terça-feira, 13 de junho de 2017

VOVÓ E O ESCUDO ADMIRÁVEL

Óleo sobre tela (44,2 x 35 cm). Museu Nacional de Arte Antiga. Lisboa.

13 DE JUNHO, DIA DE SANTO ANTÔNIO

A 13 de Junho de 1231, morre em Pádua, Santo António de Lisboa (1195-1231), frade franciscano português que ao longo da sua vida desenvolveu intensa vida religiosa e apostólica. Canonizado em Maio do ano seguinte pelo papa Gregório IX, foi declarado oficialmente Padroeiro de Portugal em 1932 e proclamado por Pio XII, Doutor da Igreja, em 1946. É venerado pela Igreja Católica, que o considera um grande taumaturgo e lhe atribui um extraordinário número de milagres. A circunstância de o dia festivo de Santo António (13 de Junho) coincidir com as festas do Solstício de Verão, faz com que seja celebrado em Portugal como um dos santos mais populares. SANTO ANTÔNIO COM O MENINO JESUS (séc. XVIII) – Francisco de Matos Vieira (1699 -1783), mais conhecido por Vieira Lusitano. (Fonte: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com.br)




OS PODERES MILAGROSOS 
DO RESPONSO DE SANTO ANTÔNIO

O meu bisavô Francisco de Assis e Sousa, o Fitico, um velhinho muito religioso e temente a Deus (como se dizia antigamente) possuía alguns livros de orações, dentre os quais um exemplar do Escudo Admirável*, magnífico compêndio de rezas editado na cidade do Porto – Portugal, na segunda metade do Século XIX.
Essa relíquia bibliográfica, encadernada em capa dura e ainda em excelente estado, apesar do constante manuseio, coube por herança à minha avó Alzira, que deu-me de presente poucos dias antes de expirar o seu último suspiro aqui na terra.


Alzirinha era devota fervorosa de Santo Antônio de Pádua, taumaturgo católico que goza de grande prestígio no Brasil e Portugal, cuja data magna se festeja no dia de hoje, 13 de dezembro. Vovó costumava rezar a sua trezena, de 01 a 13 de junho e o ponto alto da celebração era a declamação do RESPONSO DE SANTO ANTÔNIO, que assim se apresenta no Escudo Admirável:


              RESPONSO DE SANTO ANTONIO

- Se milagres desejais,
Recorrei a Santo Antônio,
Vereis fugir o demônio
E as tentações infernais.

- Recupera-se o perdido.
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.

- Todos os males humanos
Se moderam, se retiram,
Digam-no aqueles que o viram,
E digam-no os paduanos.

- Recupera-se o perdido.
Rompe-se a prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.

- Pela sua intercessão
Foge a peste, o erro, a morte,
O fraco torna-se forte
E torna-se o enfermo são.

(Rezar um Glória ao Pai).

- Recupera-se o perdido
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.

V. – Rogai por nós, bem-aventurado Antônio.
R. – Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.


(Fonte: Escudo Admirável, pág. 451)


Fotografia de minha avó paterna Alzira de Sousa Lima**

Atribui-se ao Responso de Santo Antônio o dom de achar objetos perdidos e também desvendar roubos misteriosos. Tal propriedade é citada no romance Luzia Homem, de Domingos Olympio. Seus devotos confiam plenamente na sua intercessão e quando algo é pedido e não é atendido pelo santo costumam dizer: "Nem Santo Antônio com um gancho". O provérbio vem de Portugal, onde também é dito dessa maneira: "Nem Deus com um gancho, nem Santo Antônio com um garrancho".
Sobre o santo Orago português, nos diz o folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro: “Um dos santos de devoção mais popular no Brasil. Suas festas quase desapareceram, mas o prestígio se mantém nos assuntos de encontrar casamento e encontrar coisas perdidas. (...) Uma tradição conservada oralmente há mais de um século reza:

Quem milagres quer achar
Contra os males do demônio,
Busque logo a Santo Antônio
Que só há de encontrar.

Aplaca a fúria do mar,
Tira os presos da prisão,
O doente torna são,
O perdido faz achar.

E sem respeitar os anos
Socorre a qualquer idade,
Abonem esta verdade
Os cidadãos paduanos.”



* Sobre o ESCUDO ADMIRÁVEL
Escudo Admirável para os Males da Vida
Padre Manoel José                      
Editora: Casa de Cruz Coutinho
Ano: 1863

Título completo: Escudo Admirável Para os Males da Vida: Torre fortíssima para o instante da morte e patrocínio efficaz no Divino Tribunal. Nova edição, accrescentada com muitas Novenas e outras devoções Pelo Padre J. R. C.

** Quando solteira, chamava-se Alzira Vianna de Souza. Após o casamento com Manoel Barbosa Lima, adotou o sobrenome do marido, tornando-se "de Souza Lima". Nasceu na fazenda Castro, então Quixeramobim-CE, no dia 15 de junho de 1912.

Arievaldo Vianna

* * *

Aos devotos de Santo Antônio e apreciadores da Cultura Popular, recomendamos também a leitura deste blog: 

SANTO ANTÓNIO NA TRADIÇÃO ORAL


Capa da revista ILUSTRAÇÃO PORTUGUEZA nº 16 de 11 de Junho de 1906.

Por Hernâni Matos


PRÓLOGO
É vasta a literatura de tradição oral portuguesa referente a Santo António. Debruçar-nos-emos aqui sobre o adagiário, tradições e superstições populares, orações populares e cancioneiro popular alentejano.

ADAGIÁRIO PORTUGUÊS.
Não é extenso, mas existe algum adagiário relativo a Santo António:

- “Água de Santo António tira o pão à gente e dá o vinho ao demónio.”
- “Ande o calor por onde andar, pelo Santo António, há-de chegar.”
- “Dia de Santo António, vêm comer as cerejas ao castanheiro.”
- “Entre António e João planta teu feijão.”
- “Não há sermão sem Santo António, nem panela sem toucinho.”
- “Nem Deus com um gancho, nem Santo António com um garrancho.”
- “Ovelha que é do lobo, Santo António Antônio não guarda.”
- “Santo António tira a dor, mas não tira a pancada.”

TRADIÇÔES E SUPERSTIÇÕES POPULARES
- No dia de Santo António deve-se colher um raminho de erva-pinheira, para pendurar em casa. Se este reverdecer, tal facto é indício de fortuna. [2]
- Para que Santo António opere o milagre de casar uma rapariga solteira, é preciso que uma sua imagem seja roubada a outra pessoa. [2]
- Rezar um responso a Santo António faz com que a pessoa ou o animal responsado não consiga andar para diante, mas apenas para trás, pelo que volta ao ponto de partida. [2]
- Na véspera do dia de Santo António, é costume ornamentar as portas ou as sacadas das casas com canas verdes. [7]

ORAÇÕES POPULARES ALENTEJANAS
Um tipo de oração popular é a encomendação (recomendação) que se faz a Jesus, à Virgem Maria ou a um Santo, para eles livrarem o encomendante de qualquer bicho ou pessoa que lhe queira fazer mal, assim como de qualquer influência maléfica ou demoníaca que o possam afectar. Vejamos uma “Encomendação a Santo António”:

“Santo António se levantou,
Caminho e carreira andou,
Nossa Senhora encontrou,
Ela lhe perguntou:
- Aonde vais, António?
- À vossa Santa busca vou.
- Pois tu, António, irás
E na terra ficarás,
O meu corpo me guardarás
De mau lobo e de má loba,
De mau cão e de má cadela,
De mau homem e de má mulher
E de tudo mau que houver,
Que eu nunca tenha perca
Nem dano nem prejuízo algum.
Em louvor da Virgem Maria
Um Padre Nosso e uma Ave Maria.” [5]

Um outro tipo de oração popular é o responso, entendido como uma oração a um Santo, visando o aparecimento de coisas desaparecidas ou que não ocorram males que se temem. Vejamos um “Responso de Santo António”:

“Santo António se levantou,
seu sapatinho calçou,
seu bordãozinho pegou,
seu caminho caminhou,
Jesus Cristo encontrou.
Jesus Cristo lhe perguntou:
- Onde vais, Beato António?
- Senhor, convosco vou.
- Comigo não virás,
na terra ficarás
guardando o que está perdido,
que à mão do dono seja restituído.
Em nome de Deus e da Virgem Maria
Pai-Nosso e Ave-Maria.” [1]

Este responso reza-se três vezes, depois das quais, as coisas desaparecidas, aparecem.

VER POSTAGEM COMPLETA NESTE ENDEREÇO: 
https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com.br/2011/06/santo-antonio-na-tradicao-oral.html

domingo, 11 de junho de 2017

DIA DOS NAMORADOS


ABC DOS NAMORADOS 
(Rodolfo Coelho Cavalcante)

A
A tua boca mimosa
Parece um botão de rosa
Da minha consolação
Faz do meu peito um canteijro
Que serei teu jardinehiro
Dona do meu coração!

B
Bendita a hora, querida,
Ditosa da minha vida
Que contemplo os olhos teus
Minh’alma mergulha em chamas
Querida, se tu me amas,
Dá-me um alivio, por Deus.

C
Com pena peguei na pena
Para te dizer pequena
A síntese da minha dor
E te peço uma resposta
Não aceitando a proposta
Está findo o nosso amor.
(...)


PARES ROMÂNTICOS DA LITERATURA DE CORDEL

Em 2005, em parceria com o ilustrador pernambucano Jô Oliveira, fiz uma recriação do tema "Pavão Misterioso", numa versão infanto-juvenil, preservando a essência do enredo e o nome dos personagens criados por José Camelo de Melo Rezende o João Melchíades Ferreira da Silva:

Eis alguns trechos, falando das peripécias do casal romântico mais famoso da Literatura de Cordel:



Então uma certa noite
Depois de um mês passado
Evangelista chegou
Na janela do sobrado
E Creuza não mais dormia
Só esperando o amado.

Rapidamente ela entrou
Na cabine do pavão
Quando o rapaz decolou
Um guarda de prontidão
Tocou depressa um alarme
Para avisar ao sultão.

O sultão enfurecido
Começou a praguejar
Vendo a bela princesinha
Com o rapaz se afastar
Um guarda disse: - O destino
Não há quem possa mudar!

A noite estava belíssima
E a lua na amplidão
Refletia os seus raios
Sobre a cauda do pavão,
Creuza abraçava o rapaz
Com ternura e gratidão.

(...)



O Pavão Misterioso - Versão de Arievaldo Viana
ilustrada por Jô Oliveira - Editora IMEPH, 2006



OUTROS PARES ROMÂNTICOS
NA LITERATURA DE CORDEL




Alonso e Marina, Baman e Gercina, Apolinário e Helena, João de Calais e Constança, Pierre e Magalona, Carlos e Celina, Lindalva e Juraci, Amédio e Lucinda... o amor sempre foi um tema presente nos folhetos de cordel.



* * *

segunda-feira, 5 de junho de 2017

GRANDE SERTÃO: VEREDAS (2)

Messias, Panchico e Arievaldo Vianna


MISSA DO VAQUEIRO EM CARIDADE, PREPARAÇÃO DE PAMONHA E MELADINHA DO VELHO JEITO SERTANEJO E ESCALADA AO TOPO DO SERROTE DOS TRÊS IRMÃOS

Considero-me um escritor sintonizado com a nova realidade do mercado editorial, com as modernas técnicas de impressão e divulgação virtual dos textos (e-book, internet), com os eventos literários que acontecem Brasil afora, mas não quero esquecer o caminho da cacimba dos saberes, da fonte inesgotável, do manancial sagrado que sempre alimentou a minha imaginação, que num de meus folhetos aparece com o nome de “Fonte das Coronhas”, um lugar real, situado no sopé do serrote dos Três Irmãos, na divisa dos municípios de Canindé, Quixeramobim e Quixadá. Foi ali que eu nasci e era ali, naquela fonte, que meu pai colhia água potável e a conduzia no lombo de dois jumentos, cantando folhetos de cordel em voz alta, para encurtar o nosso caminho.

No último final de semana resolvi saciar minha sede nas velhas cacimbas de saberes sertanejos. Primeiro fui à tradicional Missa do Vaqueiro, no município de Caridade-CE, na abertura dos festejos de Santo Antônio, padroeiro do município. Para ali me desloquei na companhia dos poetas Geraldo Amâncio e Zé Vicente, que abrilhantaram a celebração do Padre Tula, cantando um mote inspirado no Evangelho: "Simão Pedro, tu me amas? / Apascenta o meu rebanho", pelo que foram largamente aplaudidos.

No sábado desloquei-me para a comunidade de Sabonete-Macaóca, município de Madalena, onde me empenhei na mistura de uma gostosa "meladinha", bebida feita a base de cachaça, limão e mel de abelha, muito popular na região. Em outros lugares leva o nome de "cachimbo". A mistura tem que ser feita na medida exata. Meio copo de cachaça, duas colheres de mel e uma banda de limão. Depois de mexer e deixar descansar por alguns minutos, torna-se um néctar tão apreciado quanto a "ambrosia" dos deuses do Olimpo. Não pode é se exceder, porque além de gostosa, a bebida pega ligeiro e bota o cabra para dormir mais cedo. Nesse ínterim, recebi a visita do primo Francisco Vianna, o popular Chico Pipa, que me trouxe algumas espigas de milho verde, nata e um saco de frutos de cajá. Com a sua habilidade de sertanejo curioso, foi quem nos ensinou a fazer a casaca das pamonhas usando as palhas do próprio milho, do jeitinho que minha avó e minha mãe faziam. Ele sabe dois modelos então aproveitamos a diferença para produzir pamonhas doces e salgadas, temperadas com nata, queijo de coalho e algumas pitadas de sal ou açúcar, conforme o gosto de cada um.

Esticamos a prosa e a baladeira tarde afora, ouvindo algumas cantigas juninas de Luiz Gonzaga e quando me dei conta já havia passado da bitola, bebendo além da conta. Nem me lembrava do compromisso assumido com o mano Autemar e os primos Erasmo e Renê Sousa, para escalar a serra dos Três Irmãos, um sonho remoto acalentado desde a infância. Prejudicado pela ressaca, tive de suar um bocado na subida da montanha, mas com paciência e perseverança chegamos ao topo, de onde vislumbramos uma das mais belas paisagens que o sertão cearense pode oferecer.




EXPEDIÇÃO OURO PRETO | TRÊS IRMÃOS

Três monólitos de pedra
De assombrosa semelhança
Ocultaram os três castelos
Dos quais só resta a lembrança
No verso dos trovadores
Do reino da Esperança.

(O Marco Cibernético do Reino dos Três Monólitos)

Desde criança eu tinha o desejo de acompanhar um grupo de pessoas que escalava a serra dos Três Irmãos, situada ao nascente da fazenda Ouro Preto, porém nunca obtive autorização dos meus familiares. Nessa época, meu pai ia sempre ao sopé do primeiro serrote, buscar água no açude dos Calixtos ou na Fonte das Coronhas, um olho d'água perene, de rara beleza, que também fica nas imediações.

O vento soprava uma bela sinfonia nas palhas das carnaubeiras, mangueiras frondosas davam uma boa sombra e coqueiros espigados balançavam sua copa ao sabor do vento, nas imediações do açude onde íamos sempre em busca do precioso líquido. Eu aproveitava essas ocasiões para tomar banho, embora não soubesse nadar. Desde menino eu sempre fui astucioso como o Cancão de Fogo e afoito como Oliveiros, um dos Doze Pares de França, heróis de folhetos que meu pai cantava em voz alta pelas estradas sertanejas. Algumas vezes eu conseguia burlar o olhar sempre atento e vigilante de meu pai. Mas de pouco adiantava... Ele nos proibia o banho no açude, caso não estivesse presente. Subir a velha trilha, nem pensar. Nos períodos de estiagem dava para observar bem os vestígios de uma velha vereda. Mas papai não desgrudava o olho e até ameaçava de nos dar umas chineladas - em mim e no mano Itamar, meu companheiro predileto de travessuras, caso teimássemos em desobedecê-lo.

Somente agora, prestes a completar 50 anos de idade, é que pude realizar esse velho desejo da infância. Acabo de chegar de uma expedição aos confins do sertão onde fui nascido e criado. Esse pedaço de chão fica na divisa dos municípios de Madalena, Canindé e Choró Limão. Antigamente, Madalena pertencia a Quixeramobim e Choró desmembrou-se do território de Quixadá.  Escalamos o primeiro serrote do conglomerado chamado Três Irmãos, cuja altitude ultrapassa 550 metros. É uma tradição antiga fazer essa trilha e, dentre outras coisas, celebrar um terço no dia de Pentecoste. A data foi escolhida pelo saudoso primo José Rodrigues de Sousa, o Zé Miguel.

Na verdade, a tradição vem desde a década de 1950, quando a família Calixto Cavalcante e alguns vizinhos resolveram erguer um cruzeiro no topo da primeira montanha, a que fica do lado do poente. Um dos responsáveis por essa empreitada foi Raimundo Calixto, que depois se tornaria frade franciscano. Após ingressar na Ordem, adotou o nome de Frei Paulo e foi viver no Pará, como missionário de uma tribo indígena. Diz a tradição local que ele próprio se encarregou de transportar os tijolos até o local onde foi erguido o cruzeiro, que é de difícil acesso, com lances bem íngremes, difíceis de escalar com as mãos ocupadas.

Às vezes eu não entendo como é que a pessoa nascida e criada num paraíso como esse resolve se mudar para a cidade grande, com o intuito de arranjar emprego e educar os filhos. Nessa terra em que doutores se formam com o intuito de dominar e explorar o semelhante e políticos se ocupam em sabotar e subtrair as riquezas da nação, eu preferia viver nessas locas de pedras, tal e qual um preá ou um mocó, sem rádio e sem notícias de terras civilizadas. O problema é que nessa mesmíssima década de 1950, quando foi erguido o tal cruzeiro, o governo brasileiro permitiu um teste nuclear nessa cordilheira, segundo afirma o Padre Richard Cornwall, em seu livro AMARGOR, ao qual nos reportamos em SERTÃO EM DESENCANTO - I VOLUME DE MEMÓRIAS. Ou seja, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come!

O sacerdote encarregado de benzer o cruzeiro foi o então vigário de Choró-Limão, Padre José Bezerra do Vale, natural de Boa Viagem, que assumira essa paróquia em 1952, segundo informa o historiador Eliel Rafael da Silva Junior, do blog História de Boa Viagem.* Segundo testemunhas, o Padre Zé Bezerra escalou o serrote montado num jumento. Uma pessoa que também subira levando uma quartinha d'água para o sacerdote saciar a sede e aspergir água sobre o cruzeiro acabou quebrando acidentalmente a dita moringa, sendo obrigado a descer em busca de outra vasilha com água.

Tempos depois, uma pessoa da família Calixto (Irmã Tereza) que fora para o Rio Grande do Norte com o intuito de ordenar-se freira, converteu-se ao protestantismo e retornou aos Três Irmãos com o firme propósito de destruir o cruzeiro, o que fez, segundo dizem, com a ajuda de um irmão. Para tanto utilizaram foice, machado e até querosene, para transformá-lo em cinzas. Estivemos ontem no local e ainda encontramos tijolos espalhados e pedaços do velho cruzeiro destruído.

Alguns membros da caravana que escalou a velha trilha no dia de ontem (04 de junho de 2017) mostraram-se interessados na restauração do cruzeiro, o que talvez ocorra no ano que vem.

* Sobre o Padre José Bezerra, ver: http://www.historiadeboaviagem.com.br/pe-jose-bezerra-do-vale-filho/

FOTOS DA EXPEDIÇÃO


Minha cunhada Aline e minha esposa Juliana


Ruínas do meu 'paraíso perdido'. Nessa casa nasceram os cinco primeiros filhos do casal 
Evaldo de Sousa Lima e Hathane Maria Viana Lima.


Nas quebradas do sertão, uma visão privilegiada do Saco da Serra


Três Monólitos que se assemelham a ameias de castelos de gigantes, segundo 
dizia o inspirado D. Antônio de Almeida Lustosa




terça-feira, 30 de maio de 2017

UMA FÁBULA


O JULGAMENTO DA OVELHA

Uma fábula de Monteiro Lobato

Um cachorro de maus bofes acusou uma pobre ovelhinha de lhe haver furtado um osso.
— Para que furtaria eu esse osso — alegou ela — se sou herbívora e um osso para mim vale tanto quanto um pedaço de pau?
Não quero saber de nada. Você furtou o osso e vou já levá-la aos tribunais.
E assim fez.
Queixou-se ao gavião penacho e pediu-lhe justiça. O gavião reuniu o tribunal para julgar a causa, sorteando para isso doze urubus de papo vazio.
Comparece a ovelha. Fala. Defende-se de forma cabal, com razões muito irmãs das do cordeirinho que o lobo em tempos comeu.
Mas o júri, composto de carnívoros gulosos, não quis saber de nada e deu a sentença:
— Ou entrega o osso já e já, ou condenamos você à morte!
A ré tremeu: não havia escapatória!… Osso não tinha e não podia, portanto, restituir; mas tinha a vida e ia entregá-la em pagamento do que não furtara.

Assim aconteceu. O cachorro sangrou-a, espostejou-a, reservou para si um quarto e dividiu o restante com os juízes famintos, a título de custas…

quarta-feira, 24 de maio de 2017

CAUSOS DO PAULIM - 2


DE COMO PAULIM FOI PARAR
NO SANTANTÕIM DO BURACO

Por José Augusto Moita

     Aos mais jovens e aos que não são de Fortaleza, devemos primeiro dizer que o Santantõim do Buraco era um local aqui próximo onde existia uma escola de correição para jovens delinquentes. E agora vocês, que conhecem bem de perto o Paulim, hão de perguntar de queixo caído como pôde isso acontecer, se ele foi um menino de conduta ilibada, de ótimos antecedentes, religioso ao extremo e que só vivia do colégio para o lar. E lhes responderei, antes que pairem dúvidas sobre a dignidade de tão querido personagem, que tudo não passou de uma sórdida campanha, liderado por um invejoso desafeto que não suportava ver Paulim como o melhor aluno da classe, líder estudantil e presidente do Grêmio Escolar.

   
 A calúnia que resultou na desventura do nosso herói se deu no dia do aniversário de Dona Mocinha, jovem e bonita mestra sobre a qual Paulim nutria uma homérica paixão infantil. Só que ele não era o único. Q'suco, um garoto sardento do cabelo vermelho, capeta em forma de guri, também estava platonicamente enamorado da professorinha. E resolveu destruir seu concorrente através de uma sórdida trama: embrulhou cuidadosamente para presente uma caixinha daquelas que trazem dentro jóias acolhidas por chumaços de algodão, e no lugar do conteúdo, cuidadosamente alojado colocou um retorcido pelo pubiano. Posicionou o artefacto estrategicamente na gaveta primeira a ser aberta pela mestra, junto com um bilhete apócrifo que dizia: uma prenda do aluno mais elegante e bonito da escola.
      A diretora, depois de conseguir fazer tornar do desmaio Dona Mocinha, exigiu uma apuração sumária para descobrir o executor do atentado terrorista. Não tinha como Paulim escapar, tudo compunha em seu desfavor. Além do peremptório "mais elegante e bonito", por essa época ele já dedilhava alguns acordes ao violão, cantando uma modinha muito em voga à época que falava de cabelos em forma de caracóis. Não deu outra, desceu para o submundo dos apenados juvenis.
     Como nesse mundo não há injustiça que perdure, sua redenção veio através de quem menos se podia esperar, Dedé Sonho de Valsa, o cidadão alegre encarregado da higiene pessoal dos garotos. Ao submeter Paulim ao primeiro banho, o diligente encarregado, com seus olhar cirúrgico, observou que além de um diminuto pingolim, nosso futuro Gogó de Ouro da Maraponga ainda estava com a genitália completamente desprovida de pelos, a não ser uma rala e insignificante penugem. E de imediato fez um ofício à diretora, relatando que o material encontrado no corpo do acusado era  incompatível com o objeto da acusação. Graças a essa alma caridosa se deu a absolvição do Paulim, que pode ir para o conforto do seu lar, mas antes passando pelo escritório do Dedé para ganhar um Sonho de Valsa.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Histórias do PAULIM


AS PROEZAS DE PAULIM
NO SANTANTÕE DO BURACO

Meu amigo Paulo Renato da Silva Costa, músico talentoso, mais conhecido pelo codinome de Paulim, fez hoje uma postagem no facebook que me trouxe à mente algumas recordações dos meus tempos de menino. O Paulim tem umas tiradas engraçadas. De "pareia" com o José Augusto Moita ele faz a gente se "esqueixelar" de rir.
Nas décadas de 1960/70, todo menino danisco, levado da breca, fiote ou impossível era ameaçado de ser internado no Santo Antônio do Buraco (Instituto Carneiro de Mendonça), cujas instalações ficam depois de Maracanaú, num lugar chamado Olho D'água, onde moravam os irmãos de minha mãe. Atualmente o local se chama Olho D’água de Santo Antônio do Pitaguary.
No blog de Manoel Róseo Landim, encontramos a seguinte explicação para a origem do Santo Antônio do Buraco:

“Ninguém sabe, com certeza, a história de Santo Antônio do Buraco, mas de acordo com a lenda e a crendice popular, seu Antônio, chefe da Família Pitaguari, ardentemente devoto de santo Antônio,nutria um grande desejo: possuir a imagem do Santo, como as existentes nas igrejas. A sua casa só tinha estampas em papel. Certo dia, em suas constantes andanças pelas redondezas de sua moradia, viu um ponto luminoso como que emergindo de um buraco. Aproximou-se vagarosamente, pé-ante-pé e lá, refletindo à luz do sol, a cobiçada imagem de Santo Antônio. Estava num buraco estreito, mas muito fundo. Santo Antônio estava preso nas ramagens da borda do buraco. Logo uma fonte surgiu, perene, ao lado, com água milagrosa. Daí o lugar ter sido chamado, inicialmente Santo Antônio do Buraco.”

Crédito da imagem: Blog Manoel Róseo

Era próximo a esse recanto bucólico que funcionava O Instituto Carneiro de Mendonça ou Escola de Menores. O ‘Santantõe do Buraco’, juntamente com o Véi do Saco e o Chiqueirador, um relho de couro cru, bem comprido, amarrado na ponta de cacete de jucá (tipo aqueles chicotes de domadores de circo), foram o terror de muitas crianças da nossa geração. Na maioria das vezes eram só ameaças, para o pivete se aquietar, mas às vezes bem que rolava umas lapadas. A respeito desse instrumento de suplício, usado para tanger comboios de jumento, o gado e as cabras do chiqueiro, havia até um dito popular. Um grupo de adultos se reunia para jogar baralho ou dominó e os meninos ficavam rodeando a mesa de jogo e, de vez em quando, deixavam escapar um palpite, uma indiscrição, que era de pronto repreendida:

- Peru calado, ganha UM CRUZADO. Peru falador, ganha CHIQUEIRADOR.

No mesmo instante o menino se calava e parava de “aperuar” o jogo alheio.
Quanto ao 'Santantõe do Buraco', ouvi muito essa ameaça, porque na verdade não fui menino dos mais quietos.  Além das travessuras costumeiras eu era, no dizer dos adultos, fiote, letrado, cabido e conversador de arisia. Pelos idos de 1979/80 visitando uns tios que moravam por ali, perto do Horto Florestal, em Maracanaú, vi que as instalações da velha escola correcional estavam abandonadas. Que alívio. Mas, deixemos de coisa e cuidemos na vida, como disse o autor de Na hora do almoço, e passemos ao texto publicado pelo Paulim em suas redes sociais:

“Lembranças da minha infância, que me acompanham até hoje. Tinha um casal de idosos que saia pelas ruas do bairro onde eu morei até aos meus treze anos de idade, Jardim América. Eles fuçavam os sacos de lixo da vizinhança, para catar qualquer coisa que encontrasse. Ele, SEU CHICO MOCURA. Ela, JESSINA PAPEL CAGADO. Mas eles dois metiam um medo danado na gente. Pois os mesmos carregavam uns sacos pendurados que a mãe dizia que eles levavam crianças 'maluvidas' e malinas que não gostavam de rezar e estudar, lá para um tal de Santo Antônio do Buraco. Quando eu os avistava de longe, eu corria pra 'dendicasa' e ficava brechando pelo buraco das venezianas da janela, até eles sumirem, dobrando a esquina.
Este retrato foi tirado lá no Pan Filme, pertinho da praça do Jardim América. Espiem, o charme do garoto!”

Como se nota, Paulim não chegou a entrar no Buraco do Santantõe, a tal escola correcional para menores. Será que a cabecinha do Paulim não passou no buraco? O que se apreende, pelo texto que postou, é que foi constantemente ameaçado por sua genitora, que usava as figuras do casal de catadores de lixo - Chico Mocura e Jessina Papel Cagado para amedrontá-lo, causando profundos traumas na pobre criança. Daí essa carinha de tristeza que ele apresenta na sua foto de sete anos (brincadeira, Paulim, não me queira mal).
É oportuno registrar também o comentário do leitor Raimundo Cavalcante dos Santos, o popular Raimundão. Só faltou o José Augusto Moita, para também dar o seu palpite...

“ Instituto Carneiro de Mendonça "Santantõe do Buraco, Se eu não tivesse uma avó invocada, eu teria ido pra lá depois de quebrar o chifre de uma vaca da vacaria do seu Antonio Jovino, no Carlito Pamplona em 1959/1960.”


* * *

Segundo Ailton Gomes, que mantém a página Maracanaú Antigo, no facebook, “Os menores que eram recolhidos ao Instituto Carneiro de Mendonça eram muito diferentes dos atuais, que estão em unidades da FEBEM. Naquela época, eram apenas crianças e adolescentes abandonados pelas famílias ou autores de pequenos delitos. Eles não causavam tumulto, nem fugiam. Vejam nas fotos das postagens anteriores (postadas na página Maracanaú Antigo), que o muro era muito baixo, da altura das crianças. Antigamente, os pais amedrontavam profundamente seus filhos, quando ameaçavam enviá-los para o “Santo Antônio do Buraco”, que era o nome popular dado ao Instituto Carneiro de Mendonça e eternamente conhecido por “Escola de Menores”.


Escola de Menores (Foto da Prefeitura Municipal de Maracanaú).


Crédito da imagem: Blog do Manoel Róseo.

TEXTO | PESQUISA: Arievaldo Vianna


Fontes: facebook do Paulo Renato Costa e http://manoelroseo.blogspot.com.br

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Um conto de Malba Tahan

AS MERCADORIAS DO DIABO

Conta-nos Malba Tahan, no interessante livro Maktub! (Estava escrito!) esse curioso episódio ocorrido há muitos anos, segundo o autor, na poderosa Babilônia, a cidade das Cem Portas...

Certa feita um grande sábio, tido e havido como um santo homem, deixava uma grande cidade quando  encontrou-se com o Diabo (que Deus o confunda!) que conduzia uma pequena caravana com seis camelos de raça carregados de estranha carga.
Perguntou o servo de Deus:
- Que levas aí ó Cheitã?*
Respondeu o demônio:
- Estas são as mercadorias que pretendo vender na cidade.
- Poderás dizer-me que mercadorias são essas, cujo peso parece cansar os teus possantes camelos?
- O primeiro camelo está carregado de injustiça; o segundo leva uma bela carga de avareza; trago no terceiro, mil arrobas de vaidade; o quarto está carregado de perfídia; o quinto de egoísmo e o último o mais forte de todos está carregado de ambição.
- Injustiça, avareza, vaidade, perfídia, egoísmo e ambição, repetiu o sábio cheio de espanto.
- E a quem pretende vender tais mercadorias?
- Venderei a injustiça aos magistrados, explicou o demônio. Os ricos de mim comprarão a avareza. A vaidade será adquirida pelas mulheres. A perfídia pelos políticos. O egoísmo será para os poderosos. A ambição será comprada pelos mercadores.
- Volta com sua tropa ó Cheitã! Bradou com veemência o sábio. - Não conseguirás um centavo. A tua mercadoria será repelida por todos!
Pouco tempo depois, repousava o santo homem sob a sombra de uma árvore, quando avistou de novo o demônio que regressava da cidade, trazendo em tranqüila marcha os seis camelos, desprovidos de suas cargas.
- A quem, ó maligno, vendestes a tua horrível mercadoria? Indagou o santo homem.
- Ao entrar na cidade, contou o demônio, encontrei um homem rico e poderoso. Interessou-se logo pelas mercadorias e quis arrematar tudo sem fazer questão de preço.
- E vendestes tudo a um só homem? Acudiu o santo assombrado.
- Sim. A um homem só. E creia-me, o exigente comprador achou pouco e queria mais. Mora num suntuoso palácio de belas colunas brancas, cercado por um lago artificial.
- Meu Deus! Quem mora ali é o nosso Governante. Se ele precisou de suas mercadorias, é porque pretende abolir as leis, esquecer o direito dos fracos, perseguir os humildes, e transformar-se enfim num tirano!
E concluiu desolado.
- Sim, aquele que abusa da força e do poder para negar o direito e exercer a tirania, tem por certo a alma repleta de todas as mercadorias do diabo.

(Livre adaptação de um conto de Malba Tahan, do livro Maktub! (Estava escrito!)


*Cheitã – Um dos nomes do diabo, segundo os mulçumanos