhetos dele ainda estão entre os mais procuradas", atesta o cordelista e editor de cordéis Klévisson Vianna. Somente por sua editora, a Tupynanquim, ele estima que alguns livretos do paraibano tenham chegado a 10 edições, com 2 mil exemplares cada. "Não tem nenhum poeta erudito que rivalize com a popularidade de Leandro. Nunca em época nenhuma a obra dele deixou de ser reeditada. Prova de sua vitalidade", reforça o editor.
Influência
No artigo - registrado no acervo da Fundação Rui Barbosa - Drummond concede ao poeta paraibano o título de "Príncipe dos Poetas" (tomando-lhe de Olavo Bilac). Outros, como o poeta e editor João Martins de Athayde, o de "o primeiro sem segundo". Fato é que, além de popular entre os leitores, Gomes de Barros foi uma das principais referências das gerações seguintes de cordelistas.
Dois de seus folhetos, "O enterro do cachorro" e "O cavalo que defecava dinheiro" serviram, por exemplo, como base para o "Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna. "Tudo que se diz do Leandro se justifica pelo pioneirismo, primeiro, pela qualidade e quantidade de obras que deixou. Mas também pela variedade de temas. Transitava por cordéis humorísticos, outros mais sarcásticos, com uma grife social que estava além do seu tempo. Outros eram mais dramático, românticos, também. Todas as vertentes ele abordou", destaca o poeta cordelista Rouxinol do Rinaré.
Leandro, aponta Rouxinol, é uma das referências de infância, de quando ouvia as leituras de seu irmão mais velho. "Mais tarde me tornei leitor para meus pais", diz. "Eu como poeta e editor, que edito mais de cem poetas, posso falar com propriedade de quem faz e comercializa: Leandro é a base. Você vê coisas muito importantes, como as personagens femininas. Extremamente fortes, superam homens na força. Ele era muito à frente de seu tempo. Perde a viagem quem achar que ele era matuto", completa Klévisson.
A critica social, a sátira política, os romances: encontra-se de tudo na obra de Leandro Gomes de Barros. Há referências desde a política da Capital Federal, na época, o Rio de Janeiro, aos causos sertanejos ou enredos de ficção científica. "Apesar de ter nascido em Pombal, interior, da Paraíba, ele era cosmopolita. Escreveu folheto, em 1909, sobre uma viagem à lua. Não era em foguete, era balão, que era o que havia de mais moderno na época", ilustra Arievaldo Vianna.
Biografia
Arievaldo é autor de um extenso trabalho sobre o poeta paraibano que segue ainda inédito. A pesquisa inclui uma biografia e uma antologia com os principais textos do poeta e está pronta há pelo menos cinco anos a espera de uma editora que encampe a publicação. O autor lamenta o pouco interesse das editoras, ainda que haja uma lacuna no que diz respeito a pesquisa sobre a vida de Leandro. "O Bráulio Tavares (escritor paraibano) dizia que fazer essa biografia era como catar confete na rua um mês depois do Carnaval. Pela falta de documentos", cita.
O livro teve por base viagens aos locais por onde passou o poeta, entrevista com descendentes dele ou de pessoas que conviveram com ele, além da identificação de documentos. "Entrevistei muita gente, escrevi para tantos outros. Paulo Nunes Batista rendeu uma das melhores entrevistas. Tinha quase 100 anos. Fiz entrevista longa e reveladora a respeito da convivência de Leandro com a família dele. Ele não conheceu, mas cresceu ouvindo histórias sobre o poeta", detalha. Foram identificados ainda o paradeiro de documentos como as certidões de batismo, nascimento, o registro de casamento e a certidão de óbito. "Estou pensando em publicar por conta própria", lamenta o autor.
Leandro Gomes de Barros, o satirista
A fortuna crítica da obra do poeta paraibano acaba de ganhar um reforço robusto: "Um pau com formigas ou O mundo às avessas: A sátira na poesia popular de Leandro Gomes de Barros", de Francisco Cláudio Alves Marques. Fruto da tese de doutorado do autor, o livro é um gigante de mais de 400 páginas, que tem por mérito detalhar um dos aspectos da obra do cordelista.
A escolha de um "recorte" - a sátira - ao invés de pretender uma leitura total da obra é um reconhecimento de sua complexidade e riqueza. E, como satirista, Leandro Gomes de Barros já mereceria o status de clássico. Marques mostra um autor corajoso, em críticas que tanto podiam ser suavizadas, em metáforas e imagens a maquiar o alvo, como golpes violentos, recorrendo a expressões vulgares.


Crítica
O título do livro recupera uma expressão recorrente na obra de Gomes de Barros. "Pau com formigas" costuma ser usada para traduzir um momento constrangedor, uma situação complicação, em que se vê sem saída. O poeta dá-lhe novo sentido, emprega-a como metáfora da violência e da insignificância social que definiam a realidade dos sertões do Brasil.
No estudo, Francisco Cláudio Marques mostra como a obra de Leandro Gomes de Barros retrata, à sua maneira, os tempos em que viveu o autor. Ele captura os conflitos e as transformações sociais (sobretudo, o impacto que se observava nas populações mais pobres), do Império que se desfazia a uma República que chegava sem ampliar direitos ou inverter a ordem do poder.
LIVRO
Um pau com formigas ouo  mundo às avessas: A sátira na poesia popular de Leandro Gomes de Barros
Francisco Cláudio Marques
Edusp
2014, 448 páginas
R$ 72
Fábio Marques
Repórter
Fonte: DIÁRIO DO NORDESTE (Caderno 3)