quinta-feira, 13 de julho de 2017

PARÁBOLAS MIRABOLANTES - Capítulo II


Romeiro da Cruz, estátua de São Francisco, Cancão-de-Fogo e Frei Mané Mago de Jurema

O ENCONTRO DE FREI MANÉ MAGO 
COM O ROMEIRO DA CRUZ

Dos manuscritos de Frei Cancão-de-Fogo
(Encontrados nas cavernas da Fonte das Coronhas)



Naquele tempo, quando Herodes Trump governava o Reino do Norte e a múmia do Faraó Michel Ramsés I tomara de assalto o Reino do Sul, aconteceram os fatos que passamos a narrar.

Isso se deu depois da aprovação da Reforma Escravocrata, da condenação de Lula ao calvário, da libertação de Rocha Luri-Luri, Branca de Neves e Geddelias Vieira. Justamente na semana em que a Múmia se safou na Câmara dos Deputados e sancionou a Reforma Trabalhista (leia-se destruição da CLT). Aconteceu que Frei Mané Mago de Jurema e seus discípulos peregrinavam pela Palestina, bairro vetusto de Canindé-CE, quando se arrancharam numa pousada para romeiros e começaram a comentar os últimos acontecimentos.

Alguns “inleitô” daquele bairro, atraídos pela sua fama de notável pregador, que já corria meio mundo e se estendia de Madalena a Caucaia, aproximaram-se dele e perguntaram:

- Senhor, em 2018 devemos reeleger esse Congresso justiceiro, que cassou a nossa presidente em nome da moral, da família, da decência, dos bons costumes e da Mãe do Calor de Figo?

Ao que Frei Mané Mago respondeu:

- Sim, deveis. Dai a César ao que é de César... Vocês que furam fila, que subornam guardas rodoviários, que fazem “gato” de energia, que batem na mulher, que falam mal do vizinho, que pedem benefícios a todo candidato que passa em vossa porta, não deveis de uma hora para outra mudar de opinião. Em 2018 reelejam a todos. Todos eles, sobretudo os que distribuem sorrisos, abraçam crianças catarrentas, entram nas cozinhas mais humildes e tomam café em xícaras estaqueadas.

Os devotos se entreolharam meio incrédulos, porém Frei Mané Mago retrucou, de modo mais enfático:

- Sim, meus amados, reelejam. Eles receberam muita grana do Faraó e podem comprar milheiros de tijolos, dentaduras, carradas de areia, pagar contas de água e luz atrasadas, ajeitar aquela cirurgia de catarata, arranjar um transporte para alguma mudança, e até mesmo lhes presentear com uma geladeira, um tablet, dois pneus para a moto ou um aparelho para os dentes... REELEJAM OS HOMI. Não é assim que vocês gostam???


Montagem muito divulgada no tempo das Olimpíadas e período da panelagem

Um dos discípulos, Frei Cancão de Fogo, ria a bandeiras despregadas, enquanto Frei Papacu de Maisena, um simplório, questionava:

- Mestre, o que houve com o gigante? Dormiu outra vez em berço esplêndido?

- Sim, meu ingênuo discípulo. Deitou-se numa rede “tijubana” recém adquirida em Jaguaruana e não quer nem saber se o coco é oco. Aliás, meu amado, de que adianta acordar o gigante? O gigante acordou, fez meia dúzia de burradas, bateu panelas, inventou uma dança meio abaitolada, sem o menor senso do ridículo e depois deitou-se novamente. Deitou-se nos braços de Morfeu e pegou num sono tão profundo, mas tão profundo, que quem o vê, julga que está morto!

Um romeiro milionário que desembarcara de uma prateada Hi-Lux, aproximou-se da estátua de São Francisco, para amarrar cinco dúzias de fitas no gradil. Ao chegar viu aquele ajuntamento, presenciou parte da conversa e disse com visível euforia:

- Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça! (Muito embora ele próprio tivesse apenas sede de poder) Felizmente temos um grande justiceiro no Brasil, um paladino impoluto que irá acabar de vez com a corrupção! Fora Lula, fora Dilma, fora PT. O braço da Justiça é mais pesado. Aliás, os três poderes unidos, são mais pesados que um tríplex! JUSTIÇA para os corruptos!

Um romeiro maltrapilho, recém-chegado dos cafundós do Piauí, envolto num surrado hábito franciscano e com um enorme chapéu sobre a cabeça, adiantou-se e pediu a palavra.

Todos os presentes fixaram os olhos naquele caminheiro de feições magras e tostadas de sol, e de repente fez-se silêncio. Então o Romeiro da Cruz benzeu-se e disse:

- Vós que falais de Justiça, que clamais por justiça, que bateis panela por justiça, que arengais nas redes sociais por justiça, sabeis o que é JUSTIÇA? Justiça, só a de Deus... Pelo que sei, aquele senador mineiro falou em matar um parente, recebeu várias malas de dinheiro e retornou livremente ao seu mandato, como se não tivesse acontecido. Há provas concretas, gravações. MAS ESTÁ SOLTO e no SENADO.

Frei Mané Mago de Jurema, comovido com a sabedoria daquele homem simples, um velho peregrino acostumado a palmilhar o chão sagrado do Nordeste, andarilho como ele, completou:

ROCHA LURI-LURI recebeu uma mala de dinheiro para o TEMER, correu com ela para cima e para baixo, e está SOLTO. Boi solto se lambe todo, reza um dito popular. A JUSTIÇA FOI FEITA? GEDDEL VIEIRA enriqueceu espantosamente às custas de roubalheira e está solto. São tantos os exemplos, que perderíamos tardes e noites a comentar.

O velho Romeiro da Cruz não se conteve e gritou:

- Que beleza de JUSTIÇA. Justiça só a Deus, meus amigos, o bom juiz que não erra.
E eu, que a tudo assistira e nada falara, concluí com meus botões... Como dizia o personagem de José Wilker: - É JUSTO, É MUITO JUSTO, É JUSTÍSSIMO!!!

Neste exato momento passou um carro de som, um paredão de buco-buco, anunciando uma festa para logo mais: - Alô, Alô Nação Paneleira! Tá dominado, tá tudo dominado!


Frei Mané Mago recolheu-se aos seus aposentos resmungando:

- As pessoas de bem estão tão acovardadas, tão submissas, que se eu fosse o Lula faria tal e qual o Belchior. Tomaria um chá de sumiço para nunca mais voltar.


Disse isso e bateu a porta do quarto. Fechou-se em copas.


Gigante adormecido, charge de Amarildo