terça-feira, 25 de julho de 2017

PARÁBOLAS MIRABOLANTES - III


Lucas Evangelista, foto de Raymundo Cândido (Ribeira do Poti)

TERCEIRO DEBATE DE FREI MANÉ MAGO COM OS COXINHAS E SEU ENCONTRO COM O POETA K. LUNGUINHA DA CALAMBANHA

(Escrito e cantado por Frei João Lucas Evangelista)


Ser Coxinha é muito bom
Ser um PATO é muito mais;
Quem nos fez pagar o PATO
Não pode viver em paz...

Faz vergonha até contar
O que foi que aconteceu
Coxinha fez a burrada
Quem paga o PATO sou eu
Age como um fariseu
Cheio de hipocrisia
Bem que vovó já dizia:
- CALA A BOCA, ZEBEDEU!



Ver, ouvir e calar, nos diz o velho provérbio oriental, mas há coisas que não podem ser esquecidas, mas registradas, para proveito e exemplo das gerações vindouras. 
Aconteceu que Frei Mané Mago de Jurema, havendo deixado a povoação de Cafarna I rumo a Cafarna II, passou pela taberna de seu amigo Natanael e não vendo ninguém no balcão para atendê-lo reclamou:
- Homem de pôr café... Mulheres de pôr café! Ponham café na minha xícara, por favor.
Natanael aproximou-se e saudou Frei Mané Mago, que andava na companhia de Frei Cancão de Fogo do Amor Divino e de Frei Pedro Malazartes de Bozanno. Quando já se preparavam para seguir jornada, eis que chega uma turba de escribas, coxinhas e fariseus para importuná-lo com uma saraivada de perguntas bestas. Todos se dizendo paladinos da ética e da moral e legítimos defensores do combate à corrupção.


Montagem a partir de charge de Vitor T.

Ora, todos sabem que, na prática, não é bem assim que as coisas funcionam. Mesmo nos fazendo pagar o pato por um alto preço e desiludidos com o seu mestre D. Abominável das Neves, continuam teimosos e renitentes, procurando o cisco no olho dos outros e esquecendo completamente da trave que estorva a sua própria retina. Espalhar boatos de toda sorte tem sido a sua mais “sublime” missão, embora se auto proclamem os mais zelosos defensores da ética.

Um deles adiantou-se, fitou o Frei Mané Mago dos pés a cabeça e lhe disse, de modo capcioso e insolente:

- Mestre, o que o Senhor tem a nos dizer sobre a Ferrari de Ouro do Lulinha?

Percebendo o tom irônico e malicioso daquela pergunta, Frei Mané Mago, fingindo não ouvi-lo, continuou a tomar a sua xícara de café, ao mesmo tempo em que pedia um cálice da  branquinha para retemperar as forças e acender as lamparinas do juízo.
O fariseu não se conteve e repetiu a pergunta:

- E então, mestre? Será mesmo do Lulinha a tal Ferrari de Ouro?


O mestre o repreendeu deste modo... Ao terminar de ingerir a sua xícara de café e o pedaço de pão que lhe fora oferecido, tomou o cálice em suas mãos e repetiu as palavras do sábio filósofo mexicano Frederico Bardón de la Regueira, mais conhecido como Kiko:

­- Oh, cálice... Cale-se, cale-se! Você me deixa loooouuucooooo! Em vez de preocupar-vos com a Ferrari de Ouro do Lulinha, preocupai-vos com as FERRADURAS que ornamentam os vossos cascos. Preocupai-vos com o ferro dos grilhões que vos oprimem! Em verdade vos digo: Além de ser dono da FRIBOI, Lulinha é também dono da tal Ferrari de Ouro, da corsa dos chifres de bronze (de que nos fala a mitologia grega), da Galinha dos Ovos de Ouro da fábula de Esopo, do Minotauro, do Pégaso, do Dragão de São Jorge e do trenó do Papai Noel... 


E, por fim, concluiu deste modo:
- Que diferença fará para ti, pobre criatura, saber a quem pertence a tal Ferrari de Ouro ou a carruagem de fogo que arrebatou o profeta Elias para os céus, às margens do Rio Jordão? Achas tu, que como Eliseu, és digno de receberes o manto sagrado do Profeta?




Frei Mané Mago, de modo sereno e impassível, já empunhava o seu cajado para prosseguir viagem, quando chegou à taberna o famoso menestrel K. Lunguinha, da Vila da Calambanha, cantarolando esta canção que nos lembra os bons tempos do finado Noel Rosa, seu ilustre antepassado:

Quando eu morrer
Não quero choro e nem vela
Quero um PATINHO AMARELO
Gravado com o nome “OTÁRIO”
Os “enemigos”
Os que falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram
Uma pessoa tão bruta assim...

Quando eu morrer
Não quero choro e nem vela
Quero um PATINHO AMARELO
Gravado com o nome “OTÁRIO”
Se existe alma
Se há outra encarnação
Eu queria que os PATINHOS
Reencarnassem num “Gangão”.


* * *